domingo, 12 de outubro de 2008

A Tecnologia, o Consumismo e seus Impactos Sócio-ambientais



* Por Maurício Novaes Souza1 e Maria Angélica Alves da Silva2

A humanidade herdou um acúmulo de 3,8 bilhões de anos de capital natural: mantendo-se os padrões atuais de uso e degradação, muito pouco há de restar até o fim do século XXI. Considerando a recente crise econômica, que tanto tem preocupado a população e os governos mundiais, ninguém percebe que se está perdendo mais dinheiro com o desaparecimento das florestas do que com a atual crise financeira global, segundo conclusões de um estudo encomendado pela União Européia. A pesquisa foi realizada por um economista do Deutsche Bank, que calculou que os desperdícios anuais com o desmatamento variam em uma faixa de US$ 2 trilhões a US$ 5 trilhões.
Para se chegar a esses números, é necessário saber que os serviços de armazenamento de água e da regulação do ciclo de carbono, entre outros, realizados gratuitamente pela natureza, criam condição para um meio ambiente saudável, oferecendo não só água e ar limpos, chuvas, produtividade oceânica, solo fértil e elasticidade das bacias fluviais, como também certas funções menos valorizadas, mas imprescindíveis para a manutenção da sustentabilidade, tais como: a) o processamento de resíduos (naturais e industriais); b) a proteção contra os extremos do clima; e c) a regeneração atmosférica.
Contudo, nas últimas três décadas se consumiu um terço dos recursos da Terra, ou seja, de sua riqueza natural. É sabido que ecossistema é um sistema aberto integrado por todos os organismos vivos, inclusive o homem, e os elementos não viventes de um setor ambiental definido no tempo e no espaço. Suas propriedades globais de funcionamento (fluxo de energia e ciclagem da matéria) e auto-regulação (controle) derivam das relações entre todos os seus componentes, tanto pertencentes aos sistemas naturais, quanto aos criados ou modificados pelo Homem.
Com o aumento populacional que se deu no último século e com o surgimento de novas tecnologias, aceleraram-se as atividades econômicas de acordo com suas supérfluas e ilimitadas necessidades, em uma velocidade jamais vista. Tudo isso acontece a partir de uma visão antropocêntrica clássica - o homem e suas interações com o ambiente à sua volta devem se fazer de forma prioritária, e descompromissada, modificando e transformando os ambientes naturais para que sejam satisfeitas as suas vontades.
Os resultados dessas ações são facilmente perceptíveis ao longo de toda a biosfera. Esta interferência ocorre em diversos níveis, agindo diferentemente sobre os componentes ambientais: ar, solo, água e seres vivos. Os reflexos, geralmente desastrosos, podem ser observados, por exemplo, nas atividades agropecuárias e florestais, particularmente quando praticadas de forma extensiva, causando profundas alterações na paisagem, em nível mundial. Nos sistemas urbanos, também, são encontradas marcas profundas da intervenção humana.
Essa situação se agravou a partir da Revolução Industrial, que criou o modelo de capitalismo atual, cujos processos de produção consideravam como pólos excludentes o homem e a natureza, com a concepção desta como fonte ilimitada de recursos à sua disposição. A partir dessa época, a capacidade produtiva humana começou a crescer exponencialmente e a força de trabalho se tornou capaz de fabricar um volume muito maior de produtos básicos, a custos reduzidos. Esse fato elevou rapidamente o padrão de vida e os salários reais, fazendo crescer a demanda dos diversos produtos das indústrias, lançando os fundamentos do comércio moderno.
No entanto, o que se percebe, é que as sucessivas agressões que o meio ambiente vem sofrendo em decorrência das atividades humanas, vêm causando impactos negativos e causando uma série de prejuízos sócio-econômicos e ambientais. Ao meio da crise econômica e ambiental atuais, e de tamanha confusão, as pessoas, desinformadas, perguntam-se: “o que fazer?”; “como fazer?”; “a quem recorrer”; ou “em quem acreditar?” As alternativas são várias para solucionar tais problemas; mas o que tem gerado bastante discussão é se as medidas tomadas só defendem os interesses de cada país ou interesses pessoais... ou se realmente pensam na coletividade... Será que realmente existe a intenção de solução definitiva para as questões sociais e ambientais?
Para exemplificar, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, depois de fazer diversas reuniões com parlamentares da bancada ruralista, entregou nessa semana à Casa Civil uma proposta que reduz as punições contra desmatadores. Pressionado, ele aceitou alterar ou revogar artigos do decreto que assinou no fim de julho, com o presidente Lula, para endurecer a Lei de Crimes Ambientais. O anúncio foi feito na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado. Na mesma reunião, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, fez duras críticas à legislação ambiental do país, dizendo: “se todas as regras atuais forem respeitadas, é melhor fechar o Brasil".
Ou seja, o nosso grande problema é que vivemos em um mundo capitalista, onde negócios e lucros são as únicas referências, de fato, consideradas importantes. Para se atingir esse objetivo, incrementa-se o consumo, estimulado por campanhas maciças na mídia. O modismo é outro aspecto que acaba nos influenciando: se um modelo de computador está “na moda”, o que compramos há pouco tempo já parece estar ultrapassado e isso faz com que acabemos comprando um novo modelo. O mesmo acontece com o telefone celular e outros bens de consumo.
Na verdade, esse comportamento é resultado de uma estratégia usada pelo modelo capitalista que criou o consumismo obsoletista, onde um produto já é lançado tendo o seu sucessor mais moderno na prateleira para ser apresentado em pouco mais de seis meses ou um ano. Uma verdade, que poucos se dão conta, é que nos dias atuais, de toda a produção mundial, apenas 1% tem vida útil superior a seis meses e, em nossa euforia de consumo, devido ao desconhecimento do ciclo de vida dos produtos, não damos conta que é o meio ambiente que estará sendo afetado. Não podemos esquecer que a primeira etapa da fabricação de um produto se dá com a extração de recursos naturais, cuja exploração está se dando de forma exagerada e desordenada, e o seu destino final também será em um determinado local do ambiente.
Outra dimensão da insustentabilidade do consumo atual das economias humanas passa pela forma socialmente desigual da distribuição das riquezas e da renda. Ou seja, há uma pressão diferenciada exercida pelos consumidores sobre os ecossistemas. Ao contrário, as populações dos países ricos são responsáveis pela apropriação de 80% dos recursos naturais e de energia, sendo que representam menos de 20% da população global. Qual a conseqüência desse modelo? A atual crise global da economia... e que afetará, indiscriminadamente, todos os países do Planeta.
Na verdade, quando analisamos o comportamento da humanidade ao longo de sua história, observamos um enorme fascínio pelo uso de novas tecnologias, associadas ao desenvolvimento de novos produtos e, ou, processos de produção. Porém, apesar de significativas vantagens proporcionadas com essas inovações, servindo de auxílio para a solução de grandes problemas, questiona-se a sua efetividade, inclusive com inúmeras dúvidas sobre os efeitos à saúde, por exemplo, quanto ao uso desse novo “brinquedo”, o telefone celular.
Nessa semana, especialistas de todo o mundo se reúnem no Rio de Janeiro para discutir dados científicos relacionados aos efeitos biológicos de radiações ionizantes, notadamente aquelas emitidas por antenas e equipamentos de telefonia celular, estações transmissoras de rádio e TV, linhas de transmissão e distribuição de energia elétrica, além de discutir aspectos de proteção e limites de exposição. A Comissão Internacional de Proteção contra as Radiações Não-Ionizantes promove o encontro internacional com o objetivo de apresentar os seus avanços científicos. As discussões subsidiam novas recomendações para limites de exposição, conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS).
No futuro, há de se perceber, que os avanços científicos e tecnológicos voltados para o setor produtivo, deverão permitir a implantação de indústrias limpas, que estão na base de um crescimento econômico mais equilibrado e integrado como o meio ambiente. O primeiro passo para uma grande mudança é consumir menos e poder utilizar os recursos naturais de maneira sustentável. Contudo, a Educação Ambiental, que é o caminho mais curto para se atingir esse objetivo, a sua efetiva inclusão no currículo, de forma incompreensível, vem sendo protelada pelo Ministério da Educação.
De fato, carecem de uma visão equilibrada e integrada do meio ambiente, holística e sistêmica, que favoreçam a própria gestão da tecnologia. Os modos de produção necessitam de um novo modelo. No meio urbano, a implantação de sistemas de gestão ambiental que estimulem a produção mais limpa seria uma alternativa; na área rural, os modelos de produção agroecológicos podem ser considerados fortemente inseridos nessas propostas.
Publicado originalmente em: www.ambientebrasil.com.br - outubro de 2008.

