sábado, 31 de março de 2012

Impressões de um agroecólogo no Fórum Brasil Sobre Agrossilvicultura

Cabe comentar e destacar, com louvor, os comentários do Wantuelfer sobre o referido evento. É fantástica a forma que utilizou para fazer a análise que vocês verão logo abaixo. Esse nível de percepção e difusão daquilo que vivenciou é extremamente enriquecedor. Gostaria que todos os meus alunos tivessem essa atitude...

Só dessa forma consiguiremos de fato crescer... Vale a pena ler .... é enriquecedor...

Estava lá em Viçosa... e quase passei no evento... mas, diferente da minha época de estudante, rodei toda a UFV e não encontrei estacionamento... como começou a chover ... e tinha outros compromissos... optei por não ir...

Parabéns pelo brilhante relatório / comentários inteligentes Wantuelfer...

Forte abraço,


Wantuelfer F. Gonçalves

Tec. em Agropecuária

Bacharelando do curso de Agroecologia do IF Rio Pomba

wantuelfer@yahoo.com.br | wantuelfer@gmail.com

Ocorreu nos dias 27 e 28 de Março deste ano, na UFV, o I Fórum Brasil de Agrossilvicultura, evento este no qual eu estava presente. A divulgação desse evento no campus causou algum rebuliço, e por um motivo ou por outro eu acabei sendo o único membro do instituto presente no fórum (talvez o único agroecólogo), o que me incentivou a repassar os acontecimentos do evento a toda comunidade.

Sobre a organização, impressões iniciais e o público presente

“Festa estranha com gente esquisita”

Renato Russo

Em uma primeira analise no programa1 do curso já se podia perceber a falta de direcionamento que o evento teria. Haviam palestras apontando pacotes para implantação de programas de ILPF e haviam outras salientando a necessidade de se adaptar os sistemas aos locais onde os mesmos seriam implantados. Outro bom exemplo é de que havia também, dentro de uma única palestra, os trâmites necessários para se obter financiamentos de dois programas do governo federal: O ABC – Agricultura de Baixo Carbono2 (cuja uma das necessidades de adesão é a comprovação de patrimônio de R$ 120.000,00) e o PRONAF Floresta3 (cujo uma das necessidades é a comprovação de ser um agricultor familiar). Embora tenha sido patrocinado por duas empresas de biocidas (ATTA-MEX4 e Bayer5) só houve menção de produtos dessa natureza durante a última palestra, que, na verdade, nem estava no programa e só foi proferida devido à inviabilidade de se fazer a viagem técnica devido à chuva.

O público por sua vez contava com a presença marcante de estudantes, alguns se demonstrando bem interessados no evento e outros (talvez até a maioria) interessados apenas no certificado. Haviam também muitos professores, alguns representantes de empresas (EMATER, EMBRAPA, Grupo Voltorantim, Banco do Brasil, Secretaria de Agricultura de Minas Gerais, etc.) e os supracitados estudantes, sendo a maioria da UFV, seguidos pela UFRRJ, alguns de Lavras e eu. Não notei, no entanto, a presença de nenhum produtor rural.

Sobre a condução do evento e as palestras

“Cada um dá o que tem/ diz um dito soberano”

Zé Ramalho

Como em quase todos os eventos que vou, meus problemas já começam na inscrição que por algum motivo misterioso sempre dá errado (por exemplo: meu crachá dizia que eu era da UFRRJ). Em relação a condução dos temas a comissão se manteve invisível, não cobrando o cumprimento do tempo dos palestrantes (que quase todos estouraram) e nem selecionando questionamentos, que eram feitos direto ao palestrante no final de cada ciclo de palestras (ou seja, dois por dia, envolvendo todos palestrantes). No entanto, na apresentação dos palestrantes o anfitrião, antes de ler o currículo, apresentava o tema como se a justificar o porquê daquela palestra estar sendo proferida naquele momento.

