AGRONEGÓCIO: exportação e transposição de água virtual



*Maurício Novaes Souza
**Maria de Fátima Vieira Aguiar

A população deve refletir quando a mídia divulga que a “escassez de água potável” se deve ao fato da necessidade do aumento da produção de alimentos para abastecer o crescente mercado mundial ou que a população menos favorecida é a responsável pelo desperdício e degradação do recurso hídrico. É certo que o Brasil é detentor de grandes bacias hidrográficas, mas como suas águas vêm sendo utilizadas?
A inconsciência social é externalizada pelos cidadãos à medida que, privados de seus direitos, apesar de constar na Constituição de 1988, em seu artigo quinto, são excluídos de benefícios que deveriam ser partilhados. Este fato se deve em conseqüência de uma política oligárquica, onde lhes são apresentadas meias-verdades. Sendo assim, homem não se reconhece mais parte da natureza, nem como produtor, mas como uma máquina. Torna-se difícil identificar a origem da degradação, à medida que o homem sobre pressão, persuasão e violência das mais variadas formas, não se identifica como parte da natureza.
A água é um recurso renovável graças ao ciclo hidrológico, ou seja, a lâmina hídrica evapora com o calor do sol, condensa, e ao entrar em contato com as massas de ar quente e com as massas de ar frio, sofrem um choque térmico e precipita em forma de chuva, granizo ou neve. A água é insubstituível, e sua eficiência pode ser melhorada para suprir as necessidades essenciais de todos os seres, animais e vegetais. Ela representa a vida, portanto, podemos nos considerar parte do ciclo hidrológico a partir do nosso sistema de transpiração corpóreo. Segundo GONÇALVES (2004), o ser humano é constituído de 70% de água, que permite o equilíbrio corpóreo.
No Brasil, apesar de encontrar uma porcentagem de água favorável em relação ao restante do mundo (12%, segundo ALMEIDA & ROGOLIN, 2002), a distribuição do recurso hídrico em nosso território não é regular. Segundo MARENGO (Ação Ambiental, 2001), existem regiões, como o nordeste semi-árido brasileiro, onde a precipitação acumulada não ultrapassa a 500 mm/ano, levando a inviabilidade da produção de forma constante. Na costa leste, é superior a 1.500 mm/ano. Na região sudeste e centro-oeste, devido sua localização, apresenta precipitação média em torno de 1.500 e 2.000 mm/ano.
No norte de Minas Gerais a escassez de chuva ocorre durante os meses de junho, julho e agosto. A precipitação em grande parte do Brasil central é de apenas 30 mm no trimestre mais seco. No litoral norte do Estado de São Paulo a precipitação é da ordem de 3.500 a 4.000 mm/ano. Nas regiões onde o recurso hídrico se faz presente de forma abundante, ou mesmo daquelas onde se utiliza a técnica de irrigação, permite uma produção de monocultura voltada para exportação. O Brasil atualmente vem produzindo em grande escala.
O agronegócio estimula a produção de alimentos, mas defronta com a questão ambiental ao transformar a água, um recurso vital, em mercadoria “virtual”. A água é um recurso insubstituível em todos os processos produtivos. Mas manter o volume e a potabilidade das águas superficiais é necessário, para atender a população, principalmente a de baixo poder aquisitivo. As águas superficiais atendem com mais eficiência a maior parte da população; portanto, conservar e distribuir os recursos hídricos de forma consciente e responsável deve ser uma prioridade. A população, de algumas regiões menos favorecida economicamente, deve receber em casa água saudável e gratuita. Faz-se necessário evitar utilizar as águas subterrâneas, que já estão sendo contaminadas por produtos utilizados nos processos produtivos, principalmente onde a economia da região está voltada ao agronegócio exportador.
O Brasil hoje é um dos maiores produtores de grãos, carnes, produtos agroflorestais e alguns produtos industrializados. Esses produtos necessitam no seu processo produtivo de uma grande quantidade água, por isto a chamada “água virtual”, que embora não apareça no seu produto final, demandou um elevado volume de água. Vários processos produtivos, tais como: produção de móveis, refrigerantes e químicos, utiliza-se para manter o ciclo de vida dos maquinários, a água de melhor qualidade, enquanto é oferecido à população, o recurso hídrico de pouca qualidade. Utilizar de técnicas mais adequadas, com intuito de reduzir a utilização da água no processo produtivo, principalmente para a produção de alimentos, é uma meta importante a ser alcançada. As políticas públicas deverão priorizar o sócio-ambiental de forma intensiva e continuada em todos os setores governamentais.