1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Ciências Florestais/Recuperação de Áreas Degradadas e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela UFV. É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É consultor do IBAMA e conselheiro do COPAM da Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

2. Pedagoga e Especialista em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É professora das disciplinas Sociologia, Filosofia, História e Políticas Educacionais do CEFET - Rio Pomba. E-mail: gecamau@yahoo.com.br.

sábado, 11 de outubro de 2008

A Tecnologia e seus Impactos Sócio-ambientais

* Por Maurício Novaes Souza

Na atual crise da economia, que tanto tem preocupado a população mundial, ninguém percebe que se está perdendo mais dinheiro com o desaparecimento das florestas do que com a atual crise financeira global, segundo conclusões de um estudo encomendado pela União Européia. A pesquisa foi realizada por um economista do Deutsche Bank. Ele calcula que os desperdícios anuais com o desmatamento variam em uma faixa de US$ 2 trilhões a US$ 5 trilhões. O número inclui o valor de vários serviços oferecidos pelas florestas, como água limpa e a absorção de dióxido de carbono.
No entanto, o que se percebe, é que as sucessivas agressões que o meio ambiente vem sofrendo em decorrência das atividades humanas, vêm causando impactos negativos e causando uma série de prejuízos sócio-econômicos e ambientais, tais como: poluição hídrica, chuva ácida, efeito estufa e desertificação. Há que se destacar, como agravante, a destinação dos resíduos sólidos urbanos em locais inadequados e o lançamento dos esgotos domésticos e industriais sem nenhum tipo de tratamento nos ecossistemas aquáticos.
As pessoas, desinformadas, perguntam-se: “o que fazer?”; “como fazer?”; “a quem recorrer”; ou “em quem acreditar?” As alternativas são várias para solucionar o problema; mas o que tem gerado bastante discussão é se as medidas tomadas só defendem os interesses de cada país e interesses pessoais, ou se pensam na coletividade? Será que realmente existe a intenção de solução definitiva para as questões sociais e ambientais?
O grande problema é que vivemos em um mundo capitalista, onde o dinheiro é a referência. Tudo gira em torno do consumismo, estimulados pelas campanhas maciças da mídia. O modismo é outro aspecto que acaba nos influenciando. Se um modelo de computador está “na moda”, o que compramos há pouco tempo já está ultrapassado e isso faz com que acabemos comprando um novo modelo. O mesmo acontece com o telefone celular e outros bens de consumo. Na verdade é uma estratégia usada pelo modelo capitalista que criou o consumismo obsoletista, onde um produto já é lançado tendo o seu sucessor mais moderno na prateleira para ser apresentado em pouco mais de seis meses ou um ano. Nos dias atuais, de toda a produção mundial, apenas 1% tem vida útil superior a seis meses.
Devido a todo esse ciclo não damos conta que é o meio ambiente que está sendo afetado. Não podemos esquecer que a primeira etapa da fabricação de um produto se dá com a extração de recursos naturais, cuja exploração está se dando de forma exagerada e desordenada. O primeiro passo para uma grande mudança é consumir menos e poder utilizar os recursos naturais de maneira sustentável.
Na verdade, quando analisamos o comportamento da humanidade ao longo de sua história, observamos um enorme fascínio pelo uso de novas tecnologias, associadas ao desenvolvimento de novos produtos e, ou, processos de produção. Porém, apesar de significativas vantagens proporcionadas com essas inovações, servindo de auxílio para a solução de grandes problemas, questiona-se a sua efetividade, com inúmeras dúvidas, por exemplo, sobre os efeitos à saúde, como o uso de telefones celulares.
Nessa semana, especialistas de todo o mundo se reúnem no Rio de Janeiro para discutir dados científicos relacionados aos efeitos biológicos de radiações ionizantes, notadamente aquelas emitidas por antenas e equipamentos de telefonia celular, estações transmissoras de rádio e TV, linhas de transmissão e distribuição de energia elétrica, além de discutir aspectos de proteção e limites de exposição. A Comissão Internacional de Proteção contra as Radiações Não-Ionizantes promove o encontro internacional com o objetivo de apresentar os seus avanços científicos. As discussões subsidiam novas recomendações para limites de exposição, conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS).
No futuro, os avanços científicos e tecnológicos voltados para o setor produtivo, deverão permitir a implantação de indústrias limpas, que estão na base de um crescimento econômico mais equilibrado e integrado como o meio ambiente. Para isso deve haver uma visão equilibrada e integrada do meio ambiente, sistêmica, que favoreçam a própria gestão da tecnologia. No meio urbano, a produção mais limpa é uma solução; na área rural, os modelos de produção agroecológicos podem ser considerados fortemente inseridos nessas propostas.
