sábado, 16 de agosto de 2008

Gestão e Avaliação de Impacto Ambiental da Cafeicultura Irrigada em Regiões Selecionados do Território Brasileiro


Por Maurício Novaes Souza, Marcelo Rossi Vicente, Everardo Chartuni Mantovani, Maria Emília Borges Alves

RESUMO: A irrigação já é uma realidade na cafeicultura brasileira, ocupando cerca de 10% da sua área plantada, permitindo situar o cafeeiro entre as principais culturas irrigadas do Brasil. Entretanto, a agricultura irrigada vem sendo considerada por alguns segmentos da sociedade e órgãos do governo, como a principal responsável pelo desperdício de água e pela contaminação dos solos e dos ecossistemas aquáticos. Portanto, para a implantação de um sistema de irrigação em uma determinada região, torna-se necessário um conjunto de informações de maneira a ser identificado o seu potencial de produção e as condições físicas e operacionais mais adequadas que podem selecionar alternativas a serem tomadas. A avaliação de impactos ambientais objetiva, essencialmente, fundamentar e otimizar processos decisórios envolvendo atividades transformadoras e apresentar prognósticos para minimizar possíveis impactos da atividade que será implantada. Deve usar indicadores de sustentabilidade para fazer avaliações e monitoramento, como o coeficiente de uniformidade, que caracteriza o sistema de irrigação e traduz o grau de regularidade da distribuição. Pôde-se observar que algumas propriedades apresentam o CUC e o CUD abaixo do desejado. Isso indica que pode estar havendo déficit de aplicação em alguns locais da cultura – prejuízos financeiros, como também está havendo excesso de aplicação em outros – prejuízos ambientais. Os objetivos principais desse trabalho foram estudar o potencial efetivo das principais regiões produtoras de café do Brasil, fazer a avaliação dos impactos ambientais provocados pela irrigação nessas regiões e usar o coeficiente de uniformidade como indicador de sustentabilidade. Para isso, foram verificadas as formas de expansão da agricultura e as condições de manejo adotadas nessas regiões, que sugeriram a necessidade da elaboração de um Plano de Manejo e a adoção de um Sistema de Gestão Ambiental amplo para a cafeicultura irrigada.

PALAVRAS-CHAVE: irrigação do cafeeiro, avaliação de impacto ambiental, indicador de sustentabilidade, coeficiente de uniformidade, gerenciamento da irrigação, gestão ambiental.

INTRODUÇÃO

As exportações do Brasil em 2004 totalizaram US$96,4 bilhões. Desse total, o agronegócio foi responsável por US$39 bilhões (40,4% do total das vendas), significando um aumento com relação a 2003 de 27,35%. Além disso, o setor apresentou um superávit de US$34,1 bilhões, contra um superávit da balança comercial de US$ US$ 33,7bilhões (FOLHA DE SÃO PAULO, 2005).
A estatística do agronegócio café evidencia que o Brasil é o primeiro produtor e o segundo maior consumidor de café do mundo (SAES & FARINA, 1999). Estimativas conservadoras prevêem uma produção brasileira da ordem de 38 milhões de sacas de 60 kg de café beneficiado para a safra 2004/2005, a ser colhida nos seus mais de 5 bilhões de cafeeiros, representando mais de 30% da produção mundial. A participação do café no total das exportações brasileiras é expressiva e oscila ao redor de 5%, correspondendo a mais de US$ 2,5 bilhões anuais.
Esses números demonstram a importância da atividade cafeicultura dentro do agronegócio e na economia brasileira. Considerando a prática da irrigação como uma realidade na cafeicultura brasileira, ocupando cerca de 10% da sua área plantada, permite situar o cafeeiro entre as principais culturas irrigadas do Brasil. Levantamentos preliminares avaliaram um total de quase 200.000 ha irrigados, concentrados principalmente no Norte do Espírito Santo, Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba em Minas Gerais e Oeste da Bahia.
Com relação à produção, observa-se que tem sido bastante superior nos cafeeiros irrigados, com acréscimos na produtividade, no diâmetro de copa e na altura das plantas. Verifica-se que o sistema radicular das plantas irrigadas apresenta-se maior, proporcional ao seu maior desenvolvimento da parte aérea, de forma a manter uma relação semelhante parte aérea/sistema radicular em relação às plantas sem irrigação. Dessa forma, a cafeicultura irrigada tem sido uma importante estratégia para otimização da produção, gerando desenvolvimento no campo, por meio da geração de empregos e renda de forma estável.
Entretanto, a agricultura irrigada vem sendo considerada por alguns segmentos da sociedade e órgãos do governo ligados à agropecuária, à ciência e tecnologia e ao meio ambiente, como a principal responsável pelo desperdício de água e pela contaminação dos solos e dos ecossistemas aquáticos. Para BERNARDO (1997), a irrigação tem criado impactos ambientais adversos às condições físicas, químicas e biológicas do solo, à disponibilidade e qualidade da água, à saúde pública, à fauna e flora, repercutindo, em alguns casos, de forma negativa nas condições sócio-econômicas do irrigante ou mesmo da comunidade local.
Essas questões devem ser resolvidas, principalmente quando se considera a importância que as questões ambientais conquistaram na década passada. Em 1992, durante as reuniões preparatórias para a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), a ECO 92, realizada no Rio de Janeiro, ocorreram intensas discussões sobre as atividades e mecanismos econômicos especialmente impactantes para o meio ambiente e capazes de depauperar os recursos naturais. O documento denominado Agenda 21 é resultante dessas discussões, contendo inúmeras recomendações, inclusive aquelas que enfatizam a importância dos governos e organismos financeiros internacionais priorizarem políticas econômicas para estimular a sustentabilidade por meio da taxação do uso indiscriminado dos recursos naturais, da poluição e despejo de resíduos, da eliminação de subsídios que favoreçam a degradação ambiental e da contabilização de custos ambientais e de saúde (PULITANO, 2003).
Dessa forma, a proposta da Agenda 21 é bem mais complexa do ponto de vista metodológico, demandando disponibilidade, aptidão e cooperação dos ensinamentos específicos, assumindo perspectivas interdisciplinares. Esse tipo de conhecimento depende, em grande parte, da adoção de políticas públicas que promovam avanços nessa direção, atentando para o fato de que tão importante quanto gerar novos conhecimentos e tecnologias apropriadas, é fazê-los chegar ao seu destino. Na transição a um padrão sustentável, os gargalos estão mais no âmbito do desempenho institucional, posto ser precária a difusão dessas opções pelos órgãos oficiais de assistência técnica e cooperativas (SOUZA, 2004).
Na medida que a expressão “desenvolvimento sustentável” já está consolidada e referenciada aos problemas ambientais, procurando dar também um enfoque econômico, que é fundamental para a sustentabilidade das atividades, deve-se procurar reunir a eficácia do uso do fator de produção recursos naturais (como “desenvolvimento”), com sua estimulação (da eficácia) como meta, no mínimo, com a conservação do fator recursos naturais (como “sustentável”) (BELLIA, 1996).
Portanto, para a implantação de um sistema de irrigação em uma determinada região, torna-se necessário um conjunto de informações de maneira a ser identificado o seu potencial de produção e as condições físicas e operacionais mais adequadas que podem selecionar alternativas a serem tomadas. Nele, as condições a serem consideradas incluem a compatibilidade do tipo de solo, a qualidade e a quantidade de água, o clima e algumas influências externas e agronômicas. Também, o sistema de irrigação e o seu manejo devem ser compatíveis com o preparo do solo utilizado ou a utilizar na área, bem como com o cultivo e a colheita das culturas selecionadas.

SUPORTE TEÓRICO

§ Avaliação de Impacto Ambiental (AIA)

A avaliação ambiental objetiva, essencialmente, fundamentar e otimizar processos decisórios envolvendo atividades transformadoras, antrópicas ou não (TAUK et al., 1995). A avaliação relacionada a fatores ambientais está fundamentada no que certas atividades econômicas podem estar promovendo, como alterações positivas ou negativas para o meio ambiente. Neste sentido é fundamental que saiba avaliar se é mais importante implantar esta atividade que promoverá alteração ambiental, ou não realizá-la e optar pela permanência do ambiente saudável, evitando soluções onerosas para esses problemas que surgiriam. Segundo MOREIRA (1985), a AIA é um instrumento de política ambiental formado por um conjunto de procedimentos capaz de assegurar, desde o início do processo, que se faça um exame sistemático dos impactos ambientais de uma ação proposta (projeto, programa, plano ou política) e de suas alternativas, e que os resultados sejam apresentados de forma adequada ao público e aos responsáveis pela tomada de decisão, e por eles devidamente considerados.
Isto significa conhecer os componentes ambientais e suas interações, caracterizando, assim, a situação ambiental dessas áreas antes da implantação do projeto. O mais importante, é que estes resultados servirão de base à execução das demais atividades (CUNHA e GUERRA, 1999). Convém ressaltar, que nas definições de AIA, algumas dão ênfase aos componentes políticos e de gestão ambiental. Para BISWAS e GEPENG (1987), dentre os objetivos da AIA, podem ser destacados:
· Identificar os problemas ambientais adversos que podem ser esperados;
· Incorporar, nas ações de desenvolvimento, medidas mitigadoras apropriadas;
· Identificar os benefícios e prejuízos do projeto, bem como sua aceitabilidade pela comunidade;
· Identificar problemas críticos que requerem estudos ou monitoramento posteriores (auxiliando, dessa forma, nos procedimentos de monitoramento da atividade);
· Examinar e selecionar alternativas ótimas para várias opções viáveis (evita o surgimento de áreas degradadas);
· Envolver o público no processo de tomada de decisões relativas às questões ambientais, para entender seu papel, suas responsabilidades e as relações existentes entre estas.

§ Gestão Ambiental

O conceito de gestão ambiental ganha um maior número de adeptos no início da década de 90, fruto da crescente conscientização da sociedade pela necessidade da conservação dos recursos naturais e da consolidação das políticas ambientais do tipo indutoras de programas e projetos com caráter ambiental. Nesse período, aconteceu a Conferência Mundial do Meio Ambiente (ECO-92), realizada no Rio de Janeiro e a edição da série ISO 14000 que certifica o Sistema de Gestão Ambiental (SGA) da empresa. A implantação dos SGAs nas empresas torna possível a redução e o controle dos impactos causados ao meio ambiente por suas atividades produtivas, compatibilizando o desenvolvimento econômico e a conservação ambiental, ou seja, visa a promoção do desenvolvimento sustentável (SOUZA, 2004).
A ISO (International Organization for Standardization) desenvolveu uma série de normas para gestão ambiental. Define o SGA como “a parte do sistema de gestão global, que inclui estrutura organizacional, atividades de planejamento, responsabilidade, práticas, procedimentos, processos e recursos para desenvolver, implementar, atingir, analisar criticamente e manter a política ambiental de uma organização” (NBR ISO 14001, 1996).
A ISO 14.000 é uma série de normas editadas pela ISO, com a finalidade de padronizar a implementação voluntária de sistemas de gestão ambiental. “O Sistema de Gestão Ambiental (SGA), como parte da administração geral, é a estrutura que orienta, segundo a visão institucional, o empenho ambiental da organização que incentiva respostas sinérgicas para as oportunidades e os riscos apresentados pela globalização”. Nesse conceito, o SGA exige que a organização tenha uma visão do futuro, um desenvolvimento duradouro e sustentável, requerendo uma compreensão sistêmica dos seus processos. Dessa forma, o respeito às normas contidas na série ISO 14000, “fornecem à administração os instrumentos necessários para o gerenciamento dos principais impactos ambientais da operação de um empreendimento, no que se refere às atividades, produtos e serviços” (NARDELLI e GRIFFITH, 2000).
Assim, a gestão dos recursos visando o desenvolvimento sustentável, implica na consideração de pelo menos dois níveis: 1) aquele onde comparece uma multiplicidade de atores intervindo diretamente no processo de gestão (deve ser buscada junto àqueles que se encontram cotidianamente próximos dos mesmos); e 2) aquele relacionado aos mecanismos institucionais que têm por objetivo/função integrar, coordenar, estimular e controlar a gestão dos recursos sem se constituírem em atores diretos ou, pelo menos, em atores exclusivos do processo (não devem ser confundidos com as instituições habituais que enquadram a orientação e o planejamento do desenvolvimento, a ação administrativa, ou o funcionamento econômico). Para a obtenção de tal resultado, é preciso que se reafirme a implicação e a responsabilidade da sociedade civil relativamente aos recursos e ao espaço (GODARD, 1997).

