segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A industrialização e a sustentabilidade

* Por Maurício Novaes Souza

Com as cidades brasileiras cada vez mais populosas (84% da população brasileira vive em zonas urbanas, segundo o último censo do IBGE) e com a expansão acelerada da economia (as projeções apontam expansão de cerca de 4,5% em 2011), falar das condições ambientais não é mais assunto apenas para ambientalistas. O crescimento das cidades e da economia gera grandes impactos ambientais, como maior emissão de poluentes, produção de lixo e degradação dos recursos naturais, afetando toda a população. Assim, a pauta sobre meio ambiente deve ser tema de discussão não somente no governo, mas também nas escolas, nas empresas e na sociedade como um todo. Nos dias atuais, a industrialização ocupa um papel de extrema importância do ponto de vista econômico, social e ambiental.

De acordo com Amilcar Baiardi, professor titular da UFBA e da UFRB, em entrevista ao Jornal da Ciência, a expansão industrial no Brasil adotou um modelo de crescimento econômico baseado essencialmente no setor secundário, revelando-se setorialmente centralizador, espacialmente concentrador, urbanamente aglomerador e socialmente excludente. Na primeira metade na década dos anos 1950, quando a economia do país ingressava na fase de implantação da indústria de bens de capital e completava o ciclo da industrialização tardiamente, um amplo espectro do pensamento nacional defendia a industrialização a qualquer custo, que perdurou por décadas. Poucos, nessa época, criticavam a falta de planejamento para promover a integração e reduzir a capacidade ociosa da economia nacional. Antecipava, assim, os efeitos perversos da concentração industrial, como a formação de megalópoles e os desequilíbrios regionais, antevendo a possibilidade de esgotamento do padrão de industrialização baseado na substituição de importações. Poucos céticos recomendavam uma política de desenvolvimento fundamentada nos usos dos recursos ociosos, a qual suporia, dentre outras medidas, a reforma agrária, o povoamento ao longo dos eixos rodoviários e a desconcentração produtiva, setorial e regionalmente.

Atualmente, existe a necessidade de intervenções que restaurem a competitividade da indústria convencional. Contudo, pretende-se reverter a chamada "desindustrialização" com receituário contaminado de subsídios e, para modernizar o discurso, anuncia-se a criação de um órgão que seria a ponte entre a pesquisa e o desenvolvimento (P&D) e as empresas do setor secundário. Esquece-se também, quando se propõe a analogia tendo em vista o sucesso da EMBRAPA, que o setor agropecuário por ser menos concentrado e com poucas barreiras à entrada, sabe-se atualmente, o que vale para setor agropecuário não se aplica mecanicamente ao setor secundário.

A primeira realidade a se considerar quando se pensa em macropolíticas de incentivo à produção, é não se considerar como anomalia que a composição do PIB esteja mudando, favorecendo aos negócios derivados da agricultura, silvicultura e mineração e reduzindo participação dos setores convencionais da indústria brasileira. Há de se considerar que a recente onda de valorização de matérias primas e commodities tende a se manter e o Brasil pode se beneficiar exponencialmente, se prosseguir incorporando inovações de processo e ampliar a incorporação de inovações de produto aos setores que absorvem como insumos a produção primária. Pesquisa recente do BNDES (FSP de 19/08/2011) estima que, até 2014, aumentará a concentração de investimentos no setor primário, o que é um sinal inequívoco de dinamismo setorial. O crescimento do setor não significa exclusivamente expansão da produção de commodities e bens intermediários, pois não há limites para inovar na produção de bens finais, sejam eles alimentos diferenciados, alimentos terapêuticos, bio-fármacos, sementes modificadas geneticamente, bioenergéticos e derivados da produção mineral. Da mesma forma, não há limites para inovações de processo que reduzam o custo unitário dos bens produzidos, provenham eles do campo ou das minas.

