quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O mercado de trabalho e o ambiente: novos desafios para a formação profissional



Por Maurício Novaes Souza*

Os esforços mundiais estão voltados à busca de um modelo de produção que promova o “Desenvolvimento Sustentável”. Contudo, para alcançá-lo, é necessário que sejam criadas não apenas tecnologias limpas e apropriadas, mas é fundamental que se preparem pessoas competentes para gerenciá-las, capazes de promoverem um contexto de maior responsabilidade social e ambiental. Para isso, as empresas devem estar conscientes da necessidade de adotar práticas de gestão ambiental.

Tal fato se deve, principalmente, às profundas transformações do modelo econômico decorrentes da reestruturação produtiva, da integração mundial dos mercados financeiros, da internacionalização das economias, da desregulamentação e abertura dos mercados, com a quebra de barreiras protecionistas, em suas causas e conseqüências político-sociais. Tais mudanças vêm atingindo, de forma acelerada e diferenciada, sobretudo nas duas últimas décadas, amplos setores da população trabalhadora e os donos de empresas/indústrias.

Nessa busca, os gestores têm identificado o capital humano como o fator que mais contribui para que as empresas sustentem suas vantagens competitivas. É fato notório que o bem mais precioso de uma corporação é o conhecimento, o grande diferencial competitivo do mundo do trabalho. Ou seja, a economia atual está baseada no capital intelectual, no qual as pessoas é que fazem a diferença.

Todas essas considerações nos levam a refletir sobre as mudanças que têm ocorrido no ambiente das empresas e no foco de sua gestão refletindo na exigência das competências profissionais que elas necessitam e, também, nos centros de ensino, como os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFET), que formam esses profissionais. As empresas vêm procurando pessoas que saibam trabalhar em equipe, que demonstram equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional. Pessoas que tenham capacidade de quebrar paradigmas, de negociar, de se comunicar, de se modernizar e de aperfeiçoar continuamente o próprio aprendizado.

Será que os centros de pesquisa e ensino estão preparados para atenderem a essa demanda? Alguns estão preparados: em São João del-Rei temos agora o IF SEMG SJDR, que inicia suas atividades com três cursos técnicos que poderão contribuir definitivamente nesse sentido. Sua filosofia será a de aprimorar a competência de seus alunos, auxiliando-os a traçar um plano, não só para a sua carreira, mas principalmente, para sua vida emocional e profissional.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É Diretor Geral do IF SEMG campus São João del-Rei. E-mail: mauricios.novaes@ifsudeste.edu.br.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Mudanças Climáticas, Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável



*por Maurício Novaes Souza1 e Wantuelfer Fernandes Gonçalves2

A revista “Veja” lançou uma edição especial, no final de 2009, intitulada “O ano zero da economia sustentável”. De fato, a revista é muito interessante e, não intencionalmente, faz um diagnóstico da sociedade atual em relação ao tema (que poderia ter o título substituído por “conhecimento zero da economia sustentável”). Além disso, conforme sugere o título, aponta que em anos recentes, principalmente nas duas últimas décadas de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias limpas, deram origem a uma nova linha de pensamento e comportamento, que sugerem, ou possibilitam, o fim da relação dicotômica economia e ecologia. Mas será que, de fato, depois de todos esses acontecimentos recentes na política, na economia, nas atividades agroindustriais, entre tantos outros, estamos caminhando para um modelo direcionado ao desenvolvimento sustentável? Nas áreas urbanas e rurais?

Para quem é da área rural, pode-se perceber semelhanças com a maior parte das recomendações sugeridas pela revista “Veja” com o modelo agrícola de substituição de insumos: trata-se de “Agroecologia”. A ideia geral deste novo modelo agropecuário de produção é o de substituição das partes com distorções, e não o de redesenhar um sistema focando os hábitos como fator principal. Tal atitude inevitavelmente mudaria a postura das empresas. No entanto, deve-se ter bastante cautela ao sugerirmos esse novo modelo, posto que, em longo prazo, adotar medidas ineficientes, ou pouco pesquisadas, pode tornar o trabalho desse grupo que sugere tais mudanças, que são imprescindíveis, desacreditado, o que dificultaria ações futuras.