§ Coeficiente de Uniformidade

O coeficiente de uniformidade caracteriza o sistema de irrigação e traduz o grau de regularidade da distribuição e aplicação. Em geral esses coeficientes utilizam medidas de dispersão adimensionais baseados pela média. Dessa forma, os coeficientes de uniformidade representam medidas estatísticas, não possuindo significado físico, embora tenham relação com a lâmina ótima de irrigação. MANTOVANI & MEDEIROS (1995) mostraram que a relação entre a lâmina média de irrigação e lâmina de água necessária à cultura depende da uniformidade de distribuição de água e da relação entre o preço do produto e o custo da água. Com alto custo da água, o valor ótimo da lâmina de água necessária à cultura aumenta em relação ao aumento da uniformidade de distribuição, enquanto uma tendência oposta é observada para baixo custo da água. Os resultados também revelaram que o aumento da lâmina média de irrigação, para compensar a redução da produção pela baixa uniformidade, é uma estratégia aceitável quando o custo da água é baixo em relação ao preço do produto. A importância do custo da água diminui com o aumento da uniformidade.
A uniformidade de distribuição da água é quantificada por coeficientes de uniformidade. O coeficiente mais utilizado é o de Christiansen, modificado por Heermann & Hein (1968). Os fatores que afetam a uniformidade de distribuição da água podem ser classificados em climáticos e não-climáticos. Os fatores climáticos são: a) evaporação; b) temperatura do ar; c) umidade relativa; e d) condições locais do vento. Os fatores não-climáticos são os relacionados ao equipamento e ao método de avaliação. Quanto ao equipamento, os fatores são: a) pressão de operação do emissor; b) velocidade e alinhamento da linha lateral do equipamento; e c) altura do emissor. A redução da altura do emissor em relação à cultura é uma técnica muito utilizada para reduzir as perdas por evaporação e deriva (BERNARDO, 1995).

RESULTADOS e DISCUSSÃO

A literatura é unânime em destacar a importância e os conceitos de uniformidade de irrigação (CHRISTIANSEM, 1942; DOORENBOS E PRUITT, 1977; CUENCA, 1989; BERNARDO, 1996), mas só recentemente tal conceito tem sido considerado de forma mais explicita no cálculo da eficiência de irrigação que transforma a lâmina liquida em lâmina bruta de irrigação (HEERMANN et al., 1992; KELLER E BLIESNER, 1992; MANTOVANI, 1993).
A avaliação da irrigação é uma análise feita em um sistema de irrigação baseada em medidas tomadas no campo sob as condições e práticas normalmente utilizadas. É necessária uma série de determinações que, para sistemas pressurizados, inclui umidade do solo antes da irrigação, medidas de vazões, uniformidade de aplicação, tempo de irrigação, entre outras (MERRIAN e KELLER, 1978).
A uniformidade de aplicação de água em sistemas de irrigação pressurizados pode ser expressa por meio dos Coeficientes de Uniformidade de Christiansen (CUC) e de Uniformidade de Distribuição (CUD), entre outros. O Grupo de Estudos e Soluções para a Agricultura Irrigada do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa (GESAI-DEA/UFV) realizou avaliações de uniformidade de aplicação de água em praticamente todas as regiões onde se pratica a cafeicultura irrigada.
BONOMO (1999), para a cafeicultura irrigada das regiões do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba de Minas Gerais (Quadro 1), e SOUZA (2000), para a região Norte do Espírito Santo, avaliaram a uniformidade e eficiência de irrigação. Encontraram, também, valores de uniformidade abaixo do potencial dos sistemas implantados, principalmente por problemas de manejo e manutenção dos sistemas de irrigação. Resultados referentes à adequação da época e lâmina de irrigação indicam problemas na quase totalidade dos sistemas avaliados, refletindo a falta de qualquer sistema técnico de manejo da irrigação.
QUADRO 1 - Resultados de uniformidade de irrigação para sistemas de irrigação na cafeicultura das regiões do Triângulo e Alto Paranaíba de Minas Gerais

Número de Avaliações Sistemas de Irrigação CUC (%)
8 Pivô Central 86
5 Autopropelido 83
2 Canhão hidráulico 81
4 Tubo perfurado 80
FONTE: BONOMO, 1999.
SOUZA (2000) apresenta resultados de uniformidade de distribuição de água para 31 sistemas de irrigação localizado das regiões do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba de Minas Gerais e para a Região Norte do Espírito Santo (Figura 1). Observam-se valores de uniformidade abaixo do potencial para esses sistemas de irrigação. Aproximadamente 40 % dos sistemas avaliados apresentaram valores de CUD acima de 90%, sendo classificados como excelente.
A região de cerrado de Minas Gerais apresentou maior número de sistemas (75%) com valores de CUD acima de 90% Os sistemas de irrigação denominados alternativos apresentaram valores de uniformidade abaixo do recomendado, principalmente por problemas relativos ao dimensionamento.
Na região norte do Espírito Santo, na maior parte dos sistemas avaliados (56%), os coeficientes determinados foram abaixo de 80%.

FIGURA 1 – Distribuição do número de sistemas de irrigação localizada avaliados, para as duas regiões, de acordo com os valores determinados do coeficiente de uniformidade de distribuição.


SOUSA (2001), avaliando 10 sistemas de irrigação por pivô central utilizados na cafeicultura irrigada do Norte do Espírito Santo e Extremo Sul da Bahia, em propriedades produtoras de café conilon, verificou que os coeficientes de uniformidade de Christiansen foram, em média, superiores a 74%, indicando uma boa uniformidade de distribuição de água nos sistemas avaliados, vale ressaltar que apenas dois pivôs (20% dos casos) apresentaram uniformidade de aplicação de água abaixo do recomendado. Em sistemas por pivô central o CUC recomendado está na faixa de 75 a 85%, para culturas com sistema radicular profundo como é o caso do cafeeiro, e o CUD recomendado acima de 70% (BERNARDO, 1995).
VICENTE et all. (2003) avaliando sistemas de irrigação por aspersão em malha na região de Viçosa - MG, encontrou valores de CUC variando de 76 a 82 %, valores estes considerados bons para este tipo de equipamento. Já TEIXEIRA (2003), estudando os sistemas de irrigação por pivô central equipados com emissores LEPA utilizados na cafeicultura irrigada do cerrado de Minas Gerais, encontrou valores de CUC e CUD variando de 79 a 93% e 67 a 90%, respectivamente.
A Região Oeste da Bahia está situada à margem esquerda do São Francisco, ocupando uma área de 162 mil KM2, o que equivale a 28,5% do Estado. Possui solos profundos, diversificados, com boa constituição física e de fácil mecanização. É constituída por chapadas, encostas e vales, possuindo como cobertura vegetal o cerrado, as florestas e a caatinga. Apesar dos índices pluviométricos apresentarem uma amplitude significativa, variando de 700 a 1.800mm, com chuvas concentradas nos meses de outubro a abril, possui uma luminosidade média na faixa de 3000 horas/ano e é privilegiada quanto à disponibilidade de água. Esses fatores associados têm atraído um grande número de novos produtores para a região. Ao mesmo tempo em que incrementam o agronegócio, é motivo de preocupação ambiental, principalmente quando se considera o grande número de nascentes dessa região, que irão desaguar no São Francisco.
VICENTE et al. (2005) determinou os coeficientes de uniformidade de aplicação de água em 27 sistemas de irrigação utilizados na cafeicultura dessa região. De um total de 20 sistemas do tipo pivô central avaliados, 2 (10% dos casos) apresentaram pelo menos um dos coeficientes de uniformidade de distribuição de água (CUC ou CUD) com valores inadequados, já dos 7 sistemas de irrigação localizada por gotejamento avaliados apenas 3 sistemas apresentaram valores de CUD considerados excelentes para esse tipo de sistema, indicando problemas relacionados a adoção da irrigação por gotejamento na região.
Nessa região, na AIA pôde-se perceber a retirada da cobertura vegetal nativa da região, em alguns casos ecótonos com espécies endêmicas, sendo substituídas por extensos monocultivos. Somados à redução da biodiversidade, essa região possui as nascentes da rede que abastece o Rio Grande, o Rio Corrente e o Rio Cariranha, que são contribuintes do Rio São Francisco. Considerando a cidade de Barreiras, dentro da bacia do Rio Grande, possui 45 rios perenes com água de qualidade C1S1 (potável).
Apesar das propriedades estudadas possuírem Outorga do uso da água, pode-se observar que algumas apresentam o CUC e o CUD abaixo do desejado. Isso indica que pode estar havendo déficit de aplicação em alguns locais da cultura, reduzindo o lucro dos produtores, como também está havendo excesso de aplicação em outros locais, perdendo-se água, fertilizantes e energia, aumentando o custo de produção e provando danos ambientais com os nutrientes percolados com a água.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O desenvolvimento sustentável se tornou a meta da sociedade, com o apoio incondicional de toda a comunidade mundial, cabendo considerar, entretanto, ainda estar sendo manifestado em escalas diferenciadas pelos diversos países. Ao mesmo tempo, no Brasil, a sociedade demanda, em unanimidade, a retomada de uma política de crescimento. Por esse motivo, a questão não é mais “crescer ou não crescer”, mas “como crescer”. Observa-se, dessa forma, que o crescimento econômico, não mais pode ser pensado separadamente dos acontecimentos ambientais e de políticas claras de inclusão social, em virtude de que preterindo o meio ambiente e valorizando o desenvolvimento econômico, pode-se estar caminhando para uma possível exaustão dos recursos naturais. Há também que se considerar, que o descuido com as questões ambientais podem se transformar em barreiras que dificultarão ou mesmo impedirão a exportação.
A Avaliação de Impactos Ambientais e a implantação de Sistemas de Gestão Ambiental no Brasil ainda são fatos novos. Carecem de pesquisas e divulgação, dadas as suas importâncias no cenário mundial atual. O conhecimento da variabilidade espacial das culturas de café irrigadas no Brasil, associadas às características edafoclimáticas e condições sócio-econômicas e culturais das diversas regiões, permitem a elaboração de um Sistema de Gestão Ambiental Estratégico, que é a nova ordem mundial. No Brasil, esse tipo de avaliação ainda não está consolidado. Apesar de já estar concretizado o Zoneamento Ecológico-Econômico de inúmeras áreas nas diversas regiões brasileiras, não existe uma integração dessas informações com os órgãos locais e regionais de fiscalização.
Os legisladores ainda atuam isoladamente, buscando, em algumas vezes, favorecimentos locais para determinadas regiões, desconsiderando questões ambientais de relevância e os seus alcances indiretos. A elaboração de uma nova política de Avaliação Ambiental Estratégica, associada à elaboração de um Sistema de Gestão Ambiental Estratégico, com o condicionamento da concessão do Licenciamento Ambiental, da Outorga do uso de água, e de um eficiente plano de manejo da irrigação, poderão reverter esse cenário. Deverá haver um trabalho junto aos produtores irrigantes de cada região. A definição de zonas de manejo de irrigações diferenciadas e simulações de viabilidade técnica e econômica poderá ser alcançadas com essas novas ferramentas e tecnologias disponíveis. O coeficiente de uniformidade pode ser considerado um bom indicador de sustentabilidade.

