Desafios da construção civil e do mercado imobiliário: sustentabilidade e responsabilidade socioambiental


* Por Maurício Novaes Souza

A natureza era considerada fonte inesgotável de recursos até meados do Século XX. Acreditava-se que existia para ser estudada, compreendida e explorada, desde que fosse utilizada em benefício da humanidade e suprisse seus ilimitados desejos. Observa-se o eterno dilema entre desenvolvimento econômico e preservação/conservação da natureza. Para agravar a situação, o avanço tecnológico apontava que existiriam soluções para todos os problemas. Depois de enorme degradação resultante de tais procedimentos e pensamentos, a sustentabilidade deixou de ser modismo e desponta como tendência no mundo para um novo modelo de desenvolvimento econômico, para uma “economia verde”, inclusiva e responsável.

Nos dias atuais, as lideranças mais responsáveis, sejam elas oriundas da administração pública, do meio empresarial ou do terceiro setor, não divergem sobre a necessidade de continuarmos a gerar atividade econômica que permita garantir a sobrevivência de um planeta que passará dos atuais 7 bilhões de habitantes para a casa dos 9 bilhões em um horizonte inferior a 30 anos. Aliás, o ano de 2010 representou um marco no qual pela primeira vez na história da humanidade a população urbana superou a população rural. Recentemente, o cenário mundial tem sido pautado por exigências de todos os envolvidos (stakeholders): sociedade civil, investidores, financiadores e consumidores, que obrigam as empresas a considerarem impacto de suas atividades.

No setor da construção civil, uma das atividades que mais geram resíduos e altera o meio ambiente, as exigências se acentuam pelo elevado impacto ambiental e social das atividades da extração de matérias-primas, fabricação de materiais, projeto, construção e uso e operação de edificações, empreendimentos e obras pesadas, até ao final da vida útil das edificações. A sustentabilidade, no entanto, não se restringe às questões ambientais. Os resultados financeiros das empresas e os resultados sociais gerados pelas empresas, permeados pela ética e responsabilidade social e empresarial, são fundamentais para o desenvolvimento sustentável do setor da construção e do mercado imobiliário.

Na elaboração da “Agenda 21”, nasceu um movimento denominado de “Construção Sustentável”, que visa o aumento das oportunidades ambientais para as gerações futuras e que consiste em uma estratégia ambiental com visão holística. Repensa toda a cadeia produtiva e leva em consideração os processos produtivos, com preocupações extensíveis à saúde dos trabalhadores envolvidos no processo e considera os consumidores finais das edificações. Fundamenta-se na redução da poluição, na economia de energia e água, na minimização da liberação de materiais perigosos no ambiente, na diminuição da pressão de consumos sobre matérias-primas naturais, no aprimoramento das condições de segurança e saúde dos trabalhadores, e na qualidade e custo das construções para os usuários finais.

A boa notícia é que os setores da construção e do mercado imobiliário, no Brasil e em diversos países do Planeta, vêm assumindo práticas sustentáveis especialmente em empreendimentos, projetos, materiais e obras e aos poucos vem incorporando a sustentabilidade nas empresas. Já existem experiências e casos de sucesso nos Estados Unidos e na França em desenvolvimento urbano e bairros sustentáveis que adotaram as recomendações surgidas na “ECO 92”. Esta tendência deve se ampliar no setor da construção brasileira, já que a construção vive um momento extremamente rico em oportunidades para as empresas que queiram se diferenciar e assumir práticas de sustentabilidade: os indicadores de crescimento da economia são animadores, o mercado imobiliário está em franca expansão, os programas públicos permitiram a entrada de novos segmentos sociais no mercado, além do turismo que será estimulado pela Copa de 2014 e pelas Olimpíadas de 2016, com muitos investimentos em infraestrutura e mobilidade urbana.

O atual momento exige que as empresas e os empresários se tornem cada vez mais aptos a compreenderem e participarem das mudanças estruturais que abrangem os aspectos econômicos, ambientais e sociais. As companhias estão sendo incentivadas pela administração pública a gerenciar seu sistema produtivo de tal forma que se evite a ocorrência de impactos ambientais e sociais, por meio de estratégias apropriadas. Nos últimos anos houve progressos surpreendentes na área de gerenciamento ambiental. Mais recentemente, o mesmo ocorreu quanto à conscientização sobre a responsabilidade social e a crescente compreensão dos desafios de se produzir sustentavelmente.

Sabe-se que para atingir esse objetivo, no médio e longo prazo, dependerá da promoção do debate e da reflexão sobre aspetos importantes da sustentabilidade no mercado imobiliário e no setor da construção, e da capacidade das empresas em reverter a disposição de promover o crescimento econômico a qualquer custo. Deverão possuir criatividade e condições internas que possam transformar as restrições e ameaças ambientais em oportunidades de negócios. Várias empresas têm demonstrado que é possível ganhar dinheiro, proteger o meio ambiente e ser socialmente responsável: é uma questão de opção e atitude.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental; e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

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