Exportação: processo de transposição da água virtual como meio de geração de divisas.


*Maurício Novaes Souza

**Maria de Fátima Vieira Aguiar

RESUMO
A falta de informação sobre o processo de produção que envolve a água virtual é o fundamento primordial onde se questiona o apelo à exportação, na qual o objetivo é a geração de divisas. O custo-benefício será refletido dentro da pesquisa, alertando ao leitor sobre o que realmente significa a escassez do recurso água. O processo no qual ocorre o ciclo hidrológico para manutenção da água deverá ser observado dentro de um contexto que envolverá a conscientização para a necessidade do reflorestamento, da conservação das nascentes e do conhecimento do processo de evapotranspiração das florestas. Constatamos que a sociedade de um modo geral, está sendo induzida a considerar-se responsável pela escassez da água, pelo mau uso e descarte de forma incorreta, o que não procede. O homem não se reconhece mais parte da natureza, nem como produtor e sim como uma máquina. Adota-se uma política ideológica onde a intenção é camuflar a verdadeira finalidade do mundo capitalista. Há falta de políticas públicas voltadas para o saneamento básico, e a distribuição dos recursos hídricos; e o manejo com técnicas adequadas oferecidas pelos órgãos competentes para o setor agrosilvopastoril em pequenas propriedades de forma sustentável. Também se irá refletir como o agronegócio está interferindo sobre os recursos hídricos; e de que forma o sistema econômico incentiva cada vez mais a exportação de alimentos dos países emergentes para os desenvolvidos, questionando suas deficiências em relação à água. Nota-se que a teoria malthusiana revela que o aumento da população influencia no processo de produção de alimentos, porém os dados estatísticos não confirmam a teoria. Verificar-se-á o caminho percorrido pelos recursos hídricos de forma visual ou virtual, e sua distribuição pelo território brasileiro e no mundo. Pretende-se levar à reflexão que as águas superficiais atendem com mais eficiência a maior parte da população, e que conservar e distribuir os recursos hídricos de forma consciente e responsável é uma prioridade. A população deveria receber em casa água saudável e gratuita. Faz-se necessário evitar utilizar as águas subterrâneas, que já estão sendo contaminadas por produtos utilizados nos processos produtivos.

Palavras chave: Água Virtual, agroindústria, agronegócio, escassez, ciclo hidrológico.


