Setor Florestal e Atividades Silviculturais


* Por Maurício Novaes Souza

O Brasil tem a maior floresta tropical do mundo, possui a maior diversidade vegetal do planeta e a abundância de terras cria condições ideais para plantações silvícolas. Entretanto, apesar dessa situação, não tem madeira suficiente para atender à sua demanda, correndo o risco de sofrer um “apagão florestal”, que poderá impor ao país a necessidade de importação madeira. Nesse contexto, impõe-se a ampliação da área de plantio e, ou, o aumento de produtividade das florestas plantadas, cabendo considerar, contudo, que há uma percepção difusa por parte da sociedade no sentido de que as áreas disponíveis para o plantio devem ser priorizadas para a agricultura, visando à produção de alimentos.
Na verdade, o rápido crescimento da população mundial levou à necessidade de grandes incrementos da produção agropecuária, além de outras atividades, os quais vêm sendo obtidos por meio da aplicação intensiva de novas tecnologias e pela conquista de novas fronteiras. Contudo, tem-se observado efeitos negativos, principalmente com a degradação de diversos ecossistemas. As causas das altas taxas de desmatamento no Brasil incluem forças e processos externos, tais como a expansão das plantações comerciais, fazendas-pecuárias, madeireiras, siderurgia e mineração.
Recentemente, os mais diversos mecanismos legais (modernização e adaptação da legislação) ou gerenciais (certificação florestal e gestão pública de florestas) estão revolucionando esse setor na tentativa de gerir o capital natural visando garantir a qualidade de vida das atuais e futuras gerações. Tratando-se de silvicultura, há de se considerar que ela está inserida no setor florestal, que é extremamente complexo, posto abranger: a) florestas; b) bens e serviços florestais; c) as indústrias de base florestal; d) as unidades de conservação de uso direto; e e) as áreas privadas de produção.
Assim como nos demais setores, de acordo com a Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas - ABRAF (2007), a expressão atual que se utiliza é "Manejo Florestal Sustentável", com toda a sua abrangência, complexidade e incertezas. Esse deve ser o foco principal de qualquer discussão ou diagnóstico sobre o tema que envolve o conhecimento, o planejamento, o uso e a conservação dos recursos florestais. Ou seja, há, de um lado, a idéia da produção de bens e serviços de forma perpétua, numa determinada área, com benefícios sociais e econômicos; de outro, o compromisso de uma relação harmoniosa com o meio ambiente, em termos de seus reflexos sobre o solo, a água, a flora e a fauna, principalmente.
O Brasil possui atualmente 5.743.936 de hectares reflorestados com plantações homogêneas, predominando espécies de Eucalyptus (52%) e Pinus (30%). A conversão do uso do solo destinado a outros fins para florestas plantadas, vem se apresentando como uma atrativa alternativa econômica em algumas regiões do país. Em Minas Gerais, áreas tradicionais de pastagens, sobretudo aquelas degradadas, estão sendo utilizadas para os plantios florestais e, em casos localizados, áreas tradicionais de café estão sendo substituídas pelo eucalipto.
Além do eucalipto e do pinus, podem ainda ser destacadas como espécies de importância econômica plantadas até o ano de 2006: acácia (Acacia spp.); seringueira (Hevea brasiliensis); teca (Tectona grandis); araucária (Araucaria angustifolia); populus (Populus spp.); e paricá (Schizolobium amazonicum Huber ex Ducke).
Os principais fatores ambientais que podem ser afetados pela exploração florestal, são: a) Aspectos hidrológicos; b) Exportação de nutrientes pela remoção de madeira; c) Solo; d) Matéria orgânica; e) Qualidade da água; f) Fauna; g) Flora; h) Recreação ou lazer; e i) Recursos paisagísticos. A reversão de processos que geram degradação, independentemente do grau, passa necessariamente pela adoção de um conjunto de técnicas que conferem inicialmente estabilidade ao habitat (solo), e proporcionam as pré-condições para a implantação das técnicas de revegetação.
Os efeitos dos povoamentos de eucalipto sobre o solo e a água têm gerado controvérsias e muitas críticas. Entretanto, de modo geral, o efeito desses plantios não difere significativamente daquele de outras espécies florestais ou de plantações agrícolas. É natural que haja uma mudança no regime hidrológico de uma determinada área quando há substituição de um tipo de vegetação por outro. Mas, ao se tentar atribuir à espécie plantada as mudanças no regime de água do solo nessas regiões, deve-se considerar também o histórico de utilização dos solos e a forma com que esses plantios foram estabelecidos.
Contudo, é sabido que as florestas nativas, quando exploradas sob um manejo racional, apresentam externalidades e geram impactos negativos inferiores com relação às florestas plantadas, o que lhes garante uma situação de sustentabilidade. Porém, em face ao aumento constante da demanda por produtos florestais, procedimentos racionais podem ser tomados para a diminuição de seus impactos ambientais. A gestão ambiental deve gerar mecanismos de regulação política capazes de induzir mudanças de percepção, atitudes e comportamento, condizentes com o entendimento das causas humanas da crise ambiental e com a experimentação de estilos de vida alternativos.
Fica evidente que para impedir e reverter processos de destruição que conduzem à degradação ambiental implica a necessidade de descobrir soluções econômicas e práticas agropecuárias e florestais que garantam aos produtores rurais, particularmente aqueles do modelo familiar, técnicas inovadoras que melhorem suas condição de vida, preservando os remanescentes de florestas nativas e recuperando aqueles degradados que os circundam. Há de se considerar que os plantios florestais podem significar uma adicional e importante fonte de renda ao pequeno produtor rural.
Publicado originalmente em: Informativo do Istituto Ambiental Sol do Campo. Ubá, MG - Outubro de 2008.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Ciências Florestais/Recuperação de Áreas Degradadas e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela UFV. É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É consultor do IBAMA e conselheiro do COPAM da Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

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