Publicado originalmente em: INFORMACIRP, RIO POMBA - 13-10-2008.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Ciências Florestais/Recuperação de Áreas Degradadas e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela UFV. É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É consultor do IBAMA e conselheiro do COPAM da Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Agronegócio brasileiro: composição, importância e desafios


* Por Maurício Novaes Souza

O Agronegócio, também chamado de agribusiness, ao contrário do que muitos pensam de que se trataria apenas de grandes empresas, é o conjunto de negócios relacionados à agricultura dentro do ponto de vista econômico. Geralmente o seu estudo é dividido em três partes. A primeira parte trata dos negócios agropecuários propriamente ditos ("dentro da porteira") que representam os produtores rurais, sejam eles pequenos, médios ou grandes produtores, constituídos na forma de pessoas físicas (fazendeiros ou camponeses) ou de pessoas jurídicas (empresas).
A segunda parte, os negócios à montante ("da pré-porteira") aos da agropecuária, representados pela indústrias e comércios que fornecem insumos para a produção rural. Por exemplo, os fabricantes de fertilizantes, defensivos químicos e equipamentos. Na terceira parte, estão os negócios à jusante dos negócios agropecuários, ou de "pós-porteira", onde estão a compra, transporte, beneficiamento e venda dos produtos agropecuários, até chegar ao consumidor final. Enquadram-se nesta definição os frigoríficos, as indústrias têxteis e calçadistas, empacotadores, supermercados e distribuidores de alimentos.
De forma inquestionável, o agronegócio é hoje a principal locomotiva da economia brasileira e os números são expressivos. Responde por 34% das riquezas geradas no país, 42% das exportações totais e 37% dos empregos brasileiros. Entre 1998 e 2003, a taxa de crescimento do PIB agropecuário chegou a 4,67% ao ano (IRRIPLUS, 2006). Em 2006, o agronegócio brasileiro fechou com uma elevação de 3,2% em relação ao ano anterior, sendo o setor apontado como tendo um comportamento acima da média da economia brasileira, que cresceu 2,9% (CEPEA-USP/CNA, 2006). Em 2007, o PIB do agronegócio cresceu 5,52%.
Vários fatores vêm contribuindo para o crescimento da agricultura no Brasil. O primeiro foi a reorganização institucional da pesquisa agropecuária, cujo ponto principal foi a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA. Paralelamente se fortaleceram as instituições estaduais de pesquisa agropecuária, as Universidades, os Centros Técnicos e Tecnológicos, como o CEFET-RIO POMBA, e os sistemas estaduais de assistência técnica e extensão rural, estes sim, ainda bastante deficientes. Com investimentos na qualificação dos pesquisadores no Brasil e no exterior, e com a oferta de mais tecnologias, nestas últimas três décadas, o país se consolidou como um dos mais importantes produtores mundiais de soja, milho, leite, carne, laranja, aves, suínos, entre vários outros produtos. Mais que a produção, a produtividade e qualidade de culturas e da pecuária atingiram, e em alguns casos superaram o de outras nações, grandes produtoras de alimentos.
Contudo, tem-se observado impactos negativos resultantes dessa atividade, e diversas são suas fontes e origens, tais como a elevada taxa de desmatamento, o uso excessivo de agroquímicos, os plantios com espécies transgênicas e, ou, exóticas e o uso inadequado da irrigação. Foi implementado o modelo agroquímico de produção, a partir da década de 1960. A partir desse período, em uma velocidade jamais vista, tem ocorrido a degradação de diversos ecossistemas, até então estáveis e harmônicos.
No atual momento, pelo menos dois grandes desafios deverão ser superados por essa atividade, devendo ser desempenhada por profissionais que atuam na área, como os Técnicos em Gestão do Agronegócio: a) os aspectos relacionados ao cumprimento da Legislação Ambiental; e b) promover a inserção dos milhões de pequenos e médios produtores, que não têm conseguido utilizar os conhecimentos desenvolvidos pela pesquisa agropecuária, na escala e na intensidade necessária. Portanto, devem-se priorizar os investimentos em educação e gestão ambiental, na contratação de pessoal para os órgãos de fiscalização ambiental, e estimular as pesquisas para a agricultura familiar, como a Agroecologia, visando integrar este segmento rural à economia brasileira.
PUBLICADO ORIGINALMENTE EM: Jornal do Agronegócio, CEFET/RP - 13-10-2008


