segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Produção Agroecológica e Desenvolvimento Rural Sustentável


*por Maurício Novaes Souza1 e Wantuelfer Fernandes Gonçalves2


A revista “Veja” lançou uma edição especial, no final de 2009, intitulada “O ano zero da economia sustentável”. De fato, a revista é muito interessante e, não intencionalmente, faz um diagnóstico da sociedade atual em relação ao tema (que poderia ter o título substituído por “conhecimento zero da economia sustentável”). Além disso, conforme sugere o título, aponta que em anos recentes, principalmente nas duas últimas décadas de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias limpas, deram origem a uma nova linha de pensamento e comportamento, que sugerem, ou possibilitam, o fim da relação dicotômica economia e ecologia. Mas será que, de fato, depois de todos esses acontecimentos recentes na política, na economia, nas atividades agroindustriais, entre tantos outros, estamos caminhando para um modelo direcionado ao desenvolvimento sustentável? Nas áreas urbanas e rurais?

Para quem é da área rural, pode-se perceber semelhanças com a maior parte das recomendações sugeridas pela revista “Veja” com o modelo agrícola de substituição de insumos: trata-se de “Agroecologia”. A ideia geral deste novo modelo agropecuário de produção é o de substituição das partes com distorções, e não o de redesenhar um sistema focando os hábitos como fator principal. Tal atitude inevitavelmente mudaria a postura das empresas. No entanto, deve-se ter bastante cautela ao sugerirmos esse novo modelo, posto que, em longo prazo, adotar medidas ineficientes, ou pouco pesquisadas, pode tornar o trabalho desse grupo que sugere tais mudanças, que são imprescindíveis, desacreditado, o que dificultaria ações futuras.

Contudo, depois do encontro de Copenhagen e do relatório acusatório dos cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, de dezembro de 2009, centenas de palestras, entrevistas e discursos foram proferidos por pessoas que, institucionalmente, são ou se sentem autoridades no assunto ambiental. Todas são unânimes em tratar o problema vivencial do planeta de uma forma inteiramente em desacordo com a realidade.... mas insistem em defender que o desenvolvimento deve ser feito de forma sustentável.

De fato, deveríamos nos sentir desconfortáveis ao ouvirmos alguém defender o desenvolvimento sustentável para simplesmente ficar bem com a classe econômica e com os ambientalistas. Uns o fazem na intenção de colocar o desenvolvimento materialista em destaque; outros, inadvertidamente, se deixam levar para a semântica que transformou a expressão em “sustentabilidade”, palavra que também é bandeira dos defensores da ecologia. Percebemos que aquele discurso está sendo dirigido a ingênuos, a quem compete apenas balançar a cabeça, como concordância cômoda e irracional.

Segundo o ambientalista Maurício Gomide, os participantes da engrenagem econômica repetem e defendem o mesmo bordão, por ser conveniente aos seus interesses de ganância. O que o planeta precisa, e com urgência, é da reversão civilizacional das atividades nocivas que o estão degradando. A sustentabilidade se fará naturalmente, pois será consequência de atitudes que sustentarão a capacidade planetária de prover os meios de vida à biodiversidade. Até o presente momento, é possível reverter o caos que se anuncia... no futuro, é “im”previsível.

Na Conferência de Copenhagen, em dezembro de 2009, os impasses trouxeram de volta discussões antigas, sobre formas de superar problemas como a exigência de consenso para decisões. Segundo W. Novaes, as alternativas já foram discutidas em outras Conferências (COPs), como a de criar uma organização mundial só para o meio ambiente, separada da ONU. Só que ela enfrentaria problemas semelhantes: como ter regras universais sem a concordância de todos os países? O fato é que a urgência de decisões é implacável. Ainda há poucos dias a Organização Meteorológica Mundial advertiu que esta primeira década do Século XXI está sendo e será a mais quente desde 1850, com temperatura média superior à da década de 1990, que já fora mais quente que a de 1980. Há uma corrida contra o tempo, que não está sendo ganha.

Para concluir, há de se tocar no mérito, a reportagem da revista “Veja” citada no início deste artigo abre espaço para a discussão desses assuntos, além de apontar tendências de mercado. O produtor rural de vanguarda é aquele que consegue perceber essa nova realidade. Vale citar que a revista elegeu as 10 profissões mais importantes para o futuro, quando se pensa e se vislumbra o Desenvolvimento Sustentável: o perfil do agroecólogo se encaixa diretamente em sete (7) delas e indiretamente em mais uma (1).


1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF SEMG Rio Pomba e Diretor-Geral do IF SEMG São João del-Rei. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.


2. Graduando do Curso de Bacharel em Agroecologia do IF SEMG Rio Pomba. E-mail: wantuelfer@yahoo.com.br.

Comércio varejista e o desenvolvimento sustentável



*por Maurício Novaes Souza


Meio ambiente e desenvolvimento sustentável são assuntos em evidência nos dias atuais. Isso acontece em função da preocupação com os limites da exploração dos recursos naturais e da necessidade de se buscar alternativas de desenvolvimento compatíveis com a sustentabilidade do planeta. Dessa forma, a sustentabilidade é um diferencial de posicionamento e competitividade, um objetivo para qualquer tipo de empresa. Deve estar no cerne do negócio: não é preciso deixar para depois ou esperar que outras prioridades estejam resolvidas para então pensar a respeito. Os resultados e benefícios serão reais e crescentes, tanto para a empresa, como para a sociedade, numa relação onde todos se beneficiam.

Contudo, é preciso reafirmar a importância da liderança na efetividade da estratégia de sustentabilidade das empresas: se quem decide não tiver esta visão ou não estiver convencido do valor para o negócio, se o fizer sem convicção, por modismo ou influência de terceiros, tudo isso não irá passar de ideologia ou de ideias acadêmicas de pouca utilidade concreta e efetiva.

Isso porque, na prática, integrar aspectos econômicos, ambientais e sociais diminui custos (principalmente futuros), reduzem riscos, evita desperdícios, gera lucros. Além disso, em um investimento de longo prazo, constrói relacionamentos sólidos e duradouros com o público da empresa, em especial colaboradores, clientes e comunidade do seu entorno, criando com eles vínculos de confiança e lealdade.

