sábado, 3 de dezembro de 2016

O polêmico Fidel e a indecifrável Cuba: um exemplo de sustentabilidade ecológica e social?


Por Maurício Novaes Souza*

Morreu Fidel Castro! E agora? Com sua partida, como bem descrito por Roberto Amaral, escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia, encerra-se a saga dos heróis cervantinos da Revolução Cubana: Fidel, Camilo Cienfuegos e Ernesto ‘Che’ Guevara. Em sua opinião, eles desprezaram o poder, em sua forma clássica! Camilo, pouco conhecido; ‘Che’, teve um precoce desaparecimento: deixou saudade e saiu de cena admirado pelo que não conseguiu fazer - sua imagem é ícone de amigos e adversários, multiplicada pelo sistema que não conseguiu abalar; finalmente Fidel, com seus erros e seus méritos, foi o amálgama da tríade, pois era o sonho sem limites, era a mística revolucionária, mas era igualmente a práxis consciente de quem, sem renunciar ao sonho e mesmo à aventura, dá os braços ao império da realidade objetiva. Fidel, que o processo histórico transformaria no principal líder libertário latino-americano do século XX, foi para os oprimidos de todos os continentes, para o grande universo dos subdesenvolvidos e particularmente para nós latino-americanos, uma luz, uma esperança, animando vontades e ajudando a realizar sonhos de libertação nacional.
O fato é que Cuba é uma ilha irrelevante do ponto de vista econômico, com 11 milhões de habitantes e 109.884 km2  de extensão (menor do que o Ceará) em face de gigantes como o Brasil e os EUA!  Fidel cumpriu, por décadas, com imensos sacrifícios para seu povo, o papel de esteio da luta anticolonialista e anti-imperialista, indispensável para a construção de um mundo socialmente mais justo. Em quase toda a África os soldados cubanos estiveram lutando em defesa dos processos de libertação nacional. Como poucos líderes revolucionários, Fidel sobreviveu à sua obra e morreu como vencedor: como todos os vitoriosos longevos pagaria alto preço no julgamento de seus contemporâneos - ainda aguardará o crivo da história!
Inicialmente, venceu a ditadura de Fulgencio Batista: criminoso desvairado e sem limites, encerrando décadas de assassinatos, torturas e toda sorte de barbárie. Venceu, reiteradas vezes, o poderosíssimo império americano, bem como todos os presidentes americanos contemporâneos a ele – todos seus adversários e todos tentando a destruição do projeto cubano de regime socialista. Cuba e Fidel, a partir de certo momento uma unidade, sobreviveram à queda do Muro de Berlim, à queda da União Soviética e à transição da China para o capitalismo de Estado. Sobreviveram à Guerra Fria e à chantagem do conflito atômico. Sobreviveram ao cerco das ditaduras latino-americanas instaladas em nosso continente pelos Estados Unidos nos anos 1960-1970. Cuba, enfim, superou mais de 50 anos de cerco político-econômico, diplomático e militar da maior potência do mundo, sobreviveu à crise do socialismo real e à globalização. Derrotou as oligarquias, os insurgentes, os sabotadores internos e externos.
Ao funeral de Fidel, compareceu um povo respeitado, soberano e solidário, orgulhoso de sua trajetória e consciente de seu papel na história. Por toda a “ilha”, durante seu funeral, o povo dizia que Fidel está vivo! Este, seu legado. Segundo Amaral, com a exceção da revolução de 1917, ao lado da Guerra do Vietnã, nenhum outro processo social terá influenciado tanto o mundo, e principalmente nosso continente, quanto a revolução cubana e nenhum líder exerceu tanto fascínio entre as multidões de jovens esperançosos quanto Fidel.
Nenhum líder permaneceu no poder por tanto tempo, mantendo uma identificação profunda e íntima com sua gente. A Cuba de hoje resolveu problemas que ainda se agravam em países relativamente ricos, como o nosso: erradicou a miséria e o analfabetismo, universalizou o acesso à saúde de qualidade (apontado ao mundo pela OMS como exemplo a ser seguido) e à educação. A Cuba que Fidel Castro, Camilo Cienfuegos e Ernesto “Che” Guevara libertaram no réveillon de 1958-1959, porém, era, naquele então, apenas o maior prostíbulo do Caribe, balneário de gângsteres controlado pela máfia e pelo tráfico, país sem economia própria, sem indústria, limitado à monocultura da cana de açúcar.
Quanto às questões ambientais? De acordo com o Relatório “Planeta Vivo” da ONG WWF, Cuba era em 2006 o único país do mundo com desenvolvimento sustentável. De acordo com o relatório, se o modelo de desenvolvimento continuar como está, por volta de 2050 a humanidade precisaria consumir os recursos naturais e a energia equivalente a dois planetas Terra! Isso porque vivemos um círculo vicioso: os países pobres produzem um dano per capita à natureza relativamente pequeno; no entanto, à medida que se desenvolvem, tais como China e Índia, o consumo aumenta e atinge níveis insustentáveis pelo Planeta. A WWF elaborou em seu relatório um gráfico no qual sobrepõe duas variáveis: o índice de desenvolvimento humano (estabelecido pela ONU) e o "rastro ecológico", que indica a energia e recursos por pessoa consumidos em cada país. Surpreendentemente, apenas Cuba tinha nos dois casos níveis suficientes que permitiam que o país fosse considerado cumpridor dos critérios mínimos para a sustentabilidade. Segundo a WWF, "não significa, certamente, que Cuba seja um país perfeito, mas é o que cumpre as condições". "Cuba alcança um bom nível de desenvolvimento, segundo a ONU, graças a seu alto nível de alfabetização e expectativa de vida bastante alta, enquanto seu 'rastro ecológico' não é grande, por ser um país com baixo consumo de energia".
De fato, Cuba parece ser a que está mais perto da sustentabilidade, já que países como Brasil ou México estão perto dos mínimos necessários, frente à situação de regiões como África - com baixo consumo energético, mas muito subdesenvolvida - e Europa, onde ocorre o inverso. De acordo com a WWF, não se sabe exatamente a que se deve o fato da boa situação da América Latina, mas é possível perceber que é ali onde as pessoas parecem mais felizes, talvez se deva ao maior equilíbrio entre desenvolvimento e meio ambiente. Apesar das boas vibrações transmitidas pelo bloco latino, a situação global mostrada pelo relatório da WWF é desanimadora. Por exemplo, o número de espécies de animais vertebrados caiu 30% nos últimos 33 anos.
Segundo James Leape, diretor-geral da WWF, o rastro deixado pelo homem é tamanho que "são consumidos recursos em tempo muito rápido, que impede a Terra de recuperá-los". O "rastro ecológico" do homem, seu consumo de recursos, triplicou entre 1961 e 2003: assim, o ser humano já pressiona o planeta 25% a mais do que o processo regenerativo natural da Terra pode suportar. Além disso, há uma piora da situação, apesar de esforços alcançados com o Tratado de Kioto. No relatório da WWF anterior, publicado em 2004, o impacto do homem ultrapassava em 21% a capacidade de regeneração do planeta. O novo relatório da organização coloca na "lista negra" países com alto consumo per capita de energia e recursos, tais como os Emirados Árabes Unidos, EUA, Finlândia, Canadá, Kuwait, Austrália, Estônia, Suécia, Nova Zelândia e Noruega.