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e consultor do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Agronegócio: Oportunidade de Mercado e Diversidade Regional da Zona da Mata Mineira


* Por Maurício Novaes Souza

A Zona da Mata Mineira é formada por 07 Microrregiões Geográficas e 142 municípios. De acordo com o Censo Demográfico do IBGE, em 2000, possuía uma população de 2.030.856 habitantes (11,4 % da população total do estado). Nessa mesorregião, o aumento populacional total confirma a tendência concentradora, o que demonstra a forte mobilidade interna de sua população, caracterizada pelo deslocamento demográfico das pequenas cidades para os centros microrregionais - influência das rodovias BR-040 e o eixo da BR-116.
As maiores cidades desta Mesorregião se encontram, hoje, justamente onde a população rural é mais rarefeita. Com relação à evolução populacional, a população que antes de 1970 era maior no meio rural, a partir de 2000 se tornou maior no meio urbano. Entre 1991 e 2000, a Zona da Mata registrou queda significativa no seu crescimento.
O abandono do campo pode ser justificado pela ausência de políticas públicas, bem como pelas características locais. Isso porque a Zona da Mata possui como predominância topografia acidentada e solos com elevada acidez e baixa fertilidade. Esta região é caracterizada por apresentar relevo forte ondulado e montanhoso, onde predomina a pecuária extensiva sobre pastagem natural ou “naturalizada” - a utilização intensiva culminou com a sua degradação, redução da produtividade e o empobrecimento dos produtores.
Considerando o conjunto do agronegócio regional, cabe destaque a cadeia do leite pelo seu recente desenvolvimento. Minas Gerais é o berço do agronegócio do leite no Brasil, com 28,8% de toda a produção nacional e uma concentração relevante de indústrias de laticínios. Contudo, a produtividade e a qualidade dos produtos lácteos ainda são baixas, constituindo-se em fortes entraves para a expansão e consolidação desse setor. Uma das formas mais eficazes para criação desse ambiente econômico favorável é a atuação organizada do setor público em conjunto e harmonia com o setor privado.
Para isso, recentemente foi criado o Pólo de Excelência do Leite, do qual o CEFET-RP é componente, que estabelecerá uma ligação entre os diferentes agentes da cadeia produtiva do leite, para colocar Minas na vanguarda da coordenação do desenvolvimento sustentável do agronegócio do Leite Brasileiro e criar um grande atrativo para investimentos no Estado de Minas. O Pólo vai fortalecer a Zona da Mata mineira como centro de excelência nas pesquisas relativas à produção de leite e derivados.
Considerando as características dessa região, é possível que o mercado se abra para técnicos da área do Agronegócio. Isso porque todos os projetos atuais buscam alternativas para estimular a geração de emprego, renda e desenvolvimento sócio-econômico, além de criar caminhos que tenham como diretriz estimular o empreendedorismo, visando a autonomia regional e do cidadão.
Nesse novo modelo que se delineiam, os gestores têm identificado o capital humano como um dos fatores que mais contribuem para que as empresas sustentem suas vantagens competitivas. É fato notório, que nos dias atuais, o bem mais precioso de uma corporação é o conhecimento, o grande diferencial competitivo do mundo do trabalho. Ou seja, a economia atual está baseada no capital intelectual, no qual as pessoas é que fazem a diferença.
Todas essas considerações nos levam a refletir sobre as mudanças que têm ocorrido no ambiente das empresas e no foco de sua gestão refletindo na exigência das competências profissionais que elas necessitam e, também, nos centros de ensino superior, técnico e tecnológico, como o CEFET-RP, que formam esses profissionais. As empresas estão avaliando se as pessoas têm prazer no exercício da função, se têm ambição para crescer e se têm generosidade para compartilhar conhecimento e gerar valor. Elas procuram pessoas que saibam trabalhar em equipe, que demonstram equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional. Pessoas que têm capacidade de quebrar paradigmas, de negociar, de se comunicar, de se modernizar e de aperfeiçoar continuamente o próprio aprendizado.
Publicado originalmente em: Jornal do Agronegócio - CEFET/RP - 13-10-2008


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e consultor do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Poluição e escassez hídrica: reflexos ambientais e sócio-econômicos