O empresariado do chamado complexo agroindustrial tem demonstrado ser inovador: adotou boas práticas de gestão, é agressivo em termos de mercado internacional e aderiu às certificações que garantem aceitação dos seus produtos. Devidamente estimulados, estes agentes poderiam adensar as cadeias produtivas lançando novos produtos com maior sofisticação e com capacidade de serem formadores de preços. Obviamente que nesta qualificação e adensamento das cadeias produtivas no setor primário, não se pode prescindir da presença do Estado na ampliação da competitividade sistêmica, por meio de investimentos em infraestrutura e remoção dos gargalos burocráticos.

É fundamental que o Brasil pense em um eficiente sistema nacional de inovações que coordene todo o material existente e está voltado tanto para o setor secundário como para os setores primários e terciários; pois, o que conta, de fato, é a capacidade de produzir mercadorias que atraiam os consumidores e tenham preços competitivos, provenham elas de onde for mais viável técnica e economicamente; mas de forma SUSTENTÁVEL. É bom lembrar que o desenvolvimento sustentável requer quatro condições básicas para se efetivar no cotidiano das pessoas que seja: 1) economicamente factível; 2) economicamente apropriado; 3) socialmente justo; 4) e culturalmente equitativo, respeitoso e sem discriminação de gênero.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental; e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br

sábado, 3 de setembro de 2011

A ESSÊNCIA DE NÓS NÃO ESTÁ NA RAZÃO...



* Leon Tolstoi



"Que teria sido de mim, que teria sido da minha vida se não fossem essas crenças, se não soubesse que é preciso viver para Deus e não para as minhas necessidades? Teria roubado, teria matado, teria mentido. Nenhuma das principais alegrias da minha vida teria podido existir para mim". E por mais esforços mentais que fizesse, não conseguia ver-se a si próprio como o ser bestial que teria sido, caso não soubesse para que vivia. "Buscava resposta à minha pergunta. Mas o pensamento não me podia responder, pois o pensamento não pode medir-se com a pergunta. A própria vida se encarregou de me responder graças ao conhecimento do bem e do mal".



"E esse conhecimento não o adquiri através de coisa alguma, foi-me outorgado, como a todos os demais, visto que o não pude encontrar em parte alguma. De onde o soube? Porventura foi através do raciocínio que eu cheguei à conclusão de que é preciso amar o próximo e não lhe fazer mal? Disseram-me na infância e acreditei-o com alegria, pois o trazia na alma. E quem o descobriu? A razão, não. A razão descobriu a luta pela existência e a lei, que exige que se eliminem todos quantos nos impedem de satisfazer os nossos desejos. Esta a dedução do raciocínio, que não pode descobrir que se deve amar o próximo, pois amar o próximo não é razoável".


quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Não perdi a inspiração, o que perdi foi minha ilusão...

Prezado Fábio, tudo bem? Veja que bela entrevista do Morin... com seus 90 e poucos anos.... veja esses trechos....... forte abraço, Maurício Novaes...

“Não perdi a inspiração, o que perdi foi minha ilusão”, admite Edgar Morin. “Mas continuo motivado do mesmo modo. Não posso abrir mão da curiosidade, da vontade de corrigir o que está errado no mundo. Procuro manter o senso de humor, o bom humor e o amor pela vida”...


Esse trecho final foi importante para podermos entender muitas vezes o poder da maturidade...

Caro Maurício Novaes,

Quem me apresentou Edgar Morin foi o meu primo amigo Vicente, professor da Texas State University (falo apresentou o autor, os livros). Desde então tenho lido alguns livros desse maravilhoso pensador francês. Edgar Morin tem idéias claras e lucidez do momento em vive a humanidade. Grato pelo envio desse excelente artigo. Valeu !

abs, Fábio Oliveira

Edgar Morin quer renovar a esperança! *

* Por Igor Natusch

· Contra utopias e fatalismo, Edgar Morin quer renovar a esperança.

