segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Agropecuária, Utopia Regressiva e a Era dos Extremos!


*Maurício Novaes Souza

A expressão “Utopia Regressiva” vem sendo muito empregada nos meios políticos. Nesse artigo vou usá-la para fazer um paralelo entre os modelos agropecuários existentes em nosso país, onde o novo e o antigo vêm se confrontando, comprometendo a transição para o Desenvolvimento Sustentável – nesse modelo, a ausência de imaginação é um modo de impedir novas construções! De acordo com Freitas Neto, no Jornal da Unicamp, na história das culturas e povos do ocidente, o domínio do tempo atual apresenta questões e cobranças imediatas que estão em diálogo com o passado e com o futuro. Hoje, há sentimentos controversos: desejos de mudança, recuperação de elos com o passado e, paradoxalmente, uma aparente e incômoda ausência de projetos ou de manifestações utópicas.
Em “A Utopia” (1516), de Thomas More, são identificadas questões em um período de transições entre dois mundos: o antigo, com suas mazelas; e o novo, com suas virtudes. A utopia é herdeira da viagem – não apenas como um ato, mas como uma metáfora dos caminhos a serem seguidos para se chegar a um ponto ideal. Este ponto ideal é outro aspecto marcante do discurso utópico: nele, realidade e ilusão se fundem. O utópico, desse modo, não é o impossível, mas apenas – como indica a etimologia - o que ainda não é. Na América, a junção de aspectos religiosos legados pelo cristianismo, o passado ligado às comunidades indígenas e o ideário socialista, durante muito tempo, fez com que a agricultura fosse uma atividade econômica de subsistência - sem espaço nos dias atuais.
Em artigo recente em “O Estado de São Paulo”, Xico Graziano comenta que missões estrangeiras desembarcam no Brasil para conhecer nosso modelo de agricultura tropical: plantio direto na palha, com até três safras na mesma área/ano, integração lavoura-pecuária, silvicultura, fruticultura, genética animal de ponta, onde se busca produtividade com qualidade e, recentemente, responsabilidade socioambiental. Embora admirada e temida pelos concorrentes externos, muitos enxergam a agropecuária nacional como se o campo ainda fosse dominado pelos latifundiários: visão incorreta! Segundo Graziano, essa surpreendente e reiterada dissintonia entre a realidade e sua interpretação o motivou, juntamente com Zander Navarro, a publicar o livro Novo Mundo Rural, onde defendem a necessidade de se adotarem novas perspectivas, conceitos e teorias, para a correta compreensão da dinâmica atual de nossa agropecuária.
De fato, uma nova situação produtiva passou a dominar o campo, desde a estabilização da moeda a partir do Plano Real. De essencialmente rural, o Brasil transformou-se numa nação urbanizada. Sua agricultura, antes na base da “enxada”, tornou-se altamente produtiva. Surgiu o competitivo e agressivo agronegócio - embora tão marcantes sejam as modificações tecnológicas e socioeconômicas, alguns observadores da agricultura brasileira – pesquisadores, agentes sociais ou políticos – continuam a tratá-la como se permanecessem adormecidos no tempo. Qual a razão dessa atitude? A força do paradigma gerado pelo tradicionalismo e o medo do novo. A modernização capitalista do campo, alavancada pela globalização e ancorada nas novas tecnologias, superou o dilema histórico – é verdade que não se alterou a estrutura concentrada da propriedade da terra. Por outro lado, pode-se afirmar que foi extremamente progressista, por ter provocado uma mudança impressionante, em termos econômicos e tecnológicos, elevando fortemente a produtividade no campo. Existem, claro, setores marginalizados do processo, o que é muito ruim. De qualquer forma, o tempo não recua. Independentemente de julgamentos de valor, ou mesmo de avaliações éticas: quem permanecer apegado aos raciocínios antigos, mais confunde do que compreende o nosso desenvolvimento agrário e seus desafios futuros. O olhar de muitos sobre a economia agrária ainda continua apegado às memórias do passado. Contudo, o futuro dos milhões de pequenos agricultores passa pelo apoio governamental, aliado ao desenvolvimento tecnológico e à sua integração aos mercados de consumo. Ou seja, um olhar para o futuro, longe da utopia regressiva e saudosista. Os processos de degradação ambiental e de exclusão social dos pequenos agricultores se aceleram simultaneamente à consolidação da agricultura de larga escala. Na visão de Graziano, para que os pequenos no campo vençam, é preciso capitalizá-los.
Afinal, o Desenvolvimento Sustentável é uma alternativa ou uma utopia? A proposta de compromisso com a preservação do meio ambiente para as atuais e futuras gerações como indissociável do conceito de desenvolvimento, e que preconiza ser indispensável à erradicação da pobreza e a inserção social, é a que mais de perto determinou o que se entende hoje como sustentabilidade, sem reduzir a importância dos demais princípios – essa é a lógica, não utópica, e também moderna, da AGROECOLOGIA - ciência que estabelece as bases para a construção de estilos de agriculturas sustentáveis e de estratégias de desenvolvimento rural sustentável.
Nessa era de extremos, apesar de a população da Terra ter atingido sete bilhões de habitantes, nunca existiu tanta fartura e disponibilidade de meios. Falta melhor distribui-los! Além disso, a riqueza acumulada seria suficiente para garantir a todos satisfatórias condições de qualidade de vida. Diante desses números, a superação de alguns desafios é essencial. De acordo com Torelly, são eles: 1) restabelecer as relações entre economia e ecologia; 2) controlar o crescimento populacional; 3) controlar o crescimento econômico e incentivar a distribuição de renda; 4) aumentar o consumo de alimentos dos países pobres e emergentes; 5) universalizar e baratear as inovações tecnológicas. Além do rápido declínio dos recursos renováveis e não renováveis, e de desastres ecológicos em grande escala, corremos um elevado risco de conflitos multinacionais.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa. Foi professor do IF Sudeste de Minas campus Rio Pomba. Atualmente, IFES campus de Alegre. E-mail: mauricios.novaes@ifes.edu.br.

As Leis Ambientais Brasileiras e a clássica impunidade

* Maurício Novaes Souza O imaginário neoliberal, presente de forma crescente em todo o mundo, reafirma a noção de que os recursos ...