1. Introdução

A divulgação na mídia que a escassez de água potável se deve ao fato do aumento da produção de alimentos para abastecer a população mundial, não se justifica. Nem que a população menos favorecida é a responsável pela degradação do recurso hídrico. A inconsciência social é externalizada pelos cidadãos à medida que privados de seus direitos, apesar de constar na Constituição de 1988, em seu artigo quinto, são excluídos dos direitos materiais que deveriam ser partilhados. Este fato se deve em conseqüência de uma política oligárquica, onde lhes é apresentado meias-verdades. A canadense Maude Barlow, declarou que a cobrança da água não resolve o problema, mas a sua fiscalização quanto a contaminação, o que leva a sua escassez. Sua privatização seria contra os direitos naturais do “homem”.
A teoria malthusiana também não pode explicar este fato, à medida que a população aumentou três vezes, enquanto a produção de alimentos aumentou quatorze vezes. Pesquisas apontam que entre 1900 e 1997, o consumo de água cresceu 10 vezes. Em 1940 o consumo médio por pessoa, de 400 m3/ano passou em 1990 para 800 m3/ano, incluindo o setor produtivo. Estima-se que 12 mil km3 de água estejam poluídos em todo mundo e que esse número até 2050 chegará a 18mil km3. Se gasta para tratamento do recurso hídrico, e se perde em tratamento, tubulações. Pesquisadores da coordenação de pós-graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de janeiro revelam que no Brasil são perdidas 47%, ou seja, 6 bilhões de m3 de água tratada por ano. A Europa tem uma perda de 10% do recurso hídrico e em Cingapura 6% da água tratada.
Para tentar uma solução foi aprovada a Lei 9433, que instituiu a Política Nacional dos Recursos Hídricos que defini a água como “um recurso natural limitado, dotado de valor econômico...”. Portanto passível de cobrança, e que possibilita taxar de forma diferenciada a “água virtual”. Neste contexto vale lembrar que o ciclo hidrológico mantém o fluxo constante do recurso hídrico no planeta, mas para essa constância necessita-se de alguns cuidados, como a proteção do solo e preservação de áreas de nascentes e investimentos em saneamento básico.
Duas grandes tendências se discutem no mundo. Entre as esferas oficiais, atribuem-se o problema a má utilização e seu gerenciamento econômico. A outra, defendida por ONGs e acadêmicos, é a destruição da biodiversidade. Concluindo que as causas se complementam, portanto, o fato é que as políticas governamentais estão voltadas para o econômico, ficando claro que a responsabilidade maior serem das decisões governamentais.
O sistema econômico capitalista tem transformado os recursos naturais em mercadoria e países do mundo subdesenvolvido e em desenvolvimento atendem a essa lógica de mercado. A deficiência dos países desenvolvidos, principalmente do setor primário, a agricultura e a mineração, que demandam de uma enorme quantidade de recursos hídricos, dependem de países como o Brasil, que possui 12%, de toda água doce do planeta, e se utiliza do mercado exportador como gerador de divisas, estimulando o desenvolvimento tecnológico.
O agronegócio estimula a produção de alimentos, mas defronta com a questão ambiental ao transformar a água, um recurso vital, em mercadoria “virtual”. A água é um recurso insubstituível em todos os processos produtivos. Manter o volume e a potabilidade das águas superficiais é necessário para atender as populações de baixo poder aquisitivo e ao mesmo tempo proteger os aqüíferos que poderão ser contaminados, principalmente onde a economia da região está voltada ao agronegócio exportador.
Conforme VANKRUNKELSVEN (2006), a “Revolução Verde” levou os países desenvolvidos e algumas regiões de países em desenvolvimento a conseguirem produzir de 10 a 50 toneladas de grãos por trabalhador, dependendo da tração animal. Os que possuem apenas ferramentas primárias como é o caso da maioria, sem técnicas atualizadas como: seleção de semente, adubos químicos, etc.., produzem no máximo uma tonelada de grãos por trabalhador. Este mecanismo empobrece e leva a desnutrição os milhares de pequenos agricultores de lugares como o Sudão, Andes ou do Himalaia que dispõem de ferramentas primitivas. Eles produzem uma tonelada de grãos por ano, e descontando as sementes, o valor de US$ 20 ou US$ 30, por 100 quilos de grãos, isto a 50 anos atrás. Dados de 2001 revelam que esses valores chegaram a US$ 10 por 100 quilos de grãos nos países subdesenvolvidos.
Portanto utilizar de técnicas mais adequadas com intuito de reduzir a utilização da água no processo produtivo principalmente para a produção de alimentos é uma meta importante a ser alcançada. As políticas públicas deverão priorizar o sócio-ambiental de forma intensiva e continuada em todos os setores governamentais. Principalmente aquela produção voltada para a exportação. A nova postura em relação ao consumo de alimentos também deverá ser revista. Investir em uma educação que nos levem a novos hábitos alimentares, cujos processos requerem menos demanda de água e que nos trazem mais saúde. Isto demanda tempo, portanto a mudança de comportamento deve ser colocada em prática, com o auxilio de campanhas publicitárias, principalmente nos veículos de comunicações governamentais.

