terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Hidrelétricas: energia limpa?


* Maurício Novaes Souza


O Brasil explora seu potencial hidrelétrico como fonte principal de geração de energia elétrica. O modelo adotado foi estabelecido a partir de projetos de grandes barramentos e construção de extensas linhas de transmissão, consolidando-se no final dos anos 1980. No entanto, diante da necessidade de adequação dos conceitos de energia “limpa e renovável” aos indicadores de sustentabilidade mais atualizados, há que se rediscutir a matriz energética do país e estabelecer estratégias para o desenvolvimento do setor energético.

A última grande crise do setor de energia, em 2001, deveria ter tido efeito didático mais contundente, visto que foi na tentativa de solucionar tempestivamente o problema que se lançou mão de um dos mais eficientes mecanismos de gestão de demanda de que se tem notícia no país: a sobretaxação do consumo abusivo, de maneira progressiva, e o incentivo à racionalização por meio de bonificação por economia de energia. Infelizmente, depois de superada a possibilidade de “apagão”, tal mecanismo foi abandonado.

Atualmente, mesmo considerando que o Brasil é a maior potência hídrica do mundo, a escassez de água nos anos recentes, associada aos lamentáveis episódios de contaminação de rios, lagos e acumulações subterrâneas, além dos conflitos entre usuários competidores, conduziu à formulação, em bases inteiramente novas, da política pública para o setor de recursos hídricos. O que é importante salientar é o fato de que, até o final dos anos 1970, a imensa maioria das barragens brasileiras era construída com a finalidade exclusiva de geração de energia hidrelétrica, sem se tomar em consideração os demais usos da água que atualmente ainda sofrem as restrições impostas pela utilização dos recursos hídricos para fins energéticos. Essa assimetria de tratamento, privilegiando o setor energético, viria, mais tarde, sofrer vários tipos de reações, principalmente a partir dos interesses de outros setores usuários dos recursos hídricos, tais como: a agricultura irrigada, o abastecimento urbano e das reações desencadeadas a partir de 1972, em favor da preservação ambiental.
Contudo, ao mesmo tempo em que o Brasil apresenta uma “Legislação Ambiental” de vanguarda, contraditoriamente, ocorre grande problema de assoreamento dos rios, ribeirões, lagos e barragens, provenientes, principalmente, das atividades agropecuárias e das ocupações irregulares de encostas. Há de se considerar que os principais impactos ocasionados por modificações do uso e da cobertura do solo em bacias hidrográficas, são: a redução da capacidade de infiltração, o aumento do escoamento superficial e erosão, a sedimentação dos cursos d’água, a diminuição da profundidade dos cursos d’água e, consequentemente, o aumento na ocorrência de cheias e inundações, como vem acontecendo em várias cidades da Zona de Mata Mineira.

Cabe lembrar que os ambientes hídricos são classificados em lóticos (águas correntes, como nos rios) e lênticos (águas calmas, como nos lagos). A maior alteração causada pela construção das barragens fica por conta da transformação de meios lóticos em lênticos. Devido a esta mudança, as características físico-químicas das águas sofrem alterações bruscas, criando um novo ecossistema e alteração/redução drástica de sua biodiversidade.
No caso dos barramentos, sabe-se que a fase de sua construção gera impactos socioambientais significativos. Atualmente, mais de 20% de todas as espécies de água doce estão ameaçadas ou em perigo, devido, principalmente, ao desmatamento, com vistas à abertura de novas fronteiras agropecuárias, construção de barragens e urbanização, causando diminuição do volume de água e danos por poluição e contaminação. Entre os diversos problemas advindos da retirada da cobertura florestal, além da redução da biodiversidade, tem-se observado, de forma cada vez mais intensa: as inundações severas (como as ocorridas no início do ano de 2011 na região serrana do Estado do Rio de Janeiro) e a degradação acelerada do solo (como se observa em todos os países do mundo, particularmente os menos desenvolvidos).

Com relação ao modelo energético, apesar de todos os protestos, documentos comprobatórios das irregularidades e mobilizações, o governo brasileiro segue comprometido com esse modelo de desenvolvimento, ignorando as alternativas propostas por pesquisadores, estudiosos e população. Não tem ocorrido a sensibilização aos problemas já conhecidos, tais como a perda de terras produtivas, expulsões e deslocamentos de milhares de pessoas, destruições de espécies animais e vegetais, alteração dos regimes hídricos, rebaixamento dos lençóis freáticos, alterações geográficas, mutações dos ecossistemas, entre outros. O governo ainda faz estudos para a construção de novas barragens até 2030.

O fato é que problemas relacionados à construção de barragens e hidrelétricas se tornam mais graves nos países subdesenvolvidos. Nas economias industrializadas, os problemas ambientais geralmente estão associados à poluição, cujas políticas ambientais são orientadas para a reversão desse quadro, evitando o agravamento da degradação. Com essas medidas, são restaurados os padrões de qualidade de água, ar e solo anterior à crise. Nos países subdesenvolvidos, a crise socioambiental está diretamente associada ao esgotamento de sua base de recursos. Por esse motivo, as suas políticas deveriam dar prioridade à gestão racional dos recursos naturais.

Dessa forma, caso houvesse maior comprometimento, o uso de mecanismos de gestão de demanda – de maneira mais efetiva do que os não menos importantes programas de racionalização de energia, poderia resolver boa parte dos problemas brasileiros de oferta energética, sem castigar o desenvolvimento econômico. Por outro lado, a ampliação da oferta de energia por fontes “alternativas” (eólica, solar, etc.), em um cenário ampliado bem mais contundente que as tímidas metas atuais do setor, completaria o suprimento energético de maneira mais próxima da sustentabilidade. Portanto, não pense que sua eletricidade é limpa por vir da queda de uma cachoeira. De fato, a única energia realmente limpa é aquela que deixamos de consumir.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. Blog: www.mauriciosnovaes.blogspot.com.

Desafios ambientais do governo da Presidente Dilma


* Por Mauricio Novaes Souza


A presidenta Dilma Rousseff disse em seu discurso de posse que o Brasil será um dos campeões mundiais de energia limpa e de crescimento sustentável. Considerou a preservação do meio ambiente como um dos compromissos centrais do governo que se inicia e afirmou que considera uma missão sagrada mostrar ao mundo que é possível um país crescer sem destruir o meio ambiente. Afirmou, ainda, que o Brasil continuará priorizando a preservação de suas imensas florestas.

Será mesmo? Antes das eleições, em dezembro de 2009, o presidente Lula levou Dilma para a COP 15 (convenção da Organização das Nações Unidas (ONU) que reuniu líderes mundiais para debater as mudanças climáticas). Na avaliação do vereador de Porto Alegre Beto Moesch, que tem forte atuação na questão ambiental, a participação de Dilma na conferência foi meramente eleitoreira, tendo ofuscado a presença do Ministro Carlos Minc, elaborador das políticas públicas do Ministério. O parlamentar afirma que a Presidente Dilma nunca se mostrou entendida no assunto: devido ao seu perfil de gestora, passou por áreas pouco afeitas ao meio ambiente, como Minas e Energia, e a coordenação das grandes obras de infraestrutura do Programa de Aceleração do Crescimento - PAC.

Moesch considera que o principal desafio ambiental da Presidenta Dilma será reduzir ainda mais os níveis de desmatamento na Amazônia e evitar a prática nos outros biomas. Segundo ele, houve redução na Amazônia, mas o mesmo não ocorreu na Mata Atlântica e no Pampa, por exemplo. Além disso, o vereador aponta também a necessidade de se diversificar a matriz energética. Para ele, Dilma tende a seguir a política do governo Lula, que prioriza a instalação de grandes hidrelétricas: se, por um lado, aumentou a produção de energia eólica e de biocombustível, ainda há a opção por usinas nucleares, termoelétricas e mega-hidrelétricas, o que é uma lástima.

Além disso, não se pode esquecer, que durante a gestão de Lula a área ambiental foi motivo de desentendimentos entre ministros – inclusive fruto de críticas da própria presidente eleita – seu ministério sofreu três alterações: começou com Marina Silva, depois Carlos Minc e Izabella Teixeira. A permanência de Izabella na pasta demonstra que Dilma não pretende mudar a política ambiental. Quando ex-ministra da Casa Civil, a petista protagonizou atritos com Marina devido à liberação de licenças ambientais para as obras do PAC, sofrendo duras críticas da adversária na campanha eleitoral, que lhe atribuía a marca de “desenvolvimentista”, relegando as questões ambientais a um segundo plano.

De fato, na opinião de especialistas em meio ambiente, economia e relações internacionais ouvidos pela BBC Brasil, o grande desafio do governo Dilma no setor ambiental será criar uma política integrada, que possa abranger diversas áreas da gestão. Acreditam que a presidenta eleita tem de aproveitar as melhores condições da área ambiental brasileira que os concorrentes Estados Unidos, China e União Europeia, principalmente pelo fato de o Brasil ter conseguido reduzir o desmatamento e ter um crescimento menos dependente de combustíveis fósseis. No entanto, para o professor Abramovay, da Faculdade de Economia da USP, o uso sustentável da biodiversidade nunca esteve na pauta do governo, não se incentivou a criação de cadeias produtivas, não se discute para valer o desmatamento zero.

Há de se considerar que diversos especialistas alertam para o risco de o país não dar conta que questões ambientais não são uma barreira, e que sustentabilidade não é apenas um termo para marketing ambiental. A descrição é do professor da Unicamp, Thomas Lewinsohn, para quem a prioridade zero do novo governo deveria ser integrar efetivamente todas as suas ações ambientais e criar uma política que esteja presente em todo o planejamento. Para ele, entrariam nessa política não apenas os ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura, mas também outros setores como Ciência e Tecnologia, Minas e Energia e Desenvolvimento. Segundo Lewinsohn, esse é o grande desafio posto que não ocorreu nos dois governos Lula, onde o que havia eram posturas antagônicas dentro da mesma gestão.