SUGESTÕES

É importante e fundamental que durante o Estudo de Impacto Ambiental sejam selecionadas áreas de maior interesse ecológico e ambiental, criando-se Áreas de Interesse Ecológico (AIE).
Os resultados encontrados na avaliação da uniformidade e as observações nos aspectos gerais dessas regiões indicam, que apesar dos proprietários respeitarem as Áreas de Proteção Permanente (APP), as Áreas de Reserva Legal (ARL) e possuírem Outorga do Direito de Uso da Água, é preciso que seja desenvolvido um plano de manejo da irrigação com o auxílio, por exemplo, do Programa IRRIGA-GESAI, bem como realizar uma Avaliação Ambiental Estratégica (AAE), na fase de elaboração do projeto.
A AAE tem sido muito utilizada na Europa. A sua grande vantagem com relação à AIA, é que esta realiza procedimentos sistemáticos e contínuos de avaliação da qualidade e das conseqüências ambientais de visões de médio e longo prazos, sustentadas por intenções e alternativas de desenvolvimento, estando incorporadas iniciativas políticas de planejamento e programas, assegurando a integração efetiva de considerações biofísicas, econômicas, sociais e políticas, antecipando-se aos processos públicos de tomada de decisão.
A implantação de Sistemas de Gestão Ambiental nas propriedades é fundamental para a sustentabilidade no longo prazo. Evitar-se-á problemas como aqueles que já surgem em regiões como Sorriso, no Mato Grosso, ou como aquelas que surgiram no Projeto Jaíba, em Minas Gerais. Deverá possuir natureza estratégica nas decisões, com uma visão política de desenvolvimento sustentável nas fases de planejamento, com reformulações contínuas nas fases de monitoramento, e que possua múltiplas alternativas dentro de um processo estratégico de desenvolvimento sustentável. As organizações deverão ter uma visão do futuro, para que atinja um desenvolvimento duradouro e sustentável, requerendo, portanto, uma compreensão sistêmica de todos os processos envolvidos.
Considerando a crescente utilização da irrigação na cafeicultura brasileira, espera-se que ocorra a otimização do uso dos recursos hídricos, evitando-se que as irrigações sejam conduzidas sem um embasamento técnico. Também, evitar-se-á a depleção do potencial produtivo da cultura e a degradação ambiental.
A definição de sistemas de irrigação e critérios de seu manejo possibilitará a difusão de critérios de estresse hídrico para uniformização da floração e da maturidade dos frutos; a sua influência no auxílio ao controle de doenças; e também para otimizar a produtividade e a qualidade da produção em função de um manejo eficiente da água, reduzindo efetivamente os impactos ambientais negativos.
Com a utilização da tecnologia adequada, e a adoção das medidas propostas, será possível melhorar a qualidade da produção e do produto, possibilitando uma cafeicultura de alta rentabilidade e ambientalmente sustentável.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BELLIA, V. Introdução à economia do meio ambiente. Brasília: IBAMA, 1996. 262p.

BERNARDO, S. Impacto ambiental da irrigação no Brasil. In: SILVA, D. D.; PRUSKI, F. F. (Eds.) Recursos hídricos e desenvolvimento sustentável da agricultura. Brasília: MMA/SRH/ABEAS; Viçosa, MG: UFV/Departamento de Engenharia Agrícola, 1997. p.79-88.

BERNARDO, S. Manual de irrigação. 6. ed. Viçosa, MG: UFV, 1996. 657 p.

BISWAS, A. K.; GEPING, Q. Guidelines for environmental impact assessment in developing countries. In: BISWAS, A. K; GEPING, Q. (Eds.) Environmental impact assessment for development countries. Londres: Tycooly International, 1987. p.191-232.

BONOMO, R. Análise da irrigação na cafeicultura em áreas de cerrado de Minas Gerais. Viçosa, MG: UFV, 1999. 224p. Tese (Doutorado em Engenharia Agrícola). Universidade Federal de Viçosa, 1999.

CUNHA, S. B.; GUERRA, A. J. T. Avaliação e perícia ambiental. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999. 266p.

FOLHA DE SÃO PAULO Números do agronegócio brasileiro. São Paulo, 4 jan. 2005. 1p. (B 1); 7 jan. 2005. 1p. (B 3).

GODARD, O. A gestão integrada dos recursos naturais e do meio ambiente: conceitos, instituições e desafios de legitimação. In: VIEIRA, P. F.; WEBER, J. (Org.). Gestão de recursos naturais e renováveis: novos desafios para a pesquisa ambiental. São Paulo: Cortez, 1997. p.17-50.

MANTOVANI, E. C.; MEDEIROS, J. P. V. de. Avaliação de métodos para estimativa da evapotranspiração de para Viçosa, MG. Seminário de graduação – UFV, 1995. 20 p.

MOREIRA, I. V. D. Avaliação de impacto ambiental. Rio de Janeiro: FEEMA, 1985. 34p.

NARDELLI, A. M. B.; GRIFFITH, J. J. Introdução ao Sistema de Gestão Ambiental. Viçosa: Universidade Federal de Viçosa, Núcleo de Gestão Integrada, 2000. 60p. (Apostila de curso)

NBR ISO 14001 Sistemas de gestão ambiental: especificação e diretrizes para uso. Rio de Janeiro: ABNT, 1996. 14p.

PULITANO, F. M. Análise da estrutura e funcionamento de reflorestamento de mata ciliar aos 18 e 28 anos após o plantio, no município de Cândido Mota, SP. 2003, 152f. Tese (Doutorado em Ciências da Engenharia Ambiental) - Escola de Engenharia de São Carlos - Universidade de São Paulo, São Carlos.

SAES, M.S.M. & FARINA, E.M.M.Q. O agribusiness do café no Brasil. Pensa/Milkbizz, São Paulo, 1999. 218p.

SOUZA, M. N. Degradação e Recuperação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável. Viçosa, MG: UFV, 2004. 371p. Dissertação (Mestrado em Ciência Florestal) - Universidade Federal de Viçosa, 2004.

TAUK, S. M. T.; GOBBI, N.; FOWLER, H. G. Análise ambiental: uma visão multidisciplinar. São Paulo: UNESP,1995. 258p.
Publicação original: Anais do X Congresso Nacional de Araguari, MG - 2005.

Práticas Simplificadas de Amostragem do Solo


* Por Maurício Novaes Souza – Engenheiro Agrônomo

Aula prática de ENF 391 – Recuperação de Áreas Degradadas (UFV)

1. Introdução – a amostragem de solo é a primeira e principal etapa de um programa de avaliação da fertilidade do solo. O seu objetivo é determinar a riqueza em nutrientes e o grau de acidez. Divide-se em três etapas: coleta das amostras; análise das amostras em laboratório; e interpretação dos resultados.

2. Amostragem tradicional – seleção da área
1) Delimitação da gleba a ser amostrada: glebas com no máximo 10 hectares; homogêneas; e pequenas áreas desuniformes devem ser amostradas separadamente. Deve ser considerada: a vegetação; a posição topográfica; as características perceptíveis do solo; e o histórico da área.
Percorrer a gleba andando em “zig-zag”, colhendo amostras a cada 50 ou 60 metros. Em cada ponto deve-se colher uma amostra simples que deverão ser reunidas em um recipiente limpo. Os instrumentos utilizados para a retirada da amostra, podem ser: trado; enxada ou enxadão; e pá ou cavadeira.

- Procedimentos para a coleta da amostra:
· limpar a superfície do solo, retirando restos de cultura ou de pastagem, galhos, palhas e folhas secas, etc., sem mexer ou remover a superfície do solo;
· com o trado: perfurar o solo girando no sentido dos ponteiros do relógio até 20cm, com marca já identificada; com o enxadão, enxada ou cavadeira: abrir uma trincheira, de modo que a parede lateral fique na vertical. A seguir, tirar uma “fatia” de solo de 4 cm em uma das laterais, utilizando-se de uma pá reta. Descartar as partes laterais desta porção de solo, aproveitando-se apenas os 4cm centrais;
· depositar esse material selecionado no recipiente, que formará uma amostra composta.
2) Após percorrer toda a gleba, tendo sido colhidas de 15 a 30 amostras simples, mistura-se bem o material para destorroar e homogeneizar, do qual é retirada uma amostra composta de aproximadamente 250 cm3. Não é recomendado que o solo da amostra composta seja peneirado;
3) O material pode ser seco à sombra, sendo posteriormente acondicionado em sacos plásticos resistentes ou em caixas de papelão apropriadas;
4) Identificar a amostra composta contendo os seguintes dados: a) nome e endereço do interessado; b) cultura a ser feita; e c) número da amostra. Encaminhar a amostra ao laboratório especializado; e
5) Com base no resultado da análise do solo calcula-se a adubação e a calagem. Observações:
· Não coletar amostras em locais impróprios que difiram da paisagem, como cupinzeiros; e
· Para a retirada da amostra em diferentes profundidades, a trincheira deve ser feita parcialmente.

3. Amostragem em áreas degradadas e recuperadas
Áreas degradadas ou recuperadas diferem dos procedimentos tradicionais de amostragem devido à necessidade de caracterização do substrato remanescente, no caso das áreas degradadas, ou do substrato recém constituído, no caso das recuperadas. Um ponto comum entre estes materiais refere-se à sua grande variabilidade química. Por esse motivo, o procedimento de amostragem torna-se extremamente importante para o sucesso da caracterização dos substratos.
O planejamento é fundamental para que os fatores adversos existentes não interfiram no procedimento de amostragem, evitando que o resultado não represente a realidade. A amostragem deve ser representativa, tanto para as amostras simples como para as compostas. Recomenda-se, em áreas degradadas, coletas de amostras simples nas camadas de 0 a 20, 20 a 40 e 40 a 60 cm de profundidade, para avaliar camadas com elevada acidez, elevados teores de Al3+ e baixos teores de Ca2+. O número de amostras compostas para cada camada deve ser a mesma. Porém, considerando a heterogeneidade dessas áreas, deve ser coletada no mínimo 30 amostras simples. O procedimento para retirada é o mesmo observado para a amostragem tradicional.
Em substratos que contenham resíduos provenientes de áreas de mineração, por exemplo, de carvão ou cobre, podem estar associados sulfetos. Logo, um aspecto importante a ser observado refere-se ao tempo de exposição do material, devido a sua facilidade de oxidação. Em função da dinâmica de oxidação, os valores de pH e de condutividade elétrica (C.E.) podem se alterar com o tempo de armazenamento da amostra. Quanto maior for o manuseio dessas amostras, maiores serão as alterações observadas, mesmo quando armazenadas em sacos plásticos fechados.
Em áreas degradadas pode ocorrer a inversão das camadas originais do solo, promovendo a sua compactação ou adensamento, dificultando a operacionalização da coleta de amostras. Logo, deve ser realizada com a umidade próxima à capacidade de campo do solo.

