sexta-feira, 30 de abril de 2010

Questões Educacionais e culturais - SOLETRANDO 2010

“KIRSCH” É POBREZA VOCABULAR

* Por DALVA DIAS MAGALHÃES

O combate ao estrangeirismo na Língua Portuguesa vem sendo alvo de discussões ao longo da década. Essa mania de utilizar palavras e expressões em outras línguas foi ganhando dimensão e tornou-se comum na paisagem urbana brasileira.

Em 2001, o deputado Aldo Rebelo criou um projeto de lei combatendo tal uso, o que provocou polêmica nacional. Para muitos era difícil condenar ações que promovessem a defesa do idioma.

No entanto, defender e valorizar a Língua como Patrimônio Nacional e elemento de identidade mais importante que a própria Bandeira é tarefa de todos que dela fazem uso – em especial – programas de caráter educativo como o quadro “SOLETRANDO’, do Caldeirão do Hulck , da Rede Globo de Televisão.

Vale lembrar ainda a orientação dada por alguns mestres da Língua Portuguesa para se evitar o uso de certos estrangeirismos como forma de valorização da cultura e preservação das raízes.Tais palavras vão sendo inseridas no contexto da língua por fatores diversos: econômicos, culturais ou até mesmo por sermos um país que respira até hoje resquícios de colônia e, naturalmente, não consegue se firmar como nação independente.

Desta forma o quadro “ SOLETRANDO” que prima pelo bom uso do Português, concedendo oportunidades a estudantes de escolas públicas e buscando talentos escondidos em todos os rincões deste imenso país, eliminar o Estado de Minas Gerais, através de seu representante Daniel Nepomuceno Coutinho, utilizando um vocábulo de origem alemã, desconhecido pela maioria dos brasileiros, constitui uma imensa pobreza vocabular.

Ele que demonstrou segurança no domínio da Língua Portuguesa --- com suas peculiaridades ortográficas de maior ou menor complexidade --- e ultrapassou até mesmo os limites do Novo Acordo Ortográfico vigente, num talento todo especial.

Ao depararmos com um vasto universo cultural contido nos clássicos da Literatura Brasileira, através de obras e autores imortais como, por exemplo, o nacionalismo de José de Alencar e o regionalismo de Guimarães Rosa, até a originalidade de João Ubaldo Ribeiro e Raquel de Queirós --- viajando pelas escolas literárias do Trovadorismo até a contemporaneidade ---, nos perderíamos num labirinto de infinitas palavras, dispensando qualquer estrangeirismo como “ KIRSCH”, por exemplo. Seria ainda faltar com a ética o uso da palavra cujo significado é inadequado em um programa dedicado a crianças e adolescentes. Tal bebida aguçou a curiosidade de alguns de nossos alunos do Ensino Fundamental II que despertaram o desejo de prová-la.

Detentor de um profundo conhecimento vocabular, o garoto Daniel dificilmente seria vencido por qualquer palavra, desde que fosse de origem portuguesa. E palavras é que não faltam, é claro. Portanto ele certamente é e sempre será motivo de orgulho para todos os mineiros e, em especial, para nós cidadãos barbacenenses que o elegemos nosso pequeno grande Campeão!
Quanto à seleção do programa, creio que tais palavras possam colocar em xeque a credibilidade do quadro bem como seu caráter de seriedade e imparcialidade.Deixo a sugestão de que nos próximos programas a palavra soletrada seja do mesmo nível de dificuldade para os três finalistas. Creio que será humanamente mais justo e politicamente mais correto.


* DALVA DIAS MAGALHÃES
PROFESSORA DE LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURA BRASILEIRA
ESCOLA ESTADUAL ADELAIDE BIAS FORTES
BARBACENA – MINAS GERAIS

Fonte: Prefeitura Municipal de Barbacena

Comentários da Professora Ozana* à Maria Angélica Alves da Silva (Diretora de Desenvolvimento Institucional do IF SUDESTE MG campus São João del Rei,

Eu gostaria que as considerações abaixo fossem lidas pela autora do texto, professora Dalva, mas não sei como fazer chegar até ela. Porém servem de discussão para pessoas interessadas em educação como nós duas. Aí vão alguns pontos:

1 - caráter educativo - não sei se um quadro que prima pela "decoreba" (afinal de contas regras de ortografia são, no fundo, isso mesmo) é tão educativo assim. Não vejo nesse quadro uma discussão sobre linguagem (em qualquer aspecto, inclusive ortográfico), literatura, cultura nacional. São sorteadas palavras aleatoriamente para que os meninos soletrem o que memorizaram;

