A economia global e os custos ambientais



* Por Maurício Novaes Souza

Desde o segundo semestre do ano anterior, em todo o mundo, a preocupação está voltada para a crise financeira americana. Verificam-se reflexos em todos os países do Planeta. Contudo, a questão ambiental, que deveria ser a prioridade posto ser a fonte de todos os recursos utilizados nos processos produtivos, vem sendo deixada sempre em segundo plano. Na prática, o velho discurso da necessidade de crescimento econômico para a geração de emprego e renda acaba prevalecendo. Ou seja, continua vigorando a visão imediatista, de curtíssimo prazo. De fato, a economia global está perdendo mais dinheiro com o desaparecimento das florestas do que com a atual crise financeira global, segundo conclusões de um estudo financiado pela União Européia.

Segundo dados dessa pesquisa, intitulada “A Economia dos Ecossistemas e Biodiversidade”, calcula-se que os desperdícios anuais com o desmatamento variam de US$ 2 trilhões a US$ 5 trilhões. O número inclui o valor de vários serviços oferecidos pelas florestas, como água limpa e a absorção do dióxido de carbono. O estudo foi discutido durante várias sessões do Congresso Mundial de Conservação, realizado em Barcelona. De acordo com o coordenador do relatório, Pava Sukhdev, o custo resultante da degradação da natureza ultrapassa o dos mercados financeiros globais.

Ainda cabe uma consideração sobre os custos ambientais: além de ser maior, ele é contínuo. De acordo com diversas fontes econômicas, enquanto as bolsas americanas perderam entre US$ 1 trilhão a US$ 1,5 trilhão, vários estudos apontam que as perdas com a destruição das florestas equivalem a 7% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Há de se considerar que a humanidade herdou um acúmulo de 3,8 bilhões de anos de capital natural: mantendo-se os padrões atuais de uso e degradação, muito pouco há de restar até o fim do século XXI. Nas últimas três décadas consumiu-se um terço dos recursos da Terra, ou seja, de sua riqueza natural.

Dessa forma, é preciso saber que à medida que as florestas e outros ecossistemas são destruídos, a natureza cessa de fornecer serviços que normalmente oferece de graça. Como conseqüência, o homem tem de passar a produzir tais serviços - seja pela construção de reservatórios ou de estruturas para seqüestrar dióxido de carbono, ou áreas para o plantio que antes estavam disponíveis naturalmente. Os serviços de armazenamento de água e da regulação do ciclo de carbono, entre outros, cria condição para um meio ambiente saudável, oferecendo não só água e ar limpos, chuvas, produtividade oceânica, solo fértil e elasticidade das bacias fluviais, como também certas funções menos valorizadas, mas imprescindíveis para a manutenção da sustentabilidade, tais como: a) o processamento de resíduos (naturais e industriais); b) a proteção contra os extremos do clima; e c) a regeneração atmosférica.

Por estas questões, o homem em suas atividades produtivas deve sempre considerar que os ecossistemas são sistemas abertos e integrados por todos os organismos vivos, inclusive ele próprio, e os elementos não viventes de um setor ambiental definido no tempo e no espaço, cujas propriedades globais de funcionamento (fluxo de energia e ciclagem da matéria) e auto-regulação (controle) derivam das relações entre todos os seus componentes, tanto pertencentes aos sistemas naturais, quanto aos criados ou modificados pelo Homem.

Apesar de não haver mais dúvidas com relação a essas questões, o homem continua interagindo com o ambiente à sua volta, modificando-o e transformando-o de acordo com suas necessidades: na indústria, no comércio e nas propriedades rurais. Os resultados dessas ações são facilmente perceptíveis ao longo de toda a biosfera. Esta interferência ocorre nos diversos níveis, agindo diferentemente sobre os componentes ambientais: ar, solo, água e seres vivos. Os reflexos, geralmente desastrosos, podem ser observados, por exemplo, nas atividades agropecuárias e florestais, causando profundas alterações na paisagem, em nível mundial. Nos sistemas urbanos também são encontradas marcas profundas da intervenção humana.

Para agravar ainda mais a situação, sabe-se que os gastos com a degradação do ambienterecaem principalmente sobre os mais pobres, que tiram boa parte de seu sustento diretamente dos ecossistemas naturais, como as florestas, principalmente nas áreas tropicais. Caso os políticos durante as suas legislaturas tivessem visão de médio e longo prazo, com propostas efetivas de cunho social e ambiental, deveriam considerar estudos como esse vislumbrando uma nova forma de criar políticas que financiem a proteção da natureza, em vez de permitir que o declínio de ecossistemas e espécies continue.
Publicado originalmente em abril, 2004: Jornal INFORMACIRP.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela UFV. É professor do IFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É consultor do IBAMA e Conselheiro do COPAM da Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

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