Nesse contexto, até 2008-2010, Cuba realmente era o lugar mais sustentável na Terra, pois era líder mundial em práticas ecologicamente sustentáveis. Foi um dos primeiros países a iniciar a transição em grande escala da agricultura convencional, que é fortemente dependente dos combustíveis fósseis, para o novo paradigma agrícola conhecida como “agricultura sustentável”. De acordo com a ONG “Vida Sustentável”, em Cuba havia prósperas fazendas orgânicas urbanas em torno das cidades, que forneciam cerca de 80% das frutas frescas, vegetais, ervas e plantas medicinais consumidos pelos residentes urbanos. Eles agora visam a autossuficiência local e sustentabilidade ecológica. Estas fazendas orgânicas ajudam a fortalecer as comunidades locais e empregam centenas de milhares de pessoas, graças ao apoio do governo. A agricultura cubana é 95% orgânica, com a vantagem da cidade de Havana produzir mais de 60% das suas próprias frutas e vegetais dentro de espaços urbanos da cidade.
Ao mesmo tempo em que se pensa em agricultura, Cuba tem se envolvido em uma campanha de reflorestamento em massa, como também vem investindo na produção de energia alternativa, com foco em biocombustíveis e energia solar. Cuba também foi o primeiro país a substituir as lâmpadas incandescentes por lâmpadas fluorescentes compactas e proibiu a venda de lâmpadas incandescentes. A educação ambiental teve prioridade em projetos e iniciativas envolvendo as comunidades locais, organismos, Poder Popular, universidades, escolas e organizações de massa.
O uso de bicicletas em Cuba é uma realidade há muito tempo, e têm sido cada vez mais promovida como um modo de transporte sustentável. Autoridades do governo têm trabalhado para tornar as ruas mais seguras para os ciclistas, acrescentando ciclovias e oferecendo um ônibus para levar os ciclistas de e uma cidade para outra, sem que eles não tenham que andar junto de carros e caminhões em rodovias movimentadas.
E qual foi o caminho para a sustentabilidade? Cuba ainda tem um modelo sustentável de produção e consumo? De acordo com a ONG “Vida Sustentável”, os Estados Unidos mantêm o bloqueio econômico em Cuba, o que restringiu severamente o comércio cubano. Este bloqueio, enquanto economicamente devastador para Cuba, teve tanto impacto negativo quanto positivo na sustentabilidade ambiental de Cuba. Como resultado da economia do bloqueio cubano, o país ficou fortemente dependente do comércio com a União Soviética, até o seu colapso em 1989. Antes do colapso da União Soviética, Cuba seguiu o seu modelo de industrialização centralizada e estava seguindo o mesmo caminho insustentável que ambos os países capitalistas e do bloco liderado pela União Soviética. Por exemplo, durante este período de tempo Cuba tinha o setor agrícola mais industrializada da América Latina, caracterizada pela mecanização e abrangente monocultivo. No entanto, a industrialização era dependente do comércio, que começaram a desaparecer em 1989. Cuba perdeu o acesso crucial para itens como o petróleo, máquinas pesadas, peças de máquinas, agrotóxicos e enfrentou uma crise econômica e agrícola.
Segundo a ONG “Vida Sustentável”, o país teve de ser reorientado em sua economia e agricultura, tornando-se um líder mundial em sustentabilidade ecológica. A produção agrícola recuperou e Cuba registrou a melhor taxa de crescimento da América Latina na segunda metade da década de 1990 e na década de 2000. Grande parte da produção foi de recuperação devido à adoção de uma série de políticas de descentralização agrárias, começando na década de 1990 que incentivou formas individuais e cooperativas de produção. Empresas estatais ineficientes foram substituídas por milhares de novas fazendas pequenas, milhões de hectares de terras do Estado não utilizados urbanas e suburbanas foram doados aos trabalhadores para a agricultura em pequena escala. Neste novo modelo, as decisões relativas à utilização de recursos e estratégias de produção de alimentos foram transferidas para o nível local, enquanto o Estado tinha o trabalho de fazer a distribuição de insumos e serviços necessários.
Contudo, mais de 75% da oferta total de energia de Cuba vem de combustíveis fósseis, incluindo 96% de seu fornecimento de energia elétrica; o fornecimento restante é proveniente de fontes renováveis, principalmente biomassa a partir da cana de açúcar. Os programas nacionais para aumentar a oferta de energia renovável e para aumentar a eficiência energética têm sido continuamente implementados: como Cuba carece de capital de investimento, recebe óleo relativamente barato da Venezuela, e pode encontrar uma grande oferta de petróleo em suas águas. Muito ainda tem que ser feito, mas o povo cubano mostrou que com um pouco de esforço e quase sem dinheiro pode-se começar as mudanças.
Porém, de acordo com a Carta Capital, nos dias atuais, os setores relacionados ao turismo que serão o futuro de Cuba. Desde dezembro de 2014, quando o presidente americano, Barack Obama, e o cubano, Raúl Castro, anunciaram um reinício das relações entre os dois países. A Ilha do Caribe representa um mercado comparável ao da Guatemala ou Porto Rico. Só nos primeiros dois meses e meio de 2016, foram registrados mais de 1 milhão de turistas, uma cifra recorde, havendo dificuldade em encontrar hospedagem privada! Desde 2006, Cuba vem realizando um cauteloso processo de abertura econômica: permitiu-se mais iniciativa privada e foi aprovado a lei que permite empresas estrangeiras investirem em todos os setores empresariais cubanos. O catálogo elaborado pelo governo inclui 326 possíveis projetos de investimento, com um volume total de 8,2 bilhões de dólares – da agropecuária à construção de parques de energia eólica, passando pela produção de vacinas. O interesse é imenso: há meses delegações governamentais e empresariais de todo o mundo fazem uma verdadeira ciranda em Havana. O momento parece propício para o retorno de Cuba ao palco da economia mundial, quando o restante da América Latina se debate com escândalos de corrupção, desvalorização monetária e índices econômicos despencando, como o Brasil!
Contudo, com a morte de Fidel e toda a euforia, investir em Cuba continua envolvendo dificuldades! Segundo a Carta Capital, as empresas se queixam de entraves burocráticos e da falta de segurança legal. Na cidade portuária de Mariel, às portas de Havana, concretizaram-se 12 projetos desde a abertura da zona econômica especial, há dois anos. Lá ficam as sedes de três empresas que trabalham com capital nacional: uma companhia de logística, um banco e o terminal de contêineres de Mariel, erguido com créditos brasileiros e operado pela PSA Internacional, de Cingapura. Além disso, até agora lá se estabeleceram um produtor de carnes e um de tintas, mexicanos; uma empresa de transportes belga; uma espanhola de gêneros alimentícios; uma construtora brasileira; e uma joint venture cubano-brasileira. Recentemente, pouco antes da visita de Obama agora em 2016, o fabricante de tratores Cleber LLC, do Alabama, foi autorizado a construir uma central de produção em Cuba, como primeira empresa americana em meio século. Assim, a partir de 2017, cerca de mil pequenos tratores sairão a cada ano de Mariel, para abastecer agricultores independentes e cooperativas.