No primeiro ciclo de palestras os temas foram mais conceituais. Histórico das atividades, implicações filosóficas, ações atuais e um estranho no ninho... uma palestra técnica. Esta dissertava sobre o balanço de carbono promovido por SAF’s, e adiantando a conclusão para esta específica, a metodologia empregada é a mesma que a utilizadas para a ACV, que, no caso, eu já tenho alguns contras em relação a classificações de carbono equivalente além das desconsiderações de outros gases. Mas, ainda assim, é uma ferramenta extremamente útil para inscrição de SAFs em projetos de MDL ou certificações de ISO da linha 14000, visto que são organismos que já utilizam a linha de PCC.

Na parte da tarde houve o primeiro ciclo técnico, onde foram apresentados temas relativos à bioclimatologia, tanto animal quanto a vegetal, para pastos e para o café em um caso específico. O estranho no ninho nesse caso ficou para a palestra de abertura, na qual um representante do Banco do Brasil apresentou os planos de financiamento que envolvem ILPF (ou SAF’s, porém os bancos não a utilizam para evitar confusão com Seguro Agrícola Familiar e Seguro de Assistência Funeral) que já foram anteriormente citados.

Começando o segundo dia de evento, o primeiro ciclo de palestras começou inusitado. Duas palestras (que são, de certa forma, complementares) envolvendo a integração lavoura pecuária sem nenhum destaque para as florestas (lembrando que o evento era do departamento de engenharia florestal). No entanto, a clareza e domínio com que os pesquisadores apresentaram seus experimentos e resultados fizeram dessa dobradinha um ponto alto do fórum, uma pena que os palestrantes não puderam, devido a compromissos, estar presente no debate. E fechando com chave de ouro, uma palestra sobre a analise econômica dos SAFs, envolvendo diversas ferramentas de economia avançada para tentar captar cada elemento do sistema, visto que a complexidade (envolvendo não apenas uma diversidade de elementos como também um perído grande de exploração) não permite analises básicas. Outro ponto forte dessa palestra foi um estudo de caso de um sistema extremamente interessante, de uso múltiplo e cultivo desafiador envolvendo castanha, Feijó, pupunha, banana e pimenta do reino. Magnífico!

E fechando de forma extremamente constrangedora houve a palestra sobre as experiências da EMATER com o programa de ILPF, cujo trabalho eu já conhecia de outros eventos (incluindo um dia de campo onde foi ensinado a pulverizar Round Up com “segurança”) na Zona da Mata. Fiquei surpreso quando o palestrante (e também coordenador do programa) disse que os esforços da EMATER hoje é fugir das “receitas de bolo”, citando um produtor de Cajuri que substituiu a adubação tradicional pela cama de frango. No debate, no entanto, ele contradisse isso e passou várias recitas de bolo. E finalizando o evento da pior forma possível, houve uma palestra substituindo a visita técnica na qual iniciou com um vídeo de homens fazendo a “limpeza” da área aplicando um coquetel de herbicidas (Round Up e 2-4D) que estavam, confessamente, acima da dose recomendada, seguido de uma zombação do sistema de tração animal utilizado para o semeio das culturas e comparando-o, ironicamente, aos grandes maquinários utilizados em áreas planas. Lamentável! E, a partir daí, foi tudo piorando até um final lastimável, envolvendo superdosagens de adubo e de herbicida e de ignorância que fizeram me deixaram bastante perturbado.

Considerações

“E no final/ o amor que você tem é igual o amor que você faz”

Lennon/ McCartney

Apesar do final desastroso, consegui captar mais prós do que contras desse evento.

De uma forma geral, a ideia central de todas as apresentações refletia a necessidade de se criar sistemas mais diversos, o aproveitamento melhor dos estratos e a otimização dos recursos da propriedade e que tudo isso culmina na ILPF. Adicionalmente a isso, a maior parte dos palestrantes salientou que, não adianta colocar espécies juntas se elas não se interagem. Essa ideia de integração ganhou bastante força no primeiro dia, e logo começaram a ser citadas, além das integrações de espécies, as integrações de ciências e de áreas de atuação.