Contudo, depois do encontro de Copenhagen e do relatório acusatório dos cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, de dezembro de 2009, centenas de palestras, entrevistas e discursos foram proferidos por pessoas que, institucionalmente, são ou se sentem autoridades no assunto ambiental. Todas são unânimes em tratar o problema vivencial do planeta de uma forma inteiramente em desacordo com a realidade.... mas insistem em defender que o desenvolvimento deve ser feito de forma sustentável.

De fato, deveríamos nos sentir desconfortáveis ao ouvirmos alguém defender o desenvolvimento sustentável para simplesmente ficar bem com a classe econômica e com os ambientalistas. Uns o fazem na intenção de colocar o desenvolvimento materialista em destaque; outros, inadvertidamente, se deixam levar para a semântica que transformou a expressão em “sustentabilidade”, palavra que também é bandeira dos defensores da ecologia. Percebemos que aquele discurso está sendo dirigido a ingênuos, a quem compete apenas balançar a cabeça, como concordância cômoda e irracional.

Segundo o ambientalista Maurício Gomide, os participantes da engrenagem econômica repetem e defendem o mesmo bordão, por ser conveniente aos seus interesses de ganância. O que o planeta precisa, e com urgência, é da reversão civilizacional das atividades nocivas que o estão degradando. A sustentabilidade se fará naturalmente, pois será consequência de atitudes que sustentarão a capacidade planetária de prover os meios de vida à biodiversidade. Até o presente momento, é possível reverter o caos que se anuncia... no futuro, é “im”previsível.

Na Conferência de Copenhagen, em dezembro de 2009, os impasses trouxeram de volta discussões antigas, sobre formas de superar problemas como a exigência de consenso para decisões. Segundo W. Novaes, as alternativas já foram discutidas em outras Conferências (COPs), como a de criar uma organização mundial só para o meio ambiente, separada da ONU. Só que ela enfrentaria problemas semelhantes: como ter regras universais sem a concordância de todos os países? O fato é que a urgência de decisões é implacável. Ainda há poucos dias a Organização Meteorológica Mundial advertiu que esta primeira década do Século XXI está sendo e será a mais quente desde 1850, com temperatura média superior à da década de 1990, que já fora mais quente que a de 1980. Há uma corrida contra o tempo, que não está sendo ganha.

Para concluir, há de se tocar no mérito, a reportagem da revista “Veja” citada no início deste artigo abre espaço para a discussão desses assuntos, além de apontar tendências de mercado. Vale citar que a revista elegeu as 10 profissões mais importantes para o futuro, quando se pensa e se vislumbra o Desenvolvimento Sustentável: o perfil do agroecólogo se encaixa diretamente em sete (7) delas e indiretamente em mais uma (1).


1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF SEMG Rio Pomba e Diretor-Geral do IF SEMG São João del-Rei. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.


2. Graduando do Curso de Bacharel em Agroecologia do IF SEMG Rio Pomba. E-mail: wantuelfer@yahoo.com.br.

Produção Agroecológica e Desenvolvimento Rural Sustentável


*por Maurício Novaes Souza1 e Wantuelfer Fernandes Gonçalves2


A revista “Veja” lançou uma edição especial, no final de 2009, intitulada “O ano zero da economia sustentável”. De fato, a revista é muito interessante e, não intencionalmente, faz um diagnóstico da sociedade atual em relação ao tema (que poderia ter o título substituído por “conhecimento zero da economia sustentável”). Além disso, conforme sugere o título, aponta que em anos recentes, principalmente nas duas últimas décadas de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias limpas, deram origem a uma nova linha de pensamento e comportamento, que sugerem, ou possibilitam, o fim da relação dicotômica economia e ecologia. Mas será que, de fato, depois de todos esses acontecimentos recentes na política, na economia, nas atividades agroindustriais, entre tantos outros, estamos caminhando para um modelo direcionado ao desenvolvimento sustentável? Nas áreas urbanas e rurais?