2 - defender a língua nacional - isso não se faz por decreto, lei, regulamentação ou qualquer coisa do gênero como desejou o deputado Rebelo. Só existe algo que pode fazer com que valorizemos nosso idioma: EDUCAÇÃO;

3 - somos um país periférico, ex-colônia, sob imensa influência econômica e cultural (aí incluída a linguística) norte-americana. Mais uma vez, todos esses males só serão sanados com EDUCAÇÃO;

4 - inserção de estrangeirismos - isso acontece em qualquer idioma, sempre aconteceu. Alguém se lembra hoje que "jaleco" é palavra importada do árabe? Isso porque a península Ibérica sofreu aproximadamente 700 anos de dominação árabe bem antes de Cabral aportar por aqui. Dessa forma, o português e o espanhol estão "infestados" de termos de origem árabe. E mais, quem diz que "blitz" veio do alemão? E hoje então, na era da informação, o contato linguístico é imensurável, impossível não haver trocas, assimilações. Os falantes da língua acabam por filtrar aquilo que é útil e descartar o inútil;

5 - a palavra "kirsch" está dicionarizada, isso quer dizer que ela não é tão estranha assim aos brasileiros, em alguma época, em algum lugar ela foi/é bastante utilizada, a ponto de merecer um lugar no dicionário, há inclusive a forma aportuguesada "quirche";

6- parece que em uma( ou em todas) fases do programa um escritor é homenageado e as palavras são retiradas das obras de tal autor. Não seria o caso de "kirsch"?

7 - usar palavras de origem portuguesa - se isso fosse uma regra, inúmeras palavras teriam de ser cortadas: as de origem árabe (ex., almeirão), as originárias das línguas indígenas (ex. abacaxi, itu), das línguas africanas (fubá) e tantas outras de Guimarães Rosa (formadas por uma miscelânea). Isso parece um tanto quanto xenófobo;

8- primar pelo bom uso do português - será mesmo? Soletrar palavras é fazer bom uso do português? Será que o programa faz isso? Prima e incentiva pelo bom uso do português? E o que é bom uso do português? Para quem? Em que circunstâncias. Falar "valeu brou" é um ótimo uso do português para os surfistas na praia;

9- ética - essa discussão sobre mídia e ética é muito looooonga... Não sei se o uso momentâneo da palavra já seria o suficiente para incitar os meninos a provar a tal bebida. O que dizer então das bailarinas do programa com roupas minúsculas, incita os meninos a quê?

10 - competência - nem de longe discutir a competência (de memorização principalmente) do menino, aliás de todos que chegaram lá, afinal eles passaram por seletivas e são competentes com certeza;

11 - "sacanagem" é claro que é uma "tremenda sacanagem" querer que um adolescente soletre a desconhecidíssima e difícil "kirsch";

12 - nível de dificuldade - será que o nível de dificuldade foi diferente para os três candidatos? Será que as palavras dos outros eram mais fáceis? Fizeram isso de propósito com o menino Daniel?

13- emocionalismo - se o aluno fosse meu (como parece ter sido ou ainda é da professora Dalva) eu também o defenderia com "unhas e dentes", mas usaria apenas o argumento 11.



* OZANA APARECIDA DO SACRAMENTO
Professora de língua portuguesa, inglesa e literatura brasileira do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Sudeste de Minas Gerais campus São João del Rei
SÃO JOÃO DEL REI – MINAS GERAIS
E-mail: ozanaap@yahoo.com.br

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Mudanças climáticas e seus efeitos sócio-ambientais: Crise de valores e de percepção

*por Maurício Novaes Souza


As mudanças climáticas e seus efeitos estão nas notícias de toda a imprensa mundial. Isso porque o seu agravamento se acelerou em quase todos os últimos 30 anos. De fato, o sistema climático está mudando na direção do aquecimento do planeta. Ou seja, vivem-se essa realidade e poucos sabem o que está acontecendo. Esse artigo tem a intenção de apresentar uma fotografia instantânea do aquecimento global para ajudar na compreensão do que são e quem são os responsáveis pelas questões climáticas. Muitas respostas ainda não existem, mas a verdade é que o desmatamento e a poluição continuam aumentando, acelera-se a acidez dos oceanos, e se agravam a frequência de eventos climáticos extremos.

