As previsíveis tragédias das chuvas de verão


* Por Maurício Novaes Souza
Em vários Estados e regiões do Brasil aconteceram ao final de 2008 e no início de 2009 os maiores desastres ambientais que atingiram a sociedade brasileira. As notícias sobre os episódios relatam um nível de precipitação pluviométrica acima da média histórica, os deslizamentos de encostas, o extravasamento dos rios do seu leito natural, a destruição de estradas, o soterramento e a inundação de cidades e fazendas, perdas humanas e materiais com prejuízos de centenas de milhões de reais.

Após o incidente, tentam procurar quem são os culpados: obra da natureza ou ações humanas inadequadas? Na verdade, o desmatamento da Mata Atlântica e a sua ocupação de forma irregular contribuíram para a tragédia geológica que se abateu sobre tais regiões. Na maioria das cidades brasileiras, inclusive aqui em Rio Pomba bem como em toda a Zona da Mata Mineira, as áreas de matas vêm sendo substituídas por áreas urbanizadas que impermeabilizam o solo e impedem a infiltração de água; e por pastagens, que em sua maioria se encontram degradadas, ambos contribuindo para a aceleração dos processos erosivos. Dessa forma, deslizamentos de terra inevitavelmente irão ocorrer, sendo apenas uma questão de tempo.

Considerando a região do Bioma Mata Atlântica, na época do descobrimento a floresta cobria cerca de 15% do território nacional - uma área de aproximadamente 1,29 milhão de quilômetros quadrados, em 17 estados brasileiros. Atualmente, apenas 6,90% desse total permanecem relativamente protegidos. O desmatamento da Mata Atlântica está diretamente ligado à expansão das cidades brasileiras, onde a sua ocupação tem sido sempre realizada de forma desordenada. Tais fatos ocorrem sempre com a histórica, acomodada, omissa e conivência dos agentes sociais públicos e privados, que a poderiam evitar e, ou, minimizar tais episódios.

No caso do Vale do Itajaí, SC, que foi a região mais afetada, as primeiras residências na região surgiram em meados do Século XIX, com a chegada dos europeus, que se instalaram próximos aos rios e, no Século XX, passaram a ocupar os morros e as encostas. Tal fato se repetiu no Rio de Janeiro, em Vitória, em Ubá, em Rio Pomba, ou seja, total ausência de planejamento municipal. O poder público só começa a se preocupar quando a situação se torna crítica, e infelizmente nesses momentos não existem mais alternativas viáveis, em face ao crescimento populacional e expansão urbana; aí fazem planos emergenciais e promessas.

A solução definitiva está na retirada das pessoas dessas áreas de encostas e margens de rios ocupadas irregularmente, transferindo-as para locais seguros. A questão do planejamento urbano é muito séria, principalmente quando se consideram as questões sociais, ou melhor, o caos social vislumbrados nas cidades de médio e grande porte. Onde se enquadram os movimentos ambientais nesse cenário? E o Ministério Público e do Meio Ambiente? Toda a questão está na prevenção e na “Gestão”. Infelizmente, sabemos que muitos outros trágicos eventos como estes surgirão e comoverão a população: será que são necessárias novas ocorrências para que as autoridades tomem as medidas necessárias?

Enfim, mesmo considerando a influência do componente natural que ocorre nessa época do ano, suas conseqüências mais graves poderiam ser evitadas com as modernas técnicas de previsão meteorológica e de planejamento. Contudo, sabe-se que a degradação da natureza atua em sinergia negativa com o desmatamento e a poluição do ar, dos rios e dos oceanos, afetando o ciclo da água e do carbono. Assim, as mudanças das classes de uso do solo e as mudanças climáticas aumentam tais impactos.
O fato que se deu foi extremamente triste, não apenas para a população diretamente afetada, mas para toda a população brasileira. É bom lembrar que a indústria e o comércio são, também, direta e indiretamente afetados. A lição que se devem extrair destes fenômenos é que eles não são apenas naturais. O ser humano deve olhar para si mesmo e questionar as práticas baseadas nas ações irracionais de destruição das encostas e agressão aos ecossistemas aquáticos, com a construção de rodovias, avenidas marginais, prédios de apartamentos, condomínios de luxo ou populares e “shoppings” comerciais. Estas ações causam desastres irreparáveis, inclusive ceifando vidas humanas. Devemos refletir sobre a necessidade urgente de abandono às concepções anacrônicas ligadas à produção e ao consumo, adotando a sustentabilidade sócio-ambiental nas ações públicas e privadas, em todos os níveis, do local ao global. Essas são as propostas do modelo guiado pelos princípios do “Desenvolvimento Sustentável”.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela UFV. É professor do IFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É consultor do IBAMA e Conselheiro do COPAM da Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.
Publicação original: INFORMACIRP - Associação comercial de Rio Pomba - fevereiro de 2009.

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