Com relação à energia, um estudo apresentado pelo Greenpeace, aponta que a matriz energética brasileira pode chegar a 2050 com 93% de fontes renováveis, produzindo o triplo do que é ofertado hoje e já considerando a tendência de crescimento econômico. Contudo, com a descoberta do pré-sal, como fica essa questão e sua relação com o meio ambiente? Segundo o coordenador geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), João Moraes, as questões ambientais ainda são pouco exploradas na pauta sindical dos petroleiros. Para ele, a FUP como entidade representativa dos trabalhadores do setor petróleo, elaboraram um projeto de lei que prevê que 5% de todo o excedente da indústria petroleira sejam investidos em questões ambientais, como a aplicação em desenvolvimento de novas energias limpas e renováveis e em compensações ambientais pelos danos causados por esta indústria. Contudo, em sua opinião, as ações ainda estão aquém do necessário.

A representante do PNUMA (agência da ONU para o meio ambiente) no Brasil, Cristina Montenegro, lembra ainda outro fator que coloca o Brasil em uma posição mais favorável: a preparação do governo para a COP-15, em Copenhague, que ajudou a esclarecer as áreas ambientais prioritárias para o país. O diretor da ONG Amigos da Terra, Roberto Smeraldi, concorda que o mais urgente é mudar a maneira de olhar os temas ambientais. Se Dilma quer governar o país com a lógica do Século XXI, ela tem que perceber isso. Para Alfredo Bosi, Professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), é de fundamental importância pensar no longo prazo, harmonizando o desenvolvimento econômico com a proteção ambiental.

Considerando a importância estratégica que a temática ambiental vem ocupando nos principais fóruns políticos internacionais, tanto na esfera econômica como social nos últimos anos, como vem ocorrendo no G-20, em Davos e no Fórum Social Mundial; e ainda destacando o papel político que o Governo Brasileiro vem desempenhando nas Conferências Internacionais sobre questões socioambientais, a Secretaria Nacional de Meio Ambiente (SMAD) reafirma que para que seja retomado o nosso protagonismo, é necessário e estratégico que à frente do Ministério do Meio Ambiente tenha, no governo Dilma, um quadro político do Partido dos Trabalhadores que coloque em prática o projeto do PT para o meio ambiente.

Há de se considerar que na gestão do PT na implementação da política ambiental brasileira durante o Governo Lula, apesar dos problemas citados, houve resultados positivos: vão desde a redução dos índices de desmatamento e a criação de um número recorde de áreas protegidas no País, até a formulação de importantes Planos e Políticas Ambientais, como de Recursos Hídricos, Resíduos Sólidos, Gestão Florestal e Educação Ambiental, entre outros.

Na reunião do Diretório Nacional do PT, no final de 2010, foi distribuída nota da SMAD com as considerações relacionadas aos avanços que se fazem necessárias. Considerando a importância do Brasil como potencial ambiental, que possui uma das maiores biodiversidades do planeta, e diante dos compromissos assumidos pelo Governo Brasileiro na Conferência das Partes da Convenção da Diversidade Biológica de 2010; e considerando o compromisso histórico do PT com a questão ambiental e na elaboração de políticas socioambientais, caberá a Presidente Dilma a necessidade de reafirmar para a sociedade brasileira e para todo o mundo que manterá o protagonismo político na promoção da sustentabilidade ambiental do Brasil.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. Blog: www.mauriciosnovaes.blogspot.com.

Sustentabilidade das organizações: gestão ética e responsabilidade social


* Por Maurício Novaes Souza1, Maria Angélica Alves da Silva2 e Gabriela Alves de Novaes3

O dilema entre desenvolvimento econômico e preservação/conservação da natureza é tema de discussões no país há tempos remotos. Em períodos recentes, permanece a dificuldade de se fazer uma parceria Estado/Sociedade para uma solução equilibrada. De acordo com José Luiz de Andrade Franco, da Universidade de Brasília, autor de Proteção à natureza e identidade nacional no Brasil (FIOCRUZ), “No Brasil há um padrão histórico: as preocupações com o meio ambiente, em geral, resultaram da atuação de grupos de cientistas, intelectuais e funcionários públicos que, por meio de suas inserções no Executivo, procuraram influenciar as decisões dos governantes em favor da valorização da natureza”. Em função dessa situação, o andamento das políticas de proteção à natureza sempre dependeu mais de ligações com governos e apenas secundariamente do eco que as pessoas preocupadas com as questões ambientais alcançam na sociedade.

Nos dias atuais, o envolvimento do mundo corporativo será essencial para se atingir o desenvolvimento sustentável. As empresas devem agir como agentes transformadores. Devem ser capazes de alterar o modelo que visava o lucro imediato para o modelo que busca o Desenvolvimento Sustentável. Esse fato é importante porque as empresas exercem uma enorme influência sobre os recursos humanos, financeiros, tecnológicos, econômicos, sociais e ambientais. Diante desta nova realidade, surge o conceito de empresas socialmente responsáveis - são aquelas que procuram colaborar para o fortalecimento dos referidos setores, por meio da adoção de posturas éticas, agindo de forma transparente e tendo como objetivo o bem-estar coletivo e a justiça social.

Neste novo modelo os empresários se tornam cada vez mais aptos a compreender e participar das mudanças estruturais que abrangem os aspectos econômicos, ambientais e sociais. As companhias estão sendo incentivadas pela administração pública a gerenciar seu sistema produtivo de tal forma que se evite a ocorrência de impactos ambientais e sociais, por meio de estratégias apropriadas. Nos últimos anos houve progressos surpreendentes na área de gerenciamento ambiental. Mais recentemente, o mesmo ocorreu quanto à conscientização sobre a responsabilidade social e a crescente compreensão dos desafios de se produzir sustentavelmente. Sabe-se que para atingir esse objetivo, no médio e longo prazo, dependerá da capacidade das empresas em reverter a disposição de promover o crescimento econômico a qualquer custo.

Sabe-se que todas as empresas gostariam de ser reconhecidas pela sociedade, por seus funcionários, pelos parceiros de negócios e pelos investidores. O grande problema é estar disposto a encarar os desafios que se colocam no caminho de uma companhia realmente cidadã. O primeiro deles é o desafio operacional. Uma empresa responsável pensa nas consequências que cada uma de suas ações pode causar ao meio ambiente e à sociedade. De nada adiantaria investir em um projeto comunitário e poluir os rios próximos de suas fábricas; ou dar benefícios e oportunidades aos seus funcionários e não ser transparente com seus consumidores.

Neste sentido, responsabilidade social é a integração voluntária pelas empresas das preocupações sociais e ambientais nas suas atividades comerciais e nas suas relações com todas as partes. É a complementação das soluções legislativas e contratuais a que as empresas estão ou podem vir a estar obrigadas e que se aplicam às questões, por exemplo, ao desenvolvimento da qualidade de emprego, a adequada informação, a consulta e participação dos trabalhadores, bem como o respeito e promoção dos direitos sociais e ambientais e a qualidade dos produtos e serviços.

A responsabilidade social das empresas é, essencialmente, um conceito segundo o qual as empresas decidem, de forma voluntária, contribuir para uma sociedade mais justa e para um ambiente mais limpo. Para isso deverá implantar um sistema de gestão ambiental que proporcione que o seu desenvolvimento seja sustentável, necessitando, portanto, de profissionais que incorporem tecnologias de produção inovadoras.

O desenvolvimento econômico e o meio ambiente estão intimamente ligados. Os novos tempos se caracterizam por uma rígida postura dos clientes, que têm a expectativa de interagir com organizações que sejam éticas, com boa imagem institucional no mercado e que atuem de forma ecologicamente responsável. A internacionalização dos padrões de qualidade ambiental, a globalização dos negócios, a conscientização crescente dos atuais consumidores e a disseminação da educação ambiental nas escolas permitem antever que a exigência futura que farão os consumidores em relação à preservação ambiental e à qualidade de vida deverão se intensificar.

Empresas experientes identificam resultados econômicos e resultados estratégicos no engajamento da organização em causas ambientais. Há de se considerar que estes resultados não se viabilizam de imediato: há necessidade que sejam corretamente planejados e organizados todos os passos para a interiorização da variável ambiental na organização para que ela possa atingir o conceito de excelência ambiental, trazendo com isso vantagem competitiva.

O atual momento exige que as empresas adotem a educação e a gestão ambiental em seus programas de rotina, condicionados e geridos por princípios éticos, exigindo que estas possuam criatividade e condições internas que possam transformar as restrições e ameaças ambientais em oportunidades de negócios. Várias empresas têm demonstrado que é possível ganhar dinheiro, proteger o meio ambiente e ser socialmente responsável: é uma questão de opção e atitude.

1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor Geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

2. Pedagoga e Especialista em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É Diretora de Desenvolvimento Educacional do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. E-mail: gecamau@yahoo.com.br.

3. Formanda do Curso de Administração de Empresas da Universidade Federal de Viçosa, Brasil. E-mail: gabianovaes@gmail.com.

A época do horror econômico e socioambiental



* Por Maurício Novaes Souza1 e Maria Angélica Alves da Silva2


Não havia preocupação com as questões ambientais durante o período das chamadas “Revolução Industrial” e “Revolução Verde”. Isso porque os recursos naturais eram abundantes e a poluição não era foco da atenção da sociedade industrial e intelectual da época. Com o crescimento acelerado e desordenado da produção e da população humana mundiais, que resultaram na aceleração dos impactos e degradação ambientais, o resultado que se tem é a escassez dos recursos naturais. Surge então, recentemente, o conflito da sustentabilidade dos sistemas econômico e natural, fazendo do meio ambiente um tema literalmente estratégico e urgente. O homem começa a entender a impossibilidade de transformar as regras da natureza e perceber a importância da reformulação de suas práticas ambientais.

