sexta-feira, 8 de junho de 2018

A sociedade sob os impactos da Quarta Revolução Industrial



*Maurício Novaes Souza

            Sem dúvida, o Brasil é um país de incontáveis contrastes: enquanto já se vivem a Quarta Revolução Industrial em algumas cidades, ou mesmo regiões, encontramos populações que ainda se encontram como nos tempos anteriores aos da Primeira Revolução Industrial, no final do Século XVII, quando surgiu a máquina a vapor. Hoje, são os robôs integrados em sistemas ciberfísicos os responsáveis por uma transformação socioeconômica radical - tal processo, já bem conhecido pela classe acadêmica e econômica, vem sendo chamado “Quarta Revolução Industrial”, ou Indústria 4.0. É marcada pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas. Esta revolução, que a maioria da sociedade ainda desconhece, mudará o mundo radicalmente, em uma velocidade jamais vivenciada...e já está mudando!
No livro “A Quarta Revolução Industrial”, de Klaus Schwab, estamos a bordo de uma revolução tecnológica que transformará fundamentalmente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Em sua escala, alcance e complexidade, a transformação será diferente de qualquer evento que o ser humano tenha experimentado anteriormente. Os "novos poderes" da transformação virão da engenharia genética e das neurotecnologias - áreas que parecem misteriosas e distantes para o cidadão comum. Além disso, é a fusão de diversas tecnologias que a diferencia das anteriores - sua interação entre os domínios físicos, digitais e biológicos. É a nanotecnologia, sequenciamento genético, novas máquinas, computação quântica, energias renováveis, que são exemplos deste movimento, tendo como marco inicial a virada do Século XXI, com uma onda de novas descobertas, e tem como base o avanço da tecnologia digital. As repercussões impactarão em como somos e como nos relacionamos até nos lugares mais distantes do planeta: a revolução afetará o mercado de trabalho, o futuro do trabalho e a desigualdade de renda. Suas consequências impactarão a segurança geopolítica, o ambiente e o que é considerado ético.
Como sou educador, do ponto de vista profissional e dos empregos, já temos elementos que nos apontam que precisamos repensar os impactos sobre o mercado de trabalho. Modelos de negócio, padrões de consumo, formas de se produzir e trabalhar, estão sendo drasticamente modificados. Dezenas de profissões desaparecerão ou serão substituídas – nossos Institutos e Universidades estão preparados? Trabalhadores e movimentos sindicais buscam compreender não só as tendências do desemprego tecnológico, mas a nova dinâmica do mercado de trabalho. Categorias como a dos bancários e metalúrgicos, já afetados, debatem calorosamente o tema, que afetará a vida de todos. Sabemos que hoje a tecnologia e o conhecimento são medidas para diminuir os custos, aumentar a produtividade e gerar mais lucro – ou seja, a tecnologia pode e deve ser vista como algo próspero, mas também temerária!
Do ponto vista da economia de recursos naturais, diversos assuntos hoje vivenciados nos levam a repensar a problemática ambiental. A discussão teve início desde a criação do universo e nas inúmeras fases evolutivas até atingir sua forma atual. Isso nos faz repensar nosso modo de vida, pois somos a única espécie capaz de promover impactos e desequilíbrio em nosso habitat. Vivemos em um sistema dinâmico e todos os corpos estão em mútua interação, com toda a tecnologia a nossa disposição. Diante de toda revolução industrial e tecnológica, seguida do crescimento populacional e maior demanda pelos recursos naturais, discutirmos formas de redução/reutilização e modelos menos consumistas é indispensável.
            No entanto, o modelo industrial atual de produção é sustentado por uma sociedade de consumo, estruturado em uma política que se baseia na reposição do produto: ao invés de estimular a duração dos bens, que são feitos com tempo de uso limitado, a famosa obsolescência planejada, faz com que em pouco tempo seja necessária uma nova aquisição do mesmo produto por uma versão atualizada. A influência da publicidade alimenta essa questão estética/egoísta de consumismo, acarretando a segregação social. Além dos problemas sociais, os problemas ambientais, de intoxicação de alimentos, poluição do ar e da água e mudanças de temperaturas globais são consequências de tal ato.
            Ao mesmo tempo, a tecnologia poderá ser uma parceira para a solução de problemas ambientais de forma indireta: o efeito deflacionário dos preços com a nova revolução industrial, e também dos efeitos da distribuição de renda a favor do capital em detrimento do trabalho (precarização e arrocho dos salários e, portanto, do consumo); poderá impor o caminho para o consumo mais sustentável. Por outro lado, considerando que o avanço tecnológico para muitos produtos e serviços possuem baixos custos marginais, o consumidor será o maior beneficiário dessa revolução com produtos e serviços praticamente sem custo – o que estimularia o consumo!
            De fato, a tecnologia trará, no médio e longo prazo, redução nas diferenças entre pobres e ricos, em face da acessibilidade. Contudo, há incontáveis questões sobre o impacto das economias em desenvolvimento e a quarta revolução industrial. As tecnologias serão aproveitas para o desenvolvimento e aceleração do ritmo econômico? Esta nova revolução poderá inverter o estreitamento das lacunas entre as economias em termos de renda, habilidades, infraestrutura, finanças e outras áreas? Como as economias em desenvolvimento podem aproveitar as oportunidades desta nova revolução? O meio ambiente proverá recursos para essas novas demandas? Afinal, sobreviveremos? São questões que ainda ninguém é capaz de responder!

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa. Foi professor do IF Sudeste de Minas campus Rio Pomba. Atualmente, IFES campus de Alegre. E-mail: mauricios.novaes@ifes.edu.br.

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