Por Maurício Novaes Souza1 e Maria Angélica Alves da Silva2

A água é um bem precioso e cada vez mais tema de debates em todo o mundo. De forma estratégica, as cidades são construídas nas proximidades ou ao longo de cursos de água. Contudo, como acontece em 97% dos municípios brasileiros, inclusive em Rio Pomba, todos os esgotos são lançados nos rios sem nenhuma forma de tratamento. Por esse motivo, o uso descontrolado e a poluição de fontes importantes de rios e lagos podem ocasionar a falta de água doce muito em breve, caso nenhuma providência seja tomada.
Como agravante, o mau uso do solo nas áreas urbanas e rurais, têm sido um dos principais fatores da aceleração de processos erosivos. São comuns loteamentos em áreas de encostas; grandes áreas com desmatamento e queimadas; pontos clandestinos de retirada de areia; desvio de água cada vez maior para indústria ou projetos de irrigação, em sua maioria sem planejamento ou manejo, e sem a devida autorização dos órgãos ambientais.
Como resultado, ocorre a perda de fertilidade dos solos agricultáveis, a poluição de corpos hídricos, o assoreamento de barragens e rios, o aumento das freqüências de vazões de enchente e o aumento dos custos de tratamento de água, fato que vem acontecendo, inclusive, na bacia do rio Pomba. A degradação dos ecossistemas aquáticos tem sido um dos preços pagos pelo desenvolvimento urbano e rural descomprometido com as condições básicas de sustentabilidade, refletindo em prejuízos significativos para o meio ambiente, ocasionando perdas econômicas e sociais para toda a coletividade.
Esse processo se dá desde o lançamento de simples embalagens de balas, até os mais perigosos poluentes tóxicos, como resíduos industriais e agrotóxicos, que contém elevado teor de metais pesados, danosos à saúde. Tais fatos conduziram à formulação da política para o setor de recursos hídricos. Já foi concluída a primeira etapa do Plano Estadual de Recursos Hídricos (PERH), que vem sendo apresentado à população por meio de reuniões em todo o estado de Minas Gerais. O PERH é um projeto que visa estabelecer diretrizes para o planejamento e controle do uso da água em Minas Gerais.
O Instituto Mineiro de Gestão das Águas – IGAM é o órgão responsável pela concessão de direito de uso dos recursos hídricos estaduais, pelo planejamento e administração de todas as ações voltadas para a preservação da quantidade e da qualidade de águas em Minas Gerais. Lançou recentemente a segunda fase do plano. Nessa etapa, o PERH vai tratar da quantidade e qualidade das águas no estado mineiro. A partir daí, ações e metas deverão ser implementadas, incluindo Instrumentos de Gestão desses recursos, como a outorga e a cobrança pelo uso da água, encontram-se, nesta fase da consolidação do Sistema Nacional de Recursos Hídricos, em pleno estágio de aprimoramento.
Considerando as condições atuais das bacias hidrográficas brasileiras, deve-se investir prioritariamente no saneamento básico dos municípios e em projetos de Educação Ambiental. Melhorará a qualidade de vida da população, bem como a proteção ao meio ambiente urbano. Contudo, a revitalização desses ecossistemas não virá apenas com obras, mas com opções e atitudes públicas, empresariais e individuais.
O Sindicato Rural de Rio Pomba tem duas estagiárias do Curso Técnico em Meio Ambiente do CEFET-RP, Juliana e Nair, que durante todo o período da manhã, realizam o cadastramento e fornecem informações aos empresários e produtores rurais.
Como, individualmente, contribuir para evitar a poluição e a degradação dos rios?
Não jogue lixo nas águas dos rios;
Não canalize esgoto diretamente para os rios;
Não desperdice água, em casa ou em qualquer outro lugar;
Observe se alguma empresa/indústria está poluindo algum rio e avise as autoridades.
Publicação original em: INFORMACIRP, setembro de 2008.

1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É consultor do IBAMA e conselheiro do COPAM - Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

2. Pedagoga e Especialista em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. Professora das disciplinas Sociologia e Artes do CEFET - Rio Pomba. E-mail: gecamau@yahoo.com.br.

Sistemas de Administração Empresarial e a Gestão Ambiental


* Por Maurício Novaes Souza1 e Gabriela Alves de Novaes2

Os Sistemas de Administração da Produção, qualquer que seja sua filosofia, têm como objetivos básicos
Planejar e Controlar todo o processo de manufatura/logística. Deve começar pelo planejamento dos materiais e pela utilização dos equipamentos e pessoas; passar pelo controle do que foi planejado; e chegar até à distribuição dos produtos acabados.
Um Sistema de Administração da Produção deve ser capaz de: planejar e controlar os materiais comprados; planejar e controlar os níveis dos estoques; programar as atividades de acordo com o cumprimento dos prazos; ser capaz de saber a situação atual, reagindo de maneira eficaz; e planejar o futuro da empresa. Portanto, nada mais são que uma ferramenta no auxílio à interminável busca pela competitividade da empresa.
Pode-se dizer, entretanto, pastagem com estradas.de esteira em ......................................................que a utilização de um