Cabe considerar o conceito “Limites do Crescimento”, onde se avaliou que a humanidade está usando 20% a mais de recursos naturais do que o planeta é capaz de repor. Ou seja, como estamos usando os recursos além de sua capacidade produtiva, ultrapassaram-se a capacidade de suporte, de autodepuração e de regeneração dos sistemas. Considerando os fatores relativos à produção, o fator de maior peso na composição da “Pegada Ecológica”, cuja média é de 2,3 ha nos dias atuais, é a energia, sobretudo nos países mais desenvolvidos. Contudo, sabe-se que há grandes diferenças entre as nações mais ou menos desenvolvidas, como mostra o Relatório Planeta Vivo, que calculou a Pegada de 146 países com população acima de um milhão de habitantes. Os dados de 1999 mostram que enquanto a Pegada média do consumidor da África e da Ásia não chega 1,4 hectares por pessoa, a do consumidor da Europa Ocidental é de cerca de 5,0 ha e a dos norte-americanos de 9,6 ha. No Brasil, apesar de estamos dentro da média mundial, está cerca de 20% acima da capacidade biológica produtiva do planeta; ou seja, vivemos a época do horror econômico e ambiental – a época do contra senso.

De acordo com Konrad Zacharias Lorenz, que criou o conceito de "imprinting", ou cunhagem, todos os dons recebidos pelo homem por intermédio de seu profundo conhecimento da natureza e de seus progressos advindos do desenvolvimento tecnológico, nos mais diversos setores, tais como a química, a informática e a medicina, tudo aquilo que parecia poder atenuar o sofrimento humano, tende, por um espantoso paradoxo, a arruinar a humanidade. Segundo esse mesmo autor, ela ameaça fazer algo que, normalmente, não costuma acontecer em outros sistemas vivos, ou seja, sufocar a si mesma. O pior, nesse processo apocalíptico, é que as qualidades e as faculdades mais nobres do homem são as que parecem destinadas a desaparecer em primeiro lugar, justamente aquelas que mais estimamos, e que são, com justeza, as mais especificamente humanas.

Existe uma nova palavra - "normose" - que ainda não é encontrada nos dicionários. O significado dessa significativa palavra, que pode ser encontrada lendo "Jean Yves Le Loup", "Roberto Crema" e “Pierre Weil", escritores / poetas / psicanalistas, tem o significado da doença da normalidade, ou seja, acharmos normal àquilo que pelo hábito se tornou comum, porém é uma doença grave que traz sérios prejuízos ao homem nos mais diversos aspectos. Por exemplo: rouba, mas faz; os pivetes nos sinais de trânsito mendigando; o consumismo irracional; refugiados por efeitos de mudanças climáticas; a fome e desnutrição africana; certas cenas agressivas na TV, entre outras. De tanto vermos essas cenas, terminamos por criar o hábito de achar normal... e aí se instala a grave doença da NORMOSE.... e ela se infiltra nos mais diferentes aspectos da vida humana.

Segundo Lorenz, os que vivem em países civilizados de grande densidade demográfica, ou mesmo em grandes cidades, não se têm idéia do quanto nos falta o amor ao próximo, sincero e caloroso. Na verdade, para esse autor, o ajuntamento humano nas cidades modernas é em grande parte responsável por não sermos mais capazes de distinguir o rosto do próximo nessa “aglomeração” de imagens humanas que mudam, se superpõem e se apagam continuamente. Diante dessa multidão e dessa promiscuidade, nosso amor pelos outros se desgasta a tal ponto que os perdemos de vista. Os que querem ainda ter para com seus semelhantes sentimentos calorosos e benévolos são obrigados a se concentrar em um pequeno número de amigos.

Em artigo recente do jornalista Fernando Martins, “O mito do homem bom e do homem mau”, uma pergunta inicial: o ser humano é bom ou mau por natureza? A resposta a essa pergunta, tão antiga como o homem, moldou todas as instituições políticas e econômicas atuais e a forma como elas nos governam. Também ajudou a reforçar mitos dos quais a sociedade atual não consegue escapar. O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588–1674) entendia que o homem é naturalmente egoísta. Para ele, sem um Estado forte que limite as pretensões individuais, haveria uma guerra de todos contra todos. Suas teorias justificaram o absolutismo dos reis europeus, e, posteriormente, todas as formas de autoritarismo e totalitarismo. Mas as idéias “atenuadas” de Hobbes de certa forma também inspiram nações democráticas que crêem no papel de um governo forte para definir os rumos de uma sociedade.

De fato, para Lorenz, nos é impossível amar toda a humanidade, apesar da justeza dessa exigência moral. Somos, portanto obrigados a fazer uma escolha, ou seja, a manter a distância, emocionalmente, numerosos seres dignos de nossa amizade. É um processo absolutamente inevitável para cada um de nós, mas já manchado de desumanidade. Levando mais adiante esse tipo de defesa voluntária contra as relações humanas, veremos que, de conformidade com os fenômenos de exaustão do sentimento, conduz às espantosas manifestações de indiferença que os jornais relatam diariamente. Quanto mais somos levados a viver na promiscuidade das massas, mais cada um de nós se sente acuado pela necessidade de não se envolver. É assim que hoje em dia os ataques à mão armada, o assassinato e o estupro podem acontecer em plena luz do dia, justamente no centro das grandes cidades, nas ruas cheias de gente, sem que sequer um “transeunte” intervenha. Amontoar os homens em espaços limitados leva de forma indireta a atos de desumanidade provocados pelo esgotamento e desaparecimento progressivo dos contatos, e é a causa direta de todo um comportamento agressivo.

Numerosas experiências realizadas em animais nos ensinaram que a agressividade entre congêneres pode ser estimulada amontoando-os em espaço limitado. Quem nunca teve experiência semelhante, quer em cativeiro, quer em situação análoga em que muitas pessoas vivem juntas por força das circunstâncias, não pode avaliar o grau de intensidade a que cega a irritabilidade. E se a pessoa tenta se controlar, se esmera no contato de cada dia, de cada hora, para ter uma atitude delicada e, portanto amigável, para companheiros pelos quais não tem qualquer amizade, a situação vira suplício. A falta de amabilidade generalizada, que podemos observar em todas as grandes cidades, é claramente proporcional à densidade das massas humanas aglomeradas em determinado lugar. Atinge proporções aterradoras nas grandes estações, ou nos terminais de ônibus e de metrô de Nova Iorque, Tóquio e São Paulo, por exemplo.

Tratando-se de mudanças climáticas, e voltando a falar de consumo de energia, tem-se de pensar em emissões de poluentes. Nesse aspecto, as diferenças dos índices emitidos pelos países desenvolvidos e em desenvolvimento também são significativas: um cidadão médio norte-americano, por exemplo, responde pela emissão anual de 20 toneladas anuais de dióxido de carbono; um britânico, por 9,2 toneladas; um chinês, por 2,5; um brasileiro, por 1,8; já um ganês ou um nicaragüense, só por 0,2; e um tanzaniano, por 0,1 tonelada anual (Wolfgang Sachs, do Wuppertal Institute).

Nos países industrializados cresce cada vez mais o consumo de recursos naturais provindos dos países em desenvolvimento - a ponto daqueles países já responderem por mais de 80% do consumo total no mundo. Segundo Sachs, 30% dos recursos naturais consumidos na Alemanha vêm de outros países; no Japão, 50%; nos países Baixos, 70%. Dessa forma, o grande desafio da humanidade é promover o desenvolvimento sustentável de forma rápida e eficiente. Este é o paradoxo: sabemos que o tempo está se esgotando, mas não agimos para mudar completamente essa situação antes que seja demasiado tarde.

A escritora Viviane Forrester, em seu livro “O horror econômico”, comenta: depois da exploração do homem pelo homem em nome do capital, o neoliberalismo e seu braço operacional, que é a globalização, criaram, mantêm e ampliam, em nome da sacralidade do mercado, a exclusão de grande parte do gênero humano. O próximo passo será a eliminação? Caminhamos para um holocausto universal, quando a economia modernizada terá repugnância em custear a sobrevivência de quatro quintos da população mundial? Depois de explorados e excluídos, bilhões de seres humanos, considerados supérfluos, devem ser exterminados? Diante a situação em que vivemos, o raciocínio é bem mais do que uma hipótese.

Faz-se urgente uma nova postura das pessoas e das empresas com relação às questões de relação humana, que diretamente afetam o meio ambiente. Contudo, a conscientização ambiental de massa só será possível com percepção e entendimento do real valor do meio ambiente natural em nossas vidas, que é o fundamento invisível das diferenças socioeconômicas entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. O dia em que as populações entenderem como esta questão afeta sua vida de forma direta e irreversível, o meio ambiente não precisará mais de defensores. A sociedade já terá entendido que preservá-lo / conservá-lo é garantir a própria vida. Fragilizá-lo é fragilizar a economia, o emprego, a saúde, e tudo mais. Esta falta de entendimento compromete a adequada utilização de nossos recursos naturais, que nos oferecem os serviços ecossistêmicos gratuitos, como o seqüestro de carbono e a produção de oxigênio, inúmeros benefícios proporcionados pela biodiversidade das florestas, e tantas outras vantagens ambientais que nós humanos desfrutamos.

Caso nada seja feito de forma rápida e efetiva, as próximas gerações serão prejudicadas duplamente: pelos impactos ambientais e pela falta de visão de nossa geração em não explorar adequadamente a vantagem competitiva oferecida pelos recursos naturais. Ao contrário do que muitos pensam, os principais motivos de tão grave crise ter surgido, devem-se aos fracassos nas áreas sociais e ambientais, apesar da enorme expansão econômica e do desenvolvimento dos últimos anos.

1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor Geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

2. Pedagoga e Especialista em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É Diretora de Desenvolvimento Educacional do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. E-mail: gecamau@yahoo.com.br.

Opulência e miséria: causas e consequências da degradação sócio-ambiental


* Por Maurício Novaes Souza


O relatório "Previsões sobre a População Mundial 2006", do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas, adverte que a população mundial aumentará 37,3% até 2050, passando dos atuais 6,7 bilhões de habitantes para 9,2 bilhões (2,5 bilhões a mais). Segundo os peritos da ONU, a previsão do aumento total da população mundial para a metade do século equivale à população mundial de 1950. Este aumento será absorvido, na sua maioria, pelos países em desenvolvimento, que devem passar de 5,4 bilhões de habitantes em 2007 para 7,9 bilhões de habitantes em 2050. Tal crescimento preocupa em termos de trabalho e de produção de alimentos que garantam a segurança alimentar.