Para quem é da área rural, pode-se perceber semelhanças com a maior parte das recomendações sugeridas pela revista “Veja” com o modelo agrícola de substituição de insumos: trata-se de “Agroecologia”. A ideia geral deste novo modelo agropecuário de produção é o de substituição das partes com distorções, e não o de redesenhar um sistema focando os hábitos como fator principal. Tal atitude inevitavelmente mudaria a postura das empresas. No entanto, deve-se ter bastante cautela ao sugerirmos esse novo modelo, posto que, em longo prazo, adotar medidas ineficientes, ou pouco pesquisadas, pode tornar o trabalho desse grupo que sugere tais mudanças, que são imprescindíveis, desacreditado, o que dificultaria ações futuras.

Contudo, depois do encontro de Copenhagen e do relatório acusatório dos cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, de dezembro de 2009, centenas de palestras, entrevistas e discursos foram proferidos por pessoas que, institucionalmente, são ou se sentem autoridades no assunto ambiental. Todas são unânimes em tratar o problema vivencial do planeta de uma forma inteiramente em desacordo com a realidade.... mas insistem em defender que o desenvolvimento deve ser feito de forma sustentável.

De fato, deveríamos nos sentir desconfortáveis ao ouvirmos alguém defender o desenvolvimento sustentável para simplesmente ficar bem com a classe econômica e com os ambientalistas. Uns o fazem na intenção de colocar o desenvolvimento materialista em destaque; outros, inadvertidamente, se deixam levar para a semântica que transformou a expressão em “sustentabilidade”, palavra que também é bandeira dos defensores da ecologia. Percebemos que aquele discurso está sendo dirigido a ingênuos, a quem compete apenas balançar a cabeça, como concordância cômoda e irracional.

Segundo o ambientalista Maurício Gomide, os participantes da engrenagem econômica repetem e defendem o mesmo bordão, por ser conveniente aos seus interesses de ganância. O que o planeta precisa, e com urgência, é da reversão civilizacional das atividades nocivas que o estão degradando. A sustentabilidade se fará naturalmente, pois será consequência de atitudes que sustentarão a capacidade planetária de prover os meios de vida à biodiversidade. Até o presente momento, é possível reverter o caos que se anuncia... no futuro, é “im”previsível.

Na Conferência de Copenhagen, em dezembro de 2009, os impasses trouxeram de volta discussões antigas, sobre formas de superar problemas como a exigência de consenso para decisões. Segundo W. Novaes, as alternativas já foram discutidas em outras Conferências (COPs), como a de criar uma organização mundial só para o meio ambiente, separada da ONU. Só que ela enfrentaria problemas semelhantes: como ter regras universais sem a concordância de todos os países? O fato é que a urgência de decisões é implacável. Ainda há poucos dias a Organização Meteorológica Mundial advertiu que esta primeira década do Século XXI está sendo e será a mais quente desde 1850, com temperatura média superior à da década de 1990, que já fora mais quente que a de 1980. Há uma corrida contra o tempo, que não está sendo ganha.

Para concluir, há de se tocar no mérito, a reportagem da revista “Veja” citada no início deste artigo abre espaço para a discussão desses assuntos, além de apontar tendências de mercado. O produtor rural de vanguarda é aquele que consegue perceber essa nova realidade. Vale citar que a revista elegeu as 10 profissões mais importantes para o futuro, quando se pensa e se vislumbra o Desenvolvimento Sustentável: o perfil do agroecólogo se encaixa diretamente em sete (7) delas e indiretamente em mais uma (1).


1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF SEMG Rio Pomba e Diretor-Geral do IF SEMG São João del-Rei. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.