2. O que os olhos não vêm...

O Brasil é o detentor da maior quantidade de água doce do mundo, e mesmo assim estão incutindo na mente da população, divulgando constantemente na mídia, sobre a escassez deste recurso dentro do território brasileiro. A água é insubstituível, sua eficiência pode ser melhorada, devido sua importância para sobrevivência dos seres. Ela representa a vida, portanto podemos nos considerar parte do ciclo hidrológico a partir do nosso sistema de transpiração corpóreo. Tendo o ser humano 70% de água no corpo, este ciclo é constante, favorecendo uma função de equilíbrio do corpo, segundo (GONÇALVES, 2004).
É difícil identificar a origem da degradação, a medida que o homem sobre pressão, persuasão e violência das mais variadas formas, não se identifica como parte da natureza. A água é um recurso renovável graças ao ciclo hidrológico, ou seja, a lâmina hídrica evapora com o calor do sol, condensa e ao se chocar as massas de ar quente e com as massas de ar frio, sofrem um choque térmico e precipita em forma de chuva, granizo e neve. Apesar de encontrar uma porcentagem de água favorável para o Brasil em relação ao resto do mundo, 12% (ALMEIDA & ROGOLIN, 2002), de menos de 1% de toda água do planeta, a distribuição do recurso hídrico em nosso território não é regular.
Segundo CASTRO (2008), o maior rio do mundo, tanto em extensão territorial como em volume de água, é o Rio Amazonas - 6.992 quilômetros de extensão e 140 Km de largura. Segundo levantamento da ANA a Bacia Hidrográfica Amazônica, possui ao equivalente de 44% do território nacional, região norte do país, mas com uma densidade demográfica bastante reduzida. Somente 4,5% da população brasileira. Em outras regiões hídricas como a do Atlântico Nordeste Oriental concentram 12,7 da população em uma área de 3,4% do com a disponibilidade de apenas 0,5% de recursos hídricos.
De acordo com MARENGO (2001), existem regiões como o nordeste semi-árido, no Brasil; onde a precipitação acumulada não ultrapassa a 500 mm/ano, levando a inviabilidade da produção de forma constante. Na costa leste, até a estação chuvosa a acumulação anual é superior a 1.500 mm/ano. A parte norte da região recebe entre 1000 e 1.200 mm/ano. Na região sudeste e centro-oeste devido sua localização, apresentam precipitação média em torno de 1.500 e 2.000 mm/ano. No norte de Minas Gerais a escassez de chuva ocorre durante os meses de Junho, julho e agosto. A precipitação em grande parte do Brasil central é de apenas 30 mm no trimestre mais seco. No litoral norte do Estado de São Paulo a precipitação é da ordem de 3.500 a 4.000 mm/ano. Nas regiões onde o recurso hídrico se faz presente de forma abundante, ou mesmo daquelas onde se utiliza a técnica de irrigação, permite uma produção de monocultura voltada para exportação. O Brasil atualmente vem produzindo em grande escala.
A escassez tão disseminada deste recurso é questionada em nossa mente, devido ao fato do Brasil ser um grande exportador de recursos naturais. O Brasil hoje é um dos maiores produtores de grãos, carnes, agroflorestais e alguns produtos industrializados como móveis. Estes produtos necessitam no seu processo produtivo de uma grande quantidade água, por isto a chamada “água virtual”, que embora não apareça no seu produto final demandou um alto gasto do recuso hídrico. E apesar do Brasil conseguir um superávit na balança comercial, isto não resolve, por exemplo: o problema do polígono da seca no Brasil.
Vários processos produtivos como: produção de: móveis, refrigerantes, químicos, são utilizados, para manter o ciclo de vida dos maquinários, a água de melhor qualidade, enquanto é oferecida a população, água de pouca qualidade. Além deste fato, dificulta-se em determinadas regiões, o acesso da água aos menos favorecidos de nossa população. Portanto reconhece-se que a água está inserida em todos os produtos produzidos seja no processo de produção ou mesmo no produto final, como: o café e soja em grãos, na carne bovina, ou na avicultura.