Para a Carta Capital, além da agricultura e do turismo, a biotecnologia e a farmácia parecem ser os setores com maior potencial. No entanto, medicamentos e produtos biotecnológicos cubanos ainda não podem ser exportados para os EUA, em função dos embargos econômico, comercial e financeiro impostos pelo país e ainda em vigor. No geral, a política de embargo de Washington é o maior obstáculo aos investimentos em Cuba. O povo cubano é conservador: Sol Martínez é uma que não confia totalmente nos americanos: "Eles que não fiquem pensando que podem fazer o relógio andar para trás 60 anos. Chegar e fazer dinheiro rápido – a coisa não é assim! Eles vão ter de obedecer às nossas regras" - como turistas, os americanos são bem-vindos, é claro.
No entanto, segundo a Carta Capital, as medidas para transformar a agricultura cubana continuam sem dar os frutos esperados, para descontentamento dos consumidores, devido à carestia dos alimentos, e também das autoridades, que querem urgência no aumento da produção local, para reduzir o custo das importações. Os altos preços da cesta alimentar nos mercados agropecuários regidos pela procura e oferta, mais as medidas governamentais para deter essa tendência à alta desataram fortes debates, refletidos inclusive pelo jornal oficial Granma em sua edição digital e em outros meios da imprensa igualmente estatais. O tema dos preços altos que corroem os bolsos cubanos foi levado, no final de dezembro, às sessões do unicameral parlamento cubano, por um deputado que considerou urgente baixá-los para combater a especulação e conseguir que os produtores sejam mais acessíveis para a maioria da população. Nesse período, houve dias com postos estatais de venda semivazios, enquanto outros de comercialização privada ofereciam menos produtos do que o habitual, mas caros! Como parte das transformações na agricultura cubana, que começaram em 2008 com a entrega de terras ociosas em usufruto a pessoas dispostas a trabalhá-las, foi adotado um sistema de comercialização no qual coexistem Mercados Agropecuários Estatais, varejos privados, cooperativas não agropecuárias e trabalhadores independentes.
Em 2014, no conjunto dessas reformas de mercado, os preços subiram 27% em relação ao ano anterior, segundo pesquisa do jornal Juventud Rebelde. Não se conhece a estatística correspondente a 2015. O gasto com alimentação consome cerca de dois terços da renda familiar. Para o economista cubano Armando Nova, o ponto de partida dessa situação está em que não se produz o suficiente e a demanda sempre é maior do que a oferta. De acordo com Nova à IPS, “foi descentralizada a gestão de preços, mas não a produção, que é o primeiro elo da cadeia produtiva e de valor”. Para ele, é necessário aplicar um enfoque sistêmico que analise e considere cada passo do ciclo (produção, distribuição, câmbio e consumo), evitar medidas restritivas e não ignorar o comportamento do mercado. “Trata-se de instaurar um modelo de gestão econômico-empresarial totalmente novo”.
Nova, na Carta Capital, pontuou que essa modalidade asseguraria o direito do agricultor a decidir o que produzir, a quem vender sua produção e por qual preço, além de dispor de um mercado atacadista de insumos, meios de produção e serviços necessários para seus trabalhos, algo que até agora não existe por falta de recursos, segundo explicaram as autoridades. No setor agropecuário cubano coexistem várias formas de exploração, que incluem Cooperativas de Créditos e Serviços e de Produção Agropecuária, Unidades Cooperativas de Produção Agropecuária e agricultores privados, incluídos os usufrutuários, donos do que colhem, mas não da terra. Conseguir a participação dos camponeses, seja qual for sua organização produtiva, ao longo da cadeia, seja de maneira direta ou por intermédio de seu representante no mercado, evitaria que um produtor que tenha domínio do mercado imponha preços. Atualmente, a quantidade de terras de uso agrícola em Cuba gira em torno de 6,2 milhões de hectares, dos quais 30,5% estão em mãos estatais, 34,3% pertencem a cooperativas, e o restante é operado por pequenos agricultores privados e usufrutuários. A partir de 2009, foram 279.021 pessoas os receptores de terra em usufruto sob o compromisso de torná-las produtivas e rentáveis.
Durante 2015, de acordo com a Envolverde/IPS, a agricultura manteve modesto crescimento de 3,1%, considerado insuficiente para atender a demanda interna e substituir as importações de alimentos, em torno dos US$ 2 bilhões ao ano. O governo espera reduzir essas compras externas durante 2016 para US$ 1,94 bilhão. Em um artigo sobre este assunto, José Luis Rodríguez, ex-ministro da Economia, considerou evidente que, diante de mercados cujos preços não estão regulados centralmente, o Estado deve competir com uma oferta crescente para estabilizar ou minimizar os aumentos. Também desaconselhou impor preços máximos de venda sem a suficiente oferta para mantê-los.
E a sustentabilidade, afinal? Em 2010, segundo a EcoDesenvolvimento.org, Cuba ocupava a nona posição mundial. Contudo, mediante o cenário descrito, em 2016, segundo essa mesma fonte (http://www.ecodesenvolvimento.org/posts/2016/ posts/janeiro/os-10-paises-mais-sustentaveis-do-mundo-em-2016#ixzz4RpDD70li), os países que melhor cuidam dos seus recursos naturais, investem em energias renováveis e garantem qualidade de vida a população foram conhecidos recentemente em Davos (Suíça), quando foi lançado o Environmental Performance Index (EPI), ranking bienal elaborado por uma equipe de especialistas das universidades americanas de Yale e Columbia.
A mais recente edição do levantamento classificou 180 países com base em 20 indicadores distribuídos por 9 categorias: critérios de saúde ambiental; poluição do ar; recursos hídricos; biodiversidade e habitat; recursos naturais; florestas; energia e clima, entre outros. Cada categoria possui pesos diferentes. A Finlândia lidera o ranking, com 90.68 pontos. O Brasil apresentou uma melhora considerável em relação à edição 2014, saindo da 77ª posição para a 46ª. O país somou 78.90 pontos de 100 possíveis. Na análise por categoria, o Brasil apresentou melhor desempenho no quesito qualidade do ar, com 91.78 pontos, mas se saiu mal na preservação de recursos florestais, levando apenas 37.86 de 100 pontos, o que coloca o país em 83º lugar entre os que melhor cuidam de suas florestas. Quanto à Cuba, não aparece mais nem entre os 30 primeiros!
Assim, verifica-se que o modelo socioeconômico da Ilha precisa urgentemente ser revisto! O diferencial que permite acreditar que poderá ser rápida tal resposta, deve-se ao alto nível de escolaridade de sua população, bem como os excelentes níveis na área de saúde - mérito de Fidel. Apesar disso, mudanças no modelo deveriam ter sido implementadas há vários anos para que a economia não tivesse se deteriorado a tal ponto, afetando a própria sustentabilidade ecológica!