Sistema de Administração da Produção adequado é condição necessária, porém não suficiente, para que a empresa atinja o sucesso competitivo. Isso porque, nos dias atuais, as empresas de bens ou serviços que não adaptarem seus sistemas produtivos para a melhoria contínua da produtividade, demonstrando efetivamente “cuidados ambientais”, não terão espaço no processo de globalização. A antiga estratégia da produção em massa, derivada da noção de economia de escala, não é mais válida. Atualmente, as empresas devem possuir um sistema flexível de produção; com rapidez no projeto e implantação de novos produtos; baixos “lead-times” (freqüência com a qual o “mix” de produtos da organização muda); e estoques no atendimento das necessidades dos clientes.
A forma como se Planeja, Programa e Controla estes sistemas produtivos tem função primordial neste contexto. Para atingir seus objetivos, os sistemas produtivos devem exercer uma série de funções operacionais, que vai desde o projeto dos produtos até o controle dos estoques, recrutamento e treinamento de funcionários, aplicação dos recursos financeiros, distribuição dos produtos, cuidados com a disposição dos resíduos, entre outros.
Atualmente, a estrutura funcional deve ceder espaço a uma estrutura operacional aberta, aonde a responsabilidade pelas ações vai até o ponto em que o efeito desta ação se fizer sentir. Uma pergunta natural a ser feita é: Qual é o melhor Sistema de Administração da Produção? Na verdade não se pode dizer que exista o melhor, e sim que existe o mais adequado. Na hora de decidir qual sistema utilizar algumas variáveis devem ser analisadas, tais como: Variedade de produtos e processos;

· Complexidade das estruturas de produto; Variabilidade dos “lead times”; e
Autonomia para tomada de decisões.

Além das variáveis apresentadas anteriormente, a escolha do Sistema de Administração da Produção deve estar ligada e ser coerente com os objetivos estratégicos da manufatura; deve ser coerente com o tipo de tecnologia de processo produtivo e dos recursos humanos que a empresa resolveu usar; e, o fato novo - de relevante importância - que deve fazer parte dos processos decisivos: a variável ambiental.
Com o advento do termo "Desenvolvimento Sustentável" tornou-se necessária a formação de pessoas com um diferente perfil, profissionais que agreguem a visão ambientalista à exploração "racional" dos recursos naturais – os Gestores Ambientais. Na verdade, a Gestão Ambiental visa ordenar as atividades humanas para que estas originem o menor impacto possível sobre o meio ambiente. Esta organização vai desde a escolha das melhores técnicas até o cumprimento da legislação e a alocação correta de recursos humanos e financeiros.
O que deve ficar claro é que "gerir" ou "gerenciar" significa saber manejar as ferramentas existentes da melhor forma possível: isso exige que os gestores ou gerentes ambientais devam ter uma visão holística apurada. Deve-se ter a consciência que a Gestão Ambiental requer profissionais dos mais diversos campos, e devidamente habilitados. Surge, dessa forma, um novo Sistema de Administração Empresarial - a Administração Ambiental: deve possuir uma sólida base técnica e filosófica, além de exigir que sejam eliminados os impactos ambientais negativos para que se atinja o Desenvolvimento Sustentável.
Publicação original em: INFORMACIRP, JULHO de 2008.


* 1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É Conselheiro do COPAM e do CIEA/SEMAD Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

2. Estudante do Curso de Administração de Empresas da Universidade Federal de Viçosa.

POLUIÇÃO URBANA: casos, acasos, descasos...



* Por Maurício Novaes Souza

Casos - o dia 14 de agosto foi escolhido como o "Dia de Combate à Poluição". Dá-se o nome de poluição a qualquer degradação (deterioração, estrago) das condições ambientais, do habitat. É uma perda, mesmo que relativa, da qualidade de vida em decorrência de mudanças ambientais. Sem dúvida, atualmente, há motivos suficientes para se ter uma data para esse fim. O aumento populacional, a crescente atividade industrial, a falta de saneamento, as queimadas e o aumento do número de veículos automotores nas regiões urbanas têm contribuído para o aumento da poluição. Conseqüentemente, a degradação da natureza, especialmente nas últimas décadas, tem sido enorme e começa a causar dificuldades no cotidiano do próprio homem.
No Brasil a situação não é diferente do restante do mundo e temos grande participação na degradação de nossos recursos naturais: os ecossistemas aquáticos estão contaminados por agroquímicos e esgotos; a população consome alimentos cada vez mais contaminados; o ar é poluído e se desperdiça energia pelo uso de tecnologias inapropriadas; as florestas vêm sendo devastadas sem controle em nome de um projeto de desenvolvimento questionável, que afeta diretamente a sobrevivência de grande número de pessoas, animais e vegetais.
Acasos – percebe-se, nos dias atuais, que o crescimento urbano e industrial tão desejado por quase todos, nem sempre significa desenvolvimento humano: particularmente nos países em industrialização, como o Brasil, vem acompanhado de desigualdade de acesso aos itens básicos necessários a uma sobrevivência digna, tais como à educação, à alimentação e à saúde.
Tal crescimento, a qualquer preço, poderá facilitar a ocorrência do aumento de temperatura, a falta de água potável em futuro próximo, problemas de saúde relacionados ao ar poluído nos centros urbanos, nos colocando em situações de riscos ambientais.
Descasos – na verdade, verifica-se que rios, lagos e mares é o destino final dos resíduos e esgotos. O crescimento das áreas urbanas não levou em consideração a necessidade de adequação de locais específicos para depósito e tratamento de seus resíduos. De acordo com o IBGE (2006), 74% dos municípios brasileiros depositam lixo hospitalar a céu aberto e apenas 57% separam os dejetos nos hospitais. Dessa forma, somados ao crescimento da população e da atividade industrial, a qualidade dos ecossistemas naturais vem se deteriorando progressivamente.
Contudo, e há de se ter essa certeza, que a área da saúde depende de um meio ambiente saudável, inclusive da existência de abastecimento seguro de água, de serviços de saneamento e da disponibilidade de abastecimento seguro de alimentos e de nutrição adequada.
Diante dessa realidade, é preciso maior fiscalização e rigidez nas aplicações das leis para minimizar ou até mesmo acabar com os excessos e abusos por parte daqueles que insiste em desrespeitar o meio ambiente. Também é preciso maior conscientização da população por intermédio de campanhas de Educação Ambiental, cujo objetivo maior é expandir o entendimento das relações entre o ser humano e o meio em que vive e depende, e que o levará a um novo conceito sobre como deve ser portar uma população consciente e comprometida.
Para que haja, de fato, Desenvolvimento Sustentável, e não meramente Crescimento Econômico, precisa-se compreender que a humanidade não é o centro da vida no planeta. Administrativamente pensando, é necessário incorporar ao planejamento urbano a visão ambiental, atentando-se para as inovações tecnológicas. Deve-se contar com a implantação de um programa ambiental dentro de toda a estrutura, incluindo o seu relacionamento com os órgãos ambientais responsáveis pelas respectivas áreas. O processo deve ser contínuo e integrado entre três setores básicos: planejamento, gestão e organização.
Publicação original em: INFORMACIRP, RIO POMBA. SETEMBRO DE 2008.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e da SEMAD - Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Dinâmica de Sistemas: Propostas de Políticas Públicas e de Planejamento Ambiental


