A crise energética e a radiação solar


* Por Maurício Novaes Souza


O mundo vive nova crise energética e um agravamento dos problemas ambientais. O petróleo e o carvão atingiram a maior cotação de toda a história da humanidade. Dessa forma, a exploração intensiva das reservas não renováveis de combustíveis fósseis e os prejuízos ambientais trazidos pelo uso desses recursos energéticos pressupõem um cenário preocupante para esse século. Nesse contexto, assume crucial importância a busca de fontes de energia alternativas, em especial renováveis e não-poluentes, como a solar e a eólica – ainda mais quando se sabe que o Sol é a principal fonte de energia para a superfície da Terra.

O interesse pela utilização da radiação solar como fonte de energia alternativa cresceu muito nas duas últimas décadas, por razões econômicas, principalmente após a crise do petróleo de 1973, quando os estudos nessa área receberam grande impulso nos Estados Unidos e na Europa. Hoje, esse interesse está adquirindo maior dimensão, abrangendo não só o aproveitamento dessa radiação como fonte de energia limpa e renovável, mas também o conhecimento do clima e de suas mudanças.

Muitos países, inclusive o Brasil, já buscam nas energias solar e eólica opções para o problema energético, cuja demanda mundial depende quase totalmente (cerca de 80%) dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão mineral e gás natural), ou seja, recursos esgotáveis. Além disso, o uso de tais combustíveis está associado a riscos ambientais ainda não completamente avaliados.

Dessa forma, o aproveitamento da energia solar é um projeto viável, tanto em termos técnicos quanto econômicos. O elevado custo, principal obstáculo para sua utilização em escala comercial, já está sendo vencido. Especialistas nessa tecnologia prevêem uma queda de até seis vezes no preço do quilowatt (kW) obtido a partir de energia solar até o ano 2015. Contudo, embora seja inesgotável e não ofereça riscos ambientais, essa energia ainda é aproveitada de modo muito incipiente no país para secagem de alimentos, na indústria do sal e no aquecimento de água.

Do total de energia elétrica gerada no Brasil, 95% são de origem hidráulica, mas o potencial desse tipo de fonte, de acordo com a Eletrobrás, poderá se esgotar no ano 2015, se mantido um ritmo regular de crescimento econômico. Por suas características tropicais, o Brasil tem, em quase todo o território e durante o ano inteiro, grande potencial de oferta de energia solar - no entanto, muito pouco é feito para aproveitar essa energia.

Ø Radiação solar e mudanças climáticas
Um programa realista de substituição de combustíveis fósseis por energia solar poderia, de imediato, reduzir em 800 a 900 milhões de toneladas anuais a emissão de dióxido de carbono (CO2) – principal gás de efeito estufa - para a atmosfera. Essa quantidade representa de 15% a 17% do total de CO2 emitido atualmente.

A radiação solar é a principal força motriz do clima na Terra. A atmosfera pode ser vista como uma máquina térmica em que a fonte de calor está nos trópicos e o sorvedouro nos pólos. Como toda máquina, a atmosfera deve trabalhar a uma temperatura estável. Isso de fato acontece: a temperatura média global situa-se em torno de 15°C, felizmente para a maioria dos seres vivos.

Os dados disponíveis de radiação solar são muito limitados para o Brasil. A maioria refere-se a médias climatológicas, onde é fornecido o número de horas de brilhância do Sol, ou insolação, e não a energia incidente. No que concerne a medidas diretas da radiação, a situação é lamentável. Até alguns anos atrás, a maior rede solarimétrica nacional era mantida pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), vinculado ao Ministério da Agricultura, com 24 piranômetros, aparelhos que medem diretamente a energia radiante por m2 de superfície horizontal. Hoje, em função da ausência de investimento no setor, essa rede está fragmentada e atua de forma insuficiente.

Ø Enfrentar os desafios
As expectativas energéticas para o próximo século apontam na direção das fontes renováveis, como as energias do Sol e dos ventos. Estamos hoje saldando uma dívida com a natureza pelo emprego indiscriminado dos combustíveis fósseis. Vivemos o drama dos pólos industriais, com sua necessidade crescente de energia, e dos grandes centros urbanos, envoltos pela degradante poluição atmosférica, que reduz a já baixa qualidade de vida.

Constatamos, preocupados, que algumas alterações de grande escala observadas na atmosfera já não são apenas especulações ou previsões científicas, mas fatos reais, como a diminuição da camada de ozônio na estratosfera e o efeito estufa. A contrapartida é uma maior parcela de responsabilidade quanto à preservação do meio ambiente. Isso significa acompanhar os sinais de vida no planeta, o que inclui o monitoramento da radiação solar - principal fonte de energia para o sistema climático e para a própria vida - e a procura de formas alternativas de energia, capazes de melhor harmonizar o homem com seu meio ambiente.

A International Solar Energy Society (ISES), sediada em Freiburg (Alemanha), promove há alguns anos o programa The comeback of solar energy ('O retorno da energia solar'). A iniciativa baseia-se em um cenário que considera os progressos tecnológicos obtidos na última década e também as expectativas positivas de desenvolvimento do setor. No momento em que as sociedades desenvolvidas pressionam crescentemente seus governos a despoluir o meio ambiente, essa 'volta' da energia solar foi bem recebida, resultando em vertiginoso aumento de investimentos em pesquisa e desenvolvimento na área, principalmente na Alemanha, Japão e Austrália.