De que forma isso acontece? Tomemos o setor de varejo como exemplo, onde empresas de qualquer porte têm processos sustentáveis mais rentáveis para implantar. Começando pela construção “verde”, assim denominada porque privilegia a conservação/preservação ambiental como critério para projetos e obras de lojas, com iluminação natural, materiais de origem certificada, reuso de água, descarte de entulho em local apropriado, entre outros. A construção sustentável tem um custo, em média, 15% mais elevado, mas se justifica pela redução de custos operacionais em curto prazo. Em 50 anos, a redução poderá chegar a 80%. Nesse mesmo direcionamento, programas de eficiência energética não só reduzem despesas com iluminação e equipamentos de refrigeração, como também buscam formas alternativas de geração e utilização de energia.

Na logística e na operação da loja, iniciativas como o descarte de embalagens junto às cooperativas e indústrias de reciclagem, geram emprego e renda. Como consequência, trazem economias que, em muitos casos, são revertidas para investimentos sociais da empresa, especialmente ligados à educação de crianças e jovens, projetos comunitários e conscientização ambiental. Assim, estará apresentando novos contornos para um assunto de grande relevância para toda a sociedade, atravessado por inúmeras implicações, como a garantia das condições de sobrevivência e qualidade de vida das gerações presentes e futuras.

Há de se considerar que o impacto ambiental do varejo é pequeno, quando comparado ao produzido por indústrias que usam recursos naturais ou emitem enormes quantidades de gases que contribuem para o agravamento do efeito estufa. Assumindo, porém, um trabalho de mobilização e conscientização no consumo, muitas redes estimulam uma mudança cultural importante junto aos consumidores, comercializando sacolas retornáveis, disponibilizando caixas de papelão para acondicionar as compras, desenvolvendo sacolas plásticas mais resistentes: geralmente mais caras, contudo mais econômicas pela utilização em menor quantidade.

Com tanto ênfase sobre as questões ambientais, os consumidores têm se tornado cada vez mais conscientes, participando ativamente de programas de coleta seletiva de embalagens, adquirindo produtos orgânicos, de marca própria sustentáveis ou de manejo sustentável (provenientes de comunidades, cooperativas e associações). Junto aos fornecedores, há frentes importantes, como a negociação para redução de tamanho e utilização de matéria-prima certificada nas embalagens, exigências contratuais proibindo práticas trabalhistas ilegais e discriminatórias. Colaboradores também pode ser alvo de práticas interessantes, desde a adesão a programas de voluntariado e relacionamento comunitário até o estímulo à participação no processo de sustentabilidade: prática já exercida pela NATURA há bastante tempo. A empresa pode, ainda, posicionar-se como “parceira” na solução de problemas locais e no desenvolvimento das comunidades em que atua, investindo no futuro.

Hoje, as atividades econômicas e seus efeitos sobre o meio ambiente são questões debatidas mundialmente e há esforços bem-sucedidos, embora insuficientes, no sentido de compensar ou minimizar os impactos ambientais negativos. Desta forma, ligados na evolução da sociedade, percebendo essa nova realidade e conscientes do atual papel das empresas no mundo e, ainda, com sua crença na proposta da sustentabilidade, empresários e executivos de vanguarda irão comemorar algo ainda visto por muitos como inconciliável: resultados e benefícios para o negócio ao lado de resultados e benefícios para a sociedade e o ambiente.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF SEMG Rio Pomba e Diretor-Geral do IF SEMG São João del-Rei. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

sábado, 16 de janeiro de 2010

A insanidade do incentivo às PCH’s (Pequenas Centrais Hidrelétricas)


Por Leonardo Pereira Rezende1 e Maurício Novaes Souza2

A construção de pequenas centrais hidrelétricas (PCH’s), barragens com potência entre 1 mil kW a 30 mil kW, possui uma série de incentivos governamentais. Um dos principais a se destacar é a isenção do pagamento de royalties (compensação financeira pelo uso do recurso hídrico).

Com tanto incentivo, construir PCH’s se tornou um ótimo investimento, ainda mais quando se consegue financiamento dos governos, sobretudo federal. Tal fato tem gerado, em todo o Brasil, um número excessivo de PCH’s ao longo de nossos rios, repartindo-os, causando grandes impactos sociais e ambientais, o que tem gerado muitos questionamentos sobre os efeitos destes empreendimentos, ocasionando demandas, inclusive, no Poder Judiciário.

A exigência de estudos de impactos cumulativos tem sido um preceito acatado pelos órgãos ambientais, bem como nas decisões judiciais onde se questiona licenciamentos de empreendimentos hidrelétricos analisados de forma isolada em uma mesma bacia hidrográfica.

Faz-se conveniente esclarecer que, o incentivo de construção de PCH’s, face à isenção da contraprestação pecuniária, tem permitido que determinados trechos de rio em um só município possa receber várias “pequenas” hidrelétricas, com um agravante: todas isentas de royalties. Além disso, em muitos casos, somando-se as áreas alagadas pelos lagos das PCH’s em um determinado município, pode-se chegar a um alagamento maior que uma construção de uma Usina Hidrelétrica de potência superior a 30 mil kW. No entanto, este município permanece sem receber a citada contraprestação financeira.

Exemplo claro desta injustiça é o município de Guarani, em Minas Gerais, onde três PCH’s estão sendo construídas e mais uma, a quarta, já possui Licença Prévia do órgão ambiental estadual, sem que qualquer destes empreendimentos pague royalties.

Para agravar tal situação, o atual ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, quando no cargo de senador, apresentou projeto de lei no Senado (nº 274/08) para classificar como PCH barragens com potência entre 1mil kW a 50 mil kW. Referido projeto tramita na Câmara dos Deputados sob o nº 4404/2008, em caráter conclusivo. Como dito acima, atualmente, a Lei nº 9.427/96 fixa esses limites entre 1 mil kW a 30 mil kW.

Para justificar seu projeto o Senador alegou que ultimamente o país vem sendo ameaçado por uma crise de abastecimento de energia elétrica e que estes projetos de PCH’s já construídos trouxeram benefícios regionais, como geração de renda e de empregos, melhoria da infra-estrutura e aumento da arrecadação de impostos.