A cada dia, temos a sensação de que vivemos uma catástrofe nova; ou simplesmente nos perguntamos se já vimos tais cenas degradantes no ano anterior, como no caso das enchentes! Será que elas só acontecem nos dias atuais? De fato, o planeta Terra conheceu no passado catástrofes naturais, como o fim da época primária que significou a destruição de 95% das espécies vivas. A novidade é que hoje está a caminho uma catástrofe resultante do acelerado desenvolvimento humano. O consumo excessivo associado ao total descuido é um processo combinado que culminará com a destruição do planeta. Sugere-se que ocorrerá uma catástrofe geral ou várias catástrofes combinadas.

Ou seja, a permanecer como está, o desastre se anuncia. Ficam, então, duas perguntas: o povo, o governo, sabe o que está acontecendo com relação às mudanças climáticas? É possível reverter tal situação? As respostas são ainda imprecisas, mas não se sabe efetivamente como... Mas se tem a certeza que não será fácil. Primeiro porque não se podem mudar os fatos a partir de uma decisão pessoal, ou mesmo de uma “única” decisão coletiva. Sabe-se que toda grande mudança tem um peso e uma forma: por exemplo, as denúncias contra a mundialização do capitalismo são boas, mas não basta denunciar, é preciso anunciar. Há de se considera que a enunciação não é um programa, é uma ideia mestra. Por exemplo, deve-se insistir sobre a qualidade da vida, não sobre a quantidade. Fica outra pergunta: qual deverá ser a política da civilização para se atingir o tão desejado equilíbrio sócio-ambiental? Com certeza, o rumo não é esse que estão se seguindo... Precisam-se buscar e seguir caminhos que sejam sustentáveis.

Na conferência do clima realizada na Dinamarca, no mês de dezembro passado, falaram do clima de desesperança que pesa sobre a humanidade. De fato, vivem-se uma enorme crise de percepção. As empresas/indústrias querem produzir cada vez mais, o sistema financeiro ganhar também cada vez mais, e a população aceita esse modelo com naturalidade – esperam que os políticos façam algo para mudar. Mas será que a política pode reverter tal processo? Será que os políticos têm interesse de que tal processo se reverta? Quem sabe!!! As velhas gerações têm a sensação de que foram enganadas por promessas que anunciavam uma sociedade democrática, harmoniosa, civilizada; no progresso como lei da história. Tudo isso se desintegrou e hoje os jovens estão totalmente alienados e desorientados: de fato, vive-se uma enorme crise de percepção associada a uma maior ainda crise de valores. Como resultado, uma crise sócio-ambiental sem precedentes.

Sabe-se que, historicamente, apenas a política não é capaz de trazer harmonia. É preciso que se tenham momentos de grandeza para que haja esperança. E os intelectuais, a academia, o comércio e a indústria, a comunidade, o que devem fazer? O papel de todos é fundamental. Devem colocar sobre a mesa os problemas fundamentais, e não fazê-lo de maneira superficial como vem sendo feito. Está havendo excesso de postergação. O governo brasileiro já conhece o problema das mudanças climáticas e o efeito que terá no clima, na economia e na sociedade brasileira em geral. O passo seguinte é que coordene uma iniciativa que faça frente ao fenômeno, envolvendo toda a sociedade, já que o problema afetará a todos.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É Diretor Geral do IF Sudeste de Minas campus São João del-Rei. E-mail: mauricios.novaes@ifsudeste.edu.br.


Fonte: www.ecoclima.com.br.

O eucalipto, o pinus e os sistemas agroflorestais: sustentabilidade e renda

* Por Maurício Novaes Souza1 e Silvane de Almeida Campos2


A alternativa de se utilizar de madeira proveniente de florestas nativas não se aplica mais ao atual modelo de sustentabilidade. Neste contexto, torna-se extremamente necessário que a sociedade passe a fazer uso de madeira proveniente de reflorestamentos, utilizando-se de espécies como o Eucalyptus sp. e Pinus sp. Em várias regiões do Brasil, o plantio destas florestas tem sido uma atividade cada vez mais frequente em pequenas e médias propriedades rurais.