Amostragem do solo

* Por Maurício Novaes Souza

1. Introdução

A amostragem de solo é a primeira e principal etapa de um programa de avaliação da fertilidade do solo. O seu objetivo é determinar a sua riqueza em nutrientes e o seu grau de acidez, entre outros. Basicamente, pode ser dividida em três etapas: a) coleta das amostras; b) análise das amostras em laboratório; e c) interpretação dos resultados. É importante lembrar que no laboratório, não se consegue minimizar ou corrigir os erros praticados durante os procedimentos de amostragem. Portanto, caso ocorram, produzirão uma análise inexata, interpretação e recomendação equivocadas, podendo causar prejuízos econômicos ao produtor e provocar impactos ambientais (CANTARUTTI et al., 1999).
Para a devida correção do solo, poderão ser usadas várias combinações de calcário, gesso, fertilizantes inorgânicos e materiais orgânicos. A aplicação da correção depende de cinco fatores: 1) das propriedades físicas e químicas do solo; 2) do regime climático local; 3) da topografia e acessibilidade do local; 4) do tipo vegetativo a ser implantado, restabelecido ou, no caso de áreas degradadas, do uso do solo pós-recuperação; e 5) da conformidade exigidas pelas regulamentações (TOY e DANIELS, 1998).
Em áreas recuperadas, dadas essas condições iniciais e sendo adequadas com relação aos nutrientes, a produtividade a longo prazo do sistema solo-planta, dependerá de dois processos importantes: 1) acumulação de matéria orgânica e de nitrogênio; e 2) estabelecimento de um depósito de fósforo (P) orgânico, para que possa ocorrer uma mínima fixação deste pelas plantas.

2. Amostragem tradicional – seleção da área
A amostragem em áreas naturais ou antropizadas, desde que não tenham sofrido processos de degradação, com removimento das camadas superficiais do solo ou contaminação, deve seguir os seguintes passos:

1) Delimitação da gleba a ser amostrada

· Amostrar separadamente glebas com no máximo 10 hectares;
· Amostrar separadamente glebas homogêneas, semelhantes, que tenham as mesmas características; e
· Pequenas áreas desuniformes devem ser amostradas separadamente.

Observação: mais importante que definir o tamanho da gleba para a realização da amostragem, deve ser primar pela sua homogeneidade.

Para obtenção de resultados consistentes e representativos, particularmente em áreas montanhosas e irregulares, na estratificação ou subdivisão, devem ser considerados (CANTARUTTI et al., 1999):

· Vegetação;
· Posição topográfica: topo de morro, meia encosta, veredas e fundos de vale ou baixada, etc.;
· Características perceptíveis do solo: cor, textura, condição de drenagem, etc.; e
· Histórico da área: cultura anual, cultura anterior, produtividade observada, uso de corretivos e fertilizantes, etc.

2) Percorrer a gleba andando em “zig-zag”, para obter uma melhor distribuição espacial e uniformidade, colhendo amostras a cada 50 ou 60 metros. Em cada ponto deve-se colher uma amostra simples que deverão ser reunidas em um recipiente limpo, por exemplo, um balde plástico, evitando recipientes de metal, particularmente os galvanizados, para que não haja riscos de contaminação.

Os instrumentos utilizados para a retirada da amostra, podem ser:

· Trado (de rosca, calador, holandês, etc.);
· Enxada ou enxadão; e
· Pá de corte ou cavadeira.

- Procedimentos para a coleta da amostra:

· Limpar a superfície do solo, retirando restos de cultura ou de pastagem, galhos, palhas e folhas secas, etc., sem mexer ou remover a superfície do solo;
· Com o trado: perfurar o solo girando no sentido dos ponteiros do relógio até 20 cm, com marca já identificada;
· Com o enxadão, enxada ou cavadeira: abrir uma cova de 20x20x20 cm ou simplesmente um buraco tipo trincheira, de modo que a parede lateral fique na vertical. A seguir, tirar uma “fatia” de 4 cm de espessura em uma das laterais, de cima para baixo, utilizando-se de uma pá reta ou cavadeira de corte;
· Descartar as partes laterais desta porção de solo, aproveitando-se apenas os 4 cm centrais;
· Depositar esse material selecionado no recipiente, que formará a amostra composta. Para culturas perenes deve-se: a) tirar amostras junto à planta (projeção da copa); b) tirar amostras no meio da rua; e c) enviar as duas amostras compostas distintas para o laboratório.
Pode-se, também, para culturas anuais, retirar amostras superficiais (15 a 20cm) e profundas (30 ou 40cm), separadamente;

3) Após percorrer toda a gleba, tendo sido colhidas de 15 a 30 amostras simples, que devem conter sempre o mesmo volume de solo, mistura-se bem o material para destorroar e homogeneizar, do qual é retirada uma amostra composta de 300 a 400 gramas de solo (aproximadamente 250 cm3 ou ¼ de litro). Não é recomendado que o solo da amostra composta seja peneirado;

4) O material pode ser seco à sombra (no laboratório a amostra é colocada para secar ao ar, na sombra e passadas em peneira com malha de 2 mm de abertura);

5) Depois de seco, deve ser destorroado, retirados os pedaços de paus, raízes e pedras que ainda restarem, sendo acondicionados em sacos plásticos resistentes ou em caixas de papelão apropriadas;

6) Identificar a amostra composta – a embalagem para a análise possui lugar definido para a identificação. Quando não houver, deve-se prender uma etiqueta, protegidas com plástico para evitar a umidade da amostra, contendo os seguintes dados: a) nome e endereço do interessado; b) cultura a ser feita; e c) número da amostra;

7) Acompanhando a amostra deve seguir uma ficha ou folha de informações gerais sobre a área (por exemplo, a cultura que será implantada ou manejada, histórico da área, etc.) e o nome do proprietário, o município e o nome da propriedade;

8) Encaminhar o material (amostra) com a folha de informações ao laboratório especializado; e

9) Aguardar os resultados, os quais normalmente contém as seguintes informações (LOPEZ e ALVAREZ V., 1999):

· pH em água (acidez);
· Carbono orgânico;
· Cálcio trocável;
· Magnésio trocável;
· Acidez trocável;
· Soma de bases (SB = Ca2+ + Mg2+ + K+ + Na+);
· Acidez potencial;
· Capacidade efetiva de troca de cátions (CTC ef = t = SB + Al3+);
· Capacidade de troca de cátions a pH 7 (CTC pH 7 = T = SB + (H + Al));
· Saturação por alumínio (m = 100 Al3+/t, em %);
· Saturação por bases (V = 100 SB/T, em %);
· Fósforo disponível;
· Fósforo remanescente; e
· Potássio disponível.

Facultativas: Enxofre, Zinco, Manganês, Ferro, Cobre e Boro disponíveis.

10) Com base no resultado da análise do solo e conhecendo-se as exigências das culturas que serão implantadas, calcula-se a adubação e a calagem.

Recomendações (CANTARUTTI et al., 1999):
· A amostragem deve ser feita, preferencialmente, quando o solo estiver menos úmido, porém com umidade suficiente para conferir-lhe friabilidade, de tal forma a facilitar a homogeneização das amostras simples e a retirada da amostra composta;
· Procurar colher as amostras com boa antecedência da época planejada para o plantio e, ou, adubação e correção, considerando o tempo entre a coleta e a recepção dos resultados;
· Não coletar amostras em locais próximos a cupinzeiros, formigueiros, local de queimada de restos culturais, local onde ocorre depósito de material orgânico (por exemplo, perto de cochos e saleiros onde há acúmulo de fezes), próximo a casas e caminhos de pedestres ou de gado nas pastagens; e
· Para a retirada da amostra em diferentes profundidades, é preferível que o buraco ou trincheira seja feito parcialmente, ou seja: 1) abrir uma trincheira com 20 cm de profundidade e colher a amostra que vai representar a camada de 0 a 20 cm; 2) prosseguir a abertura da trincheira até a profundidade de 40 cm, coletando-se a amostra representativa da camada entre 20 a 40 cm; e 3) repetir esse último procedimento para a camada entre 40 e 60 cm.

3. A recuperação de áreas degradadas

O sucesso da recuperação depende de condições específicas do local e de implementação das melhores técnicas para reconstruir neles, um particular uso do solo. Sempre que possível, “topsoils” naturais devem ser salvos, armazenados e retornados à superfície final. Quando isto não for possível, um “topsoil” substituto deve ser criado do melhor subsolo ou materiais geológicos disponíveis, para servir como um meio de crescimento às plantas. Em um cenário crítico, sob determinadas circunstâncias, como terras de minas abandonadas, o planejador precisa recuperar um local degradado, sem qualquer “topsoiling” ou outro meio substituto selecionado. Normalmente, as propriedades físicas e químicas dos estéreis e rejeitos, junto com sua fertilidade, são facilmente avaliados e ajustados a materiais potencialmente menos tóxicos que são encontrados. Procedimentos padrão de análises de solo, são úteis para comparar vários rejeitos ou materiais substitutos de solo, mas os resultados não podem ser interpretados com a mesma precisão, como ocorre para os solos naturais. O potencial de acidez e alcalinidade, são as mais importantes propriedades químicas a serem estimadas. Propriedades físicas de rejeitos e estéreis prejudiciais à revegetação, tais como alta densidade devido a compactação e baixa capacidade de retenção de água no solo, é de difícil ajustamento após a perturbação do solo. Essas duas condições, solos compactados ou com baixa capacidade de retenção de água, são os fatores mais comuns limitando o sucesso da recuperação. Acidez do solo, salinidade e outras condições químicas tóxicas, também são limitantes para o sucesso da recuperação, mas estão mais espacialmente localizadas que propriedades físicas prejudiciais (TOY e DANIELS, 1998; TOY et al., 2002).


3.1. Amostragem em áreas degradadas e, ou, recuperadas


Áreas degradadas e, ou, recuperadas diferem dos procedimentos tradicionais de amostragem devido à necessidade de caracterização do substrato remanescente, no caso das áreas degradadas, ou do substrato recém constituído, no caso das recuperadas. A base para a identificação e a diferenciação de um solo e um substrato são: a estratificação natural, a matéria orgânica e a biota que o compõe (DIAS, 1998).
Em áreas degradadas, deve ser analisado o cenário em que esses materiais são encontrados, podendo ser classificados da seguinte forma (ibidem):

· Resíduo geológico em área remanescente plana;
· Taludes decorrentes de cortes e de construção de barragens;
· Cavas de minas;
· Substrato remanescente de mineração a céu aberto;
· Horizontes reconstruídos em áreas mineradas; e
· Depósitos controlados e não-controlados.

Um ponto comum entre estes materiais refere-se à sua grande variabilidade química. Por esse motivo, o procedimento de amostragem torna-se extremamente importante para o sucesso da caracterização dos substratos. Independentemente do processo de degradação, os substratos remanescentes apresentam baixa disponibilidade de nutrientes e baixo teor de matéria orgânica, características físicas que dificultam o crescimento das raízes e a retenção de água. Em áreas de exposição de resíduos de mineração ou áreas contaminadas pelo uso intensivo de agroquímicos, ocorre elevada concentração de sais, resultando em elevada condutividade elétrica do sistema, além da presença de metais pesados; pode ocorrer excesso de acidez ou de alcalinidade. Dessa forma, a capacidade de retenção de cátions e a de fixação de ânions, deve ser considerada na correção e adubação dos substratos. Essas potenciais dificuldades devem ser previamente analisadas visando a economia de recursos e o menor dano ambiental (DIAS, 1998).