* Por Maurício Novaes Souza


É sabido que a humanidade vem enfrentando problemas de degradação ambiental que remontam no tempo. Entretanto, tem-se verificado a partir da década de 1960, em função dos modos de produção, de crescimento e de desenvolvimento praticados, que os recursos naturais, particularmente, a água, vêm se tornando um fator cada vez mais crítico para o desenvolvimento econômico, social e ambiental no longo prazo.
Esse fato pode ser explicado pelo fato de que até há décadas recentemente passadas, o meio ambiente era capaz de desempenhar sua função autodepuradora com eficiência. Contudo, nos dias atuais, encontra-se excessivamente sobrecarregado pelas atividades antrópicas. Percebe-se, assim, que o mundo poderá experimentar uma escassez de recursos hídricos sem precedentes em um futuro próximo, a menos que os padrões de desenvolvimento comecem a ser alterados.
No Brasil, as causas das altas taxas de desmatamento, fator que influenciará diretamente a qualidade e quantidade dos ecossistemas aquáticos, incluem forças e processos externos, tais como a expansão das plantações comerciais de essências florestais e fazendas-agropecuárias. Tais atividades, geralmente mal conduzidas, têm levado às situações desastrosas de erosão do solo. Tal fato exige aplicações cada vez maiores de fertilizantes para que se possa manter a produtividade agropecuária e florestal, além de gerarem novas áreas degradadas. Assim, o conhecimento de tais impactos para que se evite a sua repetição futura, assume uma enorme importância do ponto de vista ecológico, econômico, agrícola e social.
A crise de abastecimento de água pode ser considerada um fator crítico na atualidade. Essa questão sempre foi vista como um problema dos países mais pobres ou daqueles situados em regiões áridas ou semi-áridas. Contudo, começa a atingir algumas das mais ricas nações do mundo. Em recente relatório da ONG WWF Internacional - denominado “Países Ricos, Pobre Água”, mostra que a combinação de mudanças climáticas, secas e perda de áreas úmidas, ao lado de infra-estruturas inadequadas para a água e a má gestão dos recursos hídricos, estão “globalizando” a crise.
A instabilidade climática, com conseqüências diretas na distribuição das chuvas, associada a uma constante redução dos recursos naturais, tem levado a grande maioria dos produtores, mesmo de regiões onde os níveis de precipitação são elevados e com distribuição uniforme, a adotarem a irrigação como tecnologia indispensável ao sistema produtivo das culturas. De modo geral, o principal impacto resultante dessa atividade, trata-se da ausência de um plano de manejo, infelizmente, ainda pouco praticado pela maioria dos irrigantes.
É uma tarefa para o grupo de países em rápido desenvolvimento econômico terem a oportunidade de não repetir os erros do passado e evitar os custos de recuperação de ecossistemas degradados. Entretanto, lamentavelmente, parece que, em geral, estas nações já foram seduzidas por infra-estruturas de grande porte, tais como barragens, transposições de águas entre bacias, megaprojetos de irrigação, sem adequadamente considerar se tais projetos irão de fato suprir as necessidades ou impingir custos humanos e naturais.
De acordo com esse relatório do WWF, a crise das nações ricas é a prova de que riqueza e infra-estrutura não são garantia contra escassez, poluição, mudanças climáticas e secas. Esse fato pode ser explicado pelos modelos de desenvolvimento agropecuário e urbano-industrial implementado nas últimas décadas. A provável origem desses problemas se deve ao imediatismo nas fases de elaboração e implantação dos diversos empreendimentos e atividades, com displicência, ou mesmo ausência, de planejamento ambiental, não considerando, por exemplo, as questões relativas à predição.
Há também de se considerar, que apesar do ressurgimento do tema da escassez e dos limites ecológicos no final do século XX, o fato é que a maior parte do pensamento social e econômico contemporâneo, especialmente no debate sobre o desenvolvimento, continua a adotar o enfoque flutuante que dominou os séculos de exuberância da civilização urbano-industrial.
Os principais mapas políticos que organizam os programas partidários, em todo o mundo, tiveram seus fundamentos teóricos calcados na visão do crescimento ilimitado. O novo paradigma do mundo moderno foi acompanhado de um amplo conjunto de transformações, que não se limitou ao aspecto cultural. A economia capitalista se revelou capaz de promover em alguns países um aumento crescente da produção, gerando um consumo de massas inédito na história da humanidade.
A configuração deste campo de alto consumo, que está restrito, bem entendido, ao universo minoritário dos países capitalistas avançados e das elites sociais dos demais países, gerou um dilema ecológico e político fundamental. Considere a famosa frase de Keynes (criador da Macroeconomia e um dos mais influentes economistas do século XX; suas idéias intervencionistas se chocaram com as doutrinas econômicas vigentes em sua época e estimularam a adoção de políticas intervencionistas sobre o funcionamento da economia): "A longo prazo estaremos todos mortos!"