3. A eficiência da embalagem

A água está sendo exportada do mundo subdesenvolvido para o desenvolvido, ficando este, somente por conta de agregar valor ao produto, colocando-o em uma embalagem, rótulo, e aparatos atrativos. Segundo KLLEIN (2004), é menos trabalhoso e exige menos gastos com: número de empresas, funcionários, impostos, treinamento técnico, especialistas e no próprio processo de produção. Os países com deficiência de recursos hídricos preferem adotar uma política de importação destes produtos que para serem produzidos demandam de uma enorme quantidade de água.
No artigo publicado em: O Estado de SP, 19/5/2006 por Washington Novaes, é citado um levantamento feito por Fred Pearce fundamentado em relatórios da ONU – Organização das Nações Unidas (2002) “...que um quilo de café precisa em toda etapa de produção, deste a matéria prima até o produto final, 20 mil litros de água; da mesma forma calcula-se para um hambúrguer, 11 mil litros de água; uma camiseta de algodão, 7 mil litros de água; um quilo de açúcar, 3 mil litros de água; um litro de leite, 2 mil; um quilo de trigo, mil litros.
Mais recentemente, em artigo publicado em 02 de julho de 2008, no http://www.consciencia.net/ecologia/vegetarianismo.htm, divulgou-se que pesquisadores da UNICAMP, de acordo com informações do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, sobre as exportações e volume de água virtual contida em cada produto, segundo estimativas da Organização das nações Unidas para a agricultura. E que a pesquisa tem como objetivo auxiliar o sistema produtivo em suas metas de diminuir a demanda de água em suas produções.
O Brasil em 2005, segundo pesquisas da ONU, encontrava-se em sétimo lugar do mundo na produção de soja 58%, carne bovina e açúcar, voltada para exportação. Também que a China importa do Brasil 16,1 bilhões de m3 de água em soja, carne bovina e açúcar. Este valor é comparado a quatro vezes o que se gasta diariamente com o saneamento básico da Metrópole do Estado de São Paulo. E esta demanda vem crescendo de 30 bilhões em 1997 para 73,8 bilhões de m3 de água em 2004. Segundo a agência Nacional das águas, 11% destinam-se a produção carne animal, mais do que se destina a população. Serão 193 milhões de cabeças contra 186 milhões de habitantes.
A utilização de áreas irrigadas no Brasil também cresce. Este procedimento técnico está sendo utilizado em torno de 70% de área produtiva. O acréscimo do consumo no país foi de 2,3 milhões de hectares para 3,1 milhões de hectares. Produzir um quilo de soja demanda uma quantidade muito inferior de água, dois mil litros, para quarenta e três mil litros de água na produção de um quilo de carne bovina, em todo seu processo produtivo. Uma pessoa que se alimenta com 250 gramas de arroz e a mesma quantidade de carne bovina, gasta em média 11 mil litros de água. Se a carne fosse de frango, gastaria mil litros de água.
Segundo Christofidis apud CASTRO (2008), até 2015 teremos que reduzir a área de pastagem, mas vem aumentando o número de habitantes na região Amazônica, onde as terras tem preços mais acessíveis e há abundância de recursos hídricos. É importante se pensar desde já na política de cobrança de forma diferenciada para as várias regiões brasileiras segundo suas características e disponibilidades dos recursos naturais, voltados para o agronegócio, principalmente o hídrico, seja águas subterrâneas ou superficiais.
Segundo o MDIC, o Brasil exportou 86,8 bilhões de m3 de água virtual em soja, carne e açúcar em 2005 que se fossem contabilizados, como está sendo no Vale do Paraíba, valorizando em R$ 0,02 por m3, cobrado no Paraíba do Sul, teriam sido arrecadados R$ 1,7 bilhões que poderiam ser destinados a recuperação das bacias do país. A cobrança da água deverá ser criteriosa, pois há dúvidas quanto ela ser um instrumento de gestão. O representante da Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária, Jairo dos Santos de Souza, quer discutir mais o assunto. Ele teme os riscos do agronegócio brasileiro no mercado mundial.
Pesquisas da ONU - Organização das Nações Unidas apontam para a estabilização do crescimento demográfico nos próximos 50 anos, em torno de nove bilhões de pessoas. Que em 2025 haverá mais de três bilhões de pessoas vivendo em regiões de escassez de recurso hídrico. E coloca sendo a América latina detentora de 25% de água superficial.
Conforme VANKRUNKELSVEN (2006), a agricultura da Holanda é cinco vezes mais intensiva do que a da França que possui uma área 15 vezes maior do que a Holanda, mas esta necessita de 5 a 12 vezes de sua área agrícola no exterior para importar ração animal. A Holanda possui uma elevada produção de leite, 10 mil litros por ano de cada vaca, alimentadas por doses concentradas de ração, e a base de soja. O milho nacional e a soja do exterior são indispensáveis a pecuária leiteira moderna. Mas esta receita norte-americana poderá ser substituída por gramíneas-trevo, pois a demanda dos recursos hídricos para este setor produtivo necessitada de mudanças. Os Chineses cultivam algas para suas carpas, mas também criam, pescam e consomem muito peixe, e, portanto um grande consumidor de soja para alimentar aves, suínos, patos e peixes.
E ainda, de acordo com René Dumont, agrônomo e sociólogo francês, in LUCCI, (2003); “enquanto os países desenvolvidos aumentaram sua produção, reduzindo as superfícies cultivadas, os países pobres aumentaram ainda mais suas superfícies de cultivo que seus rendimentos”. Ocupa-se um espaço que poderia ser destinado a preservação de florestas ampliando o sistema natural de evapotranspiração – processo de evaporação e transpiração do vegetal para formar nuvens e umidade no ar, e conseqüentemente manter o ciclo hidrológico Aliado a demanda da água para produção, vem se observando a diminuição de precipitação, portanto o nível dos lençóis freáticos e aqüíferos.

