Por Maurício Novaes Souza1 e Camilo Silva Cantanhede2
Durante o período das chamadas “Revolução Industrial” e “Revolução Verde”, em todo o mundo, não houve preocupação com as questões ambientais. Isso porque os recursos naturais eram abundantes e a poluição não era foco da atenção da sociedade industrial e intelectual da época. Com o crescimento acelerado e desordenado da produção e da população humana mundial, que resultaram na aceleração dos impactos e degradação ambientais, o resultado que se tem é a escassez dos recursos naturais. Surge então, recentemente, o conflito da sustentabilidade dos sistemas econômico e natural, fazendo do meio ambiente um tema literalmente estratégico e urgente. O homem começa a entender a impossibilidade de transformar as regras da natureza e perceber a importância da reformulação de suas práticas ambientais.
Infelizmente, mesmo sabendo que toda a matéria-prima utilizada nos processos produtivos é proveniente da natureza, a importância estratégica dos recursos naturais ainda não é bem reconhecida no Brasil, onde a ausência de políticas públicas e o desconhecimento por parte da população, não assegura o seu uso controlado e a sua gestão racional. Dessa forma, como não são respeitados os conceitos de “Limites do Crescimento”, a humanidade está usando 20% a mais de recursos naturais do que o planeta é capaz de repor. Ou seja, como estamos usando os recursos além de sua capacidade de reposição, significa que se ultrapassaram a capacidade de suporte, de autodepuração e de regeneração dos sistemas. Assim, estão-se avançando sobre os estoques naturais da Terra, o que inviabilizará o desenvolvimento humano e econômico do país, comprometendo as gerações atuais e futuras.
A preservação da diversidade ecológica e dos recursos naturais, frente ao quadro de destruição da natureza em escala global, deveria consistir na base do desenvolvimento da nação. A possibilidade de usar tais recursos, como no turismo ecológico e na pesquisa e desenvolvimento de produtos fito-farmacológicos, são apenas dois dos vários pontos que corroboram a necessidade de utilizar a natureza em favor do desenvolvimento. Entretanto, a preservação dos recursos naturais se torna impossível frente à falta de saneamento básico, particularmente o tratamento dos resíduos sólidos urbanos e do esgoto doméstico/comercial, principais responsáveis pela poluição ambiental. Apesar da melhoria na coleta de tais resíduos, a falta de destinação adequada para os mesmos consiste em um dos maiores entraves para vincular o desenvolvimento econômico com a preservação da natureza, gerando graves impactos de ordem sócio-econômica e ambiental.
A população tem sua parcela de culpa? Claro que sim. O consumismo desenfreado, por exemplo, é um grave problema que precisa ser encarado de frente, quando se tem em mente a preservação dos recursos naturais. A falta de consciência por parte da sociedade faz com que inúmeros utensílios sejam fabricados em larga escala e descartados logo em seguida por outros mais avançados. Esta dinâmica exige a utilização de matéria-prima específica, que não raro, implica em devastação do ambiente para acessar as reservas desses minérios: o rápido descarte destes produtos, sem reciclagem, significa mais “lixo” descartado no ambiente.
Agindo dessa maneira, todos os dons recebidos pelo homem, por intermédio de seu conhecimento da natureza e de seus progressos advindos do desenvolvimento tecnológico nos mais diversos setores, tais como a química, a informática e a medicina, tudo aquilo que parecia poder atenuar o sofrimento humano e melhorar sua vida, tende, por um espantoso paradoxo, a arruinar a humanidade. Ela ameaça fazer algo que, normalmente, não costuma acontecer em outros sistemas vivos, ou seja, sufocar a si mesma.
Por estas questões, a gestão e a preservação dos recursos naturais devem ser vistas como estratégias para o desenvolvimento sustentável. Questões como saneamento básico necessita de mais atenção por parte das autoridades competentes. Entretanto, há de se considerar, que a conservação da natureza e dos recursos naturais, dos quais todos nós dependemos, será fruto, principalmente, da tomada de consciência individual no que diz respeito ao nosso modo de vida e suas implicações e consequências sobre o meio ambiente.
* 1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IFET/Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É Conselheiro do COPAM e consultor do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.
2. Bacharelando em Agroecologia do IFET/RIO POMBA. E-mail: camiloaju@yahoo.com.br.
Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Economia e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo campus de Alegre.
domingo, 13 de setembro de 2009
Gestão e preservação dos recursos naturais: estratégia para o desenvolvimento sustentável
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Gerenciamento da sustentabilidade do projeto como processo auxilia de planejamento e execução
* Por Anna Sophia Barbosa Baracho
A busca de um produto que seja desenvolvido de forma sustentável nas esferas econômica, social e ambiental já faz parte do escopo de muitas empresas que produzem estratégias capazes de viabilizar as suas responsabilidades socioambientais, através de projetos específicos para a área ambiental, principalmente para aquelas potencialmente poluidoras. Mas apesar disso, ainda é comum profissionais perderem o controle do prazo e do custo – chegando a afetar a qualidade do(s) produto(s) – devido à má utilização ou falta de metodologias aplicadas no gerenciamento de seus processos.
A elaboração de projetos ambientais ainda é feita sem a devida sistematização das informações necessárias à implantação do projeto e resultados esperados: passagem pelas fases dos processos, das ferramentas e técnicas mais apropriadas para o planejamento e execução.
O devido acompanhamento dos projetos ambientais que garanta o princípio de sustentabilidade nos negócios deve ser focado no padrão PMI desde o início da sua concepção, pois, permite detectar possíveis falhas, além de ir de encontro com as atuais exigências de gerenciamento e transformações do mercado.
Palavras chaves: Gerenciamento da Sustentabilidade, Metodologia e Sistematização PMBoK, Responsabilidade Social Corporativa.
INTRODUÇÃO: OPORTUNIDADES PARA A SUSTENTABILIDADE
Organizações de todo o mundo estão cada vez mais procurando meios de melhorar seu desempenho global considerando aspectos da qualidade, meio ambiente e saúde, como parte integrante de sua gestão integrada. A incorporação da sustentabilidade nos negócios demanda, atualmente, por instrumentos objetivos que permitam às organizações trilharem, de forma prática, os caminhos necessários às mudanças nos modelos mentais e de gestão. Tendo como ponto de partida da análise os projetos como agentes potenciais de mudança, objetiva-se uma avaliação desta prática de gestão e como ela pode ser revisada, incorporando premissas e diretrizes do desenvolvimento sustentável.
A Responsabilidade Social Corporativa (RSC) como forma de orientar as empresas rumo a um modelo de desenvolvimento sustentável tem sido o grande desafio de gestão já vivenciado pelas empresas no mundo todo. Ao serem colocados nas mesmas posições os aspectos econômicos, sociais e ambientais, busca-se um equilíbrio de variáveis que usualmente fogem ao modelo praticado pelas organizações: a perspectiva sistêmica, a noção do longo prazo, dentre outros.
Diversas são as estratégias de se repensar os negócios a partir das premissas do desenvolvimento sustentável, entretanto, poucas delas têm focado um aspecto importante no dia-a-dia das organizações: os projetos.Se projetos promovem mudanças, então pode-se dizer que estas levam as empresas a novos rumos em seus negócios. Mas quais rumos são esses? E quanto esses projetos trouxeram as diretrizes para a sustentabilidade? Adotando-se que os modelos de gestão estão usualmente baseados em melhores práticas a serem incorporadas em suas realidades, deve-se perguntar quais são estas melhores práticas associadas aos projetos e o quanto elas estão levando em consideração as diretrizes para o desenvolvimento sustentável.
