sábado, 27 de agosto de 2016

A necessidade de cuidados especiais com os ecossistemas aquáticos e o saneamento básico!



Por Maurício Novaes Souza*

A edição de 2016 do Relatório Mundial das Nações Unidas para o Desenvolvimento de Recursos Hídricos é produzido pela ONU (Organização das Nações Unidas) para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em nome da ONU Água. Com o tema “A água e o emprego”, ele mostra que 78% dos empregos que constituem a força de trabalho mundial são dependentes dos recursos hídricos. Por tal importância, o Dia Mundial da Água foi criado pela ONU no dia 22 de março de 1992. Nesse dia, a cada ano, é destinada a discussão sobre os diversos temas relacionados a este importante bem natural. Indiscutivelmente, dada a gravidade em que se encontram (é bom lembrar do acidente que atingiu o rio Doce pela mineradora SAMARCO/VALE), devem ser priorizados os cuidados com os recursos hídricos! A crise de água atingiu muitas regiões do planeta e os conflitos resultantes de seu uso múltiplo redobram-se. Inúmeras são as previsões relativas à escassez de água, em consequência da desconsideração da sua esgotabilidade. É inquestionável que a água é um dos recursos naturais fundamentais para as diferentes atividades humanas e para a própria sobrevivência.

            As principais causas que conduziram à degradação dos recursos hídricos são: 1) crescimento populacional desordenado associado à rápida urbanização; 2) diversificação dos usos múltiplos, tais como a irrigação e as hidroelétricas para produção de energia; 3) gerenciamento não coordenado dos recursos hídricos disponíveis; 4) degradação do solo por pressão da população, aumentando a erosão e a sedimentação de rios, lagos e represas; e 5) peso excessivo de políticas governamentais nos “serviços de água” - fornecimento de água e tratamento de esgotos - permitindo que tais serviços sejam utilizados para fins de interesses políticos pessoais, tendo como consequência problemas sociais, econômicos e ambientais. Caso medidas eficientes não sejam tomadas, em 2025, dois terços da população estarão vivendo em regiões com estresse de água e poluição extrema. Quais seriam as principais consequências? 1) riscos de epidemias e efeitos negativos crescentes na saúde humana; 2) conflitos locais, regionais e institucionais sobre os usos múltiplos; e 3) o aumento dos impactos econômicos.

Há de se considerar fatores agravantes nos tempos recentes. Para o presidente nacional da ABES, o engenheiro Dante Ragazzi, este momento crucial de nosso país requer engajamento cada vez maior e mobilização social para que o saneamento seja considerado tema de primeira ordem. A falta de priorização por parte do poder público nos leva a avanços lentos. Com a proliferação de doenças como dengue e zika, tornou-se ainda mais clara a relação doenças x falta de saneamento. No Brasil, os grandes problemas do saneamento ainda persistem. A incapacidade de tantos estados e prefeituras na gestão de forma minimamente adequada nos seus sistemas de água e esgoto, resíduos sólidos e drenagem, por exemplo, a indefinição de fontes de financiamento, as questões da desoneração do setor, as diversas prorrogações de prazos para a elaboração de planos municipais de saneamento e a erradicação dos aterros não adequados, vulgarmente chamados lixões. No final de 2015 houve mais uma adiamento da data estabelecida para elaboração dos planos de saneamento, porque a maioria dos municípios ainda não havia apresentado seus planos. Isso mostra o quanto é preciso se avançar.

            Dessa forma, as iniciativas têm de ser imediatas, no desenvolvimento de tecnologias, políticas públicas e outras medidas no gerenciamento, tais como: 1) gerenciamento integrado, adaptativo, preditivo e atenção para usos múltiplos; 2) consideração da qualidade/quantidade de água; 3) reconhecimento da água como fator econômico; 4) implementação de coleta seletiva, redução de lixo e implementação de aterros sanitários nos municípios; 5) tratamento de esgotos dos municípios; 6) reflorestamento ciliar às margens dos rios e represas; 7) práticas agrícolas que reduzem a erosão; 8) controle do uso de agrotóxicos e adubos; 9) controle dos resíduos industriais nos municípios; 10) priorizar programas educativos, de conservação e de regulamentação; 11) proteção dos mananciais de águas superficiais e controle do crescimento urbano desordenado que afeta os mananciais; 12) diminuição do desperdício na distribuição; 13) ampliação e aprofundamento da educação sanitária e ambiental da população.