3.2. Amostragem de substratos degradados

O planejamento é fundamental para que os fatores adversos existentes não interfiram no procedimento de amostragem, de tal forma que o resultado possa não representar a realidade. Dessa forma, a amostragem deve ser representativa em relação ao material em estudo, devendo o seu número ser estipulado anteriormente, tanto as amostras simples como as compostas. Recomenda-se, em áreas degradadas, coletas de amostras simples nas camadas de 0 a 20, 20 a 40 e 40 a 60 cm de profundidade, que permitirão avaliar a necessidade da correção de impedimentos químicos ao desenvolvimento radicular, tais como elevada acidez, elevados teores de Al3+ e baixos teores de Ca2+. O número de amostras compostas para cada camada deve ser a mesma. Porém, considerando a heterogeneidade dessas áreas, deve ser coletada no mínimo 30 amostras simples. O procedimento para retirada é o mesmo observado para a amostragem tradicional (DIAS, 1998).
Em substratos que contenham resíduos provenientes de áreas de mineração, por exemplo, de carvão ou cobre, podem estar presentes sulfetos. Logo, um dos aspectos importantes a ser observado é o tempo de exposição do material, devido a sua facilidade de oxidação. Em função da dinâmica de oxidação, os valores de pH e de condutividade elétrica (C.E.) podem se alterar com o tempo de armazenamento da amostra. Quanto maior for o manuseio dessas amostras, maiores serão as alterações observadas, mesmo quando armazenadas em sacos plásticos fechados (ibidem).
Em áreas degradadas por atividades de mineração a céu aberto, o preenchimento das cavas geralmente promove a inversão das camadas originais do solo e o necessita de uso intensivo de máquinas no aplainamento da superfície e preparo para revegetação. Nos dois casos, ocorre a formação de camadas adensadas e compactadas, com elevação do valor de densidade do solo, trazendo como conseqüências: redução da permeabilidade, maior susceptibilidade à erosão laminar, maior dificuldade de penetração de raízes, redução na aeração e menor disponibilidade de água e de nutrientes. Essa camada compactada, dificulta a operacionalização das amostras, devendo então ser realizadas com a umidade próxima à capacidade de campo do solo (Cassel, 1982, citado por DIAS, 1998).
Essas observações com relação às características físicas do substrato são importantes para definir as espécies que serão utilizadas na revegetação, que em casos onde existe compactação ou camadas adensadas, devem ser usadas aquelas com sistema radicular tolerante à essas condições.
Para a caracterização química visando a correção e a fertilização de substratos, as análises de rotina compreendem as seguintes determinações:
· pH em H2O na relação 1:2,5;
· Carbono orgânico para estimar o teor de matéria orgânica;
· P e K disponíveis;
· Ca, Mg e Al trocáveis; e
· Acidez potencial (H + Al) determinada com solução tamponada a pH 7,0.

A partir destes valores podem ser feitos cálculos para a determinação da capacidade de troca de cátions efetiva (valor t), capacidade de troca de cátions a pH 7,0 (valor T), saturação de bases no complexo de troca (valor V) e saturação de Al no complexo de troca (valor m). Essas determinações são importantes para a avaliação da fertilidade posto se tratar de outros substratos e não solo. Além das determinações de rotina, recomenda-se a determinação da condutividade elétrica da solução do substrato. Em locais suspeitos de contaminação, também devem ser analisados os micronutrientes e metais pesados (DIAS, 1998).

4. Freqüência de amostragem

Dependerá do manejo da propriedade e, principalmente, da intensidade da adubação aplicada. Em glebas cultivadas anualmente com uma cultura de ciclo curto, desde que seja mantido o pousio no período seco, é recomendado a amostragem a cada três anos. Em glebas manejadas com rotação de cultura, é recomendada a amostragem anual. Para culturas perenes, a partir da fase produtiva, é recomendado a amostragem anual, principalmente quando são aplicadas doses mais elevadas de fertilizantes (CANTARUTTI et al., 1999).
Em áreas degradadas recuperadas que não serão utilizadas para cultivos, o sistema deve ser auto-sustentável. Nesse caso, amostras devem ser feitas quando existe a preocupação da verificação de possíveis focos de poluição, por exemplo, a presença de materiais sulfetados que podem produzir drenagem ácida. Com uma adequada calagem e fertilização inicial, o requerimento de nutrientes para a nova vegetação estabelecida são encontrados facilmente na maioria de áreas perturbadas. Os efeitos da fertilização inicial duram aproximadamente duas estações de crescimento. Depois disso, diminuições da biomassa e na cobertura vegetativa são comuns, até nos melhores solos de minas. Deste modo, um programa de inspeção do local e manutenções periódicas, é recomendado para o programa regulatório prevalecente, e incorporado dentro do plano de revegetação. É importante reiterar que várias comunidades vegetativas exigem diferenças substanciais em pH e fertilidade do solo. Consequentemente, o pacote de correção do solo deve ser feito cuidadosamente, sob medida para as necessidades específicas da vegetação desejada, com uma criteriosa amostragem do solo. A manipulação do material e correções do solo, devem ser planejadas com bastante antecedência da perturbação, para assegurar condições do solo adequadas para revegetação e recuperação (TOY et al., 2002).


Bibliografia consultada:


CANTARUTTI, R. B.; ALVAREZ V., V. H.; RIBEIRO, A. C. Amostragem do solo. In: RIBEIRO, A. C.; GUIMARÃES, P. T. G.; ALVAREZ V., V. H. (eds.) Recomendações para o uso de corretivos e fertilizantes em Minas Gerais – 5a Aproximação. Viçosa, MG, 1999. p.13-20.

DIAS, L. E. Caracterização de substratos para fins de recuperação de áreas degradadas. In: DIAS, L. E.; MELLO, J. W. V. Recuperação de áreas degradadas. Viçosa: UFV, Departamento de Solos; Sociedade Brasileira de Recuperação de Áreas Degradadas, 1998. p.27-44.

GALETI, P. A. Guia do técnico agropecuário: “solos”. Campinas: Instituto Campineiro de Ensino Agrícola, 1983. 142p.

LOPES, A. S.; ALVAREZ V., V. H. Apresentação dos resultados das análises de solos. In: Recomendações para o uso de corretivos e fertilizantes em Minas Gerais – 5a Aproximação. Viçosa, MG, 1999. p. 21-24.

RIBEIRO, A. C.; GUIMARÃES, P. T. G.; ALVAREZ V., V. H. (eds.) Recomendações para o uso de corretivos e fertilizantes em Minas Gerais – 5a Aproximação. Viçosa, MG, 1999. 359p.

TOY, T. J.; FOSTER, G. R.; RENARD, K. G. Soil erosion: processes, prediction, measurement, and control. John Wiley & Sons, Inc., New York. 2002. 338p.

TOY, T. J.; DANIELS, W. L. Reclamation of disturbed lands. In: MAYER, R. A. (ed.) Encyclopedia of environmental analysis and remediation. New York: John Wiley and Sons. 1998. p. 4078-4101.

POLUIÇÃO URBANA 2: casos, acasos, descasos...


* Por Maurício Novaes Souza

O dia 14 de agosto foi escolhido como o "Dia de Combate à Poluição". Dá-se o nome de poluição a qualquer degradação (deterioração, estrago) das condições ambientais, do habitat. É uma perda, mesmo que relativa, da qualidade de vida em decorrência de mudanças ambientais. Sem dúvida, atualmente, há motivos suficientes para se ter uma data para esse fim. O aumento populacional, a crescente atividade industrial, a falta de saneamento, as queimadas e o aumento do número de veículos automotores nas regiões urbanas têm contribuído para o aumento da poluição. Conseqüentemente, a degradação da natureza, especialmente nas últimas décadas, tem sido enorme e começa a causar dificuldades no cotidiano do próprio homem.
No Brasil a situação não é diferente do restante do mundo e temos grande participação na degradação de nossos recursos naturais: os ecossistemas aquáticos estão contaminados por agroquímicos e esgotos; a população consome alimentos cada vez mais contaminados; o ar é poluído e se desperdiça energia pelo uso de tecnologias inapropriadas; as florestas vêm sendo devastadas sem controle em nome de um projeto de desenvolvimento questionável, que afeta diretamente a sobrevivência de grande número de pessoas, animais e vegetais.
Percebe-se, nos dias atuais, que o crescimento urbano e industrial tão desejado por quase todos, nem sempre significa desenvolvimento humano: particularmente nos países em industrialização, como o Brasil, vem acompanhado de desigualdade de acesso aos itens básicos necessários a uma sobrevivência digna, tais como à educação, à alimentação e à saúde.
Tal crescimento, a qualquer preço, poderá facilitar a ocorrência do aumento de temperatura, a falta de água potável em futuro próximo, problemas de saúde relacionados ao ar poluído nos centros urbanos, nos colocando em situações de riscos ambientais.
Na verdade, verifica-se que rios, lagos e mares é o destino final dos resíduos e esgotos. O crescimento das áreas urbanas não levou em consideração a necessidade de adequação de locais específicos para depósito e tratamento de seus resíduos. De acordo com o IBGE (2006), 74% dos municípios brasileiros depositam lixo hospitalar a céu aberto e apenas 57% separam os dejetos nos hospitais. Dessa forma, somados ao crescimento da população e da atividade industrial, a qualidade dos ecossistemas naturais vem se deteriorando progressivamente.
Contudo, e há de se ter essa certeza, que a área da saúde depende de um meio ambiente saudável, inclusive da existência de abastecimento seguro de água, de serviços de saneamento e da disponibilidade de abastecimento seguro de alimentos e de nutrição adequada.
Diante dessa realidade, é preciso maior fiscalização e rigidez nas aplicações das leis para minimizar ou até mesmo acabar com os excessos e abusos por parte daqueles que insiste em desrespeitar o meio ambiente. Também é preciso maior conscientização da população por intermédio de campanhas de Educação Ambiental, cujo objetivo maior é expandir o entendimento das relações entre o ser humano e o meio em que vive e depende, e que o levará a um novo conceito sobre como deve ser portar uma população consciente e comprometida.
Para que haja, de fato, Desenvolvimento Sustentável, e não meramente Crescimento Econômico, precisa-se compreender que a humanidade não é o centro da vida no planeta. Administrativamente pensando, é necessário incorporar ao planejamento urbano a visão ambiental, atentando-se para as inovações tecnológicas. Deve-se contar com a implantação de um programa ambiental dentro de toda a estrutura, incluindo o seu relacionamento com os órgãos ambientais responsáveis pelas respectivas áreas. O processo deve ser contínuo e integrado entre três setores básicos: planejamento, gestão e organização.

Publicação original: INFORMACIRP - RIO POMBA, SETEMBRO, 2008.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e da SEMAD - Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

POLUIÇÃO URBANA: casos, acasos, descasos...