Prevê-se que os Impactos e externalidades ambientais serão incalculáveis. Um artigo publicado na Folha Online (22/01/2008) discutiu o dano ambiental que ações de países desenvolvidos causaram aos países em desenvolvimento. Afirma, um grupo de ecólogos e economistas dos Estados Unidos liderados pelo economista Richard Norgaard, da Universidade da Califórnia em Berkeley, que o consumo e a destruição de recursos da natureza por parte dos ricos entre as décadas de 1960 e 1990 deverão impor ao longo do século XXI uma perda de US$ 7,4 trilhões da economia de países de renda per capita baixa e média. A dívida externa dos países pobres nesse mesmo período atingiu US$ 1,7 trilhão. O estudo aponta ainda um novo número do prejuízo que o dano ambiental no período estudado causará à humanidade: US$ 47 trilhões.

Há de se considerar ainda, como agravante, os efeitos das mudanças climáticas. Em estudo na revista "PNAS", os autores afirmam ter feito "estimativas conservadoras" para os custos ambientais de atividades humanas ligadas ao aquecimento global, destruição da camada de ozônio, expansão da agricultura, desmatamento, pesca predatória, danos a mangues e em outros ecossistemas aquáticos. Afirmam que o aquecimento global e o a destruição da camada de ozônio representam mais de 97% das perdas.

Historicamente percebe-se que a perturbação e a degradação do solo e da água, resultantes das atividades antrópicas, ocorrem desde tempos remotos, sendo que as causas que produziram tais distúrbios foram as mais variadas: a) o desmatamento e a pecuária, causaram problemas severos de erosão durante os períodos clássicos grego e romano; b) o modelo inca desmoronou por questões político-militares; c) o modelo agrícola dos sumérios, esgotou-se devido à salinização dos solos decorrente da prática incorreta da irrigação; d) o modelo romano, pelo desprovimento de cuidados com as florestas e sua preocupação única com conquistas; e e) vários modelos ou sistemas agrícolas fracassaram ou foram destruídos por pressões provocadas pelo aumento da população.

Em tempos recentes, a demanda cada vez mais acentuada por terras férteis, planas e agricultáveis, tem reduzido de forma acentuada as formações vegetais, pressionando drasticamente os recursos naturais. A expansão demográfica atingiu grandes proporções nestas últimas décadas, como no período de 1990-1999, quando a população mundial passou de 5.250 para 5.947 bilhões de habitantes; ou seja, quase 700 milhões, em apenas uma década.

Dessa forma, percebe-se atualmente que a situação social se tornou incontrolável. Os centros urbanos se agigantam e o desemprego e a violência é uma realidade em diversas cidades, de diversos países. Na verdade, a aceleração dos processos de degradação ambiental e social se acelerou a partir da Revolução Industrial, e se intensificou após a II Guerra Mundial. Esses problemas se tornam mais graves nos países subdesenvolvidos ou periféricos, onde a crise sócio-ambiental está diretamente associada ao esgotamento de sua base de recursos.


Opulência e miséria

Perguntam-se de que forma, quando e quanto o Brasil poderá ser afetado. Segundo dados do IBGE (2006), cerca de 14 milhões de pessoas convivem com a fome em nosso país e mais de 72 milhões de brasileiros estão em situação de insegurança alimentar - ou seja, dois em cada cinco brasileiros não têm garantia de acesso à alimentação em quantidade, qualidade e regularidade suficiente.

Uma reportagem da Rede Record (20/01/2008), programa Domingo Espetacular, apresentou sequencialmente cinco matérias, resumidas a seguir:

1) Iates no Brasil – A reportagem mostra centenas de iates na baía da Ilha Grande, RJ, com valores que variam entre 1 a 30 milhões de reais. Em um deles, um jovem e orgulhoso empresário, apresenta à repórter os detalhes de sua embarcação. Tudo minuciosamente planejado. Talheres, ferramentas, recipientes para bebidas (todos imantados presos às paredes para evitar os riscos do balanço do mar); quartos, banheiros, jogos de cama, tapetes....tudo impecável. A comida, camarão, lagosta,.... geralmente é pedida por rádio aos donos de restaurantes que fazem a entrega no iate do cliente. Uma jovem especialista em decoração de iates comenta que no ano anterior decorou mais de 50....;

2) Catadores de lixo no CEASA – D. Mônica, uma senhora de aproximadamente 60 anos, com 2 netos, cata restos da feira para sobreviver. D. Angélica, mãe de 5 filhos e marido desempregado, moradora de uma localidade que fica a 50 km do CEASA, faz esse percurso 2 vezes por semana, catando lixo e sobras de feira, também para sobreviver. Estima-se que aproximadamente 20 a 40% das 5.000 toneladas comercializadas diariamente são lançadas ao lixo, não sendo reaproveitadas..........;

3) Seca no Piauí e no semi-árido nordestino – Não existe água sequer para o consumo humano. As criações morrem de sede e fome. Aqueles que podem, e quando podem, usam sua aposentadoria para comprar uma “carrada” de água (5.000 litros), por R$30,00. Outros se servem de açudes que estão praticamente secos, e compartilham a água com animais: água totalmente contaminada e indevida para o consumo humano. As plantações estão totalmente perdidas, e a população reza..........;

4) Enchentes na grande São Paulo e no litoral paulista – nas áreas urbanas, a população pobre da periferia perdeu todos os seus já limitados pertences: em São José dos Campos foi terrível a situação; em Peruíbe também. Nas áreas rurais, os produtores perderam suas culturas por excesso de chuva..........;

5) Saudade da minha gente – nessa última matéria do referido bloco, o “seu” Astério, um senhor de aproximadamente 80 anos, conta que criou a neta Rosemeire. Saiu de Canavieira, Bahia, ainda moça, e havia 18 anos que não recebia notícias dela. A equipe da Record a localizou em Osasco, SP. Tem 34 anos, casada com 4 filhos e marido desempregado. Ela, sabendo do avô, chora, conta saudades e as dificuldades familiares: falta de dinheiro e alimentos (os filhos choram), desemprego, barraco alugado..... Fala da humilhação pela qual os filhos têm passado. Lembra que ela e a família passaram 4 dias se alimentando de arroz gelado, único alimento ali disponível. Perguntada sobre a possibilidade de voltar para casa, disse que gostaria imensamente. Tal desejo foi facilitado pela emissora: ela, filhos e marido, reencontram o avô e o restante da família.

O que se verifica de forma clara nessas matérias é que esses cenários representam a degradação social e ambiental: a riqueza e a pobreza; a opulência e a miséria. Considere-se que estamos comentando sobre casos de um país rico em recursos naturais como o Brasil. Dessa forma, percebe-se que apesar do “progresso”, da maior conscientização das pessoas e da pesquisa ter evoluído significativamente nos últimos tempos, os problemas sociais e ambientais vêm se agravando de forma considerável. Esse fato se deve, em grande parte, a ausência de princípios éticos e ao individualismo de atitudes que o modelo de desenvolvimento e produção gerou.

Na verdade, os governos, as comunidades e os indivíduos não têm efetivamente adotado uma postura proativa. O mercado exige que o homem continue interagindo com o ambiente à sua volta, modificando-o e transformando-o de acordo com suas necessidades - uma nítida visão antropocêntrica. Os resultados dessas ações são facilmente perceptíveis ao longo de toda a biosfera. Os reflexos, geralmente desastrosos, podem ser facilmente observados diariamente nos noticiários, jornais e “sites”, como nessa reportagem agora discutida. Talvez essa seja a origem de tais questões nos anos mais recentes: a Revolução Industrial criou o modelo de capitalismo atual, cujos processos de produção consideravam como pólos excludentes o homem e a natureza, com a concepção desta como fonte ilimitada de recursos à sua disposição.

Contudo, com o contínuo aumento da população, alterações dos hábitos de consumo e com a evolução da ciência, fica evidente que o nosso planeta é um sistema econômico fechado em relação aos seus materiais constituintes. Na medida em que a sociedade amadurece, redobra a consciência de que os seus recursos são finitos e se tornam cada vez mais escassos. Em todo sistema produtivo, para a manutenção dos sistemas vitais, ocorre o aumento da produção de energia. Caso o sistema se torne deturpado ou desordenado como resultado de um estresse, natural ou antrópico, aumenta a entropia do sistema, ou seja, passa a existir uma maior “desordem”. Dessa forma, cria-se um obstáculo físico ou uma limitação para um sistema fechado e sustentável.

Perspectivas

Recentemente, em um artigo de minha autoria sobre o Perfil que deveria ter o profissional hoje formado pelas universidades, faculdades e centros técnicos e tecnológicos, questionei se os profissionais atuais, de todas as áreas, estão efetivamente recebendo informações suficientes sobre educação e gestão ambiental. Na verdade, pode-se observar que apesar dos problemas ambientais provenientes do enorme descuido humano, as soluções já existem. É necessário antes de tudo, cuidado e atitude. Segundo Leonardo Boff, o que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, de preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro. Contudo, a simples palavra cuidado, na prática, tem sido de difícil entendimento e aplicação.

Na verdade, as pessoas têm apresentado um comportamento extremamente individualista. São necessárias iniciativas individuais com cobrança direta aos governantes para que propostas concretas de políticas públicas sejam implementadas. Contudo, os governos, de todos os países, estão cada vez mais envolvidos com seus macroproblemas, fazendo com que o movimento para o Desenvolvimento Sustentável fique enfraquecido por esta crise globalizada.
O grande desafio para se atingir o Desenvolvimento Sustentável, que é atualmente o grande desafio do ser humano, consiste em aprender a combinar trabalho com cuidado. Leonardo Boff comentou em uma entrevista recente que esses conceitos não se opõem, mas se compõem. Limita-se mutuamente e ao mesmo tempo se complementam. Juntos constituem a integralidade da experiência humana: por um lado, ligada à materialidade e, por outro, à espiritualidade. O equívoco consiste em opor uma dimensão à outra e não vê-las como comportamento do único e mesmo ser humano.

Essas questões nos fornecem uma idéia do que significa os dias atuais em que vivemos. Os conceitos ecológicos e toda a sua dimensão, como também os seus princípios, precisam ser melhores entendidos e aplicados. Darão suporte às tomadas de decisões que poderão auxiliar nas profundas mudanças pela qual o Planeta deverá passar. O momento é de evitar e reduzir os impactos ambientais e a perda da biodiversidade. Essas atitudes devem ser praticadas como se fosse uma religião.