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa. Foi professor do IF SEMG campus Rio Pomba. Atualmente, IFES campus de Alegre. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

QUALIDADE DE SILAGEM DE PLANTA INTEIRA DE MILHO



Revisão de literatura


                                                                                     Mestranda em Agroecologia:
Silvane de Almeida Campos - 75631

  
Viçosa-MG
Junho de 2014
SUMÁRIO



1. INTRODUÇÃO........................................................................................................... 3
2. SEQUÊNCIA DE OPERAÇÕES................................................................................ 4
2.1 Escolha da cultivar...................................................................................................... 4
2.2 Processo de ensilagem................................................................................................. 7
2.2.1 Ponto de colheita da forragem................................................................................. 8
2.2.2 Equipamentos utilizados na colheita........................................................................ 9
2.2.3 Tamanho da partícula ensilada............................................................................... 10
2.2.4 Dimensionamento do silo....................................................................................... 11
2.2.5 Enchimento e compactação do silo........................................................................ 11
2.2.6 Vedação do silo...................................................................................................... 12
2.3 Tempo de armazenamento da silagem....................................................................... 12
2.4 Abertura do silo e retirada da silagem....................................................................... 13
3. Métodos utilizados para avaliação da qualidade da silagem....................................... 13
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................... 16
5. LITERATURA CITADA........................................................................................... 16



1.      INTRODUÇÃO
De acordo com dados estatísticos do IBGE (2012), o Brasil possui 211 milhões de bovinos, representando o maior rebanho comercial do mundo. Destaca-se ainda como o maior exportador de carne bovina fornecendo o produto para Hong Kong, Rússia, Venezuela, Iran, Egito, Chile, entre outros países (ABIEC, 2014). Em se tratando da pecuária leiteira, o país produziu 32 bilhões de litros de leite (IBGE, 2012).
No Brasil, os sistemas de criação de ruminantes têm no pasto sua principal fonte de alimento (Castro et al., 2010), sendo a forma mais econômica de alimentação animal. No entanto, são mais que conhecidos os riscos que os pecuaristas correm por não manter sua escala de produção baseada na alimentação dos animais somente a pasto, devido às variações climáticas e a estacionalidade de produção das plantas forrageiras (Neumann, 2011), sendo comum em várias regiões a ocorrência de escassez de forragem durante o inverno.
No entanto, é necessário que os pecuaristas se planejem produzindo durante o verão um alimento de boa qualidade que possa ser armazenado e conservado para ser fornecido aos animais, principalmente os ruminantes, durante o inverno (Vilela et al., 2008).
Desta forma, são necessárias alternativas que atendam à demanda crescente de volumosos, como a produção de silagens. Alguns rebanhos confinados são alimentados com silagem o ano todo, requerendo sua programação antecipada (Paziani et al., 2009). Segundo Pereira et al. (2007), nos sistemas de produção animal em confinamento, o principal volumoso utilizado é a silagem de milho.
Com a crescente melhoria no padrão genético dos animais e com a necessidade de intensificação da produção pecuária, aumenta-se também a exigência na qualidade da silagem. Para ter silagem de boa qualidade, com elevado valor nutritivo através da maior participação de grãos na massa produzida, é preciso adotar procedimentos corretos em todas as etapas do processo produtivo (Paziani et al., 2009). Jobim et al. (2007), definem a qualidade da forragem como sendo uma referência ao valor nutritivo da massa de forragem, em interação com o consumo efetuado pelo animal e com o potencial de desempenho do animal.
A oferta de silagem de alta qualidade pode reduzir o uso de concentrados e os custos de alimentação do rebanho, aumentando o lucro para o produtor (Pereira et al., 2012), pois a alimentação é responsável pela maior parte dos  custos de produção, sejam animais confinados ou criados extensivamente (Pereira et al., 2007). O produtor que oferece um suplemento volumoso aos animais no inverno evita a queda na produtividade, na época em que os preços para o leite no mercado são melhores.
As regiões tropicais caracterizam-se pelo elevado número de espécies forrageiras com grande potencial para utilização na alimentação de ruminantes (Oliveira et al., 2010). Entre estas, o milho se destaca por ser considerada a cultura padrão para ensilagem em função da sua tradição no cultivo, facilidade de cultivo, facilidade de mecanização em todas as etapas, alta produção de matéria seca (MS) por unidade de área, apresenta bom valor nutritivo, elevado conteúdo energético e baixo teor de fibra, baixo poder tampão, teores adequados de matéria seca e carboidratos solúveis, boa fermentação microbiológica sem a necessidade de aditivos, boa palatabilidade e alto consumo pelos animais (Pereira et al., 2004; Restle et al., 2006; Paziani et al., 2009; Pinto et al., 2010).
O valor nutritivo do milho também está diretamente relacionado ao arranjo de plantas, densidade de semeadura, espaçamento entre linhas e arquitetura da planta. Estes fatores podem interferir na composição nutricional da planta de milho. Em função disso, há uma tendência de redução no espaçamento e aumento na densidade de semeadura, privilegiando assim cultivares de arquitetura mais ereta (Strieder, 2006).
A silagem de milho é alimento volumoso nutricionalmente completo com alta densidade energética (maior que 64% de nutrientes digestíveis totais - NDT), com teores moderados de proteína bruta (6 a 9 % de PB) sem necessidade de incorporação de aditivos (Factori, 2008).