"Precisamos fazer a crítica das utopias de um mundo perfeito, mas também a crítica do fatalismo realista. É necessário abandonar a ideia do melhor dos mundos e partir para a busca de um mundo melhor"

Os anos não foram capazes de tirar a esperança de Edgar Morin. O sociólogo, filósofo e antropólogo francês, do alto de suas nove décadas de vida, veio a Porto Alegre nesta segunda-feira (8), dentro do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento, para falar da crise financeira que aponta para uma sociedade cada vez mais inviável – mas também para propor a melhora da sociedade não apenas como conceito, mas como um objetivo pelo qual vale a pena lutar.

O conferencista abordou, durante a palestra, boa parte dos temas tratados em seu livro “La vole – pour l’avenir de la humanité” ( O caminho para o futuro da humanidade, em tradução livre ). Em sua fala, Edgar Morin discutiu alternativas para combater a atual crise global – que vai além das incertezas financeiras e toma conta de todos os aspectos da sociedade, podendo gerar uma verdadeira catástrofe do ponto de vista humano. Na ocasião, foi exibida também uma entrevista do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Originalmente confirmado no Fronteiras, Bauman teve que cancelar a viagem por problemas familiares.

Esperava-se, na coletiva de imprensa anterior à conferência, que Edgar Morin respondesse as perguntas em francês, com o auxílio de uma intérprete. Mas, tão logo começou a falar, o pensador francês pegou de surpresa os jornalistas presentes. “Vou tentar responder assim, um pouco em português, um pouco em espanhol”, disse ele, de forma perfeitamente compreensível. Mais um sinal de que, aos 90 anos, a mente de Edgar Morin segue ativa e capaz de surpreender.

O atual processo que toma conta do mundo acaba gerando ambivalências, como explica Edgar Morin. “Temos aspectos positivos, como o intercâmbio de culturas e um processo de trocas cada vez mais intenso”, diz. “Mas há aspectos muito negativos, como o fim das solidariedades e o aumento da corrupção e da miséria. Hoje, vivenciamos uma série de catástrofes combinadas, que unem o destino de todos os seres humanos frente a um perigo comum”.


De acordo com o pensador francês, pode ser “muito difícil” mudar o caminho da nossa sociedade global, mas é imperativo perguntar como isso pode ser feito, ao invés de se deixar levar pelo conformismo. Para ele, a crise financeira mundial coloca a humanidade diante de um dilema que envolve seu próprio destino. “As opções são desintegração, regressão e metamorfose”, enumera o pensador francês. “Cabe a nós escolher qual delas desejamos seguir”.

Nesse sentido, Edgar Morin não acredita que os partidos políticos atuais estejam em condições de propor uma via capaz de ultrapassar esse momento de crise. A globalização econômica não foi acompanhada por uma globalização política, segundo ele. O que não significa que o atual modelo de política deva ser extinto. “É momento de reconstituir as bases de nosso sistema político”, afirma. Para ele, as estruturas devem ser mantidas, mas os conceitos por trás dos partidos precisam ser regenerados. Bandeiras como liberalismo, socialismo e comunismo podem estar esvaziadas, mas ainda dizem respeito a questões centrais do desenvolvimento humano. “Temos que resgatar esses conceitos e, a partir deles, construir um novo caminho”.

· É preciso criticar as utopias, mas também o realismo

Questionado sobre o papel das utopias no mundo atual, Edgar Morin procura fazer uma distinção entre as “utopias más” e aquelas que são, de certo modo, realizáveis – e que, portanto, ainda têm espaço em nosso mundo. “É impossível resolver todos os problemas”, diz. “Ao tentarem impor a utopia da harmonia geral, os regimes socialistas criam a pior ditadura possível. Mas o realismo pode ser ainda pior do que a utopia, porque parte do princípio de que as coisas não podem mudar”.

O sociólogo francês acredita que, mais do que utopias, é necessário reconstruir a esperança de melhorar a sociedade.

“Precisamos fazer a crítica das utopias de um mundo perfeito, mas também precisamos fazer a crítica do fatalismo realista. Penso que é necessário abandonar a ideia do melhor dos mundos e partir para a busca de um mundo melhor”.