O eucalipto tem sido escolhido devido ao seu acelerado crescimento aliado à multiplicidade de usos de sua madeira. Contudo, para que o empreendimento florestal seja conduzido com sucesso, há necessidade de se fazer um bom planejamento e adotar práticas silviculturais, tais como produção ou compra de mudas, preparo do solo, adubações, plantio e tratos culturais (capinas, desrama), além de conhecer as exigências de clima e solo das espécies a serem cultivadas. Os sistemas agroflorestais, tais como o silvipastoril e o agrossilvipastoril, enquadram-se neste modelo de produção mais sustentável.

O Sistema silvipastoril é uma modalidade que envolve consorciações de espécies arbóreas com pastagem, em uma mesma área, para a criação de animais domésticos ou silvestres. A importância deste sistema de produção pode ser evidenciada, principalmente, pelo (a): aumento da biodiversidade; produção de sombra, proporcionando um ambiente favorável aos animais; oferecimento de suplementação alimentar para os animais por meio de árvores forrageiras e, ou, frutíferas; fornecimento de madeira, lenha, postes, moirões que podem ser utilizados na propriedade rural e, ou, produtos de base florestal com agregação de valor econômico; diversificação de produtos florestais e pecuários na unidade produtiva; melhoria das qualidades físicas e químicas do solo; obtenção de receita adicional; controle da erosão; aumento do conteúdo de água no solo; oferta de pasto de melhor qualidade no período da seca; aumento na retenção de carbono; melhor aproveitamento da mão-de-obra na propriedade; melhoria nas condições para flora e fauna.

O produtor rural que implantar o Sistema Silvipastoril em sua propriedade terá inúmeros benefícios advindos deste sistema de produção em relação ao sub-bosque de reflorestamento de Eucalyptus sp. ou Pinus sp. estabelecido em modelo de monocultura, tais como: controle de vegetação espontânea proporcionado pelo pastejo, maior facilidade no controle de formigas cortadeiras, redução de gastos com mão-de-obra e herbicidas; melhor controle de incêndios florestais e obtenção de receita adicional com a venda dos animais. Os sistemas silvipastoris têm mostrado que a integração de animais aos reflorestamentos de Eucalyptus sp. reduz os custos de manutenção da floresta sem prejudicar o crescimento e a sobrevivência das árvores, desde que se observe a altura mínima das árvores (2,0m), no momento da introdução dos animais no sistema.

Tornam-se necessários os conhecimentos agronômicos das espécies de forrageiras a serem utilizadas nesta integração. O eucalipto é uma espécie adequada para as práticas silvipastoris, pois apresenta copas estreitas que deixam penetrar razoável quantidade de luz direta até o nível do solo, permitindo o desenvolvimento de plantas forrageiras e, ou, leguminosas (necessária para incrementar o aporte de nitrogênio ao ecossistema), quando em espaçamento e manejo adequados.

O sistema agrossilvipastoril é um dos sistemas agroflorestais mais completos. Contemplam consórcios com componentes arbóreos, agrícolas e forrageiros/animais, implantados e integrados em uma mesma área, em uma sequência temporal de atividades. Ao estabelecer esta modalidade de sistema produtivo, deve-se levar em consideração o espaçamento entre as espécies arbóreas e culturas agrícolas (arroz, milho, feijão, soja) nos primeiros anos e a pastagem a partir do terceiro ano. As linhas do eucalipto são plantadas no sentido leste-oeste, para obter maior insolação às culturas consorciadas nas suas entrelinhas. Os restos culturais deverão ser incorporados ao solo a fim de promover a ciclagem de nutrientes. É importante ressaltar que para o sucesso deste empreendimento agrossilvipastoril é necessário que, ao longo dos anos de implantação e manejo, sejam respeitadas as recomendações técnicas regionais prescritas para cada uma das espécies consorciadas, em cada uma de suas etapas de desenvolvimento.

Em relação ao eucalipto é desejável que se utilizem clones adaptados às condições de clima e solo locais, produtivos e de qualidade superior de madeira para fins de usos múltiplos. A aplicação do eucalipto ou pinus em sistemas silvipastoris e agrossilvipastoris é uma alternativa que busca atender a demanda por produtos florestais, garantindo sustentabilidade financeira aos produtores rurais que adotaram este modelo de produção ao longo da cadeia produtiva de todos os componentes (culturas agrícolas, arbóreas, animais) integrados, além do incremento de renda de suas propriedades.

1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor-Geral do IF Sudeste MG campus São João Del Rei. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

2. Técnica em Meio Ambiente e graduanda do Curso de Bacharel em Agroecologia do IFET/RIO POMBA. E-mail: silvaneacampos@yahoo.com.br.