Devemos nos manifestar radicalmente contrários à aprovação deste projeto, pois aumentar a potência das barragens hidrelétricas, que serão classificadas como PCH’s, não irá gerar benefícios permanentes para os municípios atingidos pelos lagos destes empreendimentos e, demais disso, é questionável a real existência da ameaça de abastecimento de energia elétrica e dos citados benefícios alegados pelo Senador.

Causa-nos estranheza ainda o fato do Brasil não ter assinado documento de criação da Agência Internacional de Energias Renováveis (International Renewable Energy Agency – IRENA). Esta entidade, criada por iniciativa da Alemanha, Espanha e Dinamarca, vai buscar a adoção de medidas, nos diversos países, de geração de energias limpas e renováveis. Segundo matéria do site ENVOLVERDE, “O ato de criação da agência foi assinado no dia 26 de janeiro em Bonn, na Alemanha, por representantes de 75 países, entre eles França, Itália, Nigéria, Chile e Argentina. Segundo a assessoria de imprensa do Ministério de Relações Exteriores, o Brasil não assinou o documento porque os bicombustíveis e a energia hidroelétrica não seriam prestigiados pela agência, que terá um foco maior nas energias eólica e solar. Porém o país seguirá como observador e poderá em qualquer momento aderir a Irena.
(...) O maior incentivador da criação da agência, o parlamentar alemão Hermann Scheer, comenta a importância de um órgão como esse para romper as barreiras e os preconceitos com relação às novas energias. Durante muitos anos as energias renováveis foram subestimadas. Autoridades mundiais estavam desinformadas ou desinteressadas. Nós temos que finalmente ativar todo o potencial técnico, econômico e humano que possuímos e colher a energia que está praticamente em todo o lugar a nossa volta”.(...) Rüther comenta que o Brasil poderia ganhar muito com o apoio da agência internacional. O pesquisador usa como exemplo o PROINFA, que é um programa coordenado pelo MME com o objetivo de diversificar a matriz energética nacional. O PROINFA está avançando de maneira bastante empírica, na base da tentativa e erro. Se tivéssemos um conhecimento maior das experiências de outros países com o mesmo tipo de programa pouparíamos tempo e dinheiro. Esse conhecimento poderia ser fornecido pela Irena”.
Percebe-se, então, que o Brasil precisa avançar, e muito, no incentivo à geração de energias verdadeiramente menos impactantes. O que precisa ser feito é um planejamento energético por bacia hidrográfica, como prevê os estudos de Avaliação Ambiental Integrada (AAI) feitos pela EPE (Empresa de Pesquisa Energética), políticas públicas para se gerar economia de energia elétrica, e reais incentivos para o uso de energias verdadeiramente limpas e renováveis, tais como as eólicas, solar e de biomassa.

Enfim, aumentar a potência de PCH’s é uma insanidade que só incentivará a fragmentação do habitat de nossos rios, sem vantagens duradouras pelos impactos ambientais causados. Não se questiona, entretanto, da importância fundamental da produção de energia para que o crescimento seja estável e sustentável. Contudo, faz-se fundamental se preocupar não apenas com a economia, mas também com o meio ambiente, de forma sistêmica.

Tais questões devem ser vistas considerando os aspectos econômico, social e ambiental, todos interligados e interdependentes. Não podem ser vistos como se fossem atividades dicotômicas. Agindo dessa forma, de fato preocupados com a sociedade e o ambiente, o crescimento seria um subproduto do modelo de desenvolvimento, cuja finalidade maior deveria ser o equilíbrio social e ambiental local, acima dos interesses dos grandes agentes econômicos e políticos.

É fundamental que se revertam a enorme degradação social e ambiental em que nos encontramos. Atitudes simples, como cortar o desperdício e fazer atualização tecnológica da infra-estrutura de energia já existente, com certeza, a oferta seria substancialmente aumentada, sem que fosse necessária a construção do equívoco conhecido por PCH’s.


1. Advogado, membro do NACAB (Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens) e autor dos livros “Dano Moral e Licenciamento Ambiental de Barragens Hidrelétricas” (Ed. Juruá) e “Avanços e Contradições do Licenciamento Ambiental de Barragens Hidrelétricas” (Ed. Fórum).

2. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IFET Rio Pomba e Diretor-Geral do IFET São João del-Rei. É Conselheiro do COPAM e do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

É possível existir “Desenvolvimento Sustentável”?


*por Maurício Novaes Souza1 e Wantuelfer Fernandes Gonçalves2


A famosa revista “Veja” lançou uma edição especial, no final de 2009, intitulada “O ano zero da economia sustentável”. De fato, a revista está muito interessante e, não intencionalmente, faz um diagnóstico da sociedade atual em relação ao tema (que poderia ter o título trocado por “conhecimento zero da economia sustentável”). Além disso, conforme sugere o título, aponta que em anos recentes, principalmente as duas últimas décadas de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias limpas, deram origem a uma nova linha de pensamento e comportamento: economia e ecologia em sociedade... Sugere desenvolvimento sustentável?

Em tempos recentes, todas as responsabilidades para reestruturação harmônica global, vêm sendo transferidas para a sociedade e as empresas. Para quem é da área rural, pode-se perceber semelhanças com a maior parte das propostas sugeridas pela revista com o modelo agrícola de substituição de insumos, proposta da “Agroecologia”, inclusive citado na revista. A ideia geral é de se substituir as partes com distorções, e não redesenhar um sistema focando, principalmente, os hábitos como fator principal, pois isso inevitavelmente já mudaria a postura das empresas. Em longo prazo, adotar medidas ineficientes pode tornar o trabalho desse grupo que sugere tais mudanças, que são imprescindíveis, desacreditado, o que dificultaria ações futuras.

Contudo, depois do encontro de Copenhagen e do relatório acusatório dos cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, de dezembro de 2009, já ouvimos e lemos centenas de palestras, entrevistas, informações, discursos, proferidos por pessoas que, institucionalmente, são ou se sentem autoridades no assunto ambiental. Todas são unânimes em tratar o problema vivencial do planeta de uma forma inteiramente em desacordo com a realidade. Pior ainda: defendem que o desenvolvimento deve ser feito de forma sustentável.