O objetivo aqui consiste em colocar de forma mais enfática os aspectos positivos, ou seja, o quanto o produto ou serviço potencializa as questões sociais e ambientais. Todo esse processo de questionamento demanda de um roteiro que facilite sua compreensão e entre todos os roteiros desenvolvidos destaca-se o sugerido pelo Project Management Institute (PMI)© (http://www.pmi.org/). O roteiro vem somar às demais técnicas já propostas e utilizadas no campo da gestão, agregando quando o tema são os investimentos ligados aos projetos empresariais e sustentabilidade.
Modernizar, competir, rentabilizar, aprimorar, são palavras cotidianas no mundo dos negócios. E este é o primeiro ponto: com que freqüência, a cada projeto novo iniciado nas organizações, é questionado o quanto ele contribui para o caminho a um modelo de desenvolvimento sustentável e simultaneamente corporativamente responsável?
Pode-se pensar em projetos dos mais variados tipos dentro das organizações: aprimorar modelos de gestão, implantar novos sistemas de informação, entrar em novos mercados, lançar novos produtos, ou seja, existem projetos de todos os tipos, portes e impactos. Entretanto, há uma natureza de projetos que está no caminho crítico de qualquer negócio: são os projetos relacionados aos produtos ou serviços. Estes projetos são particularmente importantes, pois justificam a organização perante seu mercado, oferecem a ela as condições de permanecer existindo, de gerar seus resultados econômicos, de se mostrarem para seus clientes da forma verdadeira. E, são estes mesmos projetos os principais responsáveis pelos impactos, positivos ou negativos, no negócio em termos econômicos, ambientais e sociais.
Há que se ressaltar que o tema de projetos alinhado com a questão do desenvolvimento sustentável pode ser considerado como um “tipo de inovação”. Entretanto, sua implementação no modelo de gestão atual pode ser considerada como uma ação de certa complexidade, ao mesmo tempo em que aponta questões de ordem prática ligadas ao tema da sustentabilidade no cotidiano das empresas e pode apresentar impactos relevantes estruturais ou na decisão final por determinados investimentos.
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: CAMINHO SEM VOLTA
Diversos são os sinais e constatações da insustentabilidade do modelo econômico atual. Como implementar mudanças que alinhem as três esferas (econômico, social e ambiental) no contexto da gestão empresarial? Muitos têm sido os esforços para o “repensar” do modelo dos negócios, principalmente no que se refere ao posicionamento estratégico das organizações e do modelo de gestão. Porém, tem-se notado que as criações de novos paradigmas no campo da sustentabilidade encontram maiores dificuldades do que o esperado em processos usuais de mudanças no mundo corporativo. Tem-se conseguido demonstrar em que aspectos a gestão dos negócios deve mudar, contudo, não se consegue ter o mesmo sucesso na explicitação de formas que levem à criação de um novo paradigma que sustente o modelo proposto.
Em grande parte, as organizações explicitam sua intenção de agir pautadas pelas três dimensões (econômico, social e ambiental), porém as atitudes, em sua maioria, são direcionadas pelo paradigma da dimensão econômica. Todo esse processo de mudança encontra questionamentos ao longo do percurso de transformação de uma organização rumo à sustentabilidade: o que faz determinadas lideranças empresariais considerarem a sustentabilidade nos negócios como evidente, ao mesmo tempo que para outras é difícil a forma de geri-los.
Porém, muitas organizações que já adotaram a sustentabilidade como diretriz estratégica apresentam melhores resultados econômicos. Este é o contexto no qual se insere o tema de projetos. Sabe-se que um projeto é uma mudança, entretanto, é preciso sempre entender as motivações e as reais possibilidades de rumar na direção desejada.
ESTRATÉGIAS, PROJETOS E SUSTENTABILIDADE
A proposta apresentada para o encaminhamento dos projetos no contexto da sustentabilidade parte da seguinte visão geral:

Um projeto que esteja neste contexto, durante sua concepção necessita responder a algumas questões ligadas aos aspectos econômicos do negócio, como por exemplo, se alterará ou não a proposta de valor da empresa frente aos seus mercados, se alterará ou não a estrutura organizacional da empresa, etc.
Agrega-se aos projetos um conjunto de novas questões que, somadas às questões usuais aplicadas a estes, despertam a possibilidade de colocar o tema em pauta, principalmente aos stakeholders do projeto. Em todo o processo de aprovação de investimentos em projetos podem ser inseridas estas questões como parte dos critérios de aprovação dos mesmos. O objetivo é que, todo projeto de investimento acima de um determinado valor, seja aprovado pelas instâncias com poderes para tal, aplicando como questionamento as propostas contidas no roteiro do projeto.
Figura 2: Novas questões a serem inseridas nos projetos quando da montagem de seu escopo, referindo-seao potencial de inserção dos temas de gestão como parte integrante do planejamento e execução.
AVALIAÇÃO DOS PROJETOS COM O ENFOQUE DA SUSTENTABILIDADE
Que novos processos devem ser pensados para a gestão da sustentabilidade? Quais são as técnicas, as ferramentas e as informações que devem ser adicionados àqueles já previstos pelas áreas de conhecimento? Ou seja, como garantir que os padrões de gerenciamento de projetos reflitam preocupações relacionadas à sustentabilidade?
Visando facilitar a aplicação dos conceitos apresentados no campo da sustentabilidade, foram desenvolvidas duas planilhas com base no modelo proposto pelo PMBoK®. Para a elaboração do check-list foram mapeados os resultados que derivam das fases de planejamento e execução do ciclo de gerenciamento dos projetos, inserindo questões que contemplam a temática da Responsabilidade Social Corporativa (RSC) e do desenvolvimento sustentável tomando como referência os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (http://www.pnud.org.br/milenio/index.php).
PROCESSOS DE PLANEJAMENTO DO PROJETO
Aprovado o Termo de Abertura, dá-se início ao planejamento do projeto. Esta etapa do ciclo demanda um maior detalhamento e confere materialização às questões da sustentabilidade tratadas na etapa de Iniciação do Projeto.
PROCESSOS DE EXECUÇÃO DO PROJETO
Findo o planejamento do projeto e aprovado seu detalhamento junto à alta administração, inicia-se a etapa de execução.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Estabelecidos os parâmetros utilizados para a avaliação e condução de projetos, os aspectos apresentados influenciam os resultados de cada uma das diferentes etapas que derivam de cada uma das fases do ciclo de processos de gerenciamento dos projetos.
Como em todo processo de inovação, a construção de um novo modelo de gerenciamento de projetos, que leve em conta o desenvolvimento sustentável, a incorporação de novas sugestões e observações, dentro do conjunto de aspectos específicos das diretrizes estratégicas da empresa, terão como resultados destes aprimoramentos: a contribuição positiva para imagem da empresa, considerando a exposição na mídia, pública e a percepção dos clientes; a observação de critérios, protocolos e declarações ambientais e de gestão de expressão internacional, passíveis de certificação ou não; a redução dos impactos ambientais nos processos; a melhoria da qualidade de trabalho para funcionários, com fornecedores e clientes; a aplicação de conceitos de consumo consciente, cidadania corporativa, ética, qualidade de vida e desenvolvimento local.
