Saneamento Ambiental e Saúde Pública: iniciativas do CEFET/RP


Por Maurício Novaes Souza*
Publicação original: 15/04/2008 – www.cefetrp.edu.br

O crescimento urbano e industrial nem sempre significa desenvolvimento humano. Particularmente, nos países em industrialização, vem acompanhado de desigualdade de acesso aos itens básicos necessários a uma sobrevivência digna, tais como o acesso à educação, à alimentação e à saúde. Isso ocorre, especialmente, pela ausência do planejamento territorial das áreas a serem ocupadas.
Nos países em desenvolvimento, como o Brasil, a taxa de crescimento anual da população urbana chega aos 3,5%, vindo acompanhada de realidades preocupantes. Uma delas é a formação de cinturões de pobreza, dada à carência de serviços de infra-estrutura e de moradia adequada a um nível mínimo de condições de vida.
Entre os impactos ambientais da urbanização se destacam três que afetam diretamente os ecossistemas aquáticos: a) as derivações de água e a devolução via o esgotamento sanitário sem tratamento do efluente final; b) as impermeabilizações da superfície natural, alterando o regime hidrológico da bacia; e c) as retificações, os alargamentos e os desvios do leito do rio, alterando o regime hidrológico e desprotegendo as margens contra o risco de inundações.
Tais impactos exercem uma demanda importante sobre três serviços básicos: a) o abastecimento de água; b) o esgotamento sanitário; e c) a drenagem urbana. Os objetivos a alcançar seria a eficiência nos três serviços, além do uso eficiente e racional da água e de evitar-se quaisquer formas de degradação dos mananciais, superficiais e subterrâneos.
Daí a grande preocupação com a gestão, posto que é por intermédio da veiculação hídrica que se propagam inúmeras doenças, responsáveis pela morbidade e mortalidade de um grande número de pessoas, principalmente crianças. Com relação ao “lixo”, o crescimento das áreas urbanas não levou em consideração a necessidade de adequação de locais específicos para o seu depósito e tratamento. O Brasil gera diariamente cerca de 110 mil toneladas de lixo, sendo que a maior parte é simplesmente lançada sem qualquer cuidado em depósitos existentes nas periferias das cidades.
Um aspecto relevante a ser considerado, a implantação de programas de reciclagem e compostagem, estimulam o desenvolvimento de uma maior consciência ambiental e dos princípios de cidadania por parte da população. Estudos apontam que as técnicas utilizadas pela compostagem são capazes de reduzir à metade a massa de lixo processada e, num prazo de 60 a 90 dias, levar à obtenção de um composto orgânico para utilização na agricultura sem causar danos ao meio ambiente.
Verifica-se, nos dias atuais, que rios, lagos e mares são o destino final dos esgotos. Somado ao crescimento da população e da atividade industrial e agrícola, a qualidade das águas dos rios e lagos tendem a se deteriorem progressivamente. Dessa forma, investir no saneamento do município melhora a qualidade de vida da população, bem como a proteção ao meio ambiente urbano, além de gerar emprego e renda para a população beneficiada. Combinado com políticas de saúde e habitação, o saneamento ambiental diminui a incidência de doenças e internações hospitalares, e garante o abastecimento e a qualidade da água. Além disso, melhorando a qualidade ambiental, o município se torna atrativo para investimentos externos, podendo inclusive desenvolver sua vocação turística.
Na verdade, existem diversas maneiras de se conciliar meio ambiente com desenvolvimento. Uma das formas de se tentar reduzir a quantidade de resíduos produzidos é combatendo o desperdício, prática que já vem sendo trabalhada na disciplina Educação Ambiental aplicada nos diversos cursos do CEFET-RP. Contudo, quando o resíduo não pode ser reciclado ou aproveitado, uma variedade de tratamentos pode ser desempenhada, de modo a se reduzir o volume e o potencial poluidor destes, minimizando o impacto decorrente de sua disposição final.
Nesse contexto, o objetivo do CEFET-RP, como Instituição de ensino, pesquisa e extensão, é formar profissionais com visão crítica para compreender, organizar, executar e gerenciar todas as atividades relacionadas ao uso racional dos recursos naturais e ao tratamento adequado dos dejetos produzidos pelas diversas atividades humanas, capazes de reverter a situação hoje existente. Para isso, pretende-se implantar um Sistema de Gestão Ambiental (SGA) em todas as atividades dessa Instituição, com o máximo aproveitamento dos efluentes e águas residuárias.
Já existem biodigestores instalados na Agroindústria e na Zootecnia, que em breve serão postos em funcionamento e passarão a receber os dejetos (urina e fezes) e água de lavagem das baias e bebedouros dos suínos e bovinos, bem como as águas residuárias da Agroindústria. O sistema de tratamento dos dejetos de suínos, por meio de lagoas de estabilização, será capaz de gerar lodo biológico proveniente da digestão anaeróbica. Este lodo pode ser utilizado como adubo orgânico para as culturas e o biofertilizante poderá ser usado na adubação das diversas culturas existentes em nossa Instituição, reduzindo o uso de agroquímicos.
Além disso, o biogás que será gerado tem alto poder calorífico - 55% a 70% de metano na sua composição, e poderá ser utilizado nas mais diversas atividades, tais como: aquecimento das unidades de produção de suínos e aves; geração de energia elétrica; e secagem de grãos, entre outras alternativas na substituição de combustível. O projeto está em andamento, por meio de uma parceria com a empresa SANSUY S/A INDÚSTRIA DE PLÁSTICOS, que tem o domínio da tecnologia de biodigestores em PVC, visando atender as necessidades internas e dos produtores rurais da região.
Há de se considerar, ainda, o Projeto de recuperação da nascente que abastece todas as dependências do CEFET-RP, que já se encontra em andamento; e, também, a Usina de Reciclagem e Compostagem. Com a recente entrada de novos técnicos, aprovados no concurso do ano anterior, a referida usina brevemente entrará em funcionamento, beneficiando e reciclando todo o “lixo” produzido por essa Instituição, além de produzir composto para ser utilizado nas diversas áreas de produção.
Finalmente, é indiscutível que o saneamento básico reduz drasticamente a mortalidade infantil e aumenta a expectativa de vida de uma comunidade, sendo este um dos fatores componentes do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de um país. O CEFET-RP, que agora faz parte do Conselho do COPAM e tem por meta o Desenvolvimento Sustentável, tem essa consciência: sabe que o acesso da população à saúde passa, incondicionalmente, pelo binômio abastecimento de água/saneamento básico.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

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