Precisamos compreender que a humanidade não é o centro da vida no planeta. Vivemos sob uma ética utilitária e antropocêntrica onde tudo no mundo existe para o homem dispor. Ela predomina há séculos, sendo a responsável pela recusa da diversidade cultural, racial e natural. Entre os princípios do Desenvolvimento Sustentável, prega-se a ética ecológica. A nova ética proposta é ecocêntrica, deseja o equilíbrio da comunidade da Terra com a natureza, visa harmonia, respeito e reverência. Ética significa a ilimitada responsabilidade por tudo que existe e vive. Comportamento ético, portanto, é a responsabilidade com o mundo, fundamentado na solidariedade, na alteridade, nas diferenças e na compaixão com o outro.

É sabido que a humanidade herdou um acúmulo de 3,8 bilhões de anos de capital natural. Nas últimas três décadas se consumiu um terço dos recursos da Terra, ou seja, de sua riqueza natural. Qualquer componente que é extinto compromete todo o universo. Mantendo-se os padrões atuais de consumo e degradação, muito pouco há de restar até o fim do século XXI. Contudo, há de se considerar, que o homem com a sua inteligência e sua habilidade, possui também capacidade suficiente para solucionar os problemas que ele mesmo criou, gerando soluções, propondo modelos e aplicando novos conceitos, onde devem ser consideradas uma melhor distribuição de renda e a redução da enorme iniquidade sócio-ambiental.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do IF Sudeste campus Rio Pomba e Diretor-Geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei; Conselheiro do COPAM e do IBAMA; e Membro da Câmara de Assessoramento de Recursos Naturais, Ciências e Tecnologias Ambientais da FAPEMIG. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

O especialista em agroecologia como produtor e gestor ambiental


* Por Maurício Novaes Souza1 e Márcio Soares Santos2


O desenvolvimento rural no Brasil ficou, ou ainda é centrado, salvo algumas exceções, em pesquisas agropecuárias voltadas para um modo de produção dissociado dos princípios e dos conhecimentos da ecologia - isto explica o porquê da elevada degradação ambiental. Paralelamente, nas políticas ambientais, tem-se desenvolvido mecanismos de conservação de ecossistemas naturais, contudo dissociando-os de modelos que elaborem projetos de utilização social dos recursos naturais. Dessa forma, nem as pesquisas agropecuárias, nem as políticas ambientais, atribuem maior conceito de conservação e de reprodução das condições ecológicas nos sistemas produtivos.

Mediante a esse fato, observa-se que a nossa situação em relação ao meio é de extrema vulnerabilidade, posto que se possuem cerca de 45% da superfícies de nossos ecossistemas ocupados pelo sistemas agropecuários. Esta enorme ocupação territorial da agricultura/pecuária brasileira faz com que tudo o que diz respeito à organização socioeconômica, técnica e espacial da produção desses setores devam ser consideradas de importância estratégica e vital no enfoque dos impactos ambientais. Contudo, ao invés de se criar estratégias de manejo sustentável da área rural, na maioria das vezes, foram e às vezes são implantados sistemas de subordinação da agropecuária nacional às lógicas econômicas externas, caracterizando-a como setor de transferência de riquezas, a expensas da exploração predatória de recursos naturais e da exclusão social.

Junto a isto nos deparamos com os meios de desenvolvimento dessas políticas e pesquisas elaboradas nas universidades federais, que em sua maioria, mantém dependência econômica principalmente das grandes empresas multinacionais - estas forçam a produção de conhecimento em benefício próprio, o que desfavorece a solução da problemática socioambiental e econômica do nosso meio de produção.

Para que possamos adequar à forma de produção agrícola à conservação dos ecossistemas naturais, é necessária a formação de profissionais ligados aos conhecimentos agroecológicos. Deverá haver a criação de uma cultura ecológica que penetre, motive e mobilize as instituições encarregadas da elaboração e da implementação das políticas públicas, inclusive as organizações de agricultores que sejam igualmente incorporadas pelas organizações da sociedade civil e por outros agentes socioeconômicos e políticos, direto ou indiretamente, relacionado com a agricultura/pecuária. Dessa forma, poderão atuar de forma a gerir ações não apenas na produção, mas de fato, como gestor ambiental.

Há de se considerar, então, os agroecólogos. Além de suas habilidades de produção de forma ecológica, são profissionais que também trabalham em projetos de conservação e recuperação dos ambientes agrícolas. São responsáveis por avaliar riscos ambientais elaborando estudos/planos que visem à redução dos impactos determinados por ações humanas ou mesmo naturais; e têm como principal campo de atuação a agricultura de base familiar.

De fato, tais profissionais desenvolvem tecnologias de produções agroecológicas com vistas no aumento da produtividade sem prejuízo ambiental; identificam e implantam sistemas de remediação e biorremediação para recuperação de áreas e ambientes degradados; elaboram e coordenam projetos voltados ao uso sustentável dos recursos naturais, à preservação da biodiversidade e do clima do Planeta. O Agroecólogo pode trabalhar em instituições de regulamentação e controle ambiental; em instituições ligadas a pesquisa e extensão agroecológica; em projetos e gerenciamento de bacias hidrográficas; no desenvolvimento de tecnologias para preservar ou recuperar o meio ambiente. Podem atuar em licenciamentos, estudos de impacto ambiental e coordenação de obras na esfera ambiental. De forma ampla, o Agroecólogo pode desempenhar as seguintes atividades profissionais:

· Supervisão, coordenação e orientação técnica;
· Estudo, planejamento, projeto e especificação;
· Estudo de viabilidade técnico-econômica;
· Assistência, assessoria e consultoria;
· Direção de obra e serviço técnico;
· Vistoria, perícia, avaliação, arbitramento, laudo e parecer técnico;
· Ensino, pesquisa, análise, experimentação, ensaio e divulgação técnica e extensão;
· Elaboração e orçamento de projetos;
· Padronização, mensuração e controle de qualidade;
· Execução e fiscalização de obras e serviços técnicos;
· Produção e condução de trabalho técnico especializado; e
· Condução de equipe de instalação, montagem, operação, reparo e manutenção.

Observa-se, assim, que os profissionais da área de produção agrícola/pecuária devem ser preparados para que tenham o seguinte perfil: profissionais qualificados, capazes de serem protagonistas de suas ações pessoais e acadêmicas; deverão ser também críticos, socialmente comprometidos com as Ciências Agrárias e Ambientais e também com os demais campos científicos afins, por intermédio das atividades de ensino, pesquisa e extensão, de modo a contribuir para a sustentabilidade de nossos ecossistemas e com o desenvolvimento educacional, econômico, social e cultural do Brasil, cumprindo seu papel na região em que está inserido.

No caso do curso de Bacharel em Agroecologia, o objetivo geral do curso é o de formar profissionais de elevado nível na área de produção agrícola/pecuária, com capacidade de criar, manter, estimular e apoiar iniciativas de desenvolvimento rural sustentável. Oferecem alternativas para os produtores rurais que pertencem ao modelo de produção familiar, bem como para todo o público alvo interessado, a fim de valorizar a agropecuária local, brasileira e seus agricultores/pecuaristas, ampliando as chances de competitividade, protegendo o meio ambiente e reduzindo as desigualdades sociais.

De forma ainda mais específica, os cursos que preparam o profissional em agroecologia para atuarem, também, como gestor ambiental, deverão:

· Proporcionar uma elevada formação no campo da Agroecologia, como ferramenta necessária ao raciocínio, formulação e resolução de problemas;
· Desenvolver capacidades intelectuais relativas às habilidades e competências imprescindíveis ao desempenho da profissão de Agroecólogo;
· Desenvolver a capacidade de estimular processos de inclusão social e de fortalecimento da cidadania, por meio de ações integradas, que tenham em conta as dimensões: ética, social, política, cultural, econômica e ambiental;
· Estimular o acadêmico para a elaboração e execução de projetos técnicos ou de pesquisa científica que visem proteger o meio ambiente e eliminar as desigualdades sociais;
· Desenvolver ações que levem à conservação e recuperação dos ecossistemas e ao manejo sustentável dos agroecossistemas, visando assegurar que os processos produtivos agrícolas/pecuários não causem danos ao meio ambiente e riscos à saúde humana e animal;
· Colocar o futuro profissional em contato com as diversas áreas de atuação da Agroecologia.

Atendendo a essas condições, após a conclusão do curso, espera-se que o profissional formado tenha desenvolvido elevado nível de cognição no que se refere às ciências agroecológicas e as demais ciências diretamente relacionadas com o tema em estudo. Espera-se um profissional de elevada capacitação: com uma formação que permita uma visão clara sobre as questões relacionadas à agricultura/pecuária e ao meio ambiente, e, sobretudo, sobre as questões de caráter humano envolvidas.

O agroecólogo tem como desafio elevar o nível de qualidade de vida dos agricultores/pecuaristas e da sociedade como um todo, estando em sintonia com conservação dos recursos naturais. O profissional procura integrar o conhecimento técnico, científico, social, antropológico e econômico na busca de propostas inovadoras para solucionar problemas ambientais que afetam a população. Preocupa-se com a preservação dos recursos naturais e as transformações positivas de ordem política, econômica e social.

Dessa forma, com esse perfil e com essas características, o agroecólogo, além de gerir ações no campo agronômico, atua no mercado de trabalho como gestor ambiental nos mais variados campos; ou seja, na produção, na recuperação de ambientes degradados ou na conservação de ecossistemas naturais. Esse deverá ser o perfil do profissional que trabalha com gestão ambiental e se preocupa com a produção agrícola/pecuária sustentável.


* 1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste de Minas campus Rio Pomba e Diretor-Geral do IF Sudeste de Minas campus São João del-Rei. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

2. Tecnólogo em Agroecologia e graduando do Curso de Bacharel em Agroecologia do IF Sudeste de Minas campus RIO POMBA. E-mail: marciosoaresgraf@yahoo.com.br.