Uma utopia que Edgar Morin considera alcançável, mesmo que os sete bilhões de habitantes da Terra pareçam, à primeira vista, um número difícil de encarar. “O organismo humano tem mais de 12 bilhões de células e funciona muito bem”, compara, rindo. Segundo ele, a quantidade de pessoas no mundo não é um empecilho para a construção de uma sociedade global. “Não se trata de buscar um Estado para governar o mundo todo, e sim de tornar possível uma sociedade mundial que respeite as particularidades regionais, mas com uma consciência de terra-pátria”, afirma Morin.

Construção que passa necessariamente pelo estabelecimento de modos mais igualitários de estrutura social. Edgar Morin exemplifica com o Conjunto Palmeira, favela de Fortaleza com 30 mil habitantes que criou uma moeda própria em 1998, e com a cidade alemã de Freiburg, que adotou um sistema de transporte sustentável, com incentivo a bicicletas e bondes elétricos, além do uso da luz solar como principal fonte de energia. “São esses modelos de igualdade que temos que buscar”, acentua, dizendo que estimular a troca e o espírito comunitário deve ser o norte de sociedades mais voltadas ao bem estar dos cidadãos.

· “Não posso abrir mão da curiosidade”, diz Morin

Aos 90 anos, Edgar Morin segue publicando livros e fazendo palestras ao redor do mundo. Ainda que muitos possam se surpreender com o ritmo intenso, o pensador diz que não se deve entender a idade como uma mera questão quantitativa.

“Não perdi a inspiração, o que perdi foi minha ilusão”, admite Edgar Morin. “Mas continuo motivado do mesmo modo. Não posso abrir mão da curiosidade, da vontade de corrigir o que está errado no mundo. Procuro manter o senso de humor, o bom humor e o amor pela vida”.

Fonte: Sul 21



terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Hidrelétricas: energia limpa?


* Maurício Novaes Souza


O Brasil explora seu potencial hidrelétrico como fonte principal de geração de energia elétrica. O modelo adotado foi estabelecido a partir de projetos de grandes barramentos e construção de extensas linhas de transmissão, consolidando-se no final dos anos 1980. No entanto, diante da necessidade de adequação dos conceitos de energia “limpa e renovável” aos indicadores de sustentabilidade mais atualizados, há que se rediscutir a matriz energética do país e estabelecer estratégias para o desenvolvimento do setor energético.

A última grande crise do setor de energia, em 2001, deveria ter tido efeito didático mais contundente, visto que foi na tentativa de solucionar tempestivamente o problema que se lançou mão de um dos mais eficientes mecanismos de gestão de demanda de que se tem notícia no país: a sobretaxação do consumo abusivo, de maneira progressiva, e o incentivo à racionalização por meio de bonificação por economia de energia. Infelizmente, depois de superada a possibilidade de “apagão”, tal mecanismo foi abandonado.

Atualmente, mesmo considerando que o Brasil é a maior potência hídrica do mundo, a escassez de água nos anos recentes, associada aos lamentáveis episódios de contaminação de rios, lagos e acumulações subterrâneas, além dos conflitos entre usuários competidores, conduziu à formulação, em bases inteiramente novas, da política pública para o setor de recursos hídricos. O que é importante salientar é o fato de que, até o final dos anos 1970, a imensa maioria das barragens brasileiras era construída com a finalidade exclusiva de geração de energia hidrelétrica, sem se tomar em consideração os demais usos da água que atualmente ainda sofrem as restrições impostas pela utilização dos recursos hídricos para fins energéticos. Essa assimetria de tratamento, privilegiando o setor energético, viria, mais tarde, sofrer vários tipos de reações, principalmente a partir dos interesses de outros setores usuários dos recursos hídricos, tais como: a agricultura irrigada, o abastecimento urbano e das reações desencadeadas a partir de 1972, em favor da preservação ambiental.
Contudo, ao mesmo tempo em que o Brasil apresenta uma “Legislação Ambiental” de vanguarda, contraditoriamente, ocorre grande problema de assoreamento dos rios, ribeirões, lagos e barragens, provenientes, principalmente, das atividades agropecuárias e das ocupações irregulares de encostas. Há de se considerar que os principais impactos ocasionados por modificações do uso e da cobertura do solo em bacias hidrográficas, são: a redução da capacidade de infiltração, o aumento do escoamento superficial e erosão, a sedimentação dos cursos d’água, a diminuição da profundidade dos cursos d’água e, consequentemente, o aumento na ocorrência de cheias e inundações, como vem acontecendo em várias cidades da Zona de Mata Mineira.