            A legislação brasileira de recursos hídricos inclui, entre os instrumentos de gestão, a cobrança pelo uso da água. É uma ferramenta indutora do uso racional dos recursos hídricos, uma vez que alerta o usuário para os prejuízos que eventualmente ocorreriam caso este não sofresse qualquer tipo de penalidade por utilizar a água bruta em quantidades acima da necessária. E você, como cidadão, sabendo que o município de Rio Pomba já enfrenta problemas dessa natureza, qual seria a sua contribuição? No mínimo, use racionalmente a água, evitando desperdícios. Uma última observação: Com o tema “Casa Comum: nossa responsabilidade”, foi lançada a CFE (Campanha da Fraternidade Ecumênica) 2016, que tem como objetivo a conscientização e a garantia do direito ao saneamento básico.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), é professor do IF Sudeste campus Rio Pomba. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

As Olimpíadas do Brasil, a mensagem ambiental e a eterna promessa política


* Por Maurício Novaes Souza e Maria Lucia Simões

O Brasil passou a sediar a partir dessa sexta-feira (05.08.2016), na cidade do Rio de Janeiro, a primeira Olimpíada a ser realizada na América do Sul. Seus jogos serão disputados por quase onze mil atletas de 205 países. A cerimônia de abertura foi realizada no Maracanã, com o desfile das delegações e esportistas. Estádio lotado, a cerimônia de abertura foi elogiada nacional e internacionalmente pela imprensa e a quem a assistiu ao vivo e a cores ou pela mídia eletrônica, e culminou com a pira olímpica sendo acesa por Vanderlei Cordeiro de Lima, exímio e vitorioso corredor brasileiro. Seu término será dia 21.08.2016.

Esse breve relato para entender a importância de uma Olimpíada, é para informar que sua realização tem a periodicidade de quatro anos. Em 2012 a sede foi em Londres. As Olimpíadas, ou Jogos Olímpicos, constituem nos dias atuais um dos eventos mais populares e prestigiados em todo o mundo. Foram revitalizadas no final do século XIX (1890) e suas origens remontam à Grécia Antiga. A restauração das práticas olímpicas foi da iniciativa do aristocrata e pedagogo suíço Pierre de Frédy, mais conhecido como Barão de Coubertin. Ele acreditava que a prática do esporte devia ser estimulada na sociedade contemporânea, sobretudo entre os jovens. Além disso, era interessante que houvesse uma organização internacional de jogos esportivos que ajudasse a promover a “paz entre as nações”, por considerar que o contexto (transição do século XX para o século XXI) estava carregado de rivalidades entre as grandes potências.

O símbolo dos anéis olímpicos, sua Bandeira nas cores azul, amarelo, preto, vermelho e verde, sobre um fundo branco, foi imaginado por Coubertin em 1914 e apareceu pela primeira vez nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, Bélgica, em 1920. De acordo com o barão, esses cinco anéis entrelaçados representam as cinco partes do mundo agora conquistadas pelo olimpismo como forma de propor o término das rivalidades entre as nações, unindo-as por competições sadias. Os demais símbolos – o hino, o juramento e a chama – fazem parte da cerimônia de abertura como forma de comprometimento ético e moral dos atletas de que competirão de modo limpo, sem o uso de drogas e com o objetivo de estimular os jovens do mundo todo a praticar qualquer modalidade de esporte dentro dos conceitos da Educação/Inclusão.

Apesar da abertura oficial das Olimpíadas do Rio 2016 ter sido marcada por um discurso ecológico, chamando a atenção para os problemas ambientais, o aquecimento global e as mudanças climáticas, e para a necessidade de se ter um mundo mais verde, na prática, a situação ambiental da cidade do Rio de Janeiro, bem como de quase todo o Brasil, é “caótica”! A maioria das bacias hidrográficas do Rio é composta por valões de lixo e esgotos, como na Baía da Guanabara, onde se realizarão as provas de iatismo! Segundo o biólogo Mário Moscatelli, o espetáculo de abertura foi “uma hipocrisia artística do tipo ‘faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço’, vinda principalmente do Rio de Janeiro, onde as autoridades brasileiras se esmeraram em não cumprir praticamente nada no quesito ambiental”.

Segundo Moscatelli, a baía de Guanabara faz parte daquilo que se chama da indústria da degradação, onde de tempos em tempos o governo estadual do Rio de Janeiro inventa projetos de recuperação da baía e obtém empréstimos bilionários do exterior. Os recursos chegando são usados de qualquer maneira, ao gosto dos políticos do momento, alcançando pífios resultados ambientais sem qualquer tipo de investigação ou sanção das esferas de fiscalização. Anos depois, novos programas são criados e mais dinheiro é captado. Segundo essa hipótese, a baía degradada é uma necessidade para que a indústria da degradação continue funcionando enquanto houver quem empreste dinheiro para o governo do estado. Simplesmente inventaram mais uma forma de ganhar dinheiro fácil: com a degradação da baía. Caso semelhante acontece em São Paulo, no caso do rio Tietê! Além destes casos, poderíamos listar milhares de exemplos que, infelizmente, multiplicam-se no Brasil: da capital Federal, Brasília, às pequenas cidades do interior! Apesar das inúmeras iniciativas governamentais e organizacionais, os efeitos efetivos ainda são discretos.