* Por Maurício Novaes Souza

Casos - o dia 14 de agosto foi escolhido como o "Dia de Combate à Poluição". Dá-se o nome de poluição a qualquer degradação (deterioração, estrago) das condições ambientais, do habitat. É uma perda, mesmo que relativa, da qualidade de vida em decorrência de mudanças ambientais. Sem dúvida, atualmente, há motivos suficientes para se ter uma data para esse fim. O aumento populacional, a crescente atividade industrial, a falta de saneamento, as queimadas e o aumento do número de veículos automotores nas regiões urbanas têm contribuído para o aumento da poluição. Conseqüentemente, a degradação da natureza, especialmente nas últimas décadas, tem sido enorme e começa a causar dificuldades no cotidiano do próprio homem.
No Brasil a situação não é diferente do restante do mundo e temos grande participação na degradação de nossos recursos naturais: os ecossistemas aquáticos estão contaminados por agroquímicos e esgotos; a população consome alimentos cada vez mais contaminados; o ar é poluído e se desperdiça energia pelo uso de tecnologias inapropriadas; as florestas vêm sendo devastadas sem controle em nome de um projeto de desenvolvimento questionável, que afeta diretamente a sobrevivência de grande número de pessoas, animais e vegetais.
Acasos – percebe-se, nos dias atuais, que o crescimento urbano e industrial tão desejado por quase todos, nem sempre significa desenvolvimento humano: particularmente nos países em industrialização, como o Brasil, vem acompanhado de desigualdade de acesso aos itens básicos necessários a uma sobrevivência digna, tais como à educação, à alimentação e à saúde.
Tal crescimento, a qualquer preço, poderá facilitar a ocorrência do aumento de temperatura, a falta de água potável em futuro próximo, problemas de saúde relacionados ao ar poluído nos centros urbanos, nos colocando em situações de riscos ambientais.
Descasos – na verdade, verifica-se que rios, lagos e mares é o destino final dos resíduos e esgotos. O crescimento das áreas urbanas não levou em consideração a necessidade de adequação de locais específicos para depósito e tratamento de seus resíduos. De acordo com o IBGE (2006), 74% dos municípios brasileiros depositam lixo hospitalar a céu aberto e apenas 57% separam os dejetos nos hospitais. Dessa forma, somados ao crescimento da população e da atividade industrial, a qualidade dos ecossistemas naturais vem se deteriorando progressivamente.
Contudo, e há de se ter essa certeza, que a área da saúde depende de um meio ambiente saudável, inclusive da existência de abastecimento seguro de água, de serviços de saneamento e da disponibilidade de abastecimento seguro de alimentos e de nutrição adequada.
Diante dessa realidade, é preciso maior fiscalização e rigidez nas aplicações das leis para minimizar ou até mesmo acabar com os excessos e abusos por parte daqueles que insiste em desrespeitar o meio ambiente. Também é preciso maior conscientização da população por intermédio de campanhas de Educação Ambiental, cujo objetivo maior é expandir o entendimento das relações entre o ser humano e o meio em que vive e depende, e que o levará a um novo conceito sobre como deve ser portar uma população consciente e comprometida.
Para que haja, de fato, Desenvolvimento Sustentável, e não meramente Crescimento Econômico, precisa-se compreender que a humanidade não é o centro da vida no planeta. Administrativamente pensando, é necessário incorporar ao planejamento urbano a visão ambiental, atentando-se para as inovações tecnológicas. Deve-se contar com a implantação de um programa ambiental dentro de toda a estrutura, incluindo o seu relacionamento com os órgãos ambientais responsáveis pelas respectivas áreas. O processo deve ser contínuo e integrado entre três setores básicos: planejamento, gestão e organização.

Publicação original: INFORMACIRP, RIO POMBA - SETEMBRO, 2008.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e da SEMAD - Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

POLUIÇÃO URBANA: contribuição da educação ambiental


* Por Maurício Novaes Souza

Dia 14 de agosto foi escolhido o "Dia de Combate à Poluição". Sem dúvida, atualmente, há motivos suficientes para se ter uma data para esse fim. O aumento populacional, a crescente atividade industrial, a falta de saneamento, as queimadas e o aumento do número de veículos automotores nas regiões urbanas têm contribuído para o aumento da poluição. Conseqüentemente, a degradação da natureza, especialmente nas últimas décadas, tem sido enorme e começa a causar dificuldades no cotidiano do próprio homem.
O Brasil tem grande participação na degradação de seus recursos naturais e de seu meio ambiente: os ecossistemas aquáticos estão contaminados por agroquímicos; a população rural e urbana consome alimentos cada vez mais contaminados; o ar das grandes cidades é poluído e se desperdiça energia pelo uso de tecnologias inapropriadas; as florestas vêm sendo devastadas sem controle em nome de um projeto de desenvolvimento questionável, que afeta diretamente a sobrevivência de grande número de pessoas, animais e vegetais.
Nos dias atuais, percebe-se que o crescimento urbano e industrial, tão propalado, nem sempre significa desenvolvimento humano: particularmente nos países em industrialização, vem acompanhado de desigualdade de acesso aos itens básicos necessários a uma sobrevivência digna, tais como à educação, à alimentação e à saúde.
A possibilidade de ocorrer aumento de temperatura, falta de água potável em futuro próximo, problemas de saúde relacionados ao ar poluído nos centros urbanos, nos colocam em situações de riscos ambientais. Os principais tipos de poluição urbana são:
POLUIÇÃO SONORA
Com o crescimento desordenado das cidades, acostumaram-se com um dos maiores problemas da vida moderna: a poluição sonora. A maioria das pessoas desconhece seus riscos e poucos sabem que podem ficar surdos a partir do momento em que ouvirem algum som acima de 115 decibéis durante sete minutos seguidos. A poluição sonora é considerada uma das formas mais graves de agressão ao homem e ao meio ambiente.
POLUIÇÃO VISUAL
Entende-se como poluição visual a proliferação de “outdoors”, cartazes, formas diversas de propaganda e outros fatores que causem prejuízos estéticos à paisagem urbana local. Algumas razões para se controlar a publicidade de rua seriam o fato dos anúncios serem inconvenientes e, portanto contrários ao bem-estar das populações; invadirem os espaços públicos; banalizarem o ambiente, degradando o gosto popular, além de distraírem os condutores nas vias. Juntamente com a poluição sonora, a poluição visual causa graves males à saúde, agredindo a sensibilidade humana, influenciando a mente, afetando mais psicologicamente do que fisicamente.
POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA
Caracteriza-se pela presença de gases tóxicos e partículas sólidas no ar. As principais causas desse fenômeno são as eliminações de resíduos por indústrias e a queima de carvão e petróleo em usinas, automóveis e sistemas de aquecimento doméstico. Pode causar impactos ambientais, afetando a qualidade de vida dos homens, animais e vegetais.
POLUIÇÃO DA ÁGUA
Na verdade, rios, lagos e mares é o destino final dos esgotos. Com o crescimento da população e da atividade industrial, a qualidade dos ecossistemas aquáticos vem se deteriorando progressivamente. Entre os impactos ambientais da urbanização se destacam quatro que afetam diretamente a quantidade e a qualidade dos recursos hídricos: a) as derivações de água e a devolução via o esgotamento sanitário sem tratamento do efluente final; b) as impermeabilizações da superfície natural; c) a disposição inadequada do “lixo”; e d) os alargamentos e os desvios do leito dos rios, alterando o regime hidrológico e desprotegendo as vegetações ciliares das margens contra o risco de inundações.
Diante dessa realidade, é preciso maior fiscalização e rigidez nas aplicações das leis para minimizar ou até mesmo acabar com os excessos e abusos por parte daqueles que insiste em desrespeitar o meio ambiente. Também é preciso maior conscientização da população por intermédio de campanhas de Educação Ambiental e a inclusão desta como disciplina específica no ensino brasileiro, desde as primeiras séries.
O objetivo maior da Educação Ambiental é de expandir o entendimento das relações entre o ser humano e o meio em que vive e depende. Tal compreensão o levará a um conceito que desenvolva uma população consciente e comprometida quanto às problemáticas ambientais e mesmo sociais, buscando soluções que garantam a qualidade de vida das populações.
Há de se considerar, que para atingir o Desenvolvimento Sustentável, precisa-se compreender que a humanidade não é o centro da vida no planeta. É necessário incorporar ao planejamento urbano a visão ambiental, atentando-se para as inovações tecnológicas. Deve-se contar com a implantação de um programa ambiental dentro de toda a estrutura, incluindo o relacionamento com os órgãos ambientais responsáveis pelas respectivas áreas, com o Ministério Público e o envolvimento dos Comitês de Bacias. O processo deve ser contínuo e integrado entre três setores básicos: planejamento, gestão e organização.

Publicação original: Informativo do Instituto Ambiental Sol do Campo, Ubá, MG.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e da SEMAD - Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Poluição Urbana

* Por Maurício Novaes Souza

Dia 14 de agosto foi escolhido o "Dia de Combate à Poluição". Sem dúvida, atualmente, há motivos suficientes para se ter uma data para esse fim. O aumento populacional, a crescente atividade industrial, a falta de saneamento, as queimadas e o aumento do número de veículos automotores nas regiões urbanas têm contribuído para o aumento da poluição. Conseqüentemente, a degradação da natureza, especialmente nas últimas décadas, tem sido enorme e começa a causar dificuldades no cotidiano do próprio homem.
O Brasil tem grande participação na degradação de seus recursos naturais e de seu meio ambiente: os ecossistemas aquáticos estão contaminados por agroquímicos; a população rural e urbana consome alimentos cada vez mais contaminados; o ar das grandes cidades é poluído e se desperdiça energia pelo uso de tecnologias inapropriadas; as florestas vêm sendo devastadas sem controle em nome de um projeto de desenvolvimento questionável, que afeta diretamente a sobrevivência de grande número de pessoas, animais e vegetais.
Nos dias atuais, percebe-se que o crescimento urbano e industrial, tão propalado, nem sempre significa desenvolvimento humano: particularmente nos países em industrialização, vem acompanhado de desigualdade de acesso aos itens básicos necessários a uma sobrevivência digna, tais como à educação, à alimentação e à saúde.
A possibilidade de ocorrer aumento de temperatura, falta de água potável em futuro próximo, problemas de saúde relacionados ao ar poluído nos centros urbanos, nos colocam em situações de riscos ambientais. Os principais tipos de poluição urbana são:
POLUIÇÃO SONORA
Com o crescimento desordenado das cidades, acostumaram-se com um dos maiores problemas da vida moderna: a poluição sonora. A maioria das pessoas desconhece seus riscos e poucos sabem que podem ficar surdos a partir do momento em que ouvirem algum som acima de 115 decibéis durante sete minutos seguidos. A poluição sonora é considerada uma das formas mais graves de agressão ao homem e ao meio ambiente.
POLUIÇÃO VISUAL
Entende-se como poluição visual a proliferação de “outdoors”, cartazes, formas diversas de propaganda e outros fatores que causem prejuízos estéticos à paisagem urbana local. Algumas razões para se controlar a publicidade de rua seriam o fato dos anúncios serem inconvenientes e, portanto contrários ao bem-estar das populações; invadirem os espaços públicos; banalizarem o ambiente, degradando o gosto popular, além de distraírem os condutores nas vias. Juntamente com a poluição sonora, a poluição visual causa graves males à saúde, agredindo a sensibilidade humana, influenciando a mente, afetando mais psicologicamente do que fisicamente.
POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA
Caracteriza-se pela presença de gases tóxicos e partículas sólidas no ar. As principais causas desse fenômeno são as eliminações de resíduos por indústrias e a queima de carvão e petróleo em usinas, automóveis e sistemas de aquecimento doméstico. Pode causar impactos ambientais, afetando a qualidade de vida dos homens, animais e vegetais.
POLUIÇÃO DA ÁGUA
Na verdade, rios, lagos e mares é o destino final dos esgotos. Com o crescimento da população e da atividade industrial, a qualidade dos ecossistemas aquáticos vem se deteriorando progressivamente. Entre os impactos ambientais da urbanização se destacam quatro que afetam diretamente a quantidade e a qualidade dos recursos hídricos: a) as derivações de água e a devolução via o esgotamento sanitário sem tratamento do efluente final; b) as impermeabilizações da superfície natural; c) a disposição inadequada do “lixo”; e d) os alargamentos e os desvios do leito dos rios, alterando o regime hidrológico e desprotegendo as vegetações ciliares das margens contra o risco de inundações.
Diante dessa realidade, é preciso maior fiscalização e rigidez nas aplicações das leis para minimizar ou até mesmo acabar com os excessos e abusos por parte daqueles que insiste em desrespeitar o meio ambiente. Também é preciso maior conscientização da população por intermédio de campanhas de Educação Ambiental e a inclusão desta como disciplina específica no ensino brasileiro, desde as primeiras séries.
Para atingir o Desenvolvimento Sustentável, precisa-se compreender que a humanidade não é o centro da vida no planeta. É necessário incorporar ao planejamento urbano a visão ambiental, atentando-se para as inovações tecnológicas. Deve-se contar com a implantação de um programa ambiental dentro de toda a estrutura, incluindo o relacionamento com os órgãos ambientais responsáveis pelas respectivas áreas, com o Ministério Público e o envolvimento dos Comitês de Bacias. O processo deve ser contínuo e integrado entre três setores básicos: planejamento, gestão e organização.
Publicação original: Informativo do Instituto Ambiental Sol do campo, Ubá, MG.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e da SEMAD - Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Dinâmica de Sistemas: Propostas de Políticas Públicas e de Planejamento Ambiental