De fato, deveríamos nos sentir desconfortáveis ao ouvirmos alguém defender o desenvolvimento sustentável para simplesmente ficar bem com a classe econômica e com os ambientalistas. Uns o fazem na intenção de colocar o desenvolvimento materialista em destaque. Outros, inadvertidamente, se deixam levar para a semântica que transformou a expressão em “sustentabilidade”, palavra que também é bandeira dos defensores da ecologia. Percebemos que aquele discurso está sendo dirigido a ingênuos, a quem compete apenas balançar a cabeça, como concordância cômoda e irracional.

Os participantes da engrenagem econômica repetem e defendem o mesmo bordão, por ser conveniente aos seus interesses de ganância. O que o planeta precisa, e com urgência, é da reversão civilizacional das atividades nocivas que o estão degradando. A sustentabilidade se fará naturalmente, pois será consequência de atitudes que sustentarão a capacidade planetária de prover os meios de vida à biodiversidade. Até o momento, é possível reverter o caos que se anuncia... Daqui a vinte anos a sentença já estará dada.

Na Conferência de Copenhagen, os impasses trouxeram de volta discussões antigas, sobre formas de superar problemas como a exigência de consenso para decisões. Mas as alternativas já foram discutidas em outras Conferências (COPs), como a de criar uma organização mundial só para o meio ambiente, separada da ONU. Só que ela enfrentaria problemas semelhantes: como ter regras universais sem a concordância de todos os países? O fato é que a urgência de decisões é implacável. Ainda há poucos dias a Organização Meteorológica Mundial advertiu que esta primeira década do Século XXI está sendo e será a mais quente desde 1850, com temperatura média superior à da década de 1990, que já fora mais quente que a de 1980. Há uma corrida contra o tempo, que não está sendo ganha.

No entanto, há de se tocar no mérito, a reportagem comentada da revista “Veja” no início deste artigo abre espaço para a discussão desses assuntos, além de apontar tendências de mercado: vale citar que a revista elegeu as 10 profissões mais importantes para o futuro, quando se pensa e se vislumbra o Desenvolvimento Sustentável: o perfil do agroecólogo se encaixa diretamente em 7 delas e indiretamente em 1 (as outras duas eram instalador de células fotovoltaicas e de coletores eólicos).

1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF SEMG Rio Pomba e Diretor-Geral do IF SEMG São João del-Rei. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

2. Graduando do Curso de Bacharel em Agroecologia do IF SEMG Rio Pomba. E-mail: wantuelfer@yahoo.com.br.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Mudanças Climáticas e Crise Ambiental: possibilidades, probabilidades e esperança



*por Maurício Novaes Souza

As notícias dos efeitos das mudanças climáticas estão em toda a imprensa mundial. Isso porque, é sabido, que os impactos da mudança climática pioraram em quase todos os anos desde 1980, de acordo com um estudo divulgado no início de dezembro de 2009, pela Agência Reuters. Foi inspirado no índice de ações Dow Jones e que representa o aquecimento global em números. O novo índice da mudança climática é baseado nas temperaturas do mundo, na extensão do gelo no Ártico no verão, na concentração de dióxido de carbono na atmosfera e no nível dos mares, de acordo com o Programa Internacional Geosfera-Biosfera (IGBP). Para Sybil Seitzinger, diretora-executiva do IGBP, em entrevista coletiva durante a conferência sobre mudanças climáticas da ONU, em Copenhague, o sistema climático está mudando na direção do aquecimento do planeta. Ou seja, vivemos essa realidade e, muito poucos sabem, de fato, o que está acontecendo. Esse artigo tem a intenção de apresentar uma fotografia instantânea do aquecimento global para ajudar na compreensão do que são e são os responsáveis pelas questões climáticas. Muitas respostas ainda não existem, mas a verdade é que o desmatamento continua aumentando, acelera-se a acidez dos oceanos, ou agravam-se a frequência de eventos climáticos extremos.

A cada dia, temos a sensação de que vivemos uma catástrofe nova; ou simplesmente nos perguntamos se já vimos tais cenas degradantes no ano anterior, como no caso das enchentes? Será que elas só acontecem nos dias atuais? De verdade, o planeta Terra conheceu no passado catástrofes naturais, como o fim da época primária, que significou a destruição de 95% das espécies vivas. A novidade é que hoje está a caminho uma catástrofe que é resultante do desenvolvimento humano. Pessoalmente, acho que o aquecimento climático não é o mais importante, ainda que o seja; o problema real é que estamos em um processo combinado de destruição do planeta que nos leva a uma catástrofe geral ou a várias catástrofes combinadas. O desastre, então, anuncia-se. Devemos concluir, então, que não se pode continuar muito tempo por este caminho.

Fica, então, uma pergunta: como mudar? É um problema difícil. Primeiro porque não podemos mudá-lo com uma única decisão pessoal, ou mesmo uma única decisão coletiva; devemos pensar como se processaram as grandes mudanças do passado... Toda grande mudança tem um peso e uma forma que em seu início é muito humilde; pense em Jesus Cristo, em Maomé… Um desvio cria uma tendência e esta tendência pode mudar o caminho… Creio que as denúncias contra a mundialização do capitalismo são boas, mas não basta denunciar, é preciso anunciar. A enunciação não é um programa, é uma ideia mestra. Por exemplo, devemos insistir sobre a qualidade da vida, não sobre a quantidade; é uma boa ideia… Fiz algumas dessas enunciações na minha tese de mestrado e em vários de meus artigos. Qual deverá ser a política da civilização? Sabe-se que precisamos buscar e seguir um novo caminho, ou melhor, é preciso buscar alguns caminhos que sejam sustentáveis.

Na conferência do clima realizada na Dinamarca, no mês de dezembro, falaram do clima de desesperança que pesa sobre nós. Será que a política pode nos tirar este peso? Quem sabe. As velhas gerações têm a sensação de que foram enganadas em sua fé no comunismo, em uma sociedade democrática harmoniosa, civilizada; no progresso como lei da história… Tudo isso se desintegrou e hoje os jovens estão totalmente desorientados… A análise que faço é que há possibilidades, não probabilidades, de esperança. E a esperança não se encontra no coração da desesperança. Hölderlin dizia: “Ali onde cresce o perigo cresce também a salvação”; isso significa que o crescimento do perigo nos remete à consciência do que acontece e nos enuncia o que deve ser feito… Antes da esperança era uma fé; agora é apenas esperança. É muito importante, porque se não houver esperança não haverá projeção no futuro. É muito bom refletirmos sobre esses fatos no início do ano....