O fato é que, em todo o mundo, mas particularmente no Brasil, a preocupação está voltada para a crise política e financeira que atravessamos. Contudo, a questão ambiental, que deveria ser prioridade posto ser a fonte de todos os recursos utilizados nos processos produtivos, vem sendo relegada ao segundo plano. Na prática, o antigo discurso da necessidade de crescimento econômico para a geração de emprego e renda acaba prevalecendo. Ou seja, continua vigorando a visão de curtíssimo prazo, cujos resultados finais são conhecidos e previsíveis.

É lamentável que seja essa a verdade! No momento da abertura dos Jogos Olímpicos, sentimos um orgulho imenso de sermos BRASILEIROS! A festa foi linda! É preciso que readquiramos a dignidade, a fé e a esperança! Nosso Povo é lindo e nosso País maravilhoso!

Estamos em ano político! As eleições municipais estão aí: como e em quem votaremos?

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), é professor do IF Sudeste campus Rio Pomba. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.


* Escritora, Consultora Organizacional e Psicanalista na empresa Consultora Indepedente de Gestão e de Comportamento.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

ÁRVORES E ARBUSTOS COMPROVADAMENTE TÓXICOS PARA ANIMAIS RUMINANTES E EQUINOS

* Silvane de Almeida Campos


No Brasil existem 5,4 milhões de equinos (IBGE, 2014). Nas propriedades rurais, estes animais são utilizados em atividades de produção, trabalho, transporte como montaria, esportes, entre outras. Desta forma, possuem importância fundamental na agricultura e pecuária. O setor de equinocultura vem apresentando um crescimento expressivo de competições, leilões e turismo (ANUALPEC, 2012).
Com relação aos animais ruminantes, dados do IBGE de 2014 demonstram que o Brasil possui 212,3 milhões de bovinos, 17,6 milhões de ovinos, 8,8 milhões de caprinos e 1,3 milhão de bubalinos. Estes animais exercem papel importante, devido a sua capacidade de converter materiais não utilizáveis pelo homem em produtos de origem animal (carne, leite) de elevado valor biológico em função da ação fermentativa microbiana em seu trato gastrintestinal (SILVA et al., 2010).
Sendo assim, os ruminantes têm grande contribuição na produção pecuária e de seus derivados para atender a crescente demanda em virtude do aumento populacional. Com isso, tem-se emergido estudos e iniciativas em busca de sistemas de produção mais sustentáveis que garantem a sobrevivência da população mundial que, conforme Marcondes (2012) tem previsão para atingir nove bilhões de pessoas até 2050.
Os sistemas agroflorestais podem ser uma alternativa para aumentar a produtividade com maior nível de sustentabilidade no sistema de produção (LAMÔNICA, 2008). Dentre as modalidades de sistemas agroflorestais, os sistemas silvipastoril e agrossilvipastoril apresentam em comum os componentes forrageiro, animal e arbóreo-arbustivo.
As árvores de modo geral podem permitir inúmeros benefícios a estes sistemas tais como bem estar animal (NICODEMO et al., 2012), conservação do solo e água  (PORFÍRIO-DA-SILVA, 2007),  fixação biológica de nitrogênio (no caso de leguminosas), reciclagem de nutrientes, quebra-vento, além de proporcionar uma fonte de madeira, recurso essencial  numa propriedade agrícola (MOREIRA, 2014). No entanto, no estabelecimento dos sistemas silvipastoril e agrossilvipastoril alguns critérios devem ser considerados visando à escolha adequada de espécies arbóreas-arbustivas a serem mantidas ou introduzidas na pastagem, tendo como um dos critérios a seleção de plantas não tóxicas aos animais.
Planta tóxica de interesse pecuário é aquela que quando ingerida naturalmente pelos animais, possui potencial em causar danos à saúde ou mesmo ocasionar a morte (TOKARNIA et al., 2012), mas sua toxicidade deve ser comprovada cientificamente (SOUSA et al., 2014). Há espécies consideradas hepatotóxicas, nefrotóxicas, cianogênicas, que causam perturbações nervosas, degeneração e necrose musculares, morte súbita, fotossensibilização, afetam o funcionamento do coração, do tubo digestivo e a reprodução dos animais (RIET-CORREA, 2007; SCHONS et al., 2012; MAGALHÃES et al., 2013).
No geral, os surtos de intoxicação natural verificados em animais de produção decorrem da falta de conhecimento dos produtores sobre o potencial tóxico de árvores e arbustos encontrados nas pastagens, de forma natural ou invasora. Segundo Barbosa et al. (2007), a exposição destes animais a plantas tóxicas se dá sobretudo por sua presença nas pastagens, contaminação acidental do alimento e oferecimento como alimento. Segundo Ferreira et al. (2015), em épocas de severa estiagem, a administração de plantas de toxicidade desconhecida pelos produtores é uma das formas mais frequentes de intoxicação de animais de produção na região Nordeste do Brasil.