2. SEQUÊNCIA DE OPERAÇÕES

2.1 Escolha da Cultivar
Existem diversos materiais no mercado e as empresas produtoras de sementes têm explorado bem esse nicho, com atenção para o desempenho agronômico e valor nutritivo da forragem (Lugão et al., 2011).
O conhecimento de características quanto ao tipo, ciclo, época de semeadura, densidade de plantas, textura do grão, resistência ao acamamento, altura da planta, nível de tecnologia adotado e a região de adaptação da cultivar é imprescindível para a obtenção de sucesso da lavoura de milho destinado à silagem (Cruz et al., 2014). Para a obtenção de adequada população de plantas, deve ser utilizada a densidade recomendada para cada cultivar e região, semelhantemente à recomendada para produção de grãos.
Segundo Schmidt (2011), um bom híbrido de milho para silagem é aquele que apresenta boa produtividade, com espigas grandes e grãos bem cheios. Para proceder à escolha, o produtor deve recorrer aos resultados de ensaios regionais de cultivares de milho para silagem, buscando um material produtivo, com alto valor nutritivo e adaptado às condições locais. A utilização de híbridos mais produtivos e adaptados às condições locais é responsável pelos ganhos em produtividade de massa da cultura do milho destinado à silagem (Paziani et al., 2009).
Na nutrição animal, a planta de milho apresenta dois componentes distintos: a fração vegetativa, composta basicamente de carboidratos estruturais, e a fração granífera representada principalmente pelo amido do endosperma (Zopollatto & Reco, 2009). Os materiais devem apresentar plantas com alta digestibilidade da matéria seca e grãos dentado (consistência macia) por apresentar maior digestibilidade num estádio mais avançado, ampliando a “janela de colheita” (Factori, 2008).
De acordo com Mello (2004), os melhoristas de milho para silagem têm orientado seus estudos objetivando produzir híbridos adaptados a diferentes tipos de solo e clima, com maior resistência a pragas e doenças regionais, melhor resposta à adubação, estabilidade de produção, colmos forte e resistentes ao acamamento, adequada estrutura física em aspectos relativos à altura de planta e contribuição dos componentes estruturais (colmo, folhas e espiga e/ou panícula), elevado rendimento de biomassa e grãos, acentuado stay green, menor dry down e maior digestibilidade da fibra.
Na cultura do milho, vários aspectos causam variações na qualidade da silagem, como o híbrido utilizado, estádio de maturação na colheita, além de aspectos relativos ao solo e ao clima (Neumann et al., 2007).
De acordo com Basi et al. (2011), a qualidade final da silagem está relacionada ao estado nutricional das plantas e ao adequado processo fermentativo.
Na produção de silagem de planta inteira ocorre remoção total da parte vegetativa, promovendo alta extração e exportação de nutrientes e, conseqüentemente, problemas de fertilidade do solo serão mais intensos e se manifestarão mais rapidamente em relação às áreas de produção de grãos. Isto ocorrerá principalmente se uma mesma área for utilizada para produção de silagem durante anos consecutivos sem um sistema de manejo de solo e adubação adequados (Martin et al., 2011).
Segundo estes mesmos autores, as recomendações em relação às épocas de aplicação da adubação nitrogenada no milho para silagem são as mesmas para a produção de grãos. Segundo os mesmos autores, doses a serem aplicadas no milho para silagem deverão ser maiores que para grãos, para compensar a exportação na parte vegetativa da planta, pois em torno de 70% é translocado para o grão, os outros 30% do N ficam na parte vegetativa. Recomenda-se acrescentar 30% da dose recomendada para a produção de grãos para compensar a maior exportação na silagem.
Skonieski et al. (2014) ao avaliarem o efeito do arranjo de plantas sobre a qualidade da silagem de milho cultivado em sistema de plantio direto em Santa Maria, RS, com utilização do híbrido simples modificado, DOW 766, ciclo curto, dupla finalidade, mantendo a população de 65.000 plantas ha-1 nos espaçamentos entre linhas de 40, 60 e 80 cm, verificaram que a produção e a composição morfológica das plantas de milho não foram afetadas pelos arranjos de plantas. O arranjo de plantas no espaçamento 80 cm teve maior teor de proteína da forragem e da silagem, resultando em silagem de qualidade superior. A qualidade da ensilagem diminuiu com a redução do espaçamento, especificamente os teores de fibra em detergente neutro, nutrientes digestíveis totais e compostos de lignina.
Nakano Neto e Mello (2010) avaliaram algumas características agronômicas do milho para silagem com diferentes fontes de adubações do híbrido AGN-2012, em espaçamento 80 cm entre linhas, com densidade de plantio de 50.000 plantas/ha. Os tratamentos foram adubação química (140 kg/ha da formulação 03-15-15), 7500 kg/ha de cama sobreposta de suíno e 2500 kg/ha de cama de frango, aplicados no plantio. Aos 30 dias após a emergência das plântulas efetuou-se adubação nitrogenada com a utilização de 60 kg/ha de N. Concluíram um potencial uso de cama sobreposta de suínos como uma possível fonte suplementar de N, P, K, S e Zn uma vez que é rica nesses elementos, por outro lado, espera-se uma decomposição tardia e, portanto uma liberação de forma mais lenta desses nutrientes para a cultura do milho em relação à adubação com adubo químico e cama sobreposta de aves. Portanto, o uso de cama sobreposta de suínos e de frango pode ser recomendada desde que analisadas as necessidades e os parâmetros encontrados.