Outra ideia em evidencia foi que os resultados obtidos até hoje ainda se encontram escassos se comparados com os de monocultura, e, por isso, existe a necessidade de criar mecanismos de incentivo tanto as praticas quanto as de pesquisas. Enfim, nenhuma novidade.

Em Resumo

“... e atenção! Se liga aí que é hora da revisão”

Telecurso 2000

· PONTOS FORTES

O primeiro ciclo de palestras, principalmente as palestras de John Landers6, que salientou a necessidade de se criar políticas de financiamento a preservação, através dos pagamentos de serviços ambientais (nem a citação a Norman Borlang conseguiu estragar a palestra dele); e a do secretario da SEAPA MG7, que disse, com todas as letras, que o modelo de agricultura atual não atende as necessidades de abastecimento e preservação ambiental, e que a secretaria esta completamente voltada a buscar novas tecnologias para atender essas necessidades. Se não for só discurso político isso é uma ótima notícia.

Outro destaque foi o, já citado, estudo sobre metodologias de avaliação econômica de SAFs.

· PONTOS FRACOS

Os pontos fracos a serem destacados são, obviamente, o ultimo ciclo de palestras, o qual eu prefiro nem lembrar, e algumas ideias um pouco destoantes da ideia principal de integração. Por exemplo, o espaçamento sugerido, juntamente com a orientação, da IPF (que se resumia a eucalipto com braquiaria) na segunda palestra do segundo ciclo, excluía todas as vantagens de deixar as culturas (florestal e forrageira) juntas, e se resumia em deixa-las num arranjo/espaçamento onde uma simplesmente não atrapalharia a outra. Na verdade isso pode se contar até como ponto positivo, pois provou por A+B que esse sistema já começou errado pela escolha das espécies, e este tipo de problema vai persistir até que eles ponham isso na cabeça.

Para o final, gostaria de deixar a frase apresentada por John Landers durante o evento para ressaltar a necessidade da compensação pelos serviços ambientais:

“Como um produtor no vermelho pode pensar em preservar o verde”

John Landers

Wantuelfer F. Gonçalves

Tec. em Agropecuária

wantuelfer@yahoo.com.br | wantuelfer@gmail.com

PS – O pior foi ganhar uma caneta com os dizeres: “Se é Bayer, é bom”. Não sei se assustei mais com a virgula nessa frase (desnecessária) ou se com endereço que se encontrava em baixo: www.saudeambiental.com.br (??). Mas foi legal utiliza-la para transcrever pensamentos agroecológicos. Cavalo de Tróia inverso!!

1 - www.sif.org.br/agrossilvicultura/programacao.php

2 - www.agricultura.gov.br/abc

3 - www.portal.mda.gov.br/portal/saf/programas/pronaf/2258856

4 - www.unibras.com.br

5 - www.bayercropscience.com.br

6 - www.fao.org/ag/AGP/AGPC/doc/Newpub/landers/foreword_cont.pdf

7 - www.agricultura.mg.gov.br/

quinta-feira, 22 de março de 2012

Degradação dos ecossistemas aquáticos e a crise no abastecimento de água


* Por Maurício Novaes Souza



O dia 22 de março foi escolhido pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 22 de Fevereiro de 1993 como o “Dia Mundial da Água”. Essa escolha se deu devido à presença de grandes índices de poluição ambiental no planeta. A partir desta data, a ONU elaborou uma série de medidas cautelosas a favor da água e impôs a consciência ecológica em relação a este bem natural. Nesse mês de março, em todo o mundo, mais uma vez essa data é comemorada. Como se pergunta a todo ano, existe motivo real para comemoração? Ou teríamos pretextos suficientes para promover um dia de luto?

Segundo José Galizia Tundisi, presidente do Instituto Internacional de Ecologia (IEE), apesar do Brasil ter 12% da água doce do mundo, a crescente demanda provoca aumento da poluição de rios, lagos e represas e pressiona fortemente os recursos hídricos. Esse mesmo autor salienta que a água está distribuída de forma desigual pelo País. Regiões como São Paulo, por exemplo, têm acúmulo de população e pouca reserva de água. Já no Amazonas, ocorre o inverso. Além disso, há a questão da exploração dos aquíferos, pois muitos não são bem explorados, como na cidade de Manaus.