Heráclito, famoso filósofo grego, pré-socrático, falava de buscar o inesperado. Então, o que seria o inesperado neste momento? O inesperado é sair desta via mortal que seguimos, buscando novos caminhos. Se buscarmos, encontraremos outra via. Será possível encontrar harmonia? Se a procuramos é porque ela não existe. É claro que há momentos de harmonia no âmbito privado, no amor, quando seu time vence… Pedaços de harmonia: a poesia da vida… Não penso que a política sozinha possa dar a harmonia: a compreensão humana, a solidariedade, depende de nós, e daí virá a harmonia. Tudo há de recomeçar. É algo terrível, mas é também maravilhoso, porque necessitamos de um estímulo. Esta ideia nos ajuda a viver. Eu, particularmente, sou otimista e pessimista. É preciso que tenhamos momentos de grandeza. Dessa forma haverá esperança.

E os intelectuais, a academia, o IFET, o que devem fazer? Creio que hoje o seu papel é mais importante do que no passado. Mas se produziu muito academicismo… Devem colocar sobre a mesa os problemas fundamentais, e não fazê-lo de uma maneira superficial.... O comércio e a indústria poderão contribuir? Certamente que sim. Inicialmente, as empresas, as comunidades, as instituições e os países devem se posicionar claramente em relação ao assunto. O governo brasileiro já conhece o problema das mudanças climáticas e o efeito que terá no clima, na economia e na sociedade brasileira em geral. O passo seguinte é que coordene uma iniciativa que faça frente ao fenômeno, envolvendo toda a sociedade, já que o problema afetará a todos.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IFET Rio Pomba e Diretor-Geral do IFET São João del-Rei. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Plásticos Biodegradáveis ou Educação no Uso e na Disposição de Resíduos Sólidos Urbanos?


*por Maurício Novaes Souza

A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) define “lixo” como todo e qualquer resíduo sólido que tenha sido produzido pela atividade humana e que não seja reaproveitado. O lixo que produzimos pode ser classificado de acordo com a fonte que o originou. Essa classificação é usada para calcular o volume de lixo gerado e serve como base para seu gerenciamento, definindo quem é responsável pelo tratamento e destino final dos resíduos. É dividido em lixo comercial, domiciliar, público, industrial, serviços de saúde, sistema de transporte, entulhos da construção civil, agrícola e eletrônico. Pergunta: para onde vai o lixo que produzimos no cotidiano na cidade onde moramos? Existem diferentes destinos do lixo: lixão, aterro controlado, aterro sanitário, incineração, compostagem e a reciclagem.

O Ministério das Cidades divulgou os números mais recentes do manejo de resíduos sólidos urbanos no Brasil, referentes a 2007. Com base em dados de 306 municípios, que representam 55% da população urbana, o levantamento mostra que a cobertura média de coleta de lixo nas cidades pesquisadas é de 90%. Já a coleta seletiva só chega a 56,9% dos municípios da amostra, que inclui todas as capitais e cidades com mais de 500 mil habitantes. Cerca de 64% do lixo coletado vão para aterros sanitários, 26,6% são levados para aterros controlados e 9,5% dos resíduos ainda vão para os lixões. Dos 587 aterros catalogados, 46% não têm qualquer tipo de licença ambiental.

Um dos itens de particular preocupação na composição do lixo é o plástico, com diversos registros demonstrando sua dominância dentre os resíduos sólidos presentes, inclusive, nos ambientes marinho e costeiro. Os “plastic pellets” são grânulos de plásticos que correspondem à forma principal com que as resinas plásticas são produzidas e comercializadas e estão entre os resíduos mais abundantes em praias no mundo. Eles são pequenos e geralmente imperceptíveis na areia da praia, mas pode causar sérios danos à fauna marinha, como contaminação química, que podem causar disfunções fisiológicas ou alterações hormonais nos animais que os ingerem. Estima-se uma quantidade de cerca de 2,4 bilhões de pellets para os 7,5 km de praia da Enseada de Santos. Mas de onde vêm esses pellets? Segundo dados da literatura, podem ser perdidos nas atividades de produção, transporte e uso, para o ambiente estuarino/marinho ou para os sistemas de drenagem urbana e, na sequência, para os rios, os quais acabam desaguando no mar.

E a questão das sacolas plásticas? Quantas você usou ontem? E durante toda a semana? Se o cálculo se estender pelo ano todo, os números começam a assustar. Segundo uma estimativa divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente, a cada hora, são consumidas cerca de 1,5 milhão de sacolas plásticas no Brasil. Ao final de um dia essa conta chega a 36 milhões. Anualmente são descartadas inadequadamente 500 bilhões de sacolas em todo o mundo. Esse material, além de poluente, pode causar outros impactos ambientais, como entupir bueiros e provocar enchentes.

Considerando que o lixo é um problema com um impacto social e ambiental muito negativo, há quem considere que um meio de lidar com este problema é utilizar o plástico biodegradável. À primeira vista pode parecer aceitável, mas será realmente melhor para o ambiente? Inicialmente, o que significa biodegradabilidade? Quer dizer a capacidade de um material ser degradado sob a ação de elementos vivos. O que significa plástico biodegradável? É plástico que pode ser degradado por microorganismos (bactérias ou fungos) na água, dióxido de carbono (CO2) e algum material biológico.

Contudo, há de se considerar, que o plástico biodegradável requer condições específicas para poder degradar-se corretamente (microorganismos, temperatura e umidade) e, se não houver um grande cuidado em manejá-lo, pode tornar-se para o ambiente pior do que o plástico convencional. Quando o plástico biodegradável é lançado numa lixeira, o que em todo o caso deve ser sempre evitado, produz gases com efeito de estufa ao degradar-se. É importante reconhecer que o plástico biodegradável não é necessariamente produzido por material biológico, ou seja, por plantas. Vários plásticos biodegradáveis são igualmente produzidos a partir do petróleo como os convencionais. Então, pode-se afirmar que o uso do plástico biodegradável é bom? Por princípio, o plástico tem valor pela sua capacidade de criar produtos resistentes e duráveis. A biodegradabilidade deve, pois, ser encarada como uma funcionalidade adicional, quando a sua aplicação exige uma forma barata de destruição do produto, depois de ter cumprido a sua função.

