Mudanças climáticas e seus efeitos sobre a água

Por Maurício Novaes Souza*
Publicado em: INFORMACIRP Agosto de 2007

No início desse mês de outubro, novos dados sobre o agravamento do aquecimento global foram publicados. Em todo o mundo, acentuou-se a perplexidade diante de tal realidade. Diante desse quadro de mudanças climáticas, o que pode acontecer ao Brasil, e mesmo ao nosso município de Rio Pomba, no que diz respeito à água?
Na tentativa de ampliar o grau de reflexão sobre tal questionamento, deve-se dizer não apenas o que poderá acontecer, mas o que já está acontecendo. As conseqüências das mudanças climáticas são inúmeras e já estão sendo sentidas por todos.
Os jornais nos mostram enchentes, tempestades, chuvas fortes em algumas regiões. Já em outras secas, falta de água potável e perda das lavouras por falta de chuva. Juntem-se a esses fatos catastróficos, o processo de urbanização e a ausência de saneamento básico que transformou os nossos rios, como em nosso município, em verdadeiros esgotos formados por detritos acumulados nas margens e no fundo dos rios, lixo doméstico e industrial provocado pelos efluentes clandestinos e pelas ligações irregulares de esgotos, metais pesados provenientes do uso indiscriminado de agrotóxicos nas lavouras e nas pastagens, além da destruição das matas ciliares, que funcionam como áreas de proteção.
Diante desse cenário, fica uma pergunta: o que poderá acontecer com os recursos hídricos do Brasil? O que tem sido consenso e divulgado por diversos estudos realizados por cientistas de todo o mundo, diz que mesmo o Brasil, que possui boa parte da água doce e potável do planeta, aproximadamente 12%, terá sérios problemas a respeito desse recurso essencial à vida.
Hoje, boa parte das cidades de médio e grande porte já tem problemas com o abastecimento de água. As empresas de saneamento básico, que como a COPASA são sérias, trabalham na busca da eficiência, na eficácia de suas ações, em relação à melhoria de redes de distribuição. Entretanto, ainda temos o problema relacionado ao tratamento dos dejetos.
Na verdade, além da intervenção do poder público, deverá haver maior participação e mobilização de toda a sociedade em prol da conservação dos recursos hídricos. A população que deveria ser a maior interessada, ainda não tem feito a parte que lhe cabe. Muitas pessoas acreditam que a água é um recurso natural infinito que pode ser renovado, ou seja, nunca irá faltar.
Segundo Marçal Rogério Rizzo, economista e professor universitário da UNESP de Presidente Prudente – SP, certo dia, conversando sobre a possível falta de água no mundo, um cidadão lhe disse que não economizava água porque não havia um estímulo financeiro para a economia da mesma. Ele disse que gastava 6 mil litros/mês e pagava por 10 mil litros/mês. Diante disso, achava mais prudente lavar a calçada e regar as plantas todos os dias, para, assim, gastar “seus” 10 mil litros/mês (ele acreditava ter direito de gastar os 10 mil litros no mês, já que pagaria pelos mesmos). Este é o típico pensamento sem nexo e consciência ambiental.
Pensando no futuro e na possibilidade de um “estresse hídrico”, é viável e prudente a conservação das águas que temos por perto. Infelizmente, no Brasil, ainda não há uma política voltada para a conservação dos recursos hídricos de forma simples, como, por exemplo, programas de educação ambiental desenvolvidos nas escolas que sensibilizem as crianças para a redução e otimização do uso da água. O comércio e a indústria também precisam ser melhor orientados.
Atualmente, há discussões sobre a cobrança pelo uso da água, que já acontece na Bacia do Rio Paraíba do Sul e em outras onde esse recurso já se tornou escasso. Porém, nos locais onde a água ainda é farta, essa questão não está sendo discutida como deveria. Será que boa parte da população não estaria sendo omissa a esse respeito?
As mudanças climáticas estão ocorrendo e a água, que é o recurso natural que nos garante a vida, também sofre os efeitos dessas mudanças. Temos que tomar atitudes imediatas visando conservá-la, mesmo que sejam pequenas decisões individuais, e não só esperar do poder público e das empresas do setor as soluções para a resolução do problema.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

QUALIDADE DE SILAGEM DE PLANTA INTEIRA DE MILHO