Dentro do universo das empresas, grande parte delas deve entender que os temas tratados sobre a sustentabilidade são relevantes, e virá para a pauta estratégica do negócio por necessidade e pressão interna e/ou externa. Afinal é esperado das organizações que incorporem em sua visão a perspectiva da sustentabilidade como eixo central de sua estratégia de sobrevivência e crescimento; que incorporem em suas atitudes e práticas de gestão novas perspectivas de análise e tomada de decisão, que considerem e integrem equilibradamente os aspectos econômicos, sociais e ambientais; que baseados nessas mudanças, possam apresentar resultados significativos em termos de impactos produzidos no contexto socioambiental em que atuam, minimizando impactos negativos e potencializando impactos positivos, de forma contínua e progressiva; que sejam agentes multiplicadores desta perspectiva de desenvolvimento em toda sua cadeia, influenciando e fortalecendo suas relações com os stakeholders.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, Fernando. O bom negócio da sustentabilidade. 1ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. 191 p.CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DO INSTITUTO ETHOS 2006. Gestão de projetos para sustentabilidade. Disponívelem:<http://www.ethos1.org.br/>. Acesso em 12/12/2008.
A busca de um produto que seja desenvolvido de forma sustentável nas esferas econômica, social e ambiental já faz parte do escopo de muitas empresas que produzem estratégias capazes de viabilizar as suas responsabilidades socioambientais, através de projetos específicos para a área ambiental, principalmente para aquelas potencialmente poluidoras. Mas apesar disso, ainda é comum profissionais perderem o controle do prazo e do custo – chegando a afetar a qualidade do(s) produto(s) – devido à má utilização ou falta de metodologias aplicadas no gerenciamento de seus processos.
A elaboração de projetos ambientais ainda é feita sem a devida sistematização das informações necessárias à implantação do projeto e resultados esperados: passagem pelas fases dos processos, das ferramentas e técnicas mais apropriadas para o planejamento e execução.
O devido acompanhamento dos projetos ambientais que garanta o princípio de sustentabilidade nos negócios deve ser focado no padrão PMI desde o início da sua concepção, pois, permite detectar possíveis falhas, além de ir de encontro com as atuais exigências de gerenciamento e transformações do mercado.
Palavras chaves: Gerenciamento da Sustentabilidade, Metodologia e Sistematização PMBoK, Responsabilidade Social Corporativa.
INTRODUÇÃO: OPORTUNIDADES PARA A SUSTENTABILIDADE
Organizações de todo o mundo estão cada vez mais procurando meios de melhorar seu desempenho global considerando aspectos da qualidade, meio ambiente e saúde, como parte integrante de sua gestão integrada. A incorporação da sustentabilidade nos negócios demanda, atualmente, por instrumentos objetivos que permitam às organizações trilharem, de forma prática, os caminhos necessários às mudanças nos modelos mentais e de gestão. Tendo como ponto de partida da análise os projetos como agentes potenciais de mudança, objetiva-se uma avaliação desta prática de gestão e como ela pode ser revisada, incorporando premissas e diretrizes do desenvolvimento sustentável.
A Responsabilidade Social Corporativa (RSC) como forma de orientar as empresas rumo a um modelo de desenvolvimento sustentável tem sido o grande desafio de gestão já vivenciado pelas empresas no mundo todo. Ao serem colocados nas mesmas posições os aspectos econômicos, sociais e ambientais, busca-se um equilíbrio de variáveis que usualmente fogem ao modelo praticado pelas organizações: a perspectiva sistêmica, a noção do longo prazo, dentre outros.
Diversas são as estratégias de se repensar os negócios a partir das premissas do desenvolvimento sustentável, entretanto, poucas delas têm focado um aspecto importante no dia-a-dia das organizações: os projetos.Se projetos promovem mudanças, então pode-se dizer que estas levam as empresas a novos rumos em seus negócios. Mas quais rumos são esses? E quanto esses projetos trouxeram as diretrizes para a sustentabilidade? Adotando-se que os modelos de gestão estão usualmente baseados em melhores práticas a serem incorporadas em suas realidades, deve-se perguntar quais são estas melhores práticas associadas aos projetos e o quanto elas estão levando em consideração as diretrizes para o desenvolvimento sustentável.
O objetivo aqui consiste em colocar de forma mais enfática os aspectos positivos, ou seja, o quanto o produto ou serviço potencializa as questões sociais e ambientais. Todo esse processo de questionamento demanda de um roteiro que facilite sua compreensão e entre todos os roteiros desenvolvidos destaca-se o sugerido pelo Project Management Institute (PMI)© (http://www.pmi.org/). O roteiro vem somar às demais técnicas já propostas e utilizadas no campo da gestão, agregando quando o tema são os investimentos ligados aos projetos empresariais e sustentabilidade.
Modernizar, competir, rentabilizar, aprimorar, são palavras cotidianas no mundo dos negócios. E este é o primeiro ponto: com que freqüência, a cada projeto novo iniciado nas organizações, é questionado o quanto ele contribui para o caminho a um modelo de desenvolvimento sustentável e simultaneamente corporativamente responsável?
Pode-se pensar em projetos dos mais variados tipos dentro das organizações: aprimorar modelos de gestão, implantar novos sistemas de informação, entrar em novos mercados, lançar novos produtos, ou seja, existem projetos de todos os tipos, portes e impactos. Entretanto, há uma natureza de projetos que está no caminho crítico de qualquer negócio: são os projetos relacionados aos produtos ou serviços. Estes projetos são particularmente importantes, pois justificam a organização perante seu mercado, oferecem a ela as condições de permanecer existindo, de gerar seus resultados econômicos, de se mostrarem para seus clientes da forma verdadeira. E, são estes mesmos projetos os principais responsáveis pelos impactos, positivos ou negativos, no negócio em termos econômicos, ambientais e sociais.
Há que se ressaltar que o tema de projetos alinhado com a questão do desenvolvimento sustentável pode ser considerado como um “tipo de inovação”. Entretanto, sua implementação no modelo de gestão atual pode ser considerada como uma ação de certa complexidade, ao mesmo tempo em que aponta questões de ordem prática ligadas ao tema da sustentabilidade no cotidiano das empresas e pode apresentar impactos relevantes estruturais ou na decisão final por determinados investimentos.
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: CAMINHO SEM VOLTA
Diversos são os sinais e constatações da insustentabilidade do modelo econômico atual. Como implementar mudanças que alinhem as três esferas (econômico, social e ambiental) no contexto da gestão empresarial? Muitos têm sido os esforços para o “repensar” do modelo dos negócios, principalmente no que se refere ao posicionamento estratégico das organizações e do modelo de gestão. Porém, tem-se notado que as criações de novos paradigmas no campo da sustentabilidade encontram maiores dificuldades do que o esperado em processos usuais de mudanças no mundo corporativo. Tem-se conseguido demonstrar em que aspectos a gestão dos negócios deve mudar, contudo, não se consegue ter o mesmo sucesso na explicitação de formas que levem à criação de um novo paradigma que sustente o modelo proposto.
Em grande parte, as organizações explicitam sua intenção de agir pautadas pelas três dimensões (econômico, social e ambiental), porém as atitudes, em sua maioria, são direcionadas pelo paradigma da dimensão econômica. Todo esse processo de mudança encontra questionamentos ao longo do percurso de transformação de uma organização rumo à sustentabilidade: o que faz determinadas lideranças empresariais considerarem a sustentabilidade nos negócios como evidente, ao mesmo tempo que para outras é difícil a forma de geri-los.