Para Tundisi, com o aumento da pressão sobre os recursos hídricos, a resposta da natureza será mais lenta, provocando em determinados períodos escassez. Tudo na água se resume a uma relação de disponibilidade e demanda. Se continuarmos utilizando acima da disponibilidade, as reservas vão diminuir e coloraremos o abastecimento em risco.

Na verdade, o modelo de desenvolvimento atual e como ele afeta as populações tem persistido na manutenção de erros graves. É realmente uma insanidade sem limites o que empresas e indivíduos vêm fazendo com o meio ambiente, interferindo em sua própria sobrevivência. É isso que se pode chamar de falso progresso (ou de desenvolvimento insustentável), mas que muitos teimam em chamar de crescimento econômico ou desenvolvimento sustentável.


De fato, percebe-se grande desconhecimento ou mesmo ignorância que tem origem no egoísmo humano e na percepção ilusória. Dessa forma, o mundo caminha para o crescimento “deseconômico”, que segundo o ilustre economista Herman Daly, ocorre quando aumentos na produção se dão à custa do uso de recursos e sacrifícios do bem-estar que valem mais do que os bens produzidos. Isso decorre de um equilíbrio indesejável de grandezas denominadas utilidade e desutilidade. Utilidade é o nível de satisfação das necessidades e demandas da população; a grosso modo é o nível de seu bem-estar. Desutilidade se refere aos sacrifícios impostos pelo aumento de produção e consumo. Pode incluir o uso de força de trabalho, perda de lazer, esgotamento de recursos, exposição à poluição e concentração populacional.


Segundo Loïc Fauchon, presidente do Conselho Mundial da Água, o comportamento humano com relação ao uso deste recurso é cada vez mais irrefletido e inconsequente. É preciso que se estabeleçam metas para a elaboração de um novo modelo de desenvolvimento e crescimento econômico. Deve-se haver a pretensão de apresentar resposta para escassez do recurso água provocada pelo crescimento da população, pelo desperdício, pelo consumo excessivo e pelo aumento da necessidade de energia.


Tal análise se justifica pelo fato de que a economia e o meio ambiente estão passando por uma crise sem precedentes. Em grande parte, o principal responsável é o modelo de desenvolvimento adotado pela maioria dos países. Para agravar ainda mais a situação, a atual crise econômica mundial tem trazido como solução o estímulo ao consumo – situação ainda mais ameaçadora às atuais situações ambientais. Esse modelo visa, efetivamente, a geração de lucros imediatos, não considerando os limites do crescimento; portanto, socialmente e ambientalmente não é sustentável.


Do ponto de vista social, 20% da população mais rica utilizam ¾ dos recursos naturais, causando a sua degradação. Do ponto de vista ambiental, considerando a Pegada ecológica, verifica-se que o ambiente está sendo usado além de sua capacidade de suporte e de reposição. Na verdade, o modelo de produção e consumo são os responsáveis pelas agressões cometidas sobre os ecossistemas aquáticos, indispensáveis para a sobrevivência da humanidade. A previsão é de que a população mundial, atualmente superior a 6,7 bilhões de habitantes, possa chegar a nove bilhões até meados deste século, o que aumentará consideravelmente a demanda de recursos hídricos.


Segundo a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE), o número de pessoas com graves problemas para conseguir água chegará a 3,9 bilhões em 2030. A falta do saneamento nas cidades, em níveis mínimos que assegurem o bem-estar das populações, tem gerado um quadro de degradação do meio ambiente urbano sem precedentes, sendo os recursos hídricos um dos primeiros elementos integrantes da base de recursos naturais a sofrer tais efeitos.