A insustentabilidade e os descaminhos do consumismo revelados em o “Estado do Mundo”


* Por Maurício Novaes Souza1 e Maria Angélica Alves da Silva2

Em um artigo recentemente intitulado “Um novo mercado e a necessária formação de gestores ambientais”, apontamos a urgente e necessária formação de profissionais com perfil diferenciado daqueles que atualmente são formados pela maioria das Instituições de Ensino, em todo o mundo. Recentemente, o Instituto AKATU pelo Consumo Consciente lançou a versão em português do relatório “Estado do Mundo – 2010”, uma das mais importantes publicações periódicas mundiais sobre sustentabilidade. O livro, produzido pelo World Watch Institute (WWI) – organização com sede em Washington (EUA), traz anualmente um balanço com números atualizados e reflexões sobre as questões ambientais. Neste ano, o tema é “Transformando Culturas – do Consumismo à Sustentabilidade” e aborda as mudanças no consumo, sob a ótica da economia, negócios, educação, mídia e movimentos sociais.

Segundo dados do referido relatório, na última década a humanidade aumentou seu consumo de bens e serviços em 28%. Somente em 2008 foram vendidos no mundo 68 milhões de veículos, 85 milhões de refrigeradores, 297 milhões de computadores e 1,2 bilhão de telefones celulares. Para produzir tantos bens, é preciso usar cada vez mais recursos naturais, que são escassos. Entre 1950 e 2005, a produção de metais cresceu seis vezes, o consumo de petróleo subiu oito vezes e o de gás natural, 14 vezes. Atualmente, um europeu consome em média 43 quilos em recursos naturais diariamente – enquanto um americano consome 88 quilos – ou seja, um volume superior ao próprio peso da maior parte da população.

Além de excessivo, o consumo é desigual. Em 2006, os 65 países com maior renda, que somam 16% da população mundial, foram responsáveis por 78% dos gastos em bens e serviços. Somente os americanos, com apenas 5% da população mundial, consumiram 32% do consumo global. De acordo com o relatório, caso todos consumissem como os americanos, o planeta só comportaria uma população de 1,4 bilhão de pessoas. Há de se considerar que atualmente somos aproximadamente 7 bilhões, e projetam-se 9 bilhões para 2050.

A pior notícia é que nem mesmo um padrão de consumo médio, equivalente ao de países como Tailândia ou Jordânia, seria suficiente para atender igualmente todos os habitantes do planeta. A conclusão do relatório não deixa dúvidas: sem uma mudança cultural que valorize a sustentabilidade e não o consumismo, não haverá esforços governamentais ou avanços tecnológicos capazes de salvar a humanidade dos riscos ambientais e de mudanças climáticas. De acordo com Mattar, presidente do AKATU em entrevista ao jornal diário DAE/SABESP, o “Estado do Mundo” é um choque de realidade, cujo conteúdo impulsiona a todos a agirem em benefício da Terra. Vejamos algumas importantes considerações encontradas no relatório, sobre:

Economia e Negócios

No âmbito da economia e negócios, uma dos aspetos fortemente recomendados pelo relatório é a “reavaliação do papel das grandes corporações”. O documento considera o poder de alcance do setor: “em 2006, as 100 maiores companhias transnacionais empregavam 15,4 milhões de pessoas com um volume de vendas de US$ 7 trilhões — o equivalente a 15% do produto mundial bruto” e conclui que “um sistema econômico sustentável dependerá de convencer as companhias, por meio de um conjunto de estratégias, de que a condução de seus negócios deverá ser conduzida de maneira sustentável”. No âmbito social, empresarial e pessoal, a compreensão e a adoção de práticas de sustentabilidade são limitadas. Mudar uma organização costuma ser um processo ainda mais longo do que o da mudança pessoal, onde se requer mudanças profundas em sua cultura organizacional. Para essas companhias, a sustentabilidade tem papel fundamental como um conjunto de valores que integram a prosperidade econômica, a gestão ambiental e a responsabilidade social, ou seja: lucro, planeta e pessoas. Para alcançar esse nível de mudança, os líderes devem apresentar visões arrojadas e devem envolver suas organizações em discussões diversas, mais profundas, sobre o objetivo e a responsabilidade da empresa em oferecer valor verdadeiro para os clientes e a sociedade.


· Educação - Segundo o relatório, uma pesquisa anual com alunos de primeiro ano de faculdades nos Estados Unidos investigou durante mais de 35 anos as prioridades de vida dos alunos. No transcorrer desse tempo, a importância atribuída a ter boa situação financeira aumentou de pouco mais de 40% para quase 80%, enquanto a importância atribuída à construção de uma filosofia de vida plena de sentido diminuiu de 75% para pouco mais de 45%. E “este não é um fenômeno apenas americano”, ressalta o documento. Para romper com o padrão do consumismo, todos os aspectos da educação terão de ser pautados pela sustentabilidade. Hábitos, valores, preferências – todos são, em grande medida, formados na infância. E durante a vida, a educação pode ter um efeito transformador sobre quem aprende. Portanto, explorar essa instituição poderosa será essencial para redirecionar a humanidade para culturas de sustentabilidade. A partir de então, a educação funcionará como ferramenta poderosa para criar sociedades sustentáveis.


Mídia

A maior parte da mídia ainda reforça o consumismo, mas existem esforços no mundo todo para que seu vasto poder e alcance seja utilizado para promover culturas sustentáveis. Segundo o relatório, 83% das residências no mundo têm aparelhos de televisão e 21 em cada 100 pessoas têm acesso à “internet”. Entretanto, a maior parte da mídia ainda reforça o consumismo, apesar de existirem esforços no mundo todo para que seu vasto poder e alcance seja utilizado para promover culturas sustentáveis. De acordo com DAE/SABESP, por meio de ações publicitárias globais, o setor de água engarrafada ajudou a criar a impressão de que água na garrafinha é mais saudável, mais saborosa e está mais na moda do que a boa e velha água da torneira - mesmo quando estudos demonstram que algumas marcas engarrafadas são menos seguras do que a água da rede e custam de 240 a 10 mil vezes mais. A indústria de água engarrafada movimenta hoje US$ 60 bilhões e vendeu 241 bilhões de litros de água em 2008, mais que o dobro da quantidade vendida em 2000.

O fato é que no futuro, há de se perceber, que os avanços científicos e tecnológicos voltados para o setor produtivo deverão permitir a implantação de indústrias limpas, que estão na base de um crescimento econômico mais equilibrado e integrado como o meio ambiente. O primeiro passo para uma grande mudança é consumir menos e poder utilizar os recursos naturais de maneira sustentável. Tem-se de ter a consciência que os recursos são limitados, logo o consumo não pode ser ilimitado. A sociedade e seus movimentos sociais atuais, em sua grande maioria, carecem de uma visão equilibrada e integrada do meio ambiente, holística e sistêmica, que favoreça a própria gestão de nosso Planeta.


· Para que haja uma nova ordem mundial...

... é preciso que na Economia e nos Negócios se percebam que os modos de produção necessitam de um novo modelo. Além da preocupação exclusiva focada meramente no crescimento econômico quantitativo, é preciso que se busquem produtos e serviços que se diferenciem por novos atributos voltados principalmente ao meio ambiente e desenvolvimento social. Não seria este crescimento mais qualitativo? Mais sustentável? O que seria necessário fazer para tornar esta idéia uma realidade? No meio urbano, a implantação de sistemas de gestão ambiental que estimulem a produção mais limpa seria uma alternativa; na área rural, os modelos de produção agroecológicos podem ser considerados fortemente inseridos nessas propostas...

...na Educação, a questão ambiental deverá ser trabalhada de forma diferenciada para que se criem profissionais Éticos – é sabido que a Educação Ambiental é o caminho mais curto para esse fim e para que se obtenham sistemas sustentáveis; contudo, a sua efetiva inclusão no currículo, de forma incompreensível, vem sendo mundialmente protelada.

... quanto à Mídia, que abarca a complexidade e os descaminhos do mundo globalizado em que se vive, dada a sua penetração e poder de influência, poderia contribuir de forma incomensurável se assumisse uma postura coerente de estímulo às boas práticas de responsabilidade social e ambiental...

.... e quais seriam os benefícios imediatos dessas mudanças??? Será o Desenvolvimento Sustentável, a Melhoria da Qualidade de Vida e a própria Sobrevivência Humana.

1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor-Geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

2. Pedagoga e Especialista em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É Diretora de Desenvolvimento Educacional do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. E-mail: gecamau@yahoo.com.br.

A economia e os limites do crescimento



* Por Maurício Novaes Souza


Nos últimos dois anos, a preocupação está voltada para a crise financeira americana, que trouxe reflexos na economia de todos os países do Planeta. Contudo, a questão ambiental, que deveria ser a prioridade posto ser a fonte de todos os recursos utilizados nos processos produtivos, vem sendo relegada ao segundo plano. Na prática, o antigo discurso da necessidade de crescimento econômico para a geração de emprego e renda acaba prevalecendo. Ou seja, continua vigorando a visão imediatista, de curtíssimo prazo, cujos resultados finais são conhecidos e previsíveis. De fato, a economia global está perdendo mais dinheiro com a destruição dos recursos naturais do que com a atual crise financeira global, segundo conclusões de um estudo financiado pela União Européia.

Segundo dados dessa pesquisa, intitulada “A Economia dos Ecossistemas e Biodiversidade”, calcula-se que os desperdícios anuais, apenas com o desmatamento, variam de US$ 2 trilhões a US$ 5 trilhões. O número inclui o valor de vários serviços oferecidos pelas florestas, como água limpa e a absorção do dióxido de carbono. O estudo foi discutido durante várias sessões do Congresso Mundial de Conservação, realizado em Barcelona. De acordo com o coordenador do relatório, Pava Sukhdev, o custo resultante da degradação da natureza ultrapassa o dos mercados financeiros globais. Cabe ainda uma consideração sobre os custos ambientais: pelo fato de serem contínuos, seus reflexos no longo prazo serão ainda maiores e de difícil quantificação.