De acordo com René Dumont, agrônomo e sociólogo francês (LUCCI, 2003), “enquanto os países desenvolvidos aumentaram sua produção, reduzindo as superfícies cultivadas, os países pobres aumentaram ainda mais suas superfícies de cultivo que seus rendimentos”. Ocupa-se um espaço que poderia ser destinado a preservação de florestas ampliando o sistema natural de evapotranspiração – processo de evaporação e transpiração do vegetal para formar nuvens e umidade no ar, e conseqüentemente manter o ciclo hidrológico. Aliado a demanda da água para produção, vem se observando a redução de precipitação, tendo como conseqüência o nível dos lençóis freáticos e aqüíferos rebaixados.
No Brasil, o avanço do agronegócio, em chapadas extensas e planas do Planalto Central, onde a vegetação de cerrado predomina e a precipitação é rara, se não fosse à utilização de técnicas desenvolvidas para captação de água em grandes profundidades, inviabilizaria a agricultura nessa região. Esta região, cujas bacias hidrográficas possuem caudal significativo, a utilização destas águas pela prática da irrigação, e principalmente com o uso de pivôs centrais que consomem elevado volume de água, rebaixa o lençol freático, fazendo secar os rios, lagos e pântanos. GONÇALVES (2004, in GEO 3, 2002), afirma que “20% dos solos irrigados no mundo estão hoje salinizados, assim, impraticáveis para a agricultura”. Em Madras, na Índia, a captação de águas subterrâneas levou um rebaixamento de tal ordem do lençol freático que as águas salgadas avançaram pelo subsolo cerca de dez quilômetros continente adentro, trazendo sérios problemas de abastecimento.
Segundo a ONU, países considerados emergentes como o Brasil, utilizam da agricultura como geradora de divisas, estimulando o desenvolvimento tecnológico. Segundo GONÇALVES (2004), os maiores contaminadores dos rios são as indústrias de alta tecnologia e a agricultura industrial; os sistemas de agricultura irrigada consomem entre 65% e 70% da água, principalmente para produzir alimentos destinados à exportação. Para atender a esta produção, “nos últimos cinqüenta anos, enquanto a produção aumentou três vezes, o uso de fertilizantes foi multiplicado por catorze vezes...” De 20 a 25% da água disponível são dedicados à produção de chips de silício de alta tecnologia, e somente 10% da água são dirigidos para o uso doméstico.
Na verdade, a escassez da água pode ser explicada pela necessidade de se obter alimentos durante o processo produtivo na agricultura e na indústria para atender a economia mundial e; não, exclusivamente, devido ao crescimento populacional, como sugeriu a teoria malthusiana. Portanto, há de se considerar, que a água circula não só nos rios, lagos, mares e ar, mas também em forma de mercadorias, entendendo, desta forma, que o desequilíbrio hidrológico é impulsionado pela lógica da economia de mercado.
Dessa forma, a escassez de água vem se agravando para manter o mercado agroexportador que comercializa a água de forma “virtual”, além de contaminar nossas bacias com agrotóxicos utilizados para o aumento da produção. Apesar de a agroindústria gerar divisas e superávit na balança comercial brasileira, desencadeou uma série de impactos ambientais negativos, tais como: a escassez de recursos hídricos em regiões de baixa pluviosidade; salinização do solo em regiões de vegetação de cerrado; desmatamento de áreas protegidas; empobrecimento do solo; contaminação dos solos e água por agrotóxico; assoreamento dos rios; alteração da temperatura local e criando microclimas capazes de interferirem no clima mundial e desencadear processos de desertificação.
A água é a principal riqueza, insubstituível em qualquer processo produtivo. O Brasil possui uma legislação moderna e rígida com relação aos recursos naturais, principalmente o hídrico. Entretanto, quando se analisa a relação custo benefício do agronegócio, verifica-se que esta não está agregando o valor real ao produto final, posto não considerar a utilização da água em suas etapas de produção. Uma nova postura deve ser adotada em relação à utilização dos recursos naturais, principalmente para a produção e comercialização de alimentos voltados à exportação, para que os países subdesenvolvidos possam continuar a exportar de forma sustentável.
Publicado originalemente em: Informativo do Instituto Ambiental Sol do Campo, agosto de 2008.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Ciências Florestais/Recuperação de Áreas Degradadas e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela UFV. É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É consultor do IBAMA e conselheiro do COPAM da Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

**Licenciada em Geografia, Especialista em Educação-concentração em Geografia e Gestão Ambiental. Técnica em Meio Ambiente/ Professora de Ensino Fundamental e Médio do Estado de Minas Gerais. Professora de Educação Ambiental e Geografia Econômica. Vice - presidente do Instituto Ambiental Sol do Campo. E-mail: fatima@soldocampo.com.

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