Calonego et al. (2011), objetivaram avaliar o efeito da população de plantas e do espaçamento entre linhas no crescimento e na produtividade do milho AG 1051, híbrido duplo, ciclo semi-precoce, em experimento conduzido em Indiana-SP. Os tratamentos foram constituídos por populações de plantas de milho (45, 60 e 75 mil plantas ha-1), combinadas em dois espaçamentos entre linhas (0,45 m e 0,90 m). Observaram que houve aumento da produtividade de grãos com o aumento da população de plantas de 45 mil para 75 mil plantas ha-1, mesmo havendo sintomas de competição intraespecífica apontados pelo maior crescimento das plantas em altura e pelo menor diâmetro de colmo. O espaçamento de 0,90 m entre linhas proporciona maior produtividade de milho com contribuição da maior produção de grãos por espiga.
Santos et al. (2010) objetivaram avaliar a produtividade de massa seca e massa verde, altura de inserção da espiga, número de espigas por planta, altura das plantas e a relação espiga, colmo e folha de seis variedades de milho indicadas para a região semiárida brasileira (BR 5033 - Asa Branca, BR 5028 - São Francisco, BRS 4103, BRS Caatingueiro, BRS Assum Preto e Gurutuba), visando à produção de silagem. As variedades Gurutuba e BRS 4103 obtiveram as maiores produtividades de massa verde (38,7 e 40,0 t ha-1). Do mesmo modo, essas duas variedades e a BR 5028 - São Francisco se destacaram pela produção de massa seca (16,0; 16,5 e 15,8 t ha-1, respectivamente). A variedade BRS Caatingueiro apresentou número de espigas planta-1 (1,6) superior ao das demais. Entre os materiais avaliados para produção de silagem na região do Submédio do Vale do São Francisco, destacaram-se as cultivares Gurutuba, BR 5028 - São Francisco e BRS 4103.
2.2 Processo de ensilagem
A ensilagem é um método de conservação de forragem em seu estado úmido, por meio da fermentação realizada por bactérias formadoras de ácido lático, as quais promovem um abaixamento do pH, inibindo o crescimento de microrganismos indesejáveis por um longo período de tempo (Bravo et al., 2009).
Segundo Dantas et al. (2014), a ensilagem é um processo de conservação destinado a preservação da forragem na forma úmida com alta valor nutricional, visando o mínimo de perdas.
De acordo com Paziani (2009), a ensilagem é um processo de conservação que tem como objetivo final preservar o valor nutritivo da forragem, no entanto, perdas são inevitáveis, embora possam ser reduzidas. Este processo compreende as seguintes fases: corte/picagem, transporte, enchimento, compactação e vedação dos silos. No entanto, durante este processo existem perdas. O efluente produzido no silo corresponde à umidade desprendida da massa ensilada durante o processo de compactação e armazenamento devido à pressão de compactação e o rompimento celular. Lixívia os nutrientes da massa de forragem e pode contaminar o ambiente. Há formas de controle. O volume de efluente produzido em um silo é influenciado por vários fatores, destacando-se o teor de MS, tamanho de partícula, processamento, tipo de silo e compactação. Quando ocorrem perdas por efluente do material ensilado, há liberação de compostos orgânicos como açúcares, ácidos, proteína e minerais, afetando diretamente a concentração de nutrientes na silagem e, consequentemente, a qualidade da mesma (Jobim et al., 2007).
As perdas por gases são inevitáveis e difíceis de serem reduzidas, pois ocorrem durante o processo da fermentação da forragem ensilada (Carvalho e Jobim, 2013).

2.2.1 Ponto de colheita da forragem
Para Schena et al. (2007), o teor de matéria seca (MS) da planta deve ser o critério utilizado para confirmação do ponto ótimo da colheita para a ensilagem, sendo a evolução da linha de leite no grão o principal fator indicador do momento de se iniciar as determinações dos teores de MS da planta inteira. O ideal é que a planta de milho seja colhida com teor de MS entre 32 e 37% (Cruz et al., 2008), quando a consistência dos grãos se encontra no estádio farináceo, entre 1/2 a 2/3 da linha do leite (Figura 1).
O teor de MS da forragem determinará o tipo de fermentação que irá se desenvolver no interior do silo (Oliveira et al., 2009). As plantas de milho, quando colhidas em estádios mais precoces, apresentam alto teor de umidade, menor quantidade de nutrientes, maior risco de fermentação indesejável com a formação de ácido butírico e excessiva perda de nutrientes no silo por lixiviação (efluente), possui menor concentração de energia pela baixa quantidade de amido no grão e menor produção de MS (Cruz et al., 2008). Plantas colhidas em estádios mais avançados produzem elevadas perdas de MS no campo em decorrência da queda de espigas, quebra de hastes e perda de folhas (Lugão et al., 2011).
Para a determinação do teor de matéria seca da forragem, ocorre a secagem em forno de microondas que não é um método novo. Desde a década de 50 tem sido utilizada por vários pesquisadores como técnica rápida para a determinação da MS em programas de melhoramento de pastagens (Raymond; Harris, 1954, apud Lacerda et al., 2009).
A determinação da MS de forrageiras, com mais de 40% de umidade é realizada predominantemente pelo método convencional que é o da estufa de ventilação forçada de ar. Este método, entretanto, é mais demorado, levando em média de 48 a 72 horas para a determinação da MS, ao passo que o mesmo resultado pode ser obtido numa média de 22 minutos, em forno de microondas - FMO (Lacerda et al., 2009). Estes autores comparando o processo de secagem, em FMO (22 min e potência de 1250 W) e em estufa de ventilação forçada de ar (65ºC por 48 hs) bem como seus efeitos nos teores de proteína bruta e fibra bruta de Panicum maximum cv. Mombaça, Brachiaria ruziziensis e silagem de milho verificaram que não houve diferença entre a utilização do forno de microondas e o método convencional na determinação da MS das três espécies forrageiras testadas. A secagem em FMO proporcionou teores mais elevados de proteína bruta na silagem de milho. Não foi detectada diferença entre os métodos de secagem, para silagem de milho, avaliando-se a fibra bruta. A técnica de secagem de forrageiras com FMO é promissora, requerendo mais estudos para avaliar seu uso com outras espécies forrageiras.
2.2.2 Equipamentos utilizados na colheita
O equipamento utilizado para colher o material no campo pode influenciar a qualidade da fermentação da silagem, pois este é responsável pela redução da planta em partículas de tamanho regular, o que facilita sua compactação e subsequente fermentação (Lugão et al., 2011).
No Brasil, existem dois tipos básicos de máquinas para a colheita da planta de milho: as que são acopladas ao trator (Figura 2a) que colhem uma ou mais linhas; e as automotrizes (Figura 2b) que colhem quatro a oito linhas (Amaral & Bernardes, 2009).
Figura 2. Ensiladeira acoplada ao trator (a) e automotriz (b).

