terça-feira, 18 de outubro de 2016

Crise hídrica: qual a culpabilidade da pecuária e da agricultura?


Por Maurício Novaes Souza*

            Parece que se repete, ano após ano, o mesmo assunto! Infelizmente! Não por falta de outros temas para se discutir, mas pela importância da água em nosso cotidiano! O fato é que a crise hídrica se acentua a cada dia, produzindo colapsos que afetam drasticamente a população e a economia de uma grande parte do país! Na agropecuária o problema é muito sério, sendo várias as causas e as consequências.

            No Estado do Espírito Santo, por exemplo, onde a agricultura é sua principal atividade econômica, além de um grave problema de planejamento para o armazenamento de água, a crise é decorrente de uma seca severa. Eventos climáticos extremos são consequências do aquecimento global, que segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ocorrem em função do aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE). Sabemos que o Brasil está entre os 10 maiores emissores de GEE do mundo. De acordo com Guedes Pinto, gerente de certificação do IMAFLORA, em artigo na Folha de São Paulo, em 2013, a agropecuária foi a principal fonte de emissões de GEE no país, respondendo por 63% do total, principalmente devido ao desmatamento, à pecuária e ao uso de fertilizantes nitrogenados.

Enquanto a crise se acentua, estamos consumindo mais água do que a produzindo. Sabemos que a “produção de água” ocorre a partir da infiltração da chuva no solo, que a conduz aos lençóis freáticos, dando origem às nascentes e aos cursos d'água que compõem uma bacia hidrográfica. Quanto mais floresta existir em uma bacia hidrográfica, mais infiltração e mais protegidas estarão as nascentes e os cursos d'água. Quanto melhor forem as práticas de conservação e o manejo do solo, maior o volume de água que se infiltrará.

Contudo, basta olharmos ao nosso redor, em Rio Pomba ou Alegre, ES, no Sul ou no Norte do país, verificaremos que nossa agropecuária não protege os solos adequadamente e ocupa grande parte das áreas fundamentais para a produção de água: as Áreas de Preservação Permanente (APPs), particularmente os “topos de morro”, onde se dá a recarga dos aquíferos. Para Guedes Pinto, em artigo na Folha de São Paulo, mais de 20% das APPs de São Paulo estão ocupadas por pastos, onde deveriam ser florestas, e algumas das suas mais importantes bacias hidrográficas têm menos de 5% de cobertura florestal. Em geral, quanto mais monocultura, menos floresta. No Espírito Santo, pouco mais de 6% de sua área tem cobertura florestal: o restante? Pasto e agricultura!

E acreditem: por incrível que se possa parecer, o setor rural lutou fortemente para a publicação de um Código Florestal que protege menos floresta e praticamente não exige a restauração das APPs!!! Para completar, a agricultura também é grande consumidora de água, devido à irrigação das culturas, cada vez mais necessária, sem o devido manejo: com raras exceções, desperdiçam-se água, pois não se consideram o tipo de solo e a necessidade das plantas para se irrigar uma lavoura. Estamos longe de fazer uma irrigação eficiente no campo! Lastimável!

Obviamente, as soluções para a crise hídrica passam, não exclusivamente, mas necessariamente, pela agropecuária e o uso do solo no Brasil. Temos a ciência e as tecnologias para entender e resolver essas complexas questões. Porém, além de não termos o controle sobre “São Pedro”, não temos as políticas públicas, instrumentos e incentivos para reverter a situação e tornar a agricultura uma produtora de água e mitigadora das mudanças climáticas, sistematicamente e em escala nacional. Faltam políticas públicas e a obrigatoriedade do seu cumprimento!
          
       Dados revelados pelo relatório da ONU "Previsões sobre a População Mundial 2016", afirma que a população mundial aumentará 37,3% até 2050, passando dos atuais 7,2 bilhões de habitantes para 9,2 bilhões. Este aumento será absorvido, na sua maioria, pelos países em desenvolvimento, como o Brasil. Em outro artigo publicado pela Folha Online, discutiu-se o dano ambiental que ações de países desenvolvidos causaram aos países em desenvolvimento, como o consumo e a destruição de recursos da natureza entre as décadas de 1960 e 1990 deverão impor ao longo do século XXI uma perda de US$ 7,4 trilhões da economia de países de renda per capita baixa e média.
      
          Há de se considerar ainda, como agravante, os efeitos das mudanças climáticas. Os custos ambientais de atividades humanas ligadas ao aquecimento global, urbanização sem planejamento e saneamento, expansão da agricultura, desmatamento, pesca predatória e danos aos ecossistemas aquáticos. O estudo aponta ainda um novo número do prejuízo que o dano ambiental no período estudado causará à humanidade: US$ 47 trilhões.

Um fato: o problema está aí, agrava-se, mas temos tecnologia para reverter a situação. Contudo, a efetivação do cuidado, tem sido de difícil entendimento e aplicação. Os produtores rurais têm apresentado um comportamento ainda tímido frente à gravidade do problema, salvo raras exceções, como aqueles produtores de base agroecológica de produção (palmas para o IF Sudeste de MG campus Rio Pomba). O grande desafio para se atingir o Desenvolvimento Sustentável consiste em aprender a combinar trabalho com cuidado. O momento é de evitar e reduzir os impactos ambientais das atividades agropecuárias.

Nas últimas três décadas o homem consumiu um terço dos recursos da Terra. Mantendo-se os padrões atuais de uso e degradação, muito pouco há de restar até o fim do século XXI. Contudo, há de se considerar, que o homem com a sua inteligência e sua habilidade, possui também capacidade suficiente para solucionar os problemas que ele mesmo criou, gerando soluções e aplicando novos conceitos: torçamos, cobremos e façamos a nossa parte!


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa. Foi professor do IF SEMG campus Rio Pomba. Atualmente, IFES campus de Alegre. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.