A ocorrência, frequência e distribuição geográfica das intoxicações por plantas podem ser determinadas por diversos fatores desencadeadores das intoxicações como aceitabilidade, facilitação social (no caso de plantas não aceitáveis), fome, sede, desconhecimento, transporte, acesso às plantas tóxicas, dose tóxica, período de ingestão, variações de toxicidade e brotação após as primeiras chuvas (RIET-CORREA et al., 2012) e resistência/susceptibilidade dos animais às intoxicações (PESSOA et al.,2013).
No que se refere à dose, levando em consideração uma mesma planta, a dose que apresenta toxicidade e/ou letalidade para uma espécie animal pode não ser para a outra. Becker et al. (2013) avaliando a toxicidade de Amorimia pubiflora em ovinos e bovinos, cujo princípio tóxico é o monofluoracetato de sódio, constataram que as doses letais para ovinos foram de 2, 3 e 5 g/kg de folhas jovens da planta, enquanto, para bovinos foi de 3 g/kg. A planta ocorre na região Centro-Oeste, nos Estados de Minas Gerais e São Paulo (MAMEDE, 2016).
No Brasil, o número de plantas conhecidas como tóxicas para ruminantes e equinos aumenta continuamente. Em 2012, existiam 131 espécies e 79 gêneros (RIET-CORREA et al., 2012). Faz-se necessária a divulgação de tais plantas com vistas à redução dos riscos de intoxicação animal e de perdas econômicas aos produtores. Com relação às perdas econômicas, a mortalidade de animais promovida por plantas tóxicas é o que mais chama a atenção, especialmente quando afeta um grande percentual do rebanho (BARBOSA et al., 2007).
Palicourea marcgravii (erva-de-rato), considerada a principal planta tóxica de interesse pecuário no Brasil, encontra-se distribuída por quase todo o país, com exceção do Mato Grosso do Sul e da região Sul. A planta apresenta boa aceitabilidade, elevada toxidez e efeito acumulativo, tendo como princípio tóxico o ácido monofluoracético (TOKARNIA et al., 2012).
A leguminosa arbórea Prosopis juliflora (algaroba) tem sido utilizada como forrageira em sistemas silvipastoris. As vagens desta planta constituem uma fração importante da alimentação durante a época seca, quando há maior carência de forragem, nos municípios do Agreste e Sertão Pernambucano (CÂMARA et al., 2009) uma vez que a planta concentra seu valor nutritivo nas vagens (RÊGO et al., 2011). Entretanto, Câmara et al. (2009) descreveram os achados clínicos e laboratoriais de surtos de intoxicação por vagens de algaroba em bovinos pastejando áreas invadidas pela planta ou que ingeriram as mesmas como alimento concentrado.
Tetrapterys acutifolia conhecida como cipó-preto é responsável por significativo número de mortes em bovinos, especialmente, nos Estados de Rio de Janeiro e São Paulo. Caldas et al. (2011) realizaram um estudo buscando comprovar o efeito abortivo desta planta em bovinos e a  caracterização das alterações clínico-patológicas nas vacas e nos fetos, antes e após o abortamento, em Barra do Piraí, RJ. Os autores concluíram que a ingestão de cipó-preto é capaz de induzir aborto e, dependendo da dose, ainda causar a morte das vacas que abortarem.
O pereiro (Aspidosperma pyrifolium) possui várias utilidades como planta ornamental, madeira para carvão, cerca e lenha, indicada na recuperação de áreas degradadas, inclusive em matas ciliares (SOUSA et al., 2014) bem como na medicina veterinária popular para tratamento de ectoparasitoses dos animais domésticos (SANTOS, 2010). Porém, a planta é responsável por abortamentos em ovinos, bovinos e, notadamente, em caprinos, sendo mais consumida pelos animais nos períodos de seca ou quando há escassez de forragem no Sertão Paraibano, onde existe abundantemente (ASSIS et al., 2009).
Crescentia cujete é uma árvore que produz frutos grandes e arredondados, sendo muito utilizados para produção de cuias, feitas com a casca do fruto conhecido como cabaça. Há relatos de que esta planta seja tóxica para bovinos, causando morte pouco tempo após o consumo da polpa da fruta, além da ocorrência de abortos em bovinos que ingeriram os frutos da planta, extremamente aceitáveis, sobretudo, quando maturados (ASSIS et al., 2009). Diante disso, estes autores, comprovaram a toxicidade da planta em caprinos.
A intoxicação por planta em ruminantes e equinos depende do potencial tóxico da espécie, dose ingerida e tempo de administração. Deste modo, alguns animais recuperam-se após a suspensão do consumo da planta, enquanto, outros evoluem para o óbito. Porém, há alguns casos de resistência individual a intoxicação, para a mesma espécie animal.
A maioria dos casos de intoxicação animal decorre da ingestão de plantas tóxicas em áreas de pastagem com insuficiência de forragem, no período da seca. Para evitar prejuízos econômicos, os produtores deverão realizar medidas cabíveis de controle destas plantas ou a remoção dos animais no período propício a intoxicação.