A preparação do equipamento para a colheita do milho para ensilagem deve ser feita antes do início dos trabalhos, com uma revisão geral do equipamento (Lugão et al., 2011).
No momento da colheita todos os equipamentos devem estar ajustados de modo a garantir a maior eficiência possível. A altura de corte deve ser de 25 a 30 cm ao nível do solo, para evitar o recolhimento de terra e o tamanho médio de partícula pode ser garantido através da correta regulagem e afiação das facas. 
Segundo Novaes et al. (2004), deve-se afiar o conjunto de facas, pelo menos, a cada 100 t de massa verde colhida e regular o posicionamento da faca e da contrafaca a cada 500 t colhidas.

2.2.3 Tamanho da partícula ensilada
O tamanho da partícula ensilada em nível prático de propriedades rurais, notadamente é muito variável durante a produção de silagem e relaciona-se diretamente com a potência do trator e/ou a regulagem da ensiladeira utilizada.
Segundo Lugão et al. (2011), para a ensilagem, o material deve ser picado com tamanho entre 1,0 cm e 2,0 cm (Figura 4). O tamanho da partícula dentro do recomendado facilita o processo da ensilagem, uma vez que permite maior densidade ao material colhido que será transportado até o silo, facilita o processo de compactação e possibilita melhor fermentação anaeróbia (Neumann, 2006). Consequentemente, preserva o valor nutritivo da massa ensilada e minimiza as perdas (Neumann et al., 2005).
Bernardes & Amaral (2010), relatam que partículas com tamanhos superiores a 1,5 cm (Figura 3b) comprometem a compactação, resultando em silagem com baixa densidade, sobretudo nas camadas periféricas do silo, principalmente quando a forragem apresenta concentração de MS superior a 35%.
A redução no tamanho médio das partículas nas rações de vacas leiteiras pode contribuir para aumentar o consumo de MS em função do aumento na taxa de passagem dos alimentos pelo trato digestivo (Monteiro Filho, 2007).
Figura 3. Tamanho ideal das partículas (a) e tamanho acima da medida recomendada (b).

2.2.4 Dimensionamento do silo
Antes da ensilagem, deve-se dimensionar o tamanho do silo em relação à demanda diária de silagem pelo rebanho. A demanda da silagem em cada dieta depende do número de animais que serão alimentados e informações relativas ao consumo por categoria animal, perdas e o período em que a silagem será ofertada (Lugão et al., 2011).
 O tamanho do silo deve ser calculado em virtude da demanda de silagem em cada dieta, pois deve-se retirar uma fatia com espessura mínima de 15 cm para que as perdas aeróbias sejam minimizadas.
Existem diversos tipos de silos que podem ser utilizados para a conservação da forragem nas propriedades rurais. Os silos cilíndricos, tipo cisterna e meio encosta, estão em desuso em função às dificuldades de carregamento ou descarregamento e, principalmente pelo alto custo de construção. Os silos bag utilizam tecnologia recente, mas que ainda é onerosa para os pequenos e médios produtores. Este tipo de silo possui como desvantagem a dificuldade de serem transportados quando necessários.
Atualmente, os silos mais utilizados são do tipo horizontal, trincheira e superfície, sendo o trincheira preferido pelos produtores e deverá ser revestido com alvenaria para minimizar as perdas durante o armazenamento.

2.2.5 Enchimento e compactação do silo
Para Lugão et al. (2011), o tempo de enchimento do silo é determinante para a qualidade da silagem. O ideal é se trabalhar com no mínimo três tratores: um cortando o milho no campo, um transportando e outro compactando o material no silo. Diante do exposto, o planejamento do tamanho do silo assume papel importante, pois este deve ser fechado no mesmo dia do início da ensilagem, aceitando-se que seja fechado em, no máximo, dois dias, o que nos leva a recomendar a construção de silos menores.
O enchimento do silo deve ocorrer na forma de cunha (rampa), com a declividade voltada para a entrada do silo, formando um ângulo de 20º.
O silo deve ser carregado em camadas sucessivas de 30 cm a 50 cm, pois o efeito de compactação pelo trator é mais efetivo nessas alturas. Cada camada da massa a ser ensilada que for depositada no silo deve ser espalhada uniformemente e imediatamente compactada para expulsar o ar entre as partículas e provocar mais rapidamente a morte fisiológica da planta, favorecer a atuação dos microrganismos anaeróbios e a queda do pH da massa ensilada. O trajeto do trator sobre a massa ensilada deverá ocorrer em toda a largura do silo, deixando a superfície sem ondulações.
A compactação da massa e a consequente eliminação do oxigênio entre as partículas deve ser realizada com tratores que apresentam maior peso aplicado sob o solo (Figura 4). Essa tarefa pode ser facilitada com a utilização de silos trincheira. Outro aspecto importante é que se deve evitar tratores com pneus largos, com rodado duplo e tratores-esteiras, por apresentarem menor peso por área.
Para um boa preservação, a densidade adequada da silagem de milho de planta inteira deve ser de 550 a 650 kg/m3. Dentro dessa faixa de compactação, haverá condições ideais para que ocorra uma boa fermentação e, consequentemente, a produção de silagem de alta qualidade.

Figura 4. Equipamento adequado (a) e não adequado (b) para compactação durante a ensilagem.

2.2.6 Vedação do silo
Para a vedação do silo, recomenda-se o uso de lonas com espessuras não inferiores a 200 micras. Durante o fechamento é importante retirar todo o ar que está sob a lona por meio da colocação de uma camada de terra com aproximadamente 10 cm de altura. Isolar o silo com cerca fixa ou elétrica para evitar danos causados, sobretudo, por animais.

2.3 Tempo de armazenamento da silagem
O tempo de armazenamento da silagem depende da compactação e da vedação do silo. Um silo fechado de forma adequada pode armazenar a silagem de milho de planta inteira por vários anos. Entretanto, os produtores normalmente utilizam a silagem por um período máximo de dois anos.
A boa aplicação da técnica de ensilagem permite maior tempo de conservação sem que ocorram grandes alterações na composição bromatológica do material, possibilitando a manutenção da reserva de volumoso conservado como estratégia (Lugão et al., 2011).
Segundo estes mesmos autores, o armazenamento na forma de silagem realizado em condições adequadas é capaz de eliminar ou, ao menos, reduzir drasticamente o desenvolvimento de fungos e bactérias patogênicas, evitando a contaminação da dieta com micotoxinas, toxinas e esporos nocivos a saúde animal e à qualidade da silagem.