A capacidade de ser biodegradável é uma propriedade material que depende muito das circunstâncias do ambiente biológico (o corpo humano é diferente do solo). Considerando isto, poder-se-ia dizer que fazer um produto, como um saco de plástico compostável, não faz muito sentido porque esta capacidade de se biodegradar não resolve a questão do lixo. A biodegradação não é, portanto, resultado de uma simples ação de microorganismos, porque as condições nas quais eles atuam estão relacionadas com todas as características do meio.

Se considerarmos a problemática da eliminação dos resíduos sólidos, a simples perda das propriedades de um material, sem redução de sua massa, não possui grande interesse. A perda de massa deve ser quase total. Existem diferentes possibilidades de degradação dos polímeros:

a) Fotodegradação - nesse fenômeno, o fator determinante da degradação é a ação da luz e, mais particularmente, dos raios ultravioletas. As aplicações mais conhecidas são os filmes agrícolas fotodegradáveis para recobrimento do terreno em culturas rasteiras. O problema, nesses casos, é que somente a parte exposta à luz se degrada, ou seja, a parte enterrada fica intacta ou fracionada, tornando difícil sua extração ao final da colheita. Por outro lado, isso acaba sendo somente uma foto-fragmentação onde as macromoléculas não foram transformadas, mas sim cortadas pela fragilização dos aditivos. O resultado é um pó do plástico que estará presente em quantidade quase idêntica à massa de filme utilizada e essa se mistura ao solo cultivado ano após ano. Não há inconveniente para o meio ambiente, pois esse processo de eliminação é assimilado; no entanto, não há qualquer vantagem ambiental; e

b) Quimiodegradação - somente esse modo de degradação é susceptível de modificar a estrutura física do material e de transformá-la em substâncias assimiláveis pelo meio natural. A maior parte do tempo, ele consiste em uma oxidação, uma digestão ou uma hidrólise, mais ou menos complexa.

Entretanto, nos dias atuais, há várias pesquisas em andamento. Um estudo do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP produziu plástico biodegradável a partir do amido de mandioca, obtendo os chamados amidos termoplásticos (TPS). O estudo, realizado pela química Eliangela Teixeira, também mostrou a viabilidade do uso de resíduos da industrialização do amido para produzir termoplástico reforçado com fibras celulósicas. Os plásticos com amido poderão ser aplicados principalmente na indústria de embalagens. De acordo com a química, os amidos termoplásticos apresentam um grande potencial de aplicações, especialmente no setor de embalagens, contribuindo para melhorar o gerenciamento do lixo e reduzindo o impacto ambiental dos plásticos não-biodegradáveis. O material também pode ser adotado na confecção de tubetes de plantio para o setor agrícola. Outra linha de pesquisa do estudo dessa pesquisadora foi direcionada à obtenção de nanofibras de celulose a partir das microfibras contidas no resíduo, para aumentar a resistência dos amidos termoplásticos.

Deve-se ter cuidado com os falsos biodegradáveis, parcialmente degradáveis ou fragmentáveis; eles não apresentam, a não ser em raras exceções, função outra que não seja a exploração publicitária pseudo-ecológica. O cúmulo da exploração abusiva das pretendidas qualidades ecológicas se encontra em certas aplicações dos polímeros hidrossolúveis. Fora de seus usos específicos, é injustificada sua aplicação. Algumas vezes, eles são apresentados como tendo a propriedade de "desaparecer" na água sendo, assim, qualificados como biodegradáveis.

Há quem afirme que os processos de reutilização do plástico normal são incontestavelmente mais ecológicos que os da biodegradação. Já o composto obtido após a biodegradação teria uma qualidade muito ruim como fertilizante em razão da ausência dos oligoelementos e dos compostos de nitrogênio que encontramos normalmente nas biomassas. Já os materiais plásticos normais possuem múltiplos modos de valorização: reuso, reutilização, reciclagens mecânica, química e valorização energética. A re-introdução dos resíduos plásticos no ciclo de fabricação de um produto ou de uma energia permite obter redução dos recursos naturais não renováveis muito superiores a qualquer coleta de metano proveniente da degradação dos biodegradáveis. Mesmo levando em consideração os conceitos do Desenvolvimento Sustentável, os processos de reutilização do plástico normal são incontestavelmente mais ecológicos que os da biodegradação.

Por último, considere-se que o lixo é fundamentalmente um problema de comportamento irresponsável, e que deve ser tratado mais pela mudança de atitudes das pessoas do que propriamente pela alteração dos produtos. A criação de produtos biodegradáveis pode, de fato, piorar o problema do lixo, porque leva as pessoas a pensar que é correto dispor de qualquer forma recursos com valor, como o plástico.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IFET Rio Pomba e Diretor-Geral do IFET São João del-Rei. É Conselheiro do COPAM e do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Mudanças Climáticas, Produção Agropecuária e Agrometeorologia


* por Maurício Novaes Souza

Dados recentes apontam que o mundo enfrentará um crescente risco de mudanças climáticas bruscas e irreversíveis em função do aquecimento global mais forte que o previsto. Tal afirmação é resultado de que situação? Anos atrás, sob condições de população escassa e exploração industrial mínima, parecia que a Terra poderia ser o provedor inesgotável dos recursos naturais. Entretanto, a população cresceu, a industrialização se expandiu, as florestas foram destruídas, os solos erosionados, os depósitos minerais exauridos, o ar e a água se tornam cada vez mais poluídos, e cada vez mais estamos preocupados com as limitações dos recursos da Terra.

Paralelamente, existe uma grande necessidade de aumento na produção de alimentos, para atender aos crescentes aumentos populacionais e de consumo em função da melhoria da renda dos países emergentes, como aqueles que compõem o BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). Para isso, é necessário que as perdas agrícolas e pastoris sejam minimizadas e a eficiência da produção agropecuária melhorada. Sabe-se que essa atividade é altamente dependente das condições do clima e do tempo em uma dada região. Entretanto, o aumento da produção de alimentos vem sendo feito por intermédio da exploração inadequada dos recursos naturais, prejudicando o ambiente, o solo, a água e o ar. Existe uma ciência que pode contribuir para o entendimento dessas questões e auxiliar o mundo e o produtor rural – a Agrometeorologia.