No Brasil, de acordo Tundisi, com caso o consumo de água continuar no ritmo atual, em 30 anos teremos problemas sérios de abastecimento, principalmente nas Regiões Sul e Sudeste. Segundo esse mesmo autor, em algumas cidades já há uso competitivo da água a ponto de abastecimento público e produção de alimentos concorrerem pelo recurso. Para Tundisi, falta ao País uma cultura de gestão de água integrada e nacional. Ele afirma que isso ocorre de forma setorial, com políticas locais, enquanto deveria ser nacional e integrada. “Existem boas iniciativas no Brasil, mas são todas pontuais e localizadas. Se fossem mais amplas, teríamos resultados mais efetivos.”

Como consequência, e com o aumento acelerado da população, o mundo está enfrentando intensas mudanças globais, como migração, urbanização, mudança do clima, desertificação, seca, alteração do uso e degradação do solo, crises econômicas e alimentares. Caso continuemos a agir dessa forma, não respeitando os limites do crescimento, pouco restará para as gerações futuras. Como bem lembra Leonardo Boff, caso não se cuide do planeta a partir de uma visão sistêmica e holística, poderá submetê-lo à destruição de suas partes e inviabilizar a própria vida. Há inúmeras evidências que existem limites para o crescimento econômico, considerando que os recursos naturais são escassos.

Segundo Tundisi, a gestão das águas deve ser realizada por bacia hidrográfica, respeitando as características específicas de cada uma e da região em que estão. Para ele é preciso entender como cada bacia hidrográfica funciona, relacionar disponibilidade e demanda, analisar fontes de poluição, ter um banco de dados regional. Assim é possível fazer uma gestão sistêmica da água. No Brasil já existem comitês de bacias, mas eles ainda estão em fase de implantação e com andamento muito lento.

O especialista diz ser necessário mudar a visão mais imediatista dos governantes por uma que contenha uma estratégia de futuro. O professor adverte que o modelo atual de gestão do meio ambiente está relacionado a um tipo de economia, na qual o capital natural não está inserido. Sabemos que há limites para o crescimento. A Amazônia, por exemplo, tem um grande potencial hidrelétrico, mas não adianta abarrotar a região de usinas. Isso significa que estamos trocando evolução natural por economia. Precisa haver um equilíbrio, pois os efeitos podem ser irreversíveis. O capital natural é algo explorável, mas dentro de limites.

Respondendo à pergunta inicial: teve-se o que comemorar neste dia 22 de março de 2012? Não existe motivo para pleno luto, mas é muito cedo para comemorações, apesar das inúmeras iniciativas governamentais e organizacionais. A indústria, o comércio e a população devem refletir sobre a necessidade urgente de abandono às concepções anacrônicas ligadas à produção e ao consumo, adotando a sustentabilidade sócio-ambiental nas ações públicas e privadas, em todos os níveis, do local ao global. Essas deverão ser as propostas de um novo modelo guiado pelos princípios do “Desenvolvimento Sustentável”.



* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

Degradação dos ecossistemas aquáticos e os limites do crescimento


* Por Maurício Novaes Souza


O dia 22 de março foi escolhido pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 22 de Fevereiro de 1993 como o “Dia Mundial da Água”. Essa escolha se deu devido à presença de grandes índices de poluição ambiental no planeta. A partir desta data, a ONU elaborou uma série de medidas cautelosas a favor da água e impôs a consciência ecológica em relação a este bem natural. Nesse mês de março, em todo o mundo, mais uma vez essa data foi comemorada. Como se pergunta a todo ano, existe motivo real para comemoração? Ou teríamos pretextos suficientes para promover um dia de luto?

Na verdade, o modelo de desenvolvimento atual e como ele afeta as populações tem persistido na manutenção de erros graves. É realmente uma insanidade sem limites o que empresas e indivíduos vêm fazendo com o meio ambiente, interferindo em sua própria sobrevivência. É isso que se pode chamar de falso progresso (ou de desenvolvimento insustentável), mas que muitos teimam em chamar de crescimento econômico ou desenvolvimento sustentável.