Os cerca de 8 milhões de quilômetros quadrados relativamente contínuos de floresta ombrófila, em grande parte fechada, no Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador,Guianas, Peru, Suriname e Venezuela, com suas 460 toneladas de biomassa por hectare em média, é, em 70%, água e, assim, se constitui num verdadeiro “oceano verde” de cuja evapotranspiração depende o clima, a vida e os povos de extensas áreas da América Central e do Sul, do Caribe e da América do Norte e do mundo inteiro (GONÇALVES, 2004).

No Brasil, o avanço do agronegócio, em chapadas extensas e planas do Planalto Central, onde a vegetação de cerrado predomina e a precipitação é rara, se não fosse a utilização de técnicas desenvolvidas para captação de água em grandes profundidades, inviabilizaria a agricultura na região. Esta região é rica em bacias hidrográficas, mas a utilização desta água pela técnica de pivôs centrais para aspergir água na monocultura, rebaixa o lençol freático, fazendo secar os rios, lagos e pântanos.
GONÇALVES (2004) afirma que: “20% dos solos irrigados no mundo estão hoje salinizados e, assim impraticáveis para a agricultura. Em Madras, na Índia, a captação de águas subterrâneas levou um rebaixamento de tal ordem do lençol freático que as águas salgadas avançaram pelo subsolo cerca de dez quilômetros continente adentro, trazendo sérios problemas de abastecimento. Segundo a ONU, países considerados emergentes como o Brasil, utilizam da agricultura como geradora de divisas, estimulando o desenvolvimento tecnológico. Segundo GONÇALVES (2004), quando se observa a questão da água sobre a ótica da agroindústria, defronta-se na questão ambiental. Será que compensa utilizar a “água virtual” para gerar riqueza, quando o recurso encontra-se escasso em nossa região, como dizem muitos especialistas?
Dados da UNESCO publicados por Paul van Hofwegen em dezembro de 2003, relatam que o mundo movimenta anualmente em torno de 1000 a 1.340 km³ distribuídas da seguinte forma: 67% comercializando produtos agrícolas; 23% na pecuária e 10% relacionados a produção industrial. O Brasil vem exportando cerca de 6 bilhões de litros de água mineral por ano, sexto lugar. Segundo o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), são autorizadas 600 fontes das quais 300 estão em funcionamento e existem mais de 3.500 pedidos de novas lavras. Este fato vem atraindo o mercado internacional. Empresas como a Nestlê e Coco-cola, com faturamento anual acima de US$ 4 bilhões, cada.
Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Confederação Suíça de Igrejas Evangélicas (SEK) e a Comissão Nacional Justiça e Paz da Suíça a divulgar, em 2005, a Declaração Ecumênica sobre a Água como Direito Humano e Bem Público enfatizando a água como "bem fundamental para a vida, que não pode nem deve ser privatizado".
4. A teoria de Malthus não explica a escassez da água

A precipitação e percolação das águas através do solo é que abastece e mantém o fluxo de uma nascente. A manutenção dos cursos d’água tanto superficial como subterrânea, necessita da proteção das nascentes de uma determinada bacia hidrográfica. As nascentes são pontos de fluxos de água que surgem na superfície do terreno formando filetes de água. Conforme VALENTE, (2007), o primeiro a sofrer as conseqüências com a diminuição do armazenamento de água nos lençóis freáticos, são os proprietários de áreas de maior altitude, onde se localizam as nascentes de cabeceira.