2. Graduando do Curso de Bacharel em Agroecologia do IF SEMG Rio Pomba. E-mail: wantuelfer@yahoo.com.br.

Comércio varejista e o desenvolvimento sustentável



*por Maurício Novaes Souza


Meio ambiente e desenvolvimento sustentável são assuntos em evidência nos dias atuais. Isso acontece em função da preocupação com os limites da exploração dos recursos naturais e da necessidade de se buscar alternativas de desenvolvimento compatíveis com a sustentabilidade do planeta. Dessa forma, a sustentabilidade é um diferencial de posicionamento e competitividade, um objetivo para qualquer tipo de empresa. Deve estar no cerne do negócio: não é preciso deixar para depois ou esperar que outras prioridades estejam resolvidas para então pensar a respeito. Os resultados e benefícios serão reais e crescentes, tanto para a empresa, como para a sociedade, numa relação onde todos se beneficiam.

Contudo, é preciso reafirmar a importância da liderança na efetividade da estratégia de sustentabilidade das empresas: se quem decide não tiver esta visão ou não estiver convencido do valor para o negócio, se o fizer sem convicção, por modismo ou influência de terceiros, tudo isso não irá passar de ideologia ou de ideias acadêmicas de pouca utilidade concreta e efetiva.

Isso porque, na prática, integrar aspectos econômicos, ambientais e sociais diminui custos (principalmente futuros), reduzem riscos, evita desperdícios, gera lucros. Além disso, em um investimento de longo prazo, constrói relacionamentos sólidos e duradouros com o público da empresa, em especial colaboradores, clientes e comunidade do seu entorno, criando com eles vínculos de confiança e lealdade.

De que forma isso acontece? Tomemos o setor de varejo como exemplo, onde empresas de qualquer porte têm processos sustentáveis mais rentáveis para implantar. Começando pela construção “verde”, assim denominada porque privilegia a conservação/preservação ambiental como critério para projetos e obras de lojas, com iluminação natural, materiais de origem certificada, reuso de água, descarte de entulho em local apropriado, entre outros. A construção sustentável tem um custo, em média, 15% mais elevado, mas se justifica pela redução de custos operacionais em curto prazo. Em 50 anos, a redução poderá chegar a 80%. Nesse mesmo direcionamento, programas de eficiência energética não só reduzem despesas com iluminação e equipamentos de refrigeração, como também buscam formas alternativas de geração e utilização de energia.

Na logística e na operação da loja, iniciativas como o descarte de embalagens junto às cooperativas e indústrias de reciclagem, geram emprego e renda. Como consequência, trazem economias que, em muitos casos, são revertidas para investimentos sociais da empresa, especialmente ligados à educação de crianças e jovens, projetos comunitários e conscientização ambiental. Assim, estará apresentando novos contornos para um assunto de grande relevância para toda a sociedade, atravessado por inúmeras implicações, como a garantia das condições de sobrevivência e qualidade de vida das gerações presentes e futuras.

Há de se considerar que o impacto ambiental do varejo é pequeno, quando comparado ao produzido por indústrias que usam recursos naturais ou emitem enormes quantidades de gases que contribuem para o agravamento do efeito estufa. Assumindo, porém, um trabalho de mobilização e conscientização no consumo, muitas redes estimulam uma mudança cultural importante junto aos consumidores, comercializando sacolas retornáveis, disponibilizando caixas de papelão para acondicionar as compras, desenvolvendo sacolas plásticas mais resistentes: geralmente mais caras, contudo mais econômicas pela utilização em menor quantidade.

Com tanto ênfase sobre as questões ambientais, os consumidores têm se tornado cada vez mais conscientes, participando ativamente de programas de coleta seletiva de embalagens, adquirindo produtos orgânicos, de marca própria sustentáveis ou de manejo sustentável (provenientes de comunidades, cooperativas e associações). Junto aos fornecedores, há frentes importantes, como a negociação para redução de tamanho e utilização de matéria-prima certificada nas embalagens, exigências contratuais proibindo práticas trabalhistas ilegais e discriminatórias. Colaboradores também pode ser alvo de práticas interessantes, desde a adesão a programas de voluntariado e relacionamento comunitário até o estímulo à participação no processo de sustentabilidade: prática já exercida pela NATURA há bastante tempo. A empresa pode, ainda, posicionar-se como “parceira” na solução de problemas locais e no desenvolvimento das comunidades em que atua, investindo no futuro.