De fato, percebe-se grande desconhecimento ou mesmo ignorância que tem origem no egoísmo humano e na percepção ilusória. Dessa forma, o mundo caminha para o crescimento “deseconômico”, que segundo o ilustre economista Herman Daly, ocorre quando aumentos na produção se dão à custa do uso de recursos e sacrifícios do bem-estar que valem mais do que os bens produzidos. Isso decorre de um equilíbrio indesejável de grandezas denominadas utilidade e desutilidade. Utilidade é o nível de satisfação das necessidades e demandas da população; a grosso modo é o nível de seu bem-estar. Desutilidade se refere aos sacrifícios impostos pelo aumento de produção e consumo. Pode incluir o uso de força de trabalho, perda de lazer, esgotamento de recursos, exposição à poluição e concentração populacional.

Segundo Loïc Fauchon, presidente do Conselho Mundial da Água, o comportamento humano com relação ao uso deste recurso é cada vez mais irrefletido e inconsequente. É preciso que se estabeleçam metas para a elaboração de um novo modelo de desenvolvimento e crescimento econômico. Deve-se haver a pretensão de apresentar resposta para escassez do recurso água provocada pelo crescimento da população, pelo desperdício, pelo consumo excessivo e pelo aumento da necessidade de energia.

Tal análise se justifica pelo fato de que a economia e o meio ambiente estão passando por uma crise sem precedentes. Em grande parte, o principal responsável é o modelo de desenvolvimento adotado pela maioria dos países. Para agravar ainda mais a situação, a atual crise econômica mundial tem trazido como solução o estímulo ao consumo – situação ainda mais ameaçadora às atuais situações ambientais. Esse modelo visa, efetivamente, a geração de lucros imediatos, não considerando os limites do crescimento; portanto, socialmente e ambientalmente não é sustentável.

Do ponto de vista social, 20% da população mais rica utilizam ¾ dos recursos naturais, causando a sua degradação. Do ponto de vista ambiental, considerando a Pegada ecológica, verifica-se que o ambiente está sendo usado além de sua capacidade de suporte e de reposição. Na verdade, o modelo de produção e consumo são os responsáveis pelas agressões cometidas sobre os ecossistemas aquáticos, indispensáveis para a sobrevivência da humanidade. A previsão é de que a população mundial, atualmente superior a 6,7 bilhões de habitantes, possa chegar a nove bilhões até meados deste século, o que aumentará consideravelmente a demanda de recursos hídricos.

Segundo a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE), o número de pessoas com graves problemas para conseguir água chegará a 3,9 bilhões em 2030. A falta do saneamento nas cidades, em níveis mínimos que assegurem o bem-estar das populações, tem gerado um quadro de degradação do meio ambiente urbano sem precedentes, sendo os recursos hídricos um dos primeiros elementos integrantes da base de recursos naturais a sofrer tais efeitos.

Como consequência, e com o aumento acelerado da população, o mundo está enfrentando intensas mudanças globais, como migração, urbanização, mudança do clima, desertificação, seca, alteração do uso e degradação do solo, crises econômicas e alimentares. Caso continuemos a agir dessa forma, não respeitando os limites do crescimento, pouco restará para as gerações futuras. Como bem lembra Leonardo Boff, caso não se cuide do planeta a partir de uma visão sistêmica e holística, poderá submetê-lo à destruição de suas partes e inviabilizar a própria vida. Há inúmeras evidências que existem limites para o crescimento econômico, considerando que os recursos naturais são escassos.

Respondendo à pergunta inicial: teve-se o que comemorar neste dia 22 de março de 2012? Não existe motivo para pleno luto, mas é muito cedo para comemorações, apesar das inúmeras iniciativas governamentais e organizacionais. A indústria, o comércio e a população devem refletir sobre a necessidade urgente de abandono às concepções anacrônicas ligadas à produção e ao consumo, adotando a sustentabilidade sócio-ambiental nas ações públicas e privadas, em todos os níveis, do local ao global. Essas deverão ser as propostas de um novo modelo guiado pelos princípios do “Desenvolvimento Sustentável”.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.