Antes de falar dessa ciência, faz-se necessário alguns comentários sobre clima. Os maiores problemas relacionados ao aquecimento global e às mudanças climáticas, associados ao efeito estufa, refere-se à sua aceleração. Várias notícias de cientistas renomados têm mostrado imagens tenebrosas de tais efeitos, alertando para o derretimento das geleiras e aumento do nível das águas, descongelamento do subsolo e florestas mais suscetíveis a insetos e queimadas. A verdade é que não mais existe incerteza com relação a esses fatos. Os cientistas afirmam que o verão do Ártico poderá não ter gelo antes de meados do século, abrindo as rotas marítimas do Norte, mas ameaçando a existência de mamíferos que dependem da existência do gelo para viver. Outros assinalaram os efeitos do aquecimento nos peixes, florestas e na tundra.

Isso ocorrerá porque o aquecimento global tornará o clima quente e seco, gerando com decorrer do tempo um superaquecimento global. Inexoravelmente, quebrará gradativamente o ciclo hidrológico. Isso porque, mesmo existindo intenso calor, com a umidade relativa do ar sendo baixa, será impossível formar chuva, pois para que exista a sua formação, será preciso que a umidade do meio ambiente esteja saturada. Além disso, é preciso também, que esta referida umidade saturada, encontre uma massa de ar frio, para se condensar e se precipitar em forma de chuva. Entretanto, o efeito estufa, tira essa condição. Pois, “teoricamente” dissipa (aquece) a massa de ar frio, que funcionaria como elemento condensador do vapor da água (umidade ambiental), que estaria se saturando, ou melhor, deixando esta massa de ar, mencionada anteriormente, quente e seca.

Quebrando o ciclo hidrológico, irá piorar as condições ambientais, para existência de vidas vegetais, animais e humana. Principalmente as espécies animais e vegetais, devido às condições ambientais adversas, do que a espécie humana: por ser um animal racional e se adaptar momentaneamente às condições adversas ambientais. Há de se considerar o fato de que a espécie humana é a principal depredadora do meio ambiente (fauna e flora). Isto, certamente, levará a biosfera terrestre a um ciclo involutivo, o qual já está se processando. Estão se observando um contínuo e vertiginoso declínio das espécies animais e vegetais, que pouco a pouco vão perdendo suas biodiversidades e, paradoxalmente, este quadro degenerativo do meio ambiente global vem se agravando. As questões que ainda precisam ser respondidas são quanto do aquecimento é causado pelos humanos, e o quanto drástico serão os efeitos a longo prazo.

Assim, percebe-se, que a desordem ambiental no mundo chegou a um ponto em que, ou se conscientizam as pessoas – e principalmente, os governos – para o tamanho da catástrofe que se avizinha, ou iremos pagar um custo alto pela sobrevivência – se ela for viável. Não há mais certezas com relação ao clima em nenhum lugar do mundo. E isto é apenas um sintoma. Cidades do norte da Europa que sempre consumiram energia para prover aquecimento, hoje estão preocupadas em instalar sistemas de refrigeração; nevascas intensas, e comuns no auge do inverno, surpreendem Nova York no meio do outono; o verão parece não ter se acabado ainda no sul da Europa, as temperaturas sobem a níveis inéditos. No Brasil, no início da primavera, tem-se observado chuvas típicas de verão.

Os pesquisadores tem insistentemente avisado, mas ainda grande parte da população não se atenta para os assuntos relativos às mudanças climáticas. Uma pesquisa recentemente publicada nos Estados Unidos mostrou que a proporção de norte-americanos convencidos de que o homem é responsável por boa parte do aquecimento global caiu 40% desde o ano passado. O site do “Correio Brasiliense” perguntou aos internautas se eles acreditam que os participantes da COP-15 (Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) chegarão a algum acordo, em dezembro, na Dinamarca. O resultado apontou que 66,67% acreditam que não e apenas 33,33% acreditam que sim. As principais autoras do estudo, Debika Shome e Sabine Marx, concluíram que, para os leigos, as questões climáticas parecem confusas, opressivas e ligadas a negociações políticas. Segundo essas autoras, boa parte da culpa está na forma como a mídia trata o tema. Para elas, é preciso aproximar o aquecimento global da realidade do público (EcoDebate, 09/11/2009).

De fato, na raiz de todo esse problema, está a predação obstinada em busca do crescimento sem limites, a qualquer custo. É evidente que, no cenário que se estuda, há fenômenos que são cíclicos na natureza, de transformação de florestas em desertos por processos naturais, mas os cientistas, com base nos parâmetros cada vez mais assustadores, avisaram ao mundo que nos aproximamos do caos. Com o Tratado de Quioto, em vigor desde fevereiro de 2005, houve um sopro de esperança; contudo, logo seguido do desencanto pela recusa dos Estados Unidos, o maior emissor de carbono do mundo, em acatar as propostas de redução desse avanço em direção à insensatez, com o seguinte o argumento: prejudicaria o desenvolvimento do país.

Bem recente, existe um documento que sintetiza mais de 1.400 estudos apresentados na conferência sobre o clima realizada em março passado, em Copenhague, onde, em dezembro próximo, será realizada a reunião das Nações Unidas para negociar um acordo que substituirá o Protocolo de Kyoto, que expira em 2012. Segundo esse documento, a superfície global e a temperatura dos oceanos, os níveis do mar, os acontecimentos climáticos extremos e o degelo do Ártico estão se intensificando mais significativamente e mais rápido do que haviam previsto os especialistas há apenas alguns anos. O relatório revela que as emissões de gases de efeito estufa e outros indicadores climáticos estão próximos dos limites previstos pelo Painel Intergovernamental da ONU sobre a Mudança Climática (IPCC), que em 2007, foi o ponto de referência para as turbulentas conversações na ONU.