No Brasil, um marco importante e oportuno para uma discussão séria sobre o tema, em nível de política nacional, foi a criação do Comitê Permanente das Energias Solar, Eólica e Biomassa, vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia. Tal debate poderá levar à formulação de uma política oficial de longo prazo para o setor. Outras iniciativas mostram que o país está caminhando na direção certa para enfrentar os desafios desse novo século.

No que diz respeito à radiação solar, sem dúvida resta muito a ser feito no país, desde o desenvolvimento de equipamentos com matéria-prima e soluções tecnológicas nacionais até o estudo de novas aplicações para a eletricidade e o calor gerados a partir da luz do Sol. Qualquer estudo de viabilização de fontes de energia alternativas e 'ecologicamente corretas' serão bem-vindas e esse pode ser o ponto de partida para o futuro.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e da SEMAD - Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.


Publicado em Informativo Ambiental - Ano I. Ubá, maio de 2008 - Edição 02. Informativo do Instituto Ambiental Sol do Campo.

Comentários

Ivam disse…
Existe uma grande busca das fontes de energia alternativas, em especial renováveis e não-poluentes, como a solar e a eólica. O interesse pela utilização da radiação solar, como fonte de energia alternativa cresceu apenas nos ultimos anos, por razões políticas e econômicas, principalmente após a crise do petróleo. Hoje em dia esse interesse está cada vez maior, não só pelo aproveitamento dessa radiação como fonte de energia limpa e renovável, mas também o conhecimento e os efeitos das mudanças climáticas.
Mirianne disse…
Com os problemas atuais trazidos pelos combustíveis fósseis e o aumento crescente do uso da energia (um brasileiro na atualidade consome a energia por dia, equivalente a um barril de petróleo e um norte-americano consome 17 Bioenergia, Mamona e o Biodiesel no Brasil e no Mundo: Atualidades e 25 vezes mais), há a grande e urgente necessidade de se ter com uma nova malha energética no nosso país, que depende muito ainda do combustível fóssil, o chamado ouro negro, quase a metade da energia consumida aqui no Brasil, além do desperdício, que a nível mundial é de cerca de 20%.
Tuane disse…
A crise energética no planeta está em alta nos últimos tempos.Só se ouve falar em efeito estufa,aquecimento global e tantas outras mudanças climáticas decorrentes de algumas ações humanas.Nada melhor do que uma tentativa de reverter esse quadro tão sério, como a busca de energias alternativas,no qual visa um quadro de melhoramento social.As energias eólica e solar estão aí para isso.Tentando mostrar que é possível ver uma situação tão drástica se resolver da melhor forma possível.
Cristina disse…
A crise energética é um dos grandes problemas atuais...
É certo que o Brasil poderia aproveitar seu grande potencial hídrico, mas é um país equatorial e recebe grande incidência solar, podendo utilizar a energia solar que é um recurso renovável, muito menos perigoso, não oferece nenhum risco à natureza, apesar do seu custo de instalação e manutenção serem muito alto.
erikasequetto disse…
Devido o uso descontrolado dos recursos não renováveis para a obtenção de energia, o mundo vive uma crise energética, e a solução para esse problema é mais simples do que parece, afinal, existem recursos renováveis como o sol. Mas para isso, é necessário investimentos em pesquisas, para que a energia renovável seja viável economicamente para que toda a população, principalmente a de renda baixa.
Guim Andrade disse…
A solução dessa crise é uma mudança drástica de atitude, pois o que ja está caótico pode virar insuportável, em qustão da utilização da energia solar Tanto em termos técnicos quanto econômicos, é um projeto viável. O principal obstáculo, que é o custo elevado, já está vencido. A partir da energia solar, os especialistas prevêem uma queda no preço do (kW). Embora esse recurso é inesgotável e não oferece riscos ambientais, e ela ainda é aproveitada para várias outras atividades. Com a energia eólica, pode-se criar 1,7 milhões de novos empregos e reduzir a emissão global de dióxido de carbono na atmosfera em mais de 10 bilhões de toneladas.

By Tiago Andrade
Daiana disse…
Com a crise energética e o agravamento dos problemas ambientais.É preciso buscar nas fontes de energia renováveis e não poluentes a solução para melhorar a harmonia entre o homem e o meio ambiente.
Meire disse…
Um dos principais problemas enfrentados pelo mundo atual é o desiquilíbrio entre o alto consumo de energia e os números cada vez menores de produção. No Brasil, a energia produzida nas hidrelétricas não está se mostrando suficiente para cobrir as necessidades da população, obrigando ao desenvolvimento de processos alternativos como a energia nuclear e eólica.
Robertinha disse…
O mundo vive um momento que se não mudarmos nas atitudes e processos de vida ele vai piorar ainda mais.A energia solar,como a eólica e até a energia que é usada apartir do metano,é uma das formas de melhorar o planeta e de não deixar chegar ao colapso.
Amanda Lopes disse…
Atualmente o conceito que a sociedade tem sobre energia é, em geral, extremamente superficial, pois ele restringe-se principalmente àqueles tipos de energias que estão relacionados ao dia-a-dia de cada um, caso da energia elétrica que ilumina os ambientes ou a energia térmica que aque
Sem dúvida as fontes de enrgias renováveis são a melhor opção para a melhoria e qualidade do meio ambiente.Inclusive a radiação solar tem sido grandemente utilizada para suprir gastos com as fontes de energia convencionais.

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