Na verdade, os economistas desconhecem ou simplesmente desconsideram os serviços ambientais prestados pela natureza. Tais serviços ou funções, como o armazenamento de água e a regulação do ciclo de carbono, entre outros, cria condição para um meio ambiente saudável, oferecendo não só água e ar limpos, chuvas, produtividade oceânica, solo fértil e elasticidade das bacias fluviais, como também certas funções menos valorizadas, mas imprescindíveis para a manutenção da sustentabilidade, tais como: a) o processamento de resíduos (naturais e industriais); b) a proteção contra os extremos do clima; e c) a regeneração atmosférica. Por estas questões, o homem em suas atividades produtivas deve sempre considerar que os ecossistemas são sistemas abertos e integrados por todos os organismos vivos, inclusive ele próprio, e os elementos não viventes de um setor ambiental definido no tempo e no espaço, cujas propriedades globais de funcionamento (fluxo de energia e ciclagem da matéria) e auto-regulação (controle) derivam das relações entre todos os seus componentes, tanto pertencentes aos sistemas naturais, quanto aos criados ou modificados pelo Homem.

De fato, o desconhecimento dos profissionais da área econômica sobre conceitos básicos de ecologia e de economia dos recursos naturais e renováveis, os impedem de perceber que existem limites ao crescimento. Sabe-se que qualquer atividade antrópica é capaz de gerar algum tipo de impacto. O homem, na ânsia de sucesso e maximização de suas atividades, força o ambiente a realizar um esforço amplificador a fim de produzir um determinado resultado desejado; contudo, os ecossistemas têm sua capacidade de suporte e de regeneração que dependerá da sua resistência e da sua resiliência. Ocorrido um estresse, caso seja ultrapassado o seu limite, podem-se criar efeitos secundários que acabam reduzindo o ritmo e as chances de sucesso que uma determinada atividade vinha alcançando. Como consequência, ocorre que depois de uma expansão inicial, o crescimento se torna uniforme e com o tempo pode ficar tão lento que a espiral de reforço pode se inverter. Percebe-se então, que o importante é não forçar o crescimento, mas sim conhecer o ambiente e conviver dentro da possibilidade e dos fatores que o limitam.

Contudo, não é assim que o modelo de desenvolvimento vem se comportando. É comum se observar que no início das atividades os eventos vão bem. Dessa forma, a tendência do modelo atual é repetir o que estamos fazendo até atingirmos um ponto onde os resultados positivos cessam. Nesse ponto, as tentativas de mudança se tornam inúteis. Nessas situações que limitam o crescimento, a alternativa correta está em se buscar uma situação que trouxesse novo equilíbrio e não estimular a situação que gerou a condição de estresse. Dessa forma, para modificar o comportamento do sistema, é necessário identificar e alterar o fator limitante. No entanto, essa é uma ação contínua, pois quando eliminamos uma fonte de limitação, o crescimento acaba encontrando outra (num fenômeno parecido com a transferência de “gargalos”).

Considere-se a situação dos ecossistemas aquáticos. De fato, a qualidade das águas de praticamente todos os rios do Brasil e de todo o mundo piorou nos últimos anos. Esse fato, que é o resultado do modelo de desenvolvimento atual e que afeta drasticamente as populações, foi um dos temas discutidos no Fórum Social, em Belém, Brasil. Nesse encontro se estabeleceram metas para a elaboração de um novo modelo de desenvolvimento e crescimento econômico, com a pretensão de apresentar respostas para escassez do recurso provocada pelo crescimento da população, o desperdício, o consumo excessivo e o aumento da necessidade de energia. Tal encontro reuniu um número de participantes jamais vistos - 28.000 (vinte e oito mil) pessoas de mais de 180 (cento e oitenta) países. O Fórum analisou os problemas da escassez de água, o risco de conflito por enfrentamentos entre países por recursos hídricos e a melhor maneira de proporcionar água limpa à população mundial. Segundo Loïc Fauchon, presidente do Conselho Mundial da Água, o comportamento humano com relação ao uso deste recurso é cada vez mais irrefletido e inconsequente. Aumentar indefinidamente a demanda por água, nos diais atuais, além de colocar em perigo o meio natural, torna-se cada vez mais caro o seu tratamento e distribuição em um contexto de evolução do clima e crise financeira.

Tal análise se justifica pelo fato de que a economia e o meio ambiente estão passando por uma crise sem precedentes. Para agravar ainda mais a situação, a atual crise econômica mundial tem trazido como solução, por parte dos principais economistas e governantes mundiais, o estímulo ao consumo – situação ainda mais ameaçadora às atuais situações ambientais. Esse modelo visa, efetivamente, a geração de lucros imediatos, não considerando os limites do crescimento; portanto, socialmente e ambientalmente não é sustentável. Do ponto de vista social, é sabido que os 20% (vinte por cento) da população mais rica utilizam ¾ dos recursos naturais, trazendo o esgotamento e, ou, a degradação dos recursos naturais. Do ponto de vista ambiental, considerando a Pegada ecológica (índice que expressa a área produtiva necessária para sustentar o consumo de recursos e assimilação de resíduos de uma dada população) mostra que há 1,8 hectare de área disponível para cada habitante, dentro do padrão que se pode considerar sustentável. No entanto, o consumo global atual apresenta uma média de consumo relativo a 2,2 hectares por habitante. Ou seja, o ambiente está sendo usado além de sua capacidade de suporte e de reposição.

Analisando os EUA, verifica-se que o seu padrão de consumo é de 9,6 hectares por habitante, sendo que sua capacidade é de apenas 4,7 hectares por habitante. Pergunta-se, então, de onde eles retiram esses recursos para manter consumo tão elevado? A resposta está na exploração de outros países que tem uma capacidade produtiva de recursos naturais superior, como o Brasil. Se todos os habitantes tivessem o mesmo padrão de consumo dos EUA, seriam necessários 6 planetas iguais a Terra para atender à tal demanda... e continuam estimulando o consumo como forma de saírem da atual crise financeira. A continuar dessa forma, as gerações futuras não terão onde e nem como produzir para se sustentarem.

Além da questão da água, grandes problemas ambientais e sociais estimularam os representantes dos 160 países que se encontraram no Fórum Social Mundial em Belém. Foram discutidos temas associados à crise financeira, ao aquecimento global, às doenças associadas à ausência de saneamento ambiental, entre outras. Esses encontros representam o início da mobilização da população mundial, embora saibamos que ainda há muito que se fazer. O Tratado de Quito é um exemplo da inconsequente irresponsabilidade dos países que têm elevada produção e liberação de gases poluentes e de efeito estufa, que não o ratificam e não o adotam.

Na verdade, o modelo de produção e consumo são os responsáveis pelas agressões cometidas sobre os diversos ecossistemas, responsáveis pela evolução do clima, que vem se somar às mudanças globais, responsáveis das tensões que reduzem a disponibilidade da água doce, indispensáveis para a sobrevivência da humanidade. A previsão é de que a população mundial, atualmente superior a 6,7 bilhões de habitantes, possa chegar a nove bilhões até meados deste século, o que aumentará consideravelmente a demanda de recursos hídricos, a 64 bilhões de metros cúbicos por ano, segundo dados da ONU.

Segundo a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE), o número de pessoas com graves problemas para conseguir água chegará a 3,9 bilhões em 2030, ou seja, metade da população mundial. Os cálculos da OCDE não incluem o impacto da mudança climática, que pode já estar afetando as coordenadas da água, mudando a quantidade e a distribuição das chuvas e nevascas. Considere-se ainda que quase 2,5 bilhões de pessoas não têm acesso ao saneamento básico, o que contraria as Metas de Desenvolvimento do Milênio da ONU. Sabe-se que as principais causas da crise relacionada à água são a irrigação sem planos de manejo, as falhas na distribuição urbana e a contaminação dos rios pelas atividades urbano-industriais e agropecuárias.

No dia 07 de abril, foi comemorado o Dia Mundial da Saúde. Tal data foi criada em 1948 pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em função da preocupação de seus integrantes em manter o bom estado de saúde das pessoas do mundo, bem como alertar sobre os principais problemas que podem atingir a população. Segundo a OMS, ter saúde é garantir a condição de bem-estar das pessoas, envolvendo os aspectos físicos, mentais e sociais em harmonia. Sabe-se que a alimentação e saneamento são formas de prevenir doenças. Contudo, nos dias atuais, percebe-se que o crescimento urbano e industrial nem sempre significa desenvolvimento humano: particularmente nos países em industrialização, vem acompanhado de desigualdade de acesso aos itens básicos necessários a uma sobrevivência digna, tais como à educação, à alimentação e à saúde. A falta do saneamento nas cidades, em níveis mínimos que assegurem o bem-estar das populações, tem gerado um quadro de degradação do meio ambiente urbano sem precedentes, sendo os recursos hídricos um dos primeiros elementos integrantes da base de recursos naturais a sofrer tais efeitos. Infelizmente, o que se observa nas periferias das grandes cidades é uma total desinformação sobre higiene, aumento das doenças veiculadas pela água, lixões a céu aberto, entre outros. Os governos ainda não vêm realizando um trabalho preventivo, o que melhoraria a saúde da população e diminuiriam os gastos com a saúde pública.

Como consequência desse modelo econômico, o mundo está enfrentando intensas transformações globais, sem precedentes, incluindo aumento da população, migração, urbanização, mudanças climáticas, desertificação, seca, alteração do uso e degradação do solo, crises econômicas e alimentares. Caso continuemos a agir dessa forma, não respeitando os limites do crescimento, pouco restará para as gerações futuras. Como bem lembra Leonardo Boff, caso não se cuide do planeta a partir de uma visão sistêmica e holística, poderá submetê-lo à destruição de suas partes e inviabilizar a própria vida. Há inúmeras evidências que existem limites para o crescimento econômico, considerando que os recursos naturais são escassos.

Apesar das inúmeras iniciativas governamentais e organizacionais, os efeitos efetivos ainda são discretos. Deve-se refletir sobre a necessidade urgente de abandono às concepções anacrônicas ligadas à produção e ao consumo, adotando a sustentabilidade sócio-ambiental nas ações públicas e privadas, em todos os níveis, do local ao global. É preciso que sejam conhecidos e respeitados os limites do crescimento. Essas deverão ser as propostas de um novo modelo guiado pelos princípios do “Desenvolvimento Sustentável”. Contudo, o seu sucesso dependerá da participação e esforço de cada um dos habitantes de nosso planeta, posto que o somatório das atitudes individuais trará soluções sustentáveis para os problemas relativos às questões sociais e ambientais; mas é imprescindível que a economia entenda que o crescimento deve ter limites.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor-Geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

O Consumo e o Desenvolvimento Insustentável: é possível mudar?