Porém, muitas organizações que já adotaram a sustentabilidade como diretriz estratégica apresentam melhores resultados econômicos. Este é o contexto no qual se insere o tema de projetos. Sabe-se que um projeto é uma mudança, entretanto, é preciso sempre entender as motivações e as reais possibilidades de rumar na direção desejada.
ESTRATÉGIAS, PROJETOS E SUSTENTABILIDADE
A proposta apresentada para o encaminhamento dos projetos no contexto da sustentabilidade parte da seguinte visão geral:
No centro da figura encontra-se a estrutura clássica de gestão empresarial,onde, no topo da pirâmide, constam os princípios do negócio. No lado direito, as dimensões da Responsabilidade Social Corporativa adotadas por algumas empresas e, no lado esquerdo, as dimensões da Sustentabilidade. A tríade econômico, social e ambiental está representada no modelo, tendo na base a necessidade de Integração, Alinhamento e Coerência.
Um projeto que esteja neste contexto, durante sua concepção necessita responder a algumas questões ligadas aos aspectos econômicos do negócio, como por exemplo, se alterará ou não a proposta de valor da empresa frente aos seus mercados, se alterará ou não a estrutura organizacional da empresa, etc.
Agrega-se aos projetos um conjunto de novas questões que, somadas às questões usuais aplicadas a estes, despertam a possibilidade de colocar o tema em pauta, principalmente aos stakeholders do projeto. Em todo o processo de aprovação de investimentos em projetos podem ser inseridas estas questões como parte dos critérios de aprovação dos mesmos. O objetivo é que, todo projeto de investimento acima de um determinado valor, seja aprovado pelas instâncias com poderes para tal, aplicando como questionamento as propostas contidas no roteiro do projeto.
Figura 2: Novas questões a serem inseridas nos projetos quando da montagem de seu escopo, referindo-seao potencial de inserção dos temas de gestão como parte integrante do planejamento e execução.
AVALIAÇÃO DOS PROJETOS COM O ENFOQUE DA SUSTENTABILIDADE
Que novos processos devem ser pensados para a gestão da sustentabilidade? Quais são as técnicas, as ferramentas e as informações que devem ser adicionados àqueles já previstos pelas áreas de conhecimento? Ou seja, como garantir que os padrões de gerenciamento de projetos reflitam preocupações relacionadas à sustentabilidade?
Visando facilitar a aplicação dos conceitos apresentados no campo da sustentabilidade, foram desenvolvidas duas planilhas com base no modelo proposto pelo PMBoK®. Para a elaboração do check-list foram mapeados os resultados que derivam das fases de planejamento e execução do ciclo de gerenciamento dos projetos, inserindo questões que contemplam a temática da Responsabilidade Social Corporativa (RSC) e do desenvolvimento sustentável tomando como referência os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (http://www.pnud.org.br/milenio/index.php).
PROCESSOS DE PLANEJAMENTO DO PROJETO
Aprovado o Termo de Abertura, dá-se início ao planejamento do projeto. Esta etapa do ciclo demanda um maior detalhamento e confere materialização às questões da sustentabilidade tratadas na etapa de Iniciação do Projeto.
PROCESSOS DE EXECUÇÃO DO PROJETO
Findo o planejamento do projeto e aprovado seu detalhamento junto à alta administração, inicia-se a etapa de execução.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Estabelecidos os parâmetros utilizados para a avaliação e condução de projetos, os aspectos apresentados influenciam os resultados de cada uma das diferentes etapas que derivam de cada uma das fases do ciclo de processos de gerenciamento dos projetos.
Como em todo processo de inovação, a construção de um novo modelo de gerenciamento de projetos, que leve em conta o desenvolvimento sustentável, a incorporação de novas sugestões e observações, dentro do conjunto de aspectos específicos das diretrizes estratégicas da empresa, terão como resultados destes aprimoramentos: a contribuição positiva para imagem da empresa, considerando a exposição na mídia, pública e a percepção dos clientes; a observação de critérios, protocolos e declarações ambientais e de gestão de expressão internacional, passíveis de certificação ou não; a redução dos impactos ambientais nos processos; a melhoria da qualidade de trabalho para funcionários, com fornecedores e clientes; a aplicação de conceitos de consumo consciente, cidadania corporativa, ética, qualidade de vida e desenvolvimento local.
Dentro do universo das empresas, grande parte delas deve entender que os temas tratados sobre a sustentabilidade são relevantes, e virá para a pauta estratégica do negócio por necessidade e pressão interna e/ou externa. Afinal é esperado das organizações que incorporem em sua visão a perspectiva da sustentabilidade como eixo central de sua estratégia de sobrevivência e crescimento; que incorporem em suas atitudes e práticas de gestão novas perspectivas de análise e tomada de decisão, que considerem e integrem equilibradamente os aspectos econômicos, sociais e ambientais; que baseados nessas mudanças, possam apresentar resultados significativos em termos de impactos produzidos no contexto socioambiental em que atuam, minimizando impactos negativos e potencializando impactos positivos, de forma contínua e progressiva; que sejam agentes multiplicadores desta perspectiva de desenvolvimento em toda sua cadeia, influenciando e fortalecendo suas relações com os stakeholders.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, Fernando. O bom negócio da sustentabilidade. 1ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. 191 p.CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DO INSTITUTO ETHOS 2006. Gestão de projetos para sustentabilidade. Disponívelem:<http://www.ethos1.org.br/>. Acesso em 12/12/2008.
LEAL, Guilherme. Crise financeira pode abrir espaço para que o modelo de desenvolvimento seja repensado de forma mais sustentável. Disponível em:<http://www.funbio.org.br/publique/web/cgi/cgilua.exe/sys/start.htminfoid=6234&sid=17>. Acesso em 09/01/2009.
NBR ISO 14001. Sistemas de gestão ambiental: especificação e diretrizes para uso. Rio de Janeiro: ABNT, 1996. 14p.OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO DO MILÊNIO. Disponível em: <http://www.pnud.org.br/milenio/index.php> Acesso em 10/12/2008.
PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. Um guia do conjunto de conhecimentos em gerenciamento de projetos: guia PMBOK. 3ª ed. Newton Square: PMI, c2004. 388 p.
SOUZA, Maurício Novaes. Degradação e recuperação ambiental e desenvolvimento sustentável. Dissertação de Mestrado. Viçosa: UFV, 2004.
VARGAS, Ricardo Viana. Manual prático do plano de projeto: utilizando o PMBOK Guide. 3ª ed. Rio de Janeiro: Brasport, 2007. 226 p.
* Arquiteta e Urbanista (PUCMINAS); Especialista em Meio Ambiente e Arquitetura Bioclimática (Universidad Politécnica de Madrid); Especialista em Engenharia Ambiental Integrada (IETEC); Pós-graduanda em MBA Administração de Projetos pelo IETEC.
CONSCIÊNCIA AMBIENTAL: ÉTICA NA PRÁTICA DO DIA A DIA
* Por Maria de Fátima Vieira Aguiar
Ter o conhecimento e colocá-lo em prática há uma diferença muito grande, principalmente no que se refere à utilização da água. Nossos hábitos culturais estão arraigados. Ariscamos muitas vezes a interromper processos nos quais necessitamos para dar continuidade a uma vida saudável. Desperdiçamos, consumimos exageradamente, colocamos em risco nossa saúde e a dos nossos semelhantes. Preferimos não olhar a nossa volta e continuar a caminhar como se nada pudesse nos impedir de viver. Mas sabemos da nossa fragilidade e interdependência. O que acontece conosco então?