Hoje, as atividades econômicas e seus efeitos sobre o meio ambiente são questões debatidas mundialmente e há esforços bem-sucedidos, embora insuficientes, no sentido de compensar ou minimizar os impactos ambientais negativos. Desta forma, ligados na evolução da sociedade, percebendo essa nova realidade e conscientes do atual papel das empresas no mundo e, ainda, com sua crença na proposta da sustentabilidade, empresários e executivos de vanguarda irão comemorar algo ainda visto por muitos como inconciliável: resultados e benefícios para o negócio ao lado de resultados e benefícios para a sociedade e o ambiente.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF SEMG Rio Pomba e Diretor-Geral do IF SEMG São João del-Rei. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

sábado, 16 de janeiro de 2010

A insanidade do incentivo às PCH’s (Pequenas Centrais Hidrelétricas)


Por Leonardo Pereira Rezende1 e Maurício Novaes Souza2

A construção de pequenas centrais hidrelétricas (PCH’s), barragens com potência entre 1 mil kW a 30 mil kW, possui uma série de incentivos governamentais. Um dos principais a se destacar é a isenção do pagamento de royalties (compensação financeira pelo uso do recurso hídrico).

Com tanto incentivo, construir PCH’s se tornou um ótimo investimento, ainda mais quando se consegue financiamento dos governos, sobretudo federal. Tal fato tem gerado, em todo o Brasil, um número excessivo de PCH’s ao longo de nossos rios, repartindo-os, causando grandes impactos sociais e ambientais, o que tem gerado muitos questionamentos sobre os efeitos destes empreendimentos, ocasionando demandas, inclusive, no Poder Judiciário.

A exigência de estudos de impactos cumulativos tem sido um preceito acatado pelos órgãos ambientais, bem como nas decisões judiciais onde se questiona licenciamentos de empreendimentos hidrelétricos analisados de forma isolada em uma mesma bacia hidrográfica.

Faz-se conveniente esclarecer que, o incentivo de construção de PCH’s, face à isenção da contraprestação pecuniária, tem permitido que determinados trechos de rio em um só município possa receber várias “pequenas” hidrelétricas, com um agravante: todas isentas de royalties. Além disso, em muitos casos, somando-se as áreas alagadas pelos lagos das PCH’s em um determinado município, pode-se chegar a um alagamento maior que uma construção de uma Usina Hidrelétrica de potência superior a 30 mil kW. No entanto, este município permanece sem receber a citada contraprestação financeira.

Exemplo claro desta injustiça é o município de Guarani, em Minas Gerais, onde três PCH’s estão sendo construídas e mais uma, a quarta, já possui Licença Prévia do órgão ambiental estadual, sem que qualquer destes empreendimentos pague royalties.

Para agravar tal situação, o atual ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, quando no cargo de senador, apresentou projeto de lei no Senado (nº 274/08) para classificar como PCH barragens com potência entre 1mil kW a 50 mil kW. Referido projeto tramita na Câmara dos Deputados sob o nº 4404/2008, em caráter conclusivo. Como dito acima, atualmente, a Lei nº 9.427/96 fixa esses limites entre 1 mil kW a 30 mil kW.

Para justificar seu projeto o Senador alegou que ultimamente o país vem sendo ameaçado por uma crise de abastecimento de energia elétrica e que estes projetos de PCH’s já construídos trouxeram benefícios regionais, como geração de renda e de empregos, melhoria da infra-estrutura e aumento da arrecadação de impostos.

Devemos nos manifestar radicalmente contrários à aprovação deste projeto, pois aumentar a potência das barragens hidrelétricas, que serão classificadas como PCH’s, não irá gerar benefícios permanentes para os municípios atingidos pelos lagos destes empreendimentos e, demais disso, é questionável a real existência da ameaça de abastecimento de energia elétrica e dos citados benefícios alegados pelo Senador.

