A industrialização e a sustentabilidade

* Por Maurício Novaes Souza

Com as cidades brasileiras cada vez mais populosas (84% da população brasileira vive em zonas urbanas, segundo o último censo do IBGE) e com a expansão acelerada da economia (as projeções apontam expansão de cerca de 4,5% em 2011), falar das condições ambientais não é mais assunto apenas para ambientalistas. O crescimento das cidades e da economia gera grandes impactos ambientais, como maior emissão de poluentes, produção de lixo e degradação dos recursos naturais, afetando toda a população. Assim, a pauta sobre meio ambiente deve ser tema de discussão não somente no governo, mas também nas escolas, nas empresas e na sociedade como um todo. Nos dias atuais, a industrialização ocupa um papel de extrema importância do ponto de vista econômico, social e ambiental.

De acordo com Amilcar Baiardi, professor titular da UFBA e da UFRB, em entrevista ao Jornal da Ciência, a expansão industrial no Brasil adotou um modelo de crescimento econômico baseado essencialmente no setor secundário, revelando-se setorialmente centralizador, espacialmente concentrador, urbanamente aglomerador e socialmente excludente. Na primeira metade na década dos anos 1950, quando a economia do país ingressava na fase de implantação da indústria de bens de capital e completava o ciclo da industrialização tardiamente, um amplo espectro do pensamento nacional defendia a industrialização a qualquer custo, que perdurou por décadas. Poucos, nessa época, criticavam a falta de planejamento para promover a integração e reduzir a capacidade ociosa da economia nacional. Antecipava, assim, os efeitos perversos da concentração industrial, como a formação de megalópoles e os desequilíbrios regionais, antevendo a possibilidade de esgotamento do padrão de industrialização baseado na substituição de importações. Poucos céticos recomendavam uma política de desenvolvimento fundamentada nos usos dos recursos ociosos, a qual suporia, dentre outras medidas, a reforma agrária, o povoamento ao longo dos eixos rodoviários e a desconcentração produtiva, setorial e regionalmente.

Atualmente, existe a necessidade de intervenções que restaurem a competitividade da indústria convencional. Contudo, pretende-se reverter a chamada "desindustrialização" com receituário contaminado de subsídios e, para modernizar o discurso, anuncia-se a criação de um órgão que seria a ponte entre a pesquisa e o desenvolvimento (P&D) e as empresas do setor secundário. Esquece-se também, quando se propõe a analogia tendo em vista o sucesso da EMBRAPA, que o setor agropecuário por ser menos concentrado e com poucas barreiras à entrada, sabe-se atualmente, o que vale para setor agropecuário não se aplica mecanicamente ao setor secundário.

A primeira realidade a se considerar quando se pensa em macropolíticas de incentivo à produção, é não se considerar como anomalia que a composição do PIB esteja mudando, favorecendo aos negócios derivados da agricultura, silvicultura e mineração e reduzindo participação dos setores convencionais da indústria brasileira. Há de se considerar que a recente onda de valorização de matérias primas e commodities tende a se manter e o Brasil pode se beneficiar exponencialmente, se prosseguir incorporando inovações de processo e ampliar a incorporação de inovações de produto aos setores que absorvem como insumos a produção primária. Pesquisa recente do BNDES (FSP de 19/08/2011) estima que, até 2014, aumentará a concentração de investimentos no setor primário, o que é um sinal inequívoco de dinamismo setorial. O crescimento do setor não significa exclusivamente expansão da produção de commodities e bens intermediários, pois não há limites para inovar na produção de bens finais, sejam eles alimentos diferenciados, alimentos terapêuticos, bio-fármacos, sementes modificadas geneticamente, bioenergéticos e derivados da produção mineral. Da mesma forma, não há limites para inovações de processo que reduzam o custo unitário dos bens produzidos, provenham eles do campo ou das minas.

O empresariado do chamado complexo agroindustrial tem demonstrado ser inovador: adotou boas práticas de gestão, é agressivo em termos de mercado internacional e aderiu às certificações que garantem aceitação dos seus produtos. Devidamente estimulados, estes agentes poderiam adensar as cadeias produtivas lançando novos produtos com maior sofisticação e com capacidade de serem formadores de preços. Obviamente que nesta qualificação e adensamento das cadeias produtivas no setor primário, não se pode prescindir da presença do Estado na ampliação da competitividade sistêmica, por meio de investimentos em infraestrutura e remoção dos gargalos burocráticos.

É fundamental que o Brasil pense em um eficiente sistema nacional de inovações que coordene todo o material existente e está voltado tanto para o setor secundário como para os setores primários e terciários; pois, o que conta, de fato, é a capacidade de produzir mercadorias que atraiam os consumidores e tenham preços competitivos, provenham elas de onde for mais viável técnica e economicamente; mas de forma SUSTENTÁVEL. É bom lembrar que o desenvolvimento sustentável requer quatro condições básicas para se efetivar no cotidiano das pessoas que seja: 1) economicamente factível; 2) economicamente apropriado; 3) socialmente justo; 4) e culturalmente equitativo, respeitoso e sem discriminação de gênero.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental; e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br

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