Refletir sobre artigos que nos alertam sobre nosso comportamento em relação à utilização dos recursos naturais e escrever sobre os mesmos, tem como finalidade a Educação Ambiental. É uma forma de alertar o leitor de que, apesar de termos uma consciência reflexiva, nossas ações muitas vezes, não condizem com nosso conhecimento e necessidades. E para essa prática, escolhemos estes dois artigos que poderão ser apreciados.
O artigo, “Dia Mundial da água: vamos comemorar?”; da engenheira civil e ambiental, Rosa Helena Borges Peres, e o artigo: “A economia, o ambiente e os limites do crescimento” do engenheiro agrônomo, Maurício Novaes Souza, refletem bem o grau de complexidade relacionada à adequação de um sistema, no qual insistem na insustentabilidade. E nos alegra ler trabalhos de profissionais de áreas diferentes, que possuem a mesma consciência ética relacionada ao meio ambiente. Esses profissionais, e tantos outros com a mesma postura, parecem estar na contramão no que diz respeito a visão do sistema organizacional, defendem a ética na utilização dos recursos naturais.
A professora Rosa pergunta-nos: como merecia ser comemorado o dia da água? Parece que está sendo comemorado, segundo Peres, (2009), com bolo e vela, se comparado ludicamente. Mas com água farta para todos? Até nos embriagar se fosse possível? Água límpida? Colocam-na em pauta quase todos os dias, mas ao utilizarmos o recurso hídrico, talvez por estarmos em região que ainda não é possível sentir sua escassez de fato, nos fartamos desta fonte de vida, sem lucidez.
O professor Maurício em sua visão holística sugere que se façam políticas públicas voltadas para a questão social e ambiental. Que o poder público ao legislar consiga efetivar as propostas dentro de parâmetros éticos, visando pesquisas voltadas a proteção dos ecossistemas, no qual estamos inseridos. Pensar desta forma, é ser estratégico, é estar em sintonia com a realidade econômica, no qual depende totalmente dos resultados dessa interação.
Para comemorar o dia da água, a "resurgência" da vida, a cada dia deveríamos estar repensando de como se apropriar deste recurso de forma a contribuir para que esta prática nunca se esgote. Proteger aquela que nos alimenta, nossa extensão. Numa festa sem fim, dia após dia. Acordar e “acordar” a cada minuto para que nossos hábitos sejam compatíveis com as nossas necessidades individuais, humanizados, interagindo bem com a natureza.
* Licenciada em Geografia, Especialista em Educação-concentração em Geografia e Gestão Ambiental. Técnica em Meio Ambiente/ Professora de Ensino Básico do Estado de Minas Gerais. Orientadora do curso de especialização de Geografia (EVATA). Vice - presidente do Instituto Ambiental Sol do Campo. E-mail: fatima@soldocampo.com
A superpopulação, o modelo de crescimento e a importância da consciência ambiental
* Por Maurício Novaes Souza1 e Maria Angélica Alves da Silva2
Durante o período das chamadas “Revolução Industrial” e “Revolução Verde” não havia preocupação com as questões ambientais. Isso porque os recursos naturais eram abundantes e a poluição não era foco da atenção da sociedade industrial e intelectual da época. Com o crescimento acelerado e desordenado da produção e da população humana mundiais, que resultaram na aceleração dos impactos e degradação ambientais, o resultado que se tem é a escassez dos recursos naturais. Surge então, recentemente, o conflito da sustentabilidade dos sistemas econômico e natural, fazendo do meio ambiente um tema literalmente estratégico e urgente. O homem começa a entender a impossibilidade de transformar as regras da natureza e perceber a importância da reformulação de suas práticas ambientais.
Cabe considerar o conceito “Limites do Crescimento” - de acordo com Marilena Lino de Almeida Lavorato, a humanidade está usando 20% a mais de recursos naturais do que o planeta é capaz de repor. Ou seja, como estamos usando os recursos além de sua capacidade produtiva, significa que os limites do crescimento não foram observados, ultrapassaram-se a capacidade de suporte, de autodepuração e de regeneração dos sistemas. Assim, estão-se avançando sobre os estoques naturais da Terra, comprometendo as gerações atuais e futuras, segundo o Relatório Planeta Vivo 2002 elaborado pelo WWF. De acordo com o relatório, o planeta tem 11,4 bilhões de hectares (ha) de terra e espaço marinho produtivos - ou 1,9 ha de área produtiva per capita. Contudo, a humanidade está usando o equivalente a 13,7 bilhões de ha para produzir os grãos, peixes e crustáceos, carne e derivados, água e energia que consome. Cada um dos 6 bilhões de habitantes da Terra, portanto, usa uma área de 2,3 ha; ou seja, essa é a pegada ecológica de um dos habitantes do Planeta. O fator de maior peso na composição da Pegada Ecológica, nos dias atuais, é a energia, sobretudo nos países mais desenvolvidos.
A Pegada Ecológica de 2,3 ha é uma média. Há grandes diferenças entre as nações mais e menos desenvolvidas, como mostra o Relatório Planeta Vivo, que calculou a Pegada de 146 países com população acima de um milhão de habitantes. Os dados de 1999 mostram que enquanto a Pegada média do consumidor da África e da Ásia não chega 1,4 hectares por pessoa, a do consumidor da Europa Ocidental é de cerca de 5,0 ha e a dos norte-americanos de 9,6 ha. Embora a Pegada brasileira seja de 2,3 ha – dentro da média mundial, está cerca de 20% acima da capacidade biológica produtiva do planeta; ou seja, vivemos a época do horror econômico e ambiental – a época do contra senso.
De acordo com Konrad Zacharias Lorenz, que criou o conceito de "imprinting", ou cunhagem, todos os dons recebidos pelo homem por intermédio de seu profundo conhecimento da natureza e de seus progressos advindos do desenvolvimento tecnológico, nos mais diversos setores, tais como a química, a informática e a medicina, tudo aquilo que parecia poder atenuar o sofrimento humano, tende, por um espantoso paradoxo, a arruinar a humanidade. Segundo esse mesmo autor, ela ameaça fazer algo que, normalmente, não costuma acontecer em outros sistemas vivos, ou seja, sufocar a si mesma. O pior, nesse processo apocalíptico, é que as qualidades e as faculdades mais nobres do homem são as que parecem destinadas a desaparecer em primeiro lugar, justamente aquelas que mais estimamos, e que são, com justeza, as mais especificamente humanas.
Segundo esse autor, os que vivem em países civilizados de grande densidade demográfica, ou mesmo em grandes cidades, não se têm idéia do quanto nos falta o amor ao próximo, sincero e caloroso. É preciso ter pedido hospitalidade numa região pouco habitada, onde vários quilômetros de estrada ruim separam vizinhos uns dos outros, para medir o quanto o ser humano é hospitaleiro e capaz de simpatizar com os outros quando suas faculdades de contato não são constantemente e excessivamente solicitadas. Na verdade, para esse autor, o ajuntamento humano nas cidades modernas é em grande parte responsável por não sermos mais capazes de distinguir o rosto do próximo nessa fantasmagoria de imagens humanas que mudam, se superpõem e se apagam continuamente. Diante dessa multidão e dessa promiscuidade, nosso amor pelos outros se desgasta a tal ponto que os perdemos de vista. Os que querem ainda ter para com seus semelhantes sentimentos calorosos e benévolos são obrigados a se concentrar em um pequeno número de amigos.