Causa-nos estranheza ainda o fato do Brasil não ter assinado documento de criação da Agência Internacional de Energias Renováveis (International Renewable Energy Agency – IRENA). Esta entidade, criada por iniciativa da Alemanha, Espanha e Dinamarca, vai buscar a adoção de medidas, nos diversos países, de geração de energias limpas e renováveis. Segundo matéria do site ENVOLVERDE, “O ato de criação da agência foi assinado no dia 26 de janeiro em Bonn, na Alemanha, por representantes de 75 países, entre eles França, Itália, Nigéria, Chile e Argentina. Segundo a assessoria de imprensa do Ministério de Relações Exteriores, o Brasil não assinou o documento porque os bicombustíveis e a energia hidroelétrica não seriam prestigiados pela agência, que terá um foco maior nas energias eólica e solar. Porém o país seguirá como observador e poderá em qualquer momento aderir a Irena.
(...) O maior incentivador da criação da agência, o parlamentar alemão Hermann Scheer, comenta a importância de um órgão como esse para romper as barreiras e os preconceitos com relação às novas energias. Durante muitos anos as energias renováveis foram subestimadas. Autoridades mundiais estavam desinformadas ou desinteressadas. Nós temos que finalmente ativar todo o potencial técnico, econômico e humano que possuímos e colher a energia que está praticamente em todo o lugar a nossa volta”.(...) Rüther comenta que o Brasil poderia ganhar muito com o apoio da agência internacional. O pesquisador usa como exemplo o PROINFA, que é um programa coordenado pelo MME com o objetivo de diversificar a matriz energética nacional. O PROINFA está avançando de maneira bastante empírica, na base da tentativa e erro. Se tivéssemos um conhecimento maior das experiências de outros países com o mesmo tipo de programa pouparíamos tempo e dinheiro. Esse conhecimento poderia ser fornecido pela Irena”.
Percebe-se, então, que o Brasil precisa avançar, e muito, no incentivo à geração de energias verdadeiramente menos impactantes. O que precisa ser feito é um planejamento energético por bacia hidrográfica, como prevê os estudos de Avaliação Ambiental Integrada (AAI) feitos pela EPE (Empresa de Pesquisa Energética), políticas públicas para se gerar economia de energia elétrica, e reais incentivos para o uso de energias verdadeiramente limpas e renováveis, tais como as eólicas, solar e de biomassa.

Enfim, aumentar a potência de PCH’s é uma insanidade que só incentivará a fragmentação do habitat de nossos rios, sem vantagens duradouras pelos impactos ambientais causados. Não se questiona, entretanto, da importância fundamental da produção de energia para que o crescimento seja estável e sustentável. Contudo, faz-se fundamental se preocupar não apenas com a economia, mas também com o meio ambiente, de forma sistêmica.

Tais questões devem ser vistas considerando os aspectos econômico, social e ambiental, todos interligados e interdependentes. Não podem ser vistos como se fossem atividades dicotômicas. Agindo dessa forma, de fato preocupados com a sociedade e o ambiente, o crescimento seria um subproduto do modelo de desenvolvimento, cuja finalidade maior deveria ser o equilíbrio social e ambiental local, acima dos interesses dos grandes agentes econômicos e políticos.

É fundamental que se revertam a enorme degradação social e ambiental em que nos encontramos. Atitudes simples, como cortar o desperdício e fazer atualização tecnológica da infra-estrutura de energia já existente, com certeza, a oferta seria substancialmente aumentada, sem que fosse necessária a construção do equívoco conhecido por PCH’s.


1. Advogado, membro do NACAB (Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens) e autor dos livros “Dano Moral e Licenciamento Ambiental de Barragens Hidrelétricas” (Ed. Juruá) e “Avanços e Contradições do Licenciamento Ambiental de Barragens Hidrelétricas” (Ed. Fórum).

2. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IFET Rio Pomba e Diretor-Geral do IFET São João del-Rei. É Conselheiro do COPAM e do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

É possível existir “Desenvolvimento Sustentável”?