Cabe lembrar que os ambientes hídricos são classificados em lóticos (águas correntes, como nos rios) e lênticos (águas calmas, como nos lagos). A maior alteração causada pela construção das barragens fica por conta da transformação de meios lóticos em lênticos. Devido a esta mudança, as características físico-químicas das águas sofrem alterações bruscas, criando um novo ecossistema e alteração/redução drástica de sua biodiversidade.
No caso dos barramentos, sabe-se que a fase de sua construção gera impactos socioambientais significativos. Atualmente, mais de 20% de todas as espécies de água doce estão ameaçadas ou em perigo, devido, principalmente, ao desmatamento, com vistas à abertura de novas fronteiras agropecuárias, construção de barragens e urbanização, causando diminuição do volume de água e danos por poluição e contaminação. Entre os diversos problemas advindos da retirada da cobertura florestal, além da redução da biodiversidade, tem-se observado, de forma cada vez mais intensa: as inundações severas (como as ocorridas no início do ano de 2011 na região serrana do Estado do Rio de Janeiro) e a degradação acelerada do solo (como se observa em todos os países do mundo, particularmente os menos desenvolvidos).

Com relação ao modelo energético, apesar de todos os protestos, documentos comprobatórios das irregularidades e mobilizações, o governo brasileiro segue comprometido com esse modelo de desenvolvimento, ignorando as alternativas propostas por pesquisadores, estudiosos e população. Não tem ocorrido a sensibilização aos problemas já conhecidos, tais como a perda de terras produtivas, expulsões e deslocamentos de milhares de pessoas, destruições de espécies animais e vegetais, alteração dos regimes hídricos, rebaixamento dos lençóis freáticos, alterações geográficas, mutações dos ecossistemas, entre outros. O governo ainda faz estudos para a construção de novas barragens até 2030.

O fato é que problemas relacionados à construção de barragens e hidrelétricas se tornam mais graves nos países subdesenvolvidos. Nas economias industrializadas, os problemas ambientais geralmente estão associados à poluição, cujas políticas ambientais são orientadas para a reversão desse quadro, evitando o agravamento da degradação. Com essas medidas, são restaurados os padrões de qualidade de água, ar e solo anterior à crise. Nos países subdesenvolvidos, a crise socioambiental está diretamente associada ao esgotamento de sua base de recursos. Por esse motivo, as suas políticas deveriam dar prioridade à gestão racional dos recursos naturais.

Dessa forma, caso houvesse maior comprometimento, o uso de mecanismos de gestão de demanda – de maneira mais efetiva do que os não menos importantes programas de racionalização de energia, poderia resolver boa parte dos problemas brasileiros de oferta energética, sem castigar o desenvolvimento econômico. Por outro lado, a ampliação da oferta de energia por fontes “alternativas” (eólica, solar, etc.), em um cenário ampliado bem mais contundente que as tímidas metas atuais do setor, completaria o suprimento energético de maneira mais próxima da sustentabilidade. Portanto, não pense que sua eletricidade é limpa por vir da queda de uma cachoeira. De fato, a única energia realmente limpa é aquela que deixamos de consumir.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. Blog: www.mauriciosnovaes.blogspot.com.

Desafios ambientais do governo da Presidente Dilma


* Por Mauricio Novaes Souza


A presidenta Dilma Rousseff disse em seu discurso de posse que o Brasil será um dos campeões mundiais de energia limpa e de crescimento sustentável. Considerou a preservação do meio ambiente como um dos compromissos centrais do governo que se inicia e afirmou que