Tabela 1. Espécies arbóreas-arbustivas que tiveram a sua toxicidade comprovada para animais ruminantes e equinos.
Planta
Nome comum
Município ou região
do surto
Espécie afetada
Referências
Amorimia exotropica
cipó
Rio Grande do Sul
bovina
Bandinelli et al. (2014)
Anacardium occidentale
cajueiro
Rio Grande do Norte
bovina
Ribeiro Filho &
Soto-Blanco (2012)
Baccharis coridifolia
mio-mio
Aceguá/RS
equina
Alda et al. (2009)
Cestrum intermedium
coerana
Jupiá/SC
bovina
Furlan et al. (2008)
Cestrum laevigatum
dama-da-noite
Itaguaí/RJ
bubalina
Barbosa et al. (2010)
Cycas revoluta
palmeira-sagu
Agreste/PE
bovina
Ferreira et al. (2015)
Enterolobium contortisiliquum
timbaúba
Afogados da Ingazeira/PE
bovina
Olinda et al. (2015)
Eugenia uvalha Cambess
uvaieira
Planalto e Oeste Catarinense
ovina
Emmerich et al. (2014)
Hovenia dulcis
uva-Japão
Oeste e Meio-Oeste de Santa Catarina
bovina
Cardoso et al. (2015)
Indigofera suffruticosa
anil
Patos/PB
caprina  e ovina
Figueiredo et al. (2012)
Ipomoea carnea subsp. Fistulosa
canudo
Ilha do Marajó, PA
caprina
Oliveira et al. (2009)
Jatropha ribifolia
pinhão rasteiro
Semiárido nordestino
caprina
Pimentel et al. (2012)
Metternichia princeps
café-do-mato
Itaguaí/RJ
Bovina
Caldas et al. (2012)
Mimosa tenuiflora
jurema preta
-
ovina
Santos et al. (2012)
Nerium oleander
espirradeira
Patos/PB
bovina
Assis et al. (2010)
Opuntia fícus-indica
palma
Patos/PB
caprina
Assis et al. (2010)
Poiretia punctata
-
Sergipe
ovina
Nascimento et al. (2014)
Pseudocalymma elegans
-
Rio Bonito/RJ
bovina
Helayel et al. (2009)
Pterodon emarginatus
sucupira
Mato Grosso e Mato Grosso do Sul
bovina
Cruz et al. (2012)
Ricinus communis

mamona
Salgado de São Félix/PB
bovina
Albuquerque et al. (2014)
Senna obtusifolia
fedegoso
Pantanal Sul do MT
bovina
Carvalho et al. (2014)
Simarouba versicolor
caixeta
Água Clara/MS
Mato Grosso do Sul
ovina
bovina
Santos et al. (2013)
Carvalho et al. (2013)
Solanum glaucophyllum
espichadeira
Pantanal Matogrossense
bubalina
Santos et al. (2011)
Stryphnodendron fissuratum
rosquinha
-
caprina
Mendonça et al. (2010)
Talisia esculenta
pitomba
Crato/CE
ovina  e bovina
Riet-Correa et al. (2014)
Trema micranta 
crindiúva
-
equina
Bandarra et al. (2011)
Turbina cordata
capoteira
Patos/PB
caprina e  equina
Assis et al. (2010)



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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