* Por Maurício Novaes Souza1, Maria Angélica Alves da Silva2 e Gabriela Alves de Novaes3

O Mundo caminha para o crescimento deseconômico. Tal afirmativa se fundamenta em face da generalizada convicção de que o crescimento econômico será a solução para todos os grandes problemas associados aos males econômicos do mundo moderno. Contudo, com um mínimo de bom senso, essas falácias nos soam como uma “heresia”. Vejamos algumas assertivas: Acabar com a pobreza? Para alguns, bastaria fazer a economia crescer, por meio do aumento da produção de bens e serviços, estimular os gastos dos consumidores, e o resultado seria a propagação da riqueza na sociedade. Para outros, reduzir o desemprego bastaria simplesmente intensificar a demanda por bens e serviços, baixar as taxas de juros e estimular os investimentos. Para outro grupo, controlar o crescimento populacional bastaria fomentar o crescimento econômico e confiar em que a transição demográfica resultante restrinja as taxas de nascimentos. E a fome?

Sabemos que a fome é uma constante em todas as sociedades históricas. Hoje, entretanto, ela assume dimensões vergonhosas e simplesmente desumanas. Principalmente quando se sabe que temos alimentos suficientes para toda a população do planeta. Isso revela que a humanidade perdeu a compaixão e a piedade. Para Boff (2010), erradicar a fome se configura como imperativos humanístico, ético, social e ambiental. Uma precondição mais imediata e possível de ser posta logo em prática é um novo padrão de consumo. A sociedade dominante consome não apenas o necessário, o que é justificável, mas o supérfluo, o que questionável. Esse consumismo só é possível porque as políticas econômicas que produzem os bens supérfluos são continuamente alimentadas, apoiadas e justificadas, interferindo diretamente no meio ambiente e causando um nível de degradação sócio-ambiental jamais visto.

De fato, é realmente uma alienação sem limites o que parte da humanidade vem fazendo com o meio ambiente. Interferirá na sobrevivência de todos. Alguns chamam tal condição de progresso. Muitos, menos informados ou com visão de curto prazo, teimam em chamar de crescimento econômico ou desenvolvimento sustentável. Mas é só ver os resultados alcançados por esse modelo que facilmente poderíamos classificá-lo de falso progresso ou simplesmente desenvolvimento insustentável. Para quem desconhece a expressão “crescimento deseconômico”, segue a definição do economista Herman Daly:

Crescimento deseconômico ocorre quando aumentos na produção se dão à custa do uso de recursos e sacrifícios do bem-estar que valem mais do que os bens produzidos. Isso decorre de um equilíbrio indesejável de grandezas denominadas utilidade e desutilidade. Utilidade é o nível de satisfação das necessidades e demandas da população; ou seja, o nível de seu bem-estar. Desutilidade se refere aos sacrifícios impostos pelo aumento de produção e consumo. Pode incluir o uso de força de trabalho, perda de lazer, esgotamento de recursos, exposição à poluição e concentração populacional. Sabemos, de forma evidente, que a Natureza é formada por um conjunto de sistemas e órgãos, interligados e interconectados, que funciona dentro da mais perfeita ordem para que o equilíbrio seja patente na vida de toda a humanidade.

Nos dias atuais, da forma como o capitalismo tem se mostrado, mesmo com todos os movimentos que estimulam a busca de um modelo responsável de produção e consumo, parece impossível construir um desenvolvimento sustentável sem um novo modelo educacional voltado para esse fim. De acordo com Claudemiro Godoy do Nascimento, Filósofo e Teólogo, Mestre em Educação pela Unicamp e Professor da Universidade Estadual de Goiás, esse desenvolvimento sustentável requer quatro condições básicas para se efetivar no cotidiano das pessoas: 1) que seja economicamente factível; 2) que seja economicamente apropriado; 3) que seja socialmente justo; 4) e que seja culturalmente equitativo, respeitoso e sem discriminação de gênero.

O desenvolvimento sustentável, mais do que um conceito científico, é uma idéia mobilizadora que surgiu pela primeira vez em 1987 (Relatório Brundtland) e que ganhou adeptos nesse início do Século XXI. Mas para que ele de fato seja uma regra, as pessoas e a sociedade civil, em parceria com o Estado, precisam dar sua parcela de contribuição para criar cidades e campos saudáveis, sustentáveis, com qualidade de vida. Nesta perspectiva, conclui-se que não pode haver desenvolvimento sustentável sem uma sociedade sustentável, cujas características são (Nascimento, 2009):

· Promoção da vida para desenvolver o sentido da existência: Deve-se partir de uma visão sistêmica e holística que vê a terra como único organismo vivo, de onde tiramos nosso sustento;

· Equilíbrio dinâmico para desenvolver a sensibilidade social: Entender a necessidade do desenvolvimento, mas com a conservação e a preservação dos ecossistemas;

· Congruência harmônica que desenvolve a ternura e o estranhamento: Significa sentirem-se como mais um ser - embora privilegiado - do planeta, convivendo com outros seres animados e inanimados;

· Ética integral: Deve ser entendida como conjunto de valores - consciência ecológica - que dá sentido ao equilíbrio dinâmico e a congruência harmônica e capacidade de auto-realização;

· Racionalidade intuitiva: A racionalidade técnica que fundamenta o desenvolvimento desequilibrado da economia clássica precisa ser substituída pela racionalidade emancipadora, intuitiva, que conhece os limites da lógica e não ignora a afetividade, a vida, a subjetividade, dando fim às desigualdades sociais;

· Consciência planetária que desenvolve a solidariedade planetária: Reconhecermos que somos parte da Terra e que podemos viver com ela em harmonia.

De fato, nosso futuro comum dependerá de nossa capacidade de entender hoje a situação dramática na qual se encontra o “Planeta Terra” devido à deteriorização do meio ambiente. Isto requer a formação de uma nova consciência planetária. Contudo, o problema está na nossa condição cultural. Parar ou mudar o foco parece algo impensável. Está marcado em nós, sujeitos em uma sociedade capitalista, que temos sempre que "crescer", a sociedade precisa "crescer", a economia precisa "crescer", "desenvolver", ilimitadamente. Sempre há "algo a mais" a ser descoberto, criado, realizado, apreendido e transformado – infelizmente em mercadorias e commodities. Porém, tudo isso tem um "custo" - desde a produção de alimentos, nada é "criação espontânea" - todos sabemos, a fonte de todos os bens, são os recursos naturais.

Infelizmente, temos esse antigo discurso que ainda é moda. Vivemos nessa época em que se exige velocidade em todas as mais diversas áreas, como se a pressa fosse uma alta qualidade e não o péssimo defeito demonstrado pela prática. O triste resultado foi visto no século passado, no qual se destruiu mais do que em todos os outros séculos anteriores somados. Ou seja, era de se esperar que, depois dessa correria destrutiva, já fosse tempo do ser humano ter a percepção de que agora é preciso focar a agilidade e rapidez no ataque às consequências devastadoras deste desenvolvimento sobre a natureza. O mundo agora tem que correr para reverter o mecanismo destrutivo que acabou sendo impulsionado pela exploração impensada dos recursos do planeta.

No entanto, lamentavelmente, diante da ganância e do egoísmo; da indiferença; da transferência, que nos faz achar que o mundo melhor que queremos e merecemos deve começar no outro; da reclamação sem ação, que passa a falsa idéia de se estar fazendo alguma coisa simplesmente pelo ato de se queixar; do medo, que nos faz recusar o novo mesmo quando o velho já demonstra não servir mais; da falta de competência e criatividade para percorrer novos caminhos; da falta de sonhos, que nos permite imaginar que as coisas podem mudar! Se o mundo fosse feito apenas de pessoas agem e pensam dessa forma, então não haveria lugar para as soluções, por que essas pessoas são o problema ou fazem parte dele!

Dessa forma, o mundo precisa agir com rapidez na aplicação de medidas práticas para ao menos encaminhar soluções nesta que é a questão mais grave enfrentada pelo ser humano, em todos os tempos. O problema é a vontade política, sobre a qual falava Ban Ki-Moon, secretário-geral das Nações Unidas, há cerca de dois anos, e que hoje também está em falta, mesmo já não havendo dúvida de que a situação climática é extremamente crítica. O planeta tem cada vez menos tempo, mas segue no apressado e equivocado modelo anterior: “Nosso pé está cravado no acelerador, e estamos rumando para o abismo”.

Pode-se afirmar que o grande problema da atualidade está no consumismo. Para enfrentá-lo, temos de ter a convicção de que o modelo precisa ser alterado. Para Boff (2010), há que se incorporar na vida cotidiana, os quatro “erres”: reduzir os objetos de consumo, reutilizar os que já temos usado, reciclar os produtos dando lhes outro fim, e finalmente rejeitar o que é oferecido pelo marketing com fúria ou sutilmente para ser consumido. Sem esse espírito de rebeldia consequente contra todo tipo de manipulação do desejo e com a vontade de seguir outros caminhos ditados pela moderação, pela justa medida e pelo consumo responsável e solidário, corremos o risco de cairmos nas armadilhas do consumismo, aumentando o número de famintos e empobrecendo o planeta já devastado.

Felizmente, existem pessoas que não desistiram de sonhar e, por causa disso, são criativas, empreendedoras, persistentes diante das dificuldades! São pessoas que não se movem apenas por dinheiro ou diante da expectativa de ganhar alguma vantagem pessoal e por isso são solidárias e conseguem olhar a floresta além das árvores! Graças a elas, que fazem parte da solução, ainda podemos ter esperança!


1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor Geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

2. Pedagoga e Especialista em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É Diretora de Desenvolvimento Educacional do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. E-mail: gecamau@yahoo.com.br.

3. Administradora de Empresas formada na Universidade Federal de Viçosa, Brasil. E-mail: gabianovaes@gmail.com.