Bacias hidrográficas são áreas da superfície terrestre que contribuem para a formação de córregos, riachos, ribeirões e rios. São delimitadas pelos chamados divisores de água e podem ser representadas tanto por pequenas áreas, bacias hidrográficas de um pequeno córrego em uma propriedade agrícola, por exemplo, quanto por grandes áreas, bacias de grandes rios. (DIAS, 2001, p.8)

Segundo BARROS (2007), países como o Brasil lutam contra a poluição das águas. Contudo podemos afirmar que as maiores bacias hidrográficas do mundo, recebem rejeitos químicos e industriais. A mineração é constante, e garimpos derramam mercúrio no maior rio do mundo o Amazonas, em seus afluentes e subafluentes. E os maiores contaminadores dos rios são as indústrias de alta tecnologia e a agricultura industrial. Os sistemas de agricultura irrigada consomem entre 65 e 70% da água, principalmente para produzir alimentos para a exportação. E para atender a esta produção, “nos últimos cinqüenta anos, enquanto a produção aumentou três vezes, o uso de fertilizantes foi multiplicado por catorze vezes ...”. Segundo GONÇALVES (2004), de 20 a 25% da água disponível são dedicados a produção de “chips” de silício de alta tecnologia. Somente 10% da água são dirigidos para o uso doméstico.
De acordo com GONÇALVES (2004), a escassez da água pode ser explicada pela necessidade de se obter alimentos durante o processo produtivo na agricultura da indústria para atender a economia mundial e não, devido ao crescimento populacional como sugere a teoria malthusiana. Segundo ALMEIDA & RIGOLIN, (2002), para Thomas Malthus, a população mundial cresceria em um ritmo rápido, comparado por ele a uma progressão geométrica (1, 2, 4, 8, 16, 32...), e que a produção de alimentos cresceria em um ritmo mais lento, comparado com a progressão aritmética (1, 2, 3, 4, 5... ). Este raciocínio leva a concluir que no futuro a produção de alimentos não atenderia ao número de habitantes.
Estudos divulgados pela ONU apontam que na metade do século XXI a água no Oriente Médio seria suficiente apenas para atender o consumo doméstico. As demais atividades econômicas, como a agricultura e a indústria, dependeriam do reaproveitamento da água de esgoto ou da importação de água de outras regiões do mundo (LUCCI et al., 2003).

Em regiões da África do Norte e no Oriente Médio são as que registram o maior crescimento de importação de alimentos, devido a escassez de água. Na faixa de Gaza, Oriente Médio, cerca de um milhão de palestinos utilizam água dos raros poços potáveis ou rios poluídos por esgoto, além de se encontrarem em constante conflito para obter o recurso hídrico.

5. O caminho das águas

A água circula não só nos rios, lagos e mares, ar, mas em forma de mercadorias tocáveis, entendendo desta forma, o desequilíbrio hidrológico é impulsionado pela lógica da economia de mercado. Uma vez que, para se produzir um quilo de frango consome-se dois mil litros de água. O caminho percorrido para produção de um frango, desde sua criação, abate e transporte, o que fazemos até por avião quando é para exportação ultramarina, estamos exportando energia e água. Algumas regiões que produzem tal produto como é o caso em Santa Catarina, que já apresenta um estresse hídrico, deve-se ter em conta esta problemática. Se multiplicar os milhões de toneladas, os vários grãos produzidos no país, para se calcular a quantidade de água que se exporta, ter-se-á o resultado de quanto, em forma água virtual, está sendo transferida, em forma de alimentos, para outros países. Outro exemplo é a separação do minério de cobre numa jazida.
Constatado por GONÇALVES (2004), que 95% da matéria revolvida é abandonada como rejeito. Este processo de separar minérios raros exige água em enormes proporções, levando-nos a concluir que a nanotecnologia com sua desmaterialização e transmaterialização para ser aplicada exige que o recurso hídrico esteja em toda parte, revolucionando as relações sociais e de poder. O mesmo raciocínio tem-se para os produtos industrializados que estão transferindo para os países ricos desde os anos 70, (energia, minerais, solos, sol e água), em forma de matéria bruta, deixando nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento os rejeitos. Organismos multilaterais vem contribuindo para o processo, podendo ser citado: o FMI – Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, e a OMC – Organização Mundial do Comércio, que através de suas políticas ambíguas, incentivam o agronegócio.