2.4 Abertura do silo e retirada da silagem
De acordo com Silva (2009), a silagem estará pronta para ser oferecida aos animais quando atingir pH entre 3,8 e 4,2 e teor de ácido lático em torno de 6-8%. Normalmente isso ocorre 30 dias após o fechamento do silo.
O tamanho da fatia a ser retirada deve ser maior ou igual a 15 cm de espessura em toda a área frontal do silo, sem promover grandes perturbações na massa remanescente para que não ocorra exposição ao ar. A fatia de corte da silagem exposta ao ar fornece condições para o desenvolvimento de microrganismos que causam a deterioração da silagem.
A retirada da silagem deve ser efetuada com equipamento apropriado ao tamanho do silo (Figura 5). Deve-se tomar cuidado quando houver terra sobre a lona, para não contaminar a silagem. Após a retirada da silagem, deve-se fechar o silo imediatamente, evitando a sua exposição ao ar e raios solares.
É frequente a deterioração aeróbia da silagem nas propriedades que exploram a atividade leiteira em função do manejo inadequado na retirada da silagem.
Figura 5. Retirada da silagem manualmente (a) e mecanicamente (b) para posterior fornecimento aos animais.

3. Métodos utilizados para avaliação da qualidade da silagem
Em qualquer sistema de produção animal a qualidade dos alimentos que compõem a ração é de fundamental importância na busca da eficiência. Na maioria das explorações, os gastos com alimentação animal representam a maior parte dos custos de produção. Diante disso, o emprego de tecnologia adequada na produção de alimentos é fator primordial. Especialmente as forragens conservadas como silagem podem ter seu valor alimentício bastante alterado em razão dos procedimentos adotados para a sua produção e conservação, e dos fenômenos bioquímicos e microbiológicos que ocorrem no processo. Em geral, a resposta do animal à silagem é dependente do padrão de fermentação que por sua vez afeta a forma e a concentração dos nutrientes e a ingestão (Jobim et al., 2007).
No Brasil, os métodos químicos tradicionais para avaliação de silagens foram sistematizados por Silva & Queiroz (2002) quanto aos teores de matéria seca (MS) e carboidratos solúveis, matéria mineral (MM), matéria orgânica (MO), proteína bruta (PB), fibra em detergente neutro (FDNcp), fibra em detergente ácido (FDA), hemicelulose (HEM), extrato etéreo (EE) e lignina (LG) e recentemente alguns deles revistos por Campos et al. (2004). O nitrogênio amoniacal pode ser determinado segundo metodologia descrita em Detmann et al. (2012) e expresso como porcentagem do nitrogênio total (N-NH3/N-Total). Os teores de ácidos orgânicos pode ser preparado extrato conforme descrito por Filya et al (2007).
A análise da qualidade da forragem começa pela amostragem criteriosa do material a ser avaliado. A determinação do pH e da digestibilidade requerem um menor número de amostras em relação à determinação de carboidratos solúveis, da matéria seca ou de produtos da fermentação. Na amostragem de silos experimentais, a amostra é toda processada, dependendo do volume do silo (Jobim et al., 2007).
Uma forma de se avaliar o efeito do processo de ensilagem sobre a qualidade da forragem é comparar a composição químico-bromatológica antes e após a confecção da silagem. Antes da ensilagem a forragem pode ser amostrada no campo ou após o corte. No campo a amostragem pode ser influenciada por fatores intrínsecos da espécie como porte da planta e presença de grãos (Jobim et al., 2007).
A composição químico-bromatológica da silagem de milho pode ser afetada por diversos fatores como a escolha do híbrido, manejo da cultura, condições edafoclimáticas, tecnologia da ensilagem e manejo de descarregamento e de fornecimento aos animais. Essa variação na composição permite classificar a silagem de acordo com as concentrações de alguns produtos oriundos da fermentação anaeróbia e a disponibilidade de seus nutrientes à digestão animal (Tabela 2).
Tabela 2. Classificação da silagem de acordo com os parâmetros químicos e bromatológicos.
A maioria das medidas de perdas em silagens tem sido realizadas em silos de laboratório, com uso de tubos de PVC ou baldes plásticos providos de tampa adequada e válvula para eliminação de gases e areia para recuperação do efluente. Estas medidas podem ser de grande importância nas avaliações da qualidade de fermentação (padrão de fermentação) da forragem ensilada. As principais avaliações são de perdas totais de matéria seca e perdas por gases e efluentes. Estas medidas são obtidas pela pesagem dos silos laboratoriais vazios e cheios, antes e após a ensilagem, e dos respectivos teores de matéria seca. Posteriormente, estes valores são empregados em equações descritas por Schmidt (2006).
Oliveira et al. (2010) ao avaliarem as perdas e o valor nutritivo de silagens de diferentes forrageiras, milho, sorgo-sudão, sorgo forrageiro e girassol, ensiladas no momento ideal de cada cultura e por um período de 60 dias, observaram que as perdas por gases são relativamente pequenas em relação as perdas por efluente. A silagem de sorgo-sudão produziu maiores quantidades de efluente em relação às de milho e girassol, com produções semelhantes à da silagem do sorgo forrageiro (Tabela 3). A silagem de sorgo-sudão possui menor valor nutritivo, em decorrência dos maiores teores das frações fibrosas, enquanto a de milho destaca-se positivamente pelo seu valor nutricional.

          Bernardes e Amaral (2010) propuseram um método prático para avaliar a silagem de milho com base em pontuações feitas a partir das características físicas e organolépticas levando-se em consideração à proporção de grãos, odor, coloração, umidade e tamanho das partículas. A pontuação final confere o resultado da qualidade da silagem que pode ser excelente, satisfatória, moderadamente satisfatória e insatisfatória. As características sensoriais e físicas de uma boa silagem são: alta proporção de grãos (35% ou mais); odor leve, prazeroso e adocicado, sem o indício de putrefação; coloração verde a amarela-esverdeada; sem água livre quando uma amostra é bem comprimida na mão e tamanho de partículas pequenas, bem uniformes e com ângulos bem definidos.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A importância da conservação da forragem (milho) na forma de silagem para manutenção da produção leiteira durante as épocas de oferta insuficiente de pastos é um conceito bem compreendido pelos produtores de todos os níveis tecnológicos e sistemas de produção.
A adequação na escolha da cultivar, manejo da cultura e de todas as etapas do processo de ensilagem pelos produtores garantirá uma confecção de silagem de milho de alta qualidade nutricional, contribuindo para a obtenção de desempenho animal satisfatório.
O uso de silagem de milho com planejamento e eficiência em todo o processo produtivo constitui uma técnica economicamente viável para os agricultores familiares.

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