Esta frase se tornou um mantra entre os operadores de commodities e derivativos nos mercados de capitais. Durante anos se foram treinados para que os negócios apresentassem resultados de curtíssimo prazo, já que, no longo prazo, estar-se-iam todos mortos. Agora se projetem esta frase no imaginário dos jovens pesquisadores, corretores e investidores para operações que envolvem 40, 60 e até mesmo 200 anos? Mitigar a poluição não acontece de imediato, posto que o meio ambiente tem uma dialética diferenciada. No entanto, esta lógica não compartilha com a matemática de um sistema que convencionou comprar de manhã e vender à tarde. Tudo é muito rápido. E o mundo das finanças gira "bilhões" que sequer tem tempo de compensar seus cheques.
No Brasil, o modelo urbano-industrial e agropecuário, infelizmente, tem adotado tal lógica e comportamento, que têm posto em risco a quantidade e a qualidade do capital natural, particularmente dos recursos edáficos e, conseqüentemente, dadas as suas inter-relações, dos ecossistemas aquáticos, entre outros, nas bacias hidrográficas do rio Preto e ribeirão Entre Ribeiros, afluentes do rio Paracatu. Nesse local, tem ocorrido a intensificação de atividades silviculturais, que substituem a vegetação nativa, como também a intensificação da agricultura irrigada, cuja participação no consumo de água se elevou de 78% para 93% do total da vazão consumida no período de 1970 a 2000.
A partir da ECO – 92, fortalece o conceito de Desenvolvimento Sustentável, que revela, inicialmente, a crescente insatisfação com a situação criada e imposta pelos atuais modelos vigentes de desenvolvimento e de produção advindos das atividades antrópicas. Na elaboração da Agenda 21 Brasileira, foi considerada fundamental que se promovam alterações nos modos de produção, necessitando, para isso, de uma definição nas políticas públicas que considerem o planejamento de médio e longo prazo.
A Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu 2008 como "O Ano do Planeta", o que representa, mundialmente, um marco histórico importantíssimo para um direcionamento enérgico das ações humanas em favor da preservação ambiental, da conservação dos recursos naturais e da qualidade de vida.
Por este motivo, os países, as grandes organizações, as instituições financeiras mundiais, os pesquisadores, os técnicos, os produtores, enfim, todos aqueles envolvidos com os sistemas produtivos, defrontam-se nos dias atuais com dois dos mais importantes desafios para a humanidade: a) usar de maneira eficiente os recursos na produção de alimentos - existe uma crescente consciência que o aumento da produção de alimentos deve estar associado a uma preocupação constante com o uso racional dos recursos tais como solo, água, energia e agroquímicos; e b) atender a tal demanda de forma sustentável, ou seja, aumentar a produtividade, preocupando-se com a conservação dos recursos naturais.
Portanto, os governos devem direcionar o estudo de políticas públicas no sentido de buscar soluções para ricos e pobres, que inclui, entre outros, saneamento ambiental, reparar infra-estruturas antigas, reduzir agentes contaminantes, mudar práticas de irrigação. Impõe-se a necessidade de esforço conjunto para: a) aumentar a capacidade de predição e prognóstico, por meio da integração contínua da ciência interdisciplinar; e b) praticar o planejamento e gerenciamento na área de recursos hídricos.
Para esse fim, está sendo desenvolvido um trabalho por este autor, já em fase de conclusão, que se propõe a desenvolver um modelo de oferta e demanda do uso da água baseado em princípios de dinâmica de sistemas, com o auxílio do software STELLA. Poderá ser utilizado em toda a Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, e mesmo extrapolado para as demais bacias brasileiras. A “ciência” Dinâmica de Sistemas é antes de tudo uma nova linguagem que permite expressar mais adequadamente as cadeias de eventos circulares existentes na natureza. Por intermédio da modelagem, utilizando-se de diversos tipos de diagramas (causais, estoque e fluxo), é possível expressar graficamente um sistema, possibilitando perceber mais claramente a complexidade dinâmica das relações entre as partes do mesmo.
A base dessa nova ciência se assenta nos conceitos do pensamento sistêmico, onde o princípio da interdependência demanda que mudanças em qualquer um dos componentes de um determinado sistema, direta ou indiretamente, estão associadas ou afetarão os demais componentes. Por intermédio de uma análise sistêmica dos recursos, poderão ser determinadas as principais variáveis e suas inter-relações, que poderá ser empregado para identificar as soluções mais adequadas aos requerimentos de conservação do solo e da água, aos aspectos ambientais e as necessidades ecológicas e sócio-econômicas e políticas de uma determinada região. Será uma ferramenta de auxílio à definição de políticas públicas de planejamento e predição para estimar futuras demandas e ofertas de Recursos Hídricos. Dessa forma, os usuários poderão entender como que os diversos cenários, atuais e futuros, afetarão o desempenho dos ecossistemas aquáticos e terrestres.

Publicação original em: www.ambientebrasil.com.br - agosto de 2008.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e da SEMAD - Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.