6. Uma nova opção?

Com a escassez da água superficial, cada vez mais surge a necessidade de se saquear os aqüíferos, modificando a estrutura ecológica, causando impacto negativo nos ecossistemas. O aquecimento global, com o aumento da temperatura, está alterando o sistema hídrico que passa a precipitar uma maior quantidade de água potável nos oceanos. As lâminas superficiais estão ao alcance de todos os seres vivos, mas captação de águas subterrâneas, suprem somente aqueles cujo poder econômico lhes provêm, atendendo desta forma as produções de grande escala. A expansão da economia mercantilista, também vem utilizando até áreas impróprias como os manguezais que são considerados berçários naturais de vidas marinhas, áreas riquíssimas de vista das cadeias alimentares, e em áreas de florestas tropicais como a Amazônia.
Segundo PRADO JUNIOR (2000), após o ano de 1940, o aumento das exportações determinaram um reagrupamento da propriedade de tal forma ocasionando a concentração das terras voltadas para lavoura de cana-de-açúcar e pecuária. Portanto a escassez de água vem se agravando com o aumento de produção de alimentos, necessitando cada vez mais dos recursos hídricos para manter o mercado agroexportador que comercializa de forma “virtual”, além de contaminar nossas bacias, com os agrotóxicos utilizados para o aumento da produção.
Conforme VANKRUNKELSVEN (2006), no Brasil a Revolução Verde se traduziu desde 1964 em Revolução da Soja. Todos os subsídios foram destinados a esta produção, até o ano de 1979, e as grandes empresas ficaram a mercê de um sistema heterônomo, ou seja, não só de subsídios, mas também dos insumos. Existe o problema ambiental, onde há utilização de produtos químicos para a produção, e o social, que revela a partir de 1979, que os pequenos produtores foram levados ao êxodo rural. Pessoas venderam suas terras e partiram para as grandes capitais formando as favelas. Em meados da década de 90, os que permaneceram no campo investindo na agricultura familiar, receberam efetivamente em 2003, de 5,7 milhões destinados, somente R$ 4,5 bilhões de incentivos do governo, enquanto para os fazendeiros destinava-se R$ 20 bilhões. Em 2004-2005, enquanto eram previstos R$7 bilhões para agricultura familiar, destinava-se R$ 39,4 bilhões para a agricultura de exportação.
A agricultura familiar é responsável por 40% de toda a produção agrícola do Brasil e por 70% dos alimentos básicos de toda a população brasileira. Portanto dos 180 milhões de brasileiros passam fome. Adotar a dieta vegetariana seria uma opção visto que se consome 4000 litros de água virtual adotando a dieta onívora e para a vegetariana em torno de 1.500 litros de água. Segundo pesquisadores da UNICAMP, consumir produtos como: milho e batata, que necessita de menos água trás sustentabilidade ao setor alimentício. E ainda, uma área destinada a produção d 80 toneladas de batatas, 60, de cenouras, 100 de tomates, consegue produzir apenas ½ tonelada de carne bovina. Um acre para 4 mil m2. Segundo pesquisas da FAO, a previsão para a produção de carne é de dobraras 229 milhões de toneladas de 1999/2001 para 465 toneladas de carne e o leite de 580 milhões de toneladas para 1043 em 2050, caso não se adote outros costumes alimentares.

7. Abordagem Metodológica

O estudo sobre o tema “Água Virtual”, teve como base metodológica uma análise bibliografia em literaturas de autores renomados, já explorados, e outras consultas, que nos deram embasamento como: jornais, revistas, vídeos, programas televisivos sobre a questão ambiental, observação de plantações, internet. Foram realizadas pesquisas em obras clássicas citadas na referência bibliográfica, e técnica de observação. O processo de seleção de novas obras foi direcionado à leitura onde identificamos vários pensamentos e propostas mitigadoras das ações.
Durante todo segundo semestre de 2007 e o primeiro semestre de 2008, foi feito um estudo sobre as bibliografias abordadas, destacando as idéias centrais dos textos para uma análise mais aprofundada das características da “água virtual”. Utilizando-se do método descritivo, estabelecendo-se as relações entre fenômenos variáveis, e as características dos mesmos que, após as observações, identificamos os fatores que vieram contribuir para que os fatos ocorressem.
Pode-se relatar de forma ampla o pensamento e definição de conceitos sobre os quais o recurso natural água, é utilizado no processo produtivo, e que apesar de ser contabilizado no produto final, sua presença não está transparente para o consumidor. O modelo conceitual operativo explicativo foi o mais utilizado na pesquisa, pois trabalha a partir de bibliografias que são fontes já elaboradas: livros, artigos científicos, publicações periódicas, que tem como vantagem cobrir uma vasta área de conhecimentos que nunca alcançaria em outras técnicas.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