* Por Maurício Novaes Souza

É sabido que a humanidade vem enfrentando problemas de degradação ambiental que remontam no tempo. Entretanto, tem-se verificado a partir da década de 1960, em função dos modos de produção, de crescimento e de desenvolvimento praticados, que os recursos naturais, particularmente, a água, vêm se tornando um fator cada vez mais crítico para o desenvolvimento econômico, social e ambiental no longo prazo.
Esse fato pode ser explicado pelo fato de que até há décadas recentemente passadas, o meio ambiente era capaz de desempenhar sua função autodepuradora com eficiência. Contudo, nos dias atuais, encontra-se excessivamente sobrecarregado pelas atividades antrópicas. Percebe-se, assim, que o mundo poderá experimentar uma escassez de recursos hídricos sem precedentes em um futuro próximo, a menos que os padrões de desenvolvimento comecem a ser alterados.
No Brasil, as causas das altas taxas de desmatamento, fator que influenciará diretamente a qualidade e quantidade dos ecossistemas aquáticos, incluem forças e processos externos, tais como a expansão das plantações comerciais de essências florestais e fazendas-agropecuárias. Tais atividades, geralmente mal conduzidas, têm levado às situações desastrosas de erosão do solo. Tal fato exige aplicações cada vez maiores de fertilizantes para que se possa manter a produtividade agropecuária e florestal, além de gerarem novas áreas degradadas. Assim, o conhecimento de tais impactos para que se evite a sua repetição futura, assume uma enorme importância do ponto de vista ecológico, econômico, agrícola e social.
A crise de abastecimento de água pode ser considerada um fator crítico na atualidade. Essa questão sempre foi vista como um problema dos países mais pobres ou daqueles situados em regiões áridas ou semi-áridas. Contudo, começa a atingir algumas das mais ricas nações do mundo. Em recente relatório da ONG WWF Internacional - denominado “Países Ricos, Pobre Água”, mostra que a combinação de mudanças climáticas, secas e perda de áreas úmidas, ao lado de infra-estruturas inadequadas para a água e a má gestão dos recursos hídricos, estão “globalizando” a crise.
A instabilidade climática, com conseqüências diretas na distribuição das chuvas, associada a uma constante redução dos recursos naturais, tem levado a grande maioria dos produtores, mesmo de regiões onde os níveis de precipitação são elevados e com distribuição uniforme, a adotarem a irrigação como tecnologia indispensável ao sistema produtivo das culturas. De modo geral, o principal impacto resultante dessa atividade, trata-se da ausência de um plano de manejo, infelizmente, ainda pouco praticado pela maioria dos irrigantes.
É uma tarefa para o grupo de países em rápido desenvolvimento econômico terem a oportunidade de não repetir os erros do passado e evitar os custos de recuperação de ecossistemas degradados. Entretanto, lamentavelmente, parece que, em geral, estas nações já foram seduzidas por infra-estruturas de grande porte, tais como barragens, transposições de águas entre bacias, megaprojetos de irrigação, sem adequadamente considerar se tais projetos irão de fato suprir as necessidades ou impingir custos humanos e naturais.
De acordo com esse relatório do WWF, a crise das nações ricas é a prova de que riqueza e infra-estrutura não são garantia contra escassez, poluição, mudanças climáticas e secas. Esse fato pode ser explicado pelos modelos de desenvolvimento agropecuário e urbano-industrial implementado nas últimas décadas. A provável origem desses problemas se deve ao imediatismo nas fases de elaboração e implantação dos diversos empreendimentos e atividades, com displicência, ou mesmo ausência, de planejamento ambiental, não considerando, por exemplo, as questões relativas à predição.
Há também de se considerar, que apesar do ressurgimento do tema da escassez e dos limites ecológicos no final do século XX, o fato é que a maior parte do pensamento social e econômico contemporâneo, especialmente no debate sobre o desenvolvimento, continua a adotar o enfoque flutuante que dominou os séculos de exuberância da civilização urbano-industrial.
Os principais mapas políticos que organizam os programas partidários, em todo o mundo, tiveram seus fundamentos teóricos calcados na visão do crescimento ilimitado. O novo paradigma do mundo moderno foi acompanhado de um amplo conjunto de transformações, que não se limitou ao aspecto cultural. A economia capitalista se revelou capaz de promover em alguns países um aumento crescente da produção, gerando um consumo de massas inédito na história da humanidade.
A configuração deste campo de alto consumo, que está restrito, bem entendido, ao universo minoritário dos países capitalistas avançados e das elites sociais dos demais países, gerou um dilema ecológico e político fundamental. Considere a famosa frase de Keynes (criador da Macroeconomia e um dos mais influentes economistas do século XX; suas idéias intervencionistas se chocaram com as doutrinas econômicas vigentes em sua época e estimularam a adoção de políticas intervencionistas sobre o funcionamento da economia): "A longo prazo estaremos todos mortos!"
Esta frase se tornou um mantra entre os operadores de commodities e derivativos nos mercados de capitais. Durante anos se foram treinados para que os negócios apresentassem resultados de curtíssimo prazo, já que, no longo prazo, estar-se-iam todos mortos. Agora se projetem esta frase no imaginário dos jovens pesquisadores, corretores e investidores para operações que envolvem 40, 60 e até mesmo 200 anos? Mitigar a poluição não acontece de imediato, posto que o meio ambiente tem uma dialética diferenciada. No entanto, esta lógica não compartilha com a matemática de um sistema que convencionou comprar de manhã e vender à tarde. Tudo é muito rápido. E o mundo das finanças gira "bilhões" que sequer tem tempo de compensar seus cheques.
No Brasil, o modelo urbano-industrial e agropecuário, infelizmente, tem adotado tal lógica e comportamento, que têm posto em risco a quantidade e a qualidade do capital natural, particularmente dos recursos edáficos e, conseqüentemente, dadas as suas inter-relações, dos ecossistemas aquáticos, entre outros, nas bacias hidrográficas do rio Preto e ribeirão Entre Ribeiros, afluentes do rio Paracatu. Nesse local, tem ocorrido a intensificação de atividades silviculturais, que substituem a vegetação nativa, como também a intensificação da agricultura irrigada, cuja participação no consumo de água se elevou de 78% para 93% do total da vazão consumida no período de 1970 a 2000.
A partir da ECO – 92, fortalece o conceito de Desenvolvimento Sustentável, que revela, inicialmente, a crescente insatisfação com a situação criada e imposta pelos atuais modelos vigentes de desenvolvimento e de produção advindos das atividades antrópicas. Na elaboração da Agenda 21 Brasileira, foi considerada fundamental que se promovam alterações nos modos de produção, necessitando, para isso, de uma definição nas políticas públicas que considerem o planejamento de médio e longo prazo.
A Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu 2008 como "O Ano do Planeta", o que representa, mundialmente, um marco histórico importantíssimo para um direcionamento enérgico das ações humanas em favor da preservação ambiental, da conservação dos recursos naturais e da qualidade de vida.
Por este motivo, os países, as grandes organizações, as instituições financeiras mundiais, os pesquisadores, os técnicos, os produtores, enfim, todos aqueles envolvidos com os sistemas produtivos, defrontam-se nos dias atuais com dois dos mais importantes desafios para a humanidade: a) usar de maneira eficiente os recursos na produção de alimentos - existe uma crescente consciência que o aumento da produção de alimentos deve estar associado a uma preocupação constante com o uso racional dos recursos tais como solo, água, energia e agroquímicos; e b) atender a tal demanda de forma sustentável, ou seja, aumentar a produtividade, preocupando-se com a conservação dos recursos naturais.
Portanto, os governos devem direcionar o estudo de políticas públicas no sentido de buscar soluções para ricos e pobres, que inclui, entre outros, saneamento ambiental, reparar infra-estruturas antigas, reduzir agentes contaminantes, mudar práticas de irrigação. Impõe-se a necessidade de esforço conjunto para: a) aumentar a capacidade de predição e prognóstico, por meio da integração contínua da ciência interdisciplinar; e b) praticar o planejamento e gerenciamento na área de recursos hídricos.
Para esse fim, está sendo desenvolvido um trabalho por este autor, já em fase de conclusão, que se propõe a desenvolver um modelo de oferta e demanda do uso da água baseado em princípios de dinâmica de sistemas, com o auxílio do software STELLA. Poderá ser utilizado em toda a Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, e mesmo extrapolado para as demais bacias brasileiras. A “ciência” Dinâmica de Sistemas é antes de tudo uma nova linguagem que permite expressar mais adequadamente as cadeias de eventos circulares existentes na natureza. Por intermédio da modelagem, utilizando-se de diversos tipos de diagramas (causais, estoque e fluxo), é possível expressar graficamente um sistema, possibilitando perceber mais claramente a complexidade dinâmica das relações entre as partes do mesmo.
A base dessa nova ciência se assenta nos conceitos do pensamento sistêmico, onde o princípio da interdependência demanda que mudanças em qualquer um dos componentes de um determinado sistema, direta ou indiretamente, estão associadas ou afetarão os demais componentes. Por intermédio de uma análise sistêmica dos recursos, poderão ser determinadas as principais variáveis e suas inter-relações, que poderá ser empregado para identificar as soluções mais adequadas aos requerimentos de conservação do solo e da água, aos aspectos ambientais e as necessidades ecológicas e sócio-econômicas e políticas de uma determinada região. Será uma ferramenta de auxílio à definição de políticas públicas de planejamento e predição para estimar futuras demandas e ofertas de Recursos Hídricos. Dessa forma, os usuários poderão entender como que os diversos cenários, atuais e futuros, afetarão o desempenho dos ecossistemas aquáticos e terrestres.
Publicação original: www.ambientebrasil.com.br, agosto de 2008.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e da SEMAD - Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