Em artigo recente do jornalista Fernando Martins, “O mito do homem bom e do homem mau”, uma pergunta inicial: o ser humano é bom ou mau por natureza? A resposta a essa pergunta, tão antiga como o homem, moldou todas as instituições políticas e econômicas atuais e a forma como elas nos governam. Também ajudou a reforçar mitos dos quais a sociedade atual não consegue escapar. O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588–1674) entendia que o homem é naturalmente egoísta. Para ele, sem um Estado forte que limite as pretensões individuais, haveria uma guerra de todos contra todos. Suas teorias justificaram o absolutismo dos reis europeus, e, posteriormente, todas as formas de autoritarismo e totalitarismo. Mas as idéias “atenuadas” de Hobbes de certa forma também inspiram nações democráticas que crêem no papel de um governo forte para definir os rumos de uma sociedade.
De fato, para Lorenz, nos é impossível amar toda a humanidade, apesar da justeza dessa exigência moral. Somos, portanto obrigados a fazer uma escolha, ou seja, a manter a distância, emocionalmente, numerosos seres dignos de nossa amizade. É um processo absolutamente inevitável para cada um de nós, mas já manchado de desumanidade. Levando mais adiante esse tipo de defesa voluntária contra as relações humanas, veremos que, de conformidade com os fenômenos de exaustão do sentimento, conduz às espantosas manifestações de indiferença que os jornais relatam diariamente. Quanto mais somos levados a viver na promiscuidade das massas, mais cada um de nós se sente acuado pela necessidade de não se envolver. É assim que hoje em dia os ataques à mão armada, o assassinato e o estupro podem acontecer em plena luz do dia, justamente no centro das grandes cidades, nas ruas cheias de gente, sem que sequer um “transeunte” intervenha. Amontoar os homens em espaços limitados leva de forma indireta a atos de desumanidade provocados pelo esgotamento e desaparecimento progressivo dos contatos, e é a causa direta de todo um comportamento agressivo.
Segundo esse mesmo autor, numerosas experiências realizadas em animais nos ensinaram que a agressividade entre congêneres pode ser estimulada amontoando-os em espaço limitado. Quem nunca teve experiência semelhante, quer em cativeiro, quer em situação análoga em que muitas pessoas vivem juntas por força das circunstâncias, não pode avaliar o grau de intensidade a que cega a irritabilidade. E se a pessoa tenta se controlar, se esmera no contato de cada dia, de cada hora, para ter uma atitude delicada e, portanto amigável, para companheiros pelos quais não tem qualquer amizade, a situação vira suplício. A falta de amabilidade generalizada, que podemos observar em todas as grandes cidades, é claramente proporcional à densidade das massas humanas aglomeradas em determinado lugar. Atinge proporções aterradoras nas grandes estações, ou nos terminais de ônibus e de metrô de Nova Iorque, Tóquio e São Paulo, por exemplo.
A superpopulação, que na verdade é produto das chamadas “Revolução Industrial” e “Revolução Verde”, contribui diretamente para gerar todos os problemas, todos os fenômenos de decadência. Acreditar na possibilidade de produzir, graças a um “condicionamento” apropriado, um novo tipo de homem, armado contra as conseqüências nefandas do empilhamento num espaço limitado, me parece uma ilusão perigosa. Isso já é bem registrado em pesquisas com animais. De acordo com José Saramago, há muito tempo que os especialistas em virologia estão convencidos de que o sistema de agricultura intensiva da China meridional foi o principal vetor da mutação gripal: tanto da “deriva” estacional como do episódico “intercâmbio” genômico. Há seis anos que a revista Science publicou um artigo importante em que mostrava que, depois de anos de estabilidade, o vírus da gripe suína da América do Norte havia dado um salto evolutivo vertiginoso. A industrialização, por grandes empresas, da produção pecuária rompeu o que até então tinha sido o monopólio natural da China na evolução da gripe.
De acordo com Saramago, nas últimas décadas, o setor pecuário se transformou em algo que se parece mais à indústria petroquímica que à bucólica “rocinha familiar” que os livros de texto na escola buscam descrever. Em 1966, por exemplo, havia nos Estados Unidos 53 milhões de suínos distribuídos por um milhão de granjas. Atualmente, 65 milhões de porcos se concentram em 65.000 instalações. Isso significou passar das antigas pocilgas às incomensuráveis granjas/depósitos fecais atuais, nos quais, entre o esterco e sob um calor sufocante, prontos para intercambiar agentes patogênicos à velocidade imprevisível, se amontoam dezenas de milhões de animais com mais do que debilitados sistemas imunitários. Não será, certamente, a única causa, mas não poderá ser ignorada.
Voltando a falar de consumo de energia, tem-se de pensar em emissões de poluentes. Nesse aspecto, as diferenças dos índices emitidos pelos países desenvolvidos e em desenvolvimento também são significativas: um cidadão médio norte-americano, por exemplo, responde pela emissão anual de 20 toneladas anuais de dióxido de carbono; um britânico, por 9,2 toneladas; um chinês, por 2,5; um brasileiro, por 1,8; já um ganês ou um nicaragüense, só por 0,2; e um tanzaniano, por 0,1 tonelada anual (Wolfgang Sachs, do Wuppertal Institute).
Nos países industrializados cresce cada vez mais o consumo de recursos naturais provindos dos países em desenvolvimento - a ponto daqueles países já responderem por mais de 80% do consumo total no mundo. Segundo Sachs, 30% dos recursos naturais consumidos na Alemanha vêm de outros países; no Japão, 50%; nos países Baixos, 70%. Dessa forma, o grande desafio da humanidade é promover o desenvolvimento sustentável de forma rápida e eficiente. Este é o paradoxo: sabemos que o tempo está se esgotando, mas não agimos para mudar completamente essa situação antes que seja demasiado tarde.
A escritora Viviane Forrester, em seu livro “O horror econômico”, comenta: depois da exploração do homem pelo homem em nome do capital, o neoliberalismo e seu braço operacional, que é a globalização, criaram, mantêm e ampliam, em nome da sacralidade do mercado, a exclusão de grande parte do gênero humano. O próximo passo será a eliminação? Caminhamos para um holocausto universal, quando a economia modernizada terá repugnância em custear a sobrevivência de quatro quintos da população mundial? Depois de explorados e excluídos, bilhões de seres humanos, considerados supérfluos, devem ser exterminados? Diante a situação em que vivemos, o raciocínio é bem mais do que uma hipótese.
Viu-se no filme “Uma verdade Inconveniente” que uma rã posta na água fervente saltará rapidamente para fora, mas se a água for aquecida gradualmente, ela não se dará conta do aumento da temperatura e tranqüilamente se deixará ferver até morrer. Situação semelhante pode estar ocorrendo conosco em relação à gradual destruição do ambiente natural e dos rumos ditados pelos modelos de desenvolvimento econômico. Hoje, grande parte da sociedade se posiciona como mero espectador dos fatos, esquecendo-se de que somos todos responsáveis pelo futuro que estamos modelando. Como diz Leonardo Boff, devemos exercer a cidadania planetária, e rapidamente.
A conscientização ambiental de massa só será possível com percepção e entendimento do real valor do meio ambiente natural em nossas vidas, que é o fundamento invisível das diferenças socioeconômicas entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. O dia em que cada brasileiro entender como esta questão afeta sua vida de forma direta e irreversível, o meio ambiente não precisará mais de defensores. A sociedade já terá entendido que preservar/conservar o meio ambiente é garantir a própria vida. Fragilizar o meio ambiente é fragilizar a economia, o emprego, a saúde, e tudo mais. Esta falta de entendimento compromete a adequada utilização de nossa maior vantagem competitiva frente ao mundo: recursos hídricos, matriz energética limpa e renovável, biodiversidade, a maior floresta do mundo, e tantas outras vantagens ambientais que nós brasileiros temos e que atrai o olhar do mundo.