As políticas públicas têm influenciado no processo produtivo para a exportação, conduzindo a uma prática somente visando à lucratividade, sem a preocupação com o sócio-ambiental. Após a década de 1970 este mecanismo se tornou cada vez mais agressor no que diz respeito ao meio ambiente. A população de menor poder econômico, está sendo responsabilizada pela escassez e poluição dos recursos hídricos, mas a falta de políticas públicas na maioria das cidades brasileiras é que vem acarretando a gravidade do setor hídrico. Apesar da agroindústria, gerar divisas com transferência de tecnologia, favorecendo um superávit na balança comercial brasileira, desencadeou uma série de impactos negativos levando a um estresse no meio ambiente como: a - escassez de recursos hídricos em regiões de baixa pluviosidade; b - salinização do solo em regiões de vegetação de cerrado; c - desmatamento de áreas protegidas; d - empobrecimento do solo; e - contaminação dos solos e água por agrotóxico; f - assoreamento dos rios; g - alteração da temperatura criando micro clima local com interferência global; h – desertificação; i- empobrecimento da população; j- diminuição da qualidade de vida.
A água é a principal riqueza, insubstituível em qualquer processo produtivo, e o Brasil se coloca de forma favorável em relação aos recursos naturais, principalmente o hídrico. O custo benefício do agronegócio, não está agregando o valor real ao produto final, levando em consideração a utilização da água durante as etapas de produção. Os países desenvolvidos que possuem déficit de recursos hídricos importam principalmente, produtos do primeiro setor dos países subdesenvolvidos. Para que isto ocorra de uma forma sustentável, é preciso utilizar técnicas apropriadas evitando o estresse nos ecossistemas. Além de agregar mais valor ao produto exportado, parte deste recurso deveria ser investida no sócio-ambiental. Também de adotar novos costumes alimentares, mais saudáveis, que contribuirão para melhorar a saúde e a qualidade de vida.
Práticas mais adequadas no sistema produtivo podem ser utilizadas, mesmo para a agroindústria como: a - substituição dos pivôs centrais no processo de irrigação por gotejamento; b - Manejo consorciado com florestas e culturas diferenciadas mesmo sendo para exportação; c - utilização de áreas que se encontram sem vegetação arbórea; d - recuperação e proteção de nascentes de cabeceira; e - o reaproveitamento após tratamento do recurso hídrico no segundo setor; e- educação ambiental para o setor agropecuário; f- investimentos em projetos para áreas que utilizam processo de irrigação; g- adoção de cultivo que necessitam menos recursos hídricos; h- cobrança de taxa referente a utilização da água para o setor do agronegócio; i- investimentos no segmento socioambiental através do processo de compensação de passivos ambientais.
Uma nova postura deve ser adotada em relação à utilização dos recursos naturais, principalmente para a produção e comercialização de alimentos voltados a exportação. Para que os países subdesenvolvidos possam continuar a exportar de forma sustentável, deve-se observar a questão sócio-ambiental com muito critério e responsabilidade. Visando a sustentabilidade ambiental, investimentos no setor da agricultura familiar deverão ser priorizados e a cobrança da água deve ser debatida para levar a um resultado satisfatório em relação a manutenção da qualidade de vida e a preservação das espécies.

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* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Ciências Florestais/Recuperação de Áreas Degradadas e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela UFV. É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É consultor do IBAMA e conselheiro do COPAM da Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

**Licenciada em Geografia, Especialista em Educação-concentração em Geografia e Gestão Ambiental. Técnica em Meio Ambiente/ Professora de Ensino Básico do Estado de Minas Gerais. Professora de Educação Ambiental e Geografia Econômica. Vice - presidente do Instituto Ambiental Sol do Campo. E-mail: fatima@soldocampo.com.

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