*por Maurício Novaes Souza1 e Wantuelfer Fernandes Gonçalves2


A famosa revista “Veja” lançou uma edição especial, no final de 2009, intitulada “O ano zero da economia sustentável”. De fato, a revista está muito interessante e, não intencionalmente, faz um diagnóstico da sociedade atual em relação ao tema (que poderia ter o título trocado por “conhecimento zero da economia sustentável”). Além disso, conforme sugere o título, aponta que em anos recentes, principalmente as duas últimas décadas de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias limpas, deram origem a uma nova linha de pensamento e comportamento: economia e ecologia em sociedade... Sugere desenvolvimento sustentável?

Em tempos recentes, todas as responsabilidades para reestruturação harmônica global, vêm sendo transferidas para a sociedade e as empresas. Para quem é da área rural, pode-se perceber semelhanças com a maior parte das propostas sugeridas pela revista com o modelo agrícola de substituição de insumos, proposta da “Agroecologia”, inclusive citado na revista. A ideia geral é de se substituir as partes com distorções, e não redesenhar um sistema focando, principalmente, os hábitos como fator principal, pois isso inevitavelmente já mudaria a postura das empresas. Em longo prazo, adotar medidas ineficientes pode tornar o trabalho desse grupo que sugere tais mudanças, que são imprescindíveis, desacreditado, o que dificultaria ações futuras.

Contudo, depois do encontro de Copenhagen e do relatório acusatório dos cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, de dezembro de 2009, já ouvimos e lemos centenas de palestras, entrevistas, informações, discursos, proferidos por pessoas que, institucionalmente, são ou se sentem autoridades no assunto ambiental. Todas são unânimes em tratar o problema vivencial do planeta de uma forma inteiramente em desacordo com a realidade. Pior ainda: defendem que o desenvolvimento deve ser feito de forma sustentável.

De fato, deveríamos nos sentir desconfortáveis ao ouvirmos alguém defender o desenvolvimento sustentável para simplesmente ficar bem com a classe econômica e com os ambientalistas. Uns o fazem na intenção de colocar o desenvolvimento materialista em destaque. Outros, inadvertidamente, se deixam levar para a semântica que transformou a expressão em “sustentabilidade”, palavra que também é bandeira dos defensores da ecologia. Percebemos que aquele discurso está sendo dirigido a ingênuos, a quem compete apenas balançar a cabeça, como concordância cômoda e irracional.

Os participantes da engrenagem econômica repetem e defendem o mesmo bordão, por ser conveniente aos seus interesses de ganância. O que o planeta precisa, e com urgência, é da reversão civilizacional das atividades nocivas que o estão degradando. A sustentabilidade se fará naturalmente, pois será consequência de atitudes que sustentarão a capacidade planetária de prover os meios de vida à biodiversidade. Até o momento, é possível reverter o caos que se anuncia... Daqui a vinte anos a sentença já estará dada.

Na Conferência de Copenhagen, os impasses trouxeram de volta discussões antigas, sobre formas de superar problemas como a exigência de consenso para decisões. Mas as alternativas já foram discutidas em outras Conferências (COPs), como a de criar uma organização mundial só para o meio ambiente, separada da ONU. Só que ela enfrentaria problemas semelhantes: como ter regras universais sem a concordância de todos os países? O fato é que a urgência de decisões é implacável. Ainda há poucos dias a Organização Meteorológica Mundial advertiu que esta primeira década do Século XXI está sendo e será a mais quente desde 1850, com temperatura média superior à da década de 1990, que já fora mais quente que a de 1980. Há uma corrida contra o tempo, que não está sendo ganha.

No entanto, há de se tocar no mérito, a reportagem comentada da revista “Veja” no início deste artigo abre espaço para a discussão desses assuntos, além de apontar tendências de mercado: vale citar que a revista elegeu as 10 profissões mais importantes para o futuro, quando se pensa e se vislumbra o Desenvolvimento Sustentável: o perfil do agroecólogo se encaixa diretamente em 7 delas e indiretamente em 1 (as outras duas eram instalador de células fotovoltaicas e de coletores eólicos).

1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF SEMG Rio Pomba e Diretor-Geral do IF SEMG São João del-Rei. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

2. Graduando do Curso de Bacharel em Agroecologia do IF SEMG Rio Pomba. E-mail: wantuelfer@yahoo.com.br.