Também há novas provas de que o próprio planeta começou a contribuir para o aquecimento global em consequência da atividade humana. Grande quantidade de gases, como o metano, retida durante milênios na camada subterrânea do gelo ártico, pode estar começando a serem lançados na atmosfera, acelerando o processo de aquecimento. A capacidade natural dos oceanos e das florestas de absorver o CO2 originado pela queima de combustíveis fósseis também está em perigo. Esse novo documento, escrito e revisado por muitos dos cientistas que compilaram o documento do IPCC, pede que os políticos tomem atitudes urgentes para evitar que a temperatura média global aumente mais de dois graus centígrados em comparação com os níveis pré-industriais. Uma moderação rápida, sustentável e efetiva é necessária para evitar a perigosa mudança climática. Uma elevação das temperaturas de mais de dois graus dificultará a vida das sociedades futuras e é provável que causem maiores transtornos ambientais e sociais durante e a partir do próximo século.

O IPCC diz que para alcançar este objetivo é necessário que as nações industrializadas diminuam drasticamente as emissões de gás de efeito estufa entre 20 e 45% em comparação com os níveis de 1990. O novo documento sugere que são essenciais novos e profundos cortes nas emissões, um dos assuntos mais espinhosos colocados sobre a mesa nas conversações da ONU. Objetivos menores para 2020 aumentam o risco de impactos sérios, incluindo a superação da barreira a partir da qual as forças naturais começam a empurrar as temperaturas para cima, inclusive mais rapidamente. Muitos cientistas acreditam que, se forem superados esses limites, será difícil, talvez impossível, reverter o processo.

O novo documento não tem o mesmo peso que o informe do IPCC, que se baseou em uma quantidade ainda maior de estudos e - o mais importante - é um documento de consenso, o que significa que até os pontos de vistas mais conservadores foram levados em conta. Mas os dados do IPCC remontam a pelo menos quatro a cinco anos e uma avalanche de novas pesquisas sugere que os impactos da mudança climática podem ser ainda piores, e que chegarão mais cedo do que mais tarde. Os especialistas em clima do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), por exemplo, calcularam recentemente que, apesar dos grandes esforços feitos para reduzir drasticamente a poluição, a temperatura da superfície da Terra aumentará 5,2o C até 2010, mais que o dobro do que predisseram em 2003.

Como ficaria a agropecuária brasileira? Sabemos que o Brasil tem uma das maiores indústrias agropecuárias do Mundo. A importância da contribuição do Agronegócio no PIB brasileiro é imensa e inquestionável. Por essas questões, existe uma grande necessidade de informações meteorológicas e climatológicas específicas que capacitem os agropecuaristas a fazerem decisões operacionais. A Agrometeorologia é uma combinação de ciências físicas e biológicas que estuda as relações entre os elementos climáticos, o solo e os seres vivos e avalia os fenômenos climáticos que influenciam a produção e a produtividade agrícola. Isto faz da agrometeorologia uma técnica indispensável na formação dos profissionais que trabalham nas áreas agropecuárias, e fundamentais aos produtores rurais. Assim, pode-se considerar que o principal objetivo da Agrometeorologia é colocar a ciência da meteorologia a serviço da agropecuária para melhorar o uso da terra, para ajudar a produzir o máximo de alimentos e evitar o abuso irreversível dos recursos naturais (água e solo).

Em face dessas questões, em décadas recentes, o uso da Agrometeorologia na agropecuária vem aumentando. Isto tem sido devido, largamente, aos estudos de laboratório, casa de vegetação e de campo, nos quais as respostas biológicas têm sido medidas sob condições controladas. Existem diversas aplicações das técnicas meteorológicas às operações de campo. Alguns exemplos importantes: a) previsão e proteção contra geadas; b) avisos contra fogo nas florestas; c) planejamento da irrigação; d) calendários de plantio e colheitas; e) seleção de lugares para as culturas; f) controle de insetos; e g) controle de doenças e muitas modificações microclimáticas, como a utilização da prática de quebra-ventos.

Com tantos argumentos irrefutáveis, percebe-se que as mudanças climáticas poderão aumentar a freqüência de vários tipos de desastres naturais. Fortalece-se, assim, o conceito de “Desenvolvimento Sustentável”, que pressupõe maior conhecimento do sistema climático e, em conseqüência, maior capacidade de prever as mudanças climáticas futuras e seus possíveis efeitos nas atividades sócio-econômicas e no meio ambiente. Dessa forma, os serviços meteorológicos devem estar aptos a satisfazer pelo menos quatro tipos de exigências dos agricultores e pecuaristas: a) Previsões do tempo detalhadas, na ocasião exata e adaptadas para operações agrícolas comuns; b) Serviços de extensão para ensinar aos agricultores usar as informações do item anterior; c) Observações especializadas de clima no lugar onde as culturas são realizadas; e d) Um sistema de comunicações para levar as informações atualizadas sobre o clima por intermédio do rádio, da televisão e dos jornais.

Com tantos fatos e argumentos incontroversos, percebe-se que as atividades antrópicas causaram alterações sem precedentes nos ecossistemas nas últimas décadas para atender às crescentes demandas por espaço, alimentos, água, fibras e energia. É incontestável que essas alterações ajudaram a melhorar a vida de bilhões de pessoas; entretanto, paralelamente, enfraqueceram a capacidade da natureza de prover esses e outros serviços fundamentais. A indispensável proteção do meio ambiente global depende de mudanças estruturais na economia e na cultura do consumo.

A tecnologia e o conhecimento de que dispõe hoje a sociedade humana podem reduzir consideravelmente os impactos nos ecossistemas, mas sua utilização em todo o seu potencial permanecerá reduzida enquanto os serviços oferecidos por esses ambientes naturais continuarem a ser percebidos como gratuitos e ilimitados e não receberem seu devido valor. Verifica-se a insustentabilidade dos caminhos atuais da civilização humana.

Portanto, o modelo de produção, agrícola e urbano-industrial, precisa ser redesenhado, bem como as políticas públicas precisam ser revistas. A pesquisa deverá estar direcionada e sustentada, fundamentalmente, por princípios éticos. Em cenários onde se deslumbra a possível realidade de mudanças climáticas e aquecimento global, o atual modelo de produção agrícola tornar-se-á insustentável. A ciência “Agrometeorologia” poderá ser uma ferramenta importante para auxiliar os produtores rurais a enfrentarem essa nova realidade.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IFET Rio Pomba e Diretor-Geral do IFET São João del-Rei. É Conselheiro do COPAM e do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Resenha: Biografia do Abismo

Resenha:  Biografia do Abismo Autores: Graciandre Pereira Pinto Maurício Novaes Souza Título do livro: Biografia do Abismo   Referência ...