A crise energética e as políticas públicas


* Por Maurício Novaes Souza

Paralelamente ao agravamento dos problemas ambientais, o mundo vive nova crise energética. O petróleo, o carvão e o xisto atingiram a maior cotação de toda a história da humanidade. Considerando a exploração intensiva das reservas não-renováveis de combustíveis fósseis - recursos esgotáveis que levaram milhões de anos para se formar - e os prejuízos ambientais trazidos pelo uso desses recursos energéticos, pressupõem-se um cenário preocupante para esse século. Quando a opção parecia ser a bioenergia, surgem os riscos provenientes de a crise alimentar que se anuncia, a qual poderá ser agravada pela introdução de culturas voltadas à produção de biocombustíveis em áreas anteriormente destinadas à produção de alimentos básicos.
Nesse contexto, assume crucial importância a busca de fontes de energia alternativas, em especial renováveis e não-poluentes, como a solar e a eólica. Segundo Wolfgang Palz, em seu livro “Energia Solar e Fontes Alternativas”, a energia solar recebida pela terra a cada ano é dez vezes superior à contida em toda a reserva de combustíveis fósseis. Entretanto, o interesse pela utilização da radiação solar como fonte de energia alternativa cresceu apenas nas últimas décadas, por razões políticas e econômicas, principalmente após a crise do petróleo de 1973. Hoje, esse interesse está adquirindo maior dimensão, abrangendo não só o aproveitamento dessa radiação como fonte de energia limpa e renovável, mas também o conhecimento e os efeitos das mudanças climáticas.
Diversos países, inclusive o Brasil, já buscam nas energias alternativas, como a solar, a biomassa, a eólica e a hidroenergia, opções para o problema energético, cuja demanda mundial dependem quase totalmente (cerca de 80%) dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão mineral e gás natural), ou seja, recursos esgotáveis. Sabe-se que as energias renováveis são provenientes de ciclos naturais de conversão da radiação solar, que é a fonte primária de quase toda energia disponível na terra. Por isso, são praticamente inesgotáveis e não alteram o balanço térmico do planeta.
Dessa forma, o aproveitamento das energias solar é um projeto viável, tanto em termos técnicos quanto econômicos. O elevado custo, principal obstáculo para sua utilização em escala comercial, já está sendo vencido. Especialistas nessa tecnologia prevêem uma queda de até seis vezes no preço do quilowatt (kW) obtido a partir de energia solar até o ano 2015. Contudo, embora seja inesgotável e não ofereça riscos ambientais, essa energia ainda é aproveitada de modo muito incipiente no país para secagem de alimentos, na indústria do sal e no aquecimento de água. Com relação à energia eólica, sabe-se que pode garantir 10% das necessidades mundiais de eletricidade até 2020, pode criar 1,7 milhão de novos empregos e reduzir a emissão global de dióxido de carbono na atmosfera em mais de 10 bilhões de toneladas.
Do total de energia elétrica gerada no Brasil, 95% são de origem hidráulica, mas o potencial desse tipo de fonte, de acordo com a Eletrobrás, poderá se esgotar no ano 2015, se mantido um ritmo regular de crescimento econômico. Inicialmente, a construção de hidrelétricas e a reserva de água para diversos fins foi o principal propósito. Entretanto, nos últimos vinte anos, os usos múltiplos desses sistemas se diversificaram, ampliando a importância econômica e social desses ecossistemas artificiais e, ao mesmo tempo, produzindo e introduzindo novas complexidades no seu funcionamento e impactos ambientais negativos.
Esta grande cadeia de reservatórios tem, portanto, enorme significado econômico, ecológico, hidrológico e social - em muitas regiões do País esses ecossistemas foram utilizados como base para o desenvolvimento regional, como na bacia hidrográfica do rio São Francisco. Em alguns projetos houve planejamento inicial e uma preocupação com a inserção regional; em outros casos, este planejamento foi pouco desenvolvido. Contudo, todas estas alterações podem gerar externalidades e resultar em uma série de efeitos diretos ou indiretos. Reservatórios seqüenciais como os construídos no rio São Francisco, e em diversos de seus afluentes, produzem efeitos e impactos acumulativos, transformando inteiramente as condições biogeofísicas, econômicas e sociais de toda a bacia.
Por suas características tropicais, o Brasil tem, em quase todo o território e durante o ano inteiro, grande potencial de oferta de energia solar - no entanto, muito pouco é feito para aproveitá-la. Por intermédio da fotossíntese, as plantas capturam energia do sol e transformam em energia química. As fontes orgânicas que são usadas para produzir energias usando este processo são chamadas de biomassa. Os combustíveis mais comuns da biomassa são os resíduos agrícolas, madeira e culturas como a cana-de-açúcar.
Em condições favoráveis a biomassa pode contribuir de maneira significante para com a produção de energia elétrica. O pesquisador Hall, por intermédio de seus trabalhos, estima que com a recuperação de um terço dos resíduos disponíveis seria possível o atendimento de 10% do consumo elétrico mundial e que com um programa de plantio de 100 milhões de hectares de culturas especialmente para esta atividade seria possível atender 30% do consumo.
Dessa forma, a produção de energia elétrica a partir da biomassa, atualmente, é muito defendida como uma alternativa importante para países em desenvolvimento e também outros países. No entanto, e há que se considerarem as questões relativas ao aquecimento global, a maioria dos produtos agrícolas usados nos Estados Unidos e na Europa para a produção de biocombustíveis na verdade agrava o aquecimento global, devido aos métodos industriais empregados na fabricação do produto, segundo relatório assinado por Paul J. Crutzen, prêmio Nobel de Química. As conclusões são especialmente negativas para a colza, planta usada na Europa para a produção de biodiesel, e que segundo o estudo pode produzir até 70 por cento mais gases do efeito estufa do que o diesel convencional.
Já o etanol brasileiro foi considerado menos poluente do que o petróleo - gera apenas entre 50 e 90 por cento dos gases do efeito estufa que seriam emitidos pela gasolina. O etanol de milho, produzido nos EUA, pode gerar até 50 por cento mais gases responsáveis pelo aquecimento global do que a gasolina. O novo estudo sugere que os biocombustíveis podem na verdade provocar mais liberação do que economia de gases do efeito estufa, devido ao fertilizante usado na produção agrícola, cuja fabricação depende do óxido nitroso - substância que tem cerca de 30 vezes mais capacidade de provocar o efeito estufa do que o dióxido de carbono (CO2).

Ø Enfrentar os desafios
As expectativas energéticas para o próximo século apontam na direção das fontes renováveis, como as energias do Sol e dos ventos. O uso futuro dos combustíveis fósseis é insustentável: a) pelos danos ambientais; b) por questões econômicas; e c) pelo estoque limitado desses recursos. Vivem-se atualmente o drama dos pólos industriais, com sua necessidade crescente de energia, e dos grandes centros urbanos, envoltos pela degradante poluição atmosférica, que reduz a já baixa qualidade de vida.
Constata-se que algumas alterações de grande escala observadas na atmosfera já não são apenas especulações ou previsões científicas, mas fatos reais, como a diminuição da camada de ozônio na estratosfera e o efeito estufa. A contrapartida é uma maior parcela de responsabilidade quanto à preservação e à conservação do meio ambiente. Isso significa acompanhar os sinais de vida no planeta, o que inclui o monitoramento da radiação solar e a procura de formas alternativas de energia, capazes de melhor harmonizar o homem com seu meio ambiente.
A International Solar Energy Society (ISES), sediada em Freiburg (Alemanha), promove há alguns anos o programa The comeback of solar energy ('O retorno da energia solar'). A iniciativa se baseia em um cenário que considera os progressos tecnológicos obtidos na última década e também as expectativas positivas de desenvolvimento do setor. No momento em que as sociedades desenvolvidas pressionam crescentemente seus governos a despoluir o meio ambiente, essa busca pela energia solar está sendo bem recebida, resultando em vertiginoso aumento de investimentos em pesquisa e desenvolvimento na área, principalmente na Alemanha, Japão e Austrália.
No Brasil, um marco importante e oportuno para uma discussão séria sobre o tema, em nível de política nacional, foi a criação do Comitê Permanente das Energias Solar, Eólica e Biomassa, vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia. Tal debate poderá levar à formulação de uma política oficial de longo prazo para o setor. Outras iniciativas mostram que o país está caminhando na direção certa para enfrentar os desafios desse novo século.
No que diz respeito à radiação solar, sem dúvida resta muito a ser feito no país, desde o desenvolvimento de equipamentos com matéria-prima e soluções tecnológicas nacionais até o estudo de novas aplicações para a eletricidade e o calor gerados a partir da luz do Sol. Qualquer estudo de viabilização de fontes de energia alternativas e 'ecologicamente corretas' serão bem-vindas e esse pode ser o ponto de partida para o futuro.
Um programa realista de substituição de combustíveis fósseis por energia solar poderia, de imediato, reduzir em 800 a 900 milhões de toneladas anuais a emissão de dióxido de carbono (CO2) – principal gás de efeito estufa - para a atmosfera. Essa quantidade representa de 15% a 17% do total de CO2 emitido atualmente.

Ø Os modelos de produção e consumo - a dura realidade
Será que os biocombustíveis poderão ser a solução? Atualmente a maior parte da energia utilizada pela humanidade provém de combustíveis fósseis. A vida moderna tem sido movida a custo de recursos esgotáveis que levaram milhões de anos para se formar. O uso desses combustíveis em larga escala tem mudado substancialmente a composição da atmosfera e o balanço térmico do Planeta provocando o aquecimento global, degelo nos pólos, chuvas ácidas e poluição atmosférica e de todo o meio ambiente. Alternativas como a energia nuclear, que eram apontadas como solução definitiva, já mostrou que só podem piorar a situação.
Na verdade, é a razão capitalista que estimulou a industrialização e a urbanização, tendo por base o consumismo e acumulação do capital, que está levando o nosso planeta - e os seres vivos que o habitam - a uma situação catastrófica do ponto de vista ambiental e das condições de sobrevivência de todos os seres vivos, inclusive da vida humana. A principal questão se refere aos atuais sistemas de produção, que estimulam o consumo e geram degradação. Se há preocupação em mudar a questão ambiental tem que se pensar em mudar o sistema de produção.
Nos dias atuais a produção do etanol e do biodiesel brasileiros vêm sendo questionadas mundialmente. Isto se deve principalmente ao modelo do agronegócio empresarial, que se utiliza de grandes extensões de terra para a monocultura, onde a única preocupação reside na proposta de transformar o Brasil em grande exportador de combustíveis com o apoio e ganância de grandes grupos econômicos e fundos de investimentos, inclusive do próprio governo. Este modelo causa impactos negativos em diversas comunidades tradicionais, que têm seus territórios ameaçados pela expansão do capital. O que se verifica hoje é a compra de terras e usinas por estrangeiros, formando um estoque de terras que rende uma valorização acelerada, na linha da especulação típica das zonas urbanas. Os problemas sociais e ecológicos associados à cultura da cana-de-açúcar se agravam a cada dia.
A solução seria utilizar áreas de pastagens degradadas para o plantio dessa cultura. Todavia, a expansão da cana-de-açúcar no país para produção de etanol pode avançar sim sobre áreas onde atualmente se cultivam gêneros alimentícios, além de colocar em risco a integridade de importantes biomas, tais como a Amazônia, o Pantanal e a Caatinga. Até agora, não foi feito nenhum estudo aprofundado sobre as conseqüências e impactos da expansão das lavouras de cana e de plantas oleaginosas. Portanto, esse modelo de expansão da produção de biocombustíveis coloca em risco a soberania alimentar e pode agravar profundamente o problema da fome no Brasil e no mundo, com efeitos cruéis para a população mais pobre. As conseqüências são imprevisíveis.
Sem abandonar estas fontes de riqueza para o país, o modelo agrícola a ser adotado deve estar baseado na agroecologia e na diversificação da produção. Ele deve ser orientado pelo modelo de Desenvolvimento Sustentável, que fortaleça a agricultura familiar e o desenvolvimento regional, e não pela lógica capitalista de querer transformar o Brasil em um grande exportador de combustíveis.
Heitor Scalambrini, Professor da Universidade Federal de Pernambuco, tem afirmado com insistência que não existe solução para os problemas urbanos do Brasil, sem melhorar a qualidade de vida no campo. Será que os biocombustíveis proporcionarão essa condição? Caso sim, a produção de biocombustíveis, como etanol e biodiesel, faz sentido.
Não é difícil imaginar os motivos do apetite internacional pelo etanol e biodiesel brasileiro. Resta saber se nos âmbitos público e privado se saberão usar esse potencial de forma criativa e estratégica. Caso contrário, uma vez mais, irá prevalecer à lógica do imediatismo, que gera lucros exorbitantes para poucos no início para depois deixar a conta para a sociedade.
Discutir, portanto, uma mudança na matriz energética que realmente busque preservar a vida e o bem-estar dos indivíduos no planeta tem que levar em conta uma profunda transformação nos padrões atuais de produção/consumo, no estilo de vida, no conceito de “desenvolvimento” vigente e na própria organização de nossa sociedade. Nesse momento, é evidente que as políticas públicas necessitam de serem revistas.
Publicação original: http://www.ambientbrasil.com.br/, em julho de 2008.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e da SEMAD - Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.