Mas, se nada for feito de forma rápida e efetiva, as próximas gerações serão prejudicadas duplamente: pelos impactos ambientais e pela falta de visão de nossa geração em não explorar adequadamente a vantagem competitiva de nossos recursos naturais. As sugestões encontradas nos modelos de gestão ambiental, além de despertarem a consciência ambiental que se faz indispensável nesse momento de crise, podem garantir um modelo de desenvolvimento que seja sustentável.
* 1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IFET/Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É Conselheiro do COPAM e consultor do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.
2. Pedagoga e Especialista em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É professora das disciplinas Sociologia e Artes do IFET - Rio Pomba. E-mail: gecamau@yahoo.com.br.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
A importância da consciência e da gestão ambiental para o desenvolvimento sustentável
* Por Maurício Novaes Souza
Durante o período das chamadas “Revolução Industrial” e “Revolução Verde” não havia preocupação com as questões ambientais. Os recursos naturais eram abundantes e a poluição não era foco da atenção da sociedade industrial e intelectual da época. A partir da escassez dos recursos naturais, somado ao crescimento desordenado da população mundial e intensidade dos impactos ambientais, surge o conflito da sustentabilidade dos sistemas econômico e natural, fazendo do meio ambiente um tema literalmente estratégico e urgente. O homem começa a entender a impossibilidade de transformar as regras da natureza e a importância da reformulação de suas práticas ambientais.
De acordo com Marilena Lino de Almeida Lavorato, a humanidade está usando 20% a mais de recursos naturais do que o planeta é capaz de repor. Ou seja, ou limites do crescimento não foram observados, ultrapassaram-se a capacidade de suporte, de autodepuração e de regeneração dos sistemas. Assim, estão-se avançando sobre os estoques naturais da Terra, comprometendo as gerações atuais e futuras, segundo o Relatório Planeta Vivo 2002 elaborado pelo WWF. De acordo com o relatório, o planeta tem 11,4 bilhões de hectares (ha) de terra e espaço marinho produtivos - ou 1,9 ha de área produtiva per capita. Contudo, a humanidade está usando o equivalente a 13,7 bilhões de ha para produzir os grãos, peixes e crustáceos, carne e derivados, água e energia que consome. Cada um dos 6 bilhões de habitantes da Terra, portanto, usa uma área de 2,3 ha. Essa área é a Pegada Ecológica de cada um. O fator de maior peso na composição da Pegada Ecológica hoje é a energia, sobretudo nos países mais desenvolvidos.
Segundo essa mesma autora, a Pegada Ecológica de 2,3 ha é uma média. Mas há grandes diferenças entre as nações mais e menos desenvolvidas, como mostra o Relatório Planeta Vivo, que calculou a Pegada de 146 países com população acima de um milhão de habitantes. Os dados de 1999 mostram que enquanto a Pegada média do consumidor da África e da Ásia não chega 1,4 hectares por pessoa, a do consumidor da Europa Ocidental é de cerca de 5,0 ha e a dos norte-americanos de 9,6 ha. Embora a Pegada brasileira seja de 2,3 ha – dentro da média mundial, está cerca de 20% acima da capacidade biológica produtiva do planeta.
Quanto se fala em emissões de poluentes, as diferenças dos índices emitidos pelos países desenvolvidos e em desenvolvimento também são significativas: um cidadão médio norte-americano, por exemplo, responde pela emissão anual de 20 toneladas anuais de dióxido de carbono; um britânico, por 9,2 toneladas; um chinês, por 2,5; um brasileiro, por 1,8; já um ganês ou um nicaragüense, só por 0,2; e um tanzaniano, por 0,1 tonelada anual (Wolfgang Sachs, do Wuppertal Institute).
Nos países industrializados cresce cada vez mais o consumo de recursos naturais provindos dos países em desenvolvimento - a ponto daqueles países já responderem por mais de 80% do consumo total no mundo. Segundo Sachs, 30% dos recursos naturais consumidos na Alemanha vêm de outros países; no Japão, 50%; nos países Baixos, 70%. Dessa forma, o grande desafio da humanidade é promover o desenvolvimento sustentável de forma rápida e eficiente. Este é o paradoxo: sabemos que o tempo está se esgotando, mas não agimos para mudar completamente essa situação antes que seja demasiado tarde.
Viu-se no filme “Uma verdade Inconveniente” que uma rã posta na água fervente saltará rapidamente para fora, mas se a água for aquecida gradualmente, ela não se dará conta do aumento da temperatura e tranqüilamente se deixará ferver até morrer. Situação semelhante pode estar ocorrendo conosco em relação à gradual destruição do ambiente natural. Hoje, grande parte da sociedade se posiciona como mero espectador dos fatos, esquecendo-se de que somos todos responsáveis pelo futuro que estamos modelando. Devemos exercer a cidadania planetária, e rapidamente.
De acordo com Marilena Lino de Almeida Lavorato, a conscientização ambiental de massa só será possível com percepção e entendimento do real valor do meio ambiente natural em nossas vidas, que é o fundamento invisível das diferenças socioeconômicas entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. O dia em que cada brasileiro entender como esta questão afeta sua vida de forma direta e irreversível, o meio ambiente não precisará mais de defensores. A sociedade já terá entendido que preservar/conservar o meio ambiente é garantir a própria vida. Fragilizar o meio ambiente é fragilizar a economia, o emprego, a saúde, e tudo mais. Esta falta de entendimento compromete a adequada utilização de nossa maior vantagem competitiva frente ao mundo: recursos hídricos, matriz energética limpa e renovável, biodiversidade, a maior floresta do mundo, e tantas outras vantagens ambientais que nós brasileiros temos e que atrai o olhar do mundo.
Mas, ainda de acordo com Marilena Lino de Almeida Lavorato, se nada for feito de forma rápida e efetiva, as próximas gerações serão prejudicadas duplamente: pelos impactos ambientais e pela falta de visão de nossa geração em não explorar adequadamente a vantagem competitiva de nossos recursos naturais. As sugestões encontradas nos modelos de gestão ambiental, além de despertarem a consciência ambiental que se faz indispensável nesse momento de crise, podem garantir um modelo de desenvolvimento que seja sustentável.
* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IFET/Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É Conselheiro do COPAM e consultor do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.
O QUE É GESTÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS E QUAL A RELAÇÃO COM O TÉCNICO DE SEGURANÇA DO TRABALHO?
* por Claudemir Aparecido Neto Garcia1 e Maurício Novaes Souza
Nos dias atuais é gerada uma carga extremamente elevada de resíduos. Como agravante, milhares de toneladas de resíduos sólidos são muitas vezes despejados no meio ambiente diariamente, trazendo, dessa forma, drásticas consequências.
Nos dias atuais é gerada uma carga extremamente elevada de resíduos. Como agravante, milhares de toneladas de resíduos sólidos são muitas vezes despejados no meio ambiente diariamente, trazendo, dessa forma, drásticas consequências.
Providências urgentes têm que ser tomadas para reverter esse quadro, e a necessidade de mudança de conceitos e formas de tratar o assunto é premente para que sejam alcançados melhores resultados no manejo dos resíduos sólidos, principalmente na disposição final, segmento em que os dados são mais alarmantes.
A Gestão de Resíduos Sólidos (GRS) é um conjunto de atitudes (comportamentos, procedimentos, propósitos) que apresentam como objetivo principal, a eliminação dos impactos ambientais negativos, associados à produção e à destinação do lixo. Na ausência do gerenciamento de resíduos sólidos, a produção e a destinação do lixo podem conduzir aos seguintes problemas, entre vários outros: contaminação do solo com fungos e bactérias; contaminação das águas de chuva e do lençol freático; aumento da população de ratos, baratas e moscas, disseminadores de doenças diversas; aumento dos custos de produtos e serviços; entupimento das redes de drenagem das águas de chuva; assoreamento dos córregos e dos cursos d’água; incêndios de largas proporções e difícil combate; destruição da camada de ozônio, etc.
A gestão de resíduos sólidos pode diminuir, e em alguns casos evitar, esses impactos negativos, propiciando níveis crescentes de qualidade de vida, saúde pública e bem estar social, além de gerar uma redução das despesas de recuperação das áreas degradadas, da água, dos lençóis freáticos e do ar poluídos, possibilitando a aplicação desses mesmos recursos (econômicos) em outras áreas de interesse da população. Além disso, a GRS aplicada às indústrias e às fábricas reduz os custos de produção, possibilitando a recuperação de matérias-primas, aproveitáveis no processo de fabricação, ou comercializáveis para terceiros.
A gestão de resíduos sólidos é uma das maneiras mais diretas para minimizar os impactos ao meio ambiente. Também cabe ao técnico em segurança do trabalho, orientar sobre medidas que podem reduzir o desperdício. Como a empresa de um modo geral pode direcionar sua produção de um modo produtivo e de modo também que venha colaborar com o meio ambiente em geral como, por exemplo, reaproveitamento de material que foi rejeitado na produção para ser reciclados e aproveitados pelos outros setores evitando assim que seja descartado para o lixo.
Cada um de nós pode estar colaborando para que o descarte desses resíduos diminua. Comprando produtos ecologicamente corretos e que são produzidos por empresas que fabricam seus produtos com uma preocupação voltada para o meio ambiente e que, saibamos, tenham programas de controle voltados para as áreas de gestão ambiental como, por exemplo, a Petrobrás e a Natura.
* 1. Aluno do curso Técnico em Segurança no Trabalho do IFET SE campus Rio Pomba.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Cuidados importantes e medidas preventivas nas primeiras chuvas da primavera
* Por Maurício Novaes Souza
Durante a temporada seca nos esquecemos dos problemas associados aos excessos de chuvas ocorridos nos anos anteriores. Ao final de 2008 e início de 2009, em vários Estados e regiões do Brasil, aconteceram sérios desastres ambientais. As principais causas estão associadas à precipitação pluviométrica elevada e concentrada em um curto período de tempo. Apesar dos esforços das Prefeituras e de todos os serviços de prevenção, as consequências são: deslizamentos de encostas, extravasamento dos córregos e dos rios, destruição de estradas, soterramento e inundação de cidades e fazendas, famílias desabrigadas, carros alagados, queda de árvores e postes, partes da cidade sem o fornecimento de energia, trânsito caótico; que resultam em perdas humanas e materiais.
Nas áreas urbanas os problemas quase sempre são dramáticos. Quais são os principais fatores que agravam essa situação? Construções em locais inadequados, como nas encostas e nas margens dos rios; grandes áreas impermeabilizadas com asfalto, calçamento e construções, que impedem a infiltração das águas das chuvas; reduzidas áreas verdes; e ausência ou deficiência na manutenção das galerias de drenagem das águas pluviais. De fato, os detritos vegetais e outros materiais inertes, que durante a estação seca se depositaram nos lotes e telhados, ao longo das valetas das ruas e avenidas, contribuem para situações de obstrução dos canais de escoamento. As primeiras chuvas de setembro/outubro são geralmente responsáveis pelo arrastamento destes resíduos sólidos até locais inadequados (sarjetas, sumidouros, valetas), originando acumulações de águas pluviais que poderão provocar cortes de vias de comunicação ou mesmo inundações nos pisos mais baixos de edifícios.
Nas zonas mais vulneráveis às situações de cheia, alguns CUIDADOS IMPORTANTES devem ser observados antes, durante e depois da inundação:
· Antes da inundação:
Moradores de regiões propensas a inundações devem-se manter informados sobre as condições meteorológicas; ao primeiro sinal de chuva forte, colocar os móveis, eletrodomésticos e demais objetos em lugares altos; desligar aparelhos elétricos e eletrônicos, além da chave geral de sua casa; fechar os registros de entrada de água e de gás; retirar o lixo e levá-lo para áreas não sujeitas a enchentes; evitar construir em cima e embaixo de barrancos que possam deslizar, carregando sua casa; colocar documentos e objetos de valor em um saco plástico fechado e em local protegido; não jogar lixo ou entulho no córrego, para não obstruir a passagem de água, nem em terrenos baldios ou ruas; limpar o telhado, calhas, condutores e canaletas para evitar entupimentos.
· Durante a inundação
Evite o contato direto com a água contaminada da enchente, pois ela pode provocar doenças; se estiver em local seguro, procure não se deslocar; não atravesse ruas alagadas, pois você pode ser arrastado pela água; em local alagado, preste atenção a buracos e bueiros sem tampas ou encobertos pela água; em caso de ventos muito fortes, cuidado com as quedas de árvores, fios, postes, semáforos, entre outros; utilize calçado, calça comprida e blusa para a proteção do corpo; não use bermuda e não fique sem camisa; não deixe crianças brincando na enxurrada ou nas águas dos córregos, pois elas podem ser levadas pela correnteza ou contaminar-se, contraindo doenças graves, como hepatite e leptospirose.
· Depois da inundação
Beba apenas água filtrada ou fervida; não utilize alimentos que estiveram em contato com a água da inundação; fique atento aos sintomas de doenças, tais como febre, vômito, dor de cabeça ou no corpo (principalmente na “batata da perna”), e diarréia; nesses casos, procure os serviços de saúde; chuvas de grande intensidade ou longa duração provocam deslizamentos, principalmente em áreas de risco: fique atento a qualquer sinal; não use equipamentos elétricos que tenham sido molhados ou que estiveram em locais inundados, pois há risco de choque elétrico e curto-circuito; lave e desinfete os objetos atingidos pela enchente usando uma mistura de um copo de água sanitária para cada balde de 20 litros de água limpa, utilizando luvas e botas.
Recomenda-se também a adoção das seguintes MEDIDAS PREVENTIVAS, tanto do poder público, como da sociedade civil:
Desobstrução de linhas de água principalmente junto a pontes, aquedutos e outros estrangulamentos do escoamento; Limpeza de linhas de água assoreadas; Limpeza dos resíduos sólidos urbanos (muitos deles de grandes dimensões) depositados ilegalmente nos troços marginais dos cursos de água; Verificação (e eventual reparação) de possíveis situações de desmoronamentos das margens das linhas de água, de modo a evitar obstruções ou estrangulamentos; Inspeção visual de diques ou outros aterros longitudinais às linhas de água destinadas a resguardar os terrenos marginais.
Cada cidadão deve também tomar uma atitude proativa, nomeadamente assegurando a desobstrução dos sistemas de escoamento das águas pluviais dos quintais ou varandas e a limpeza de bueiros e dos telhados de suas residências.
* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IFET/Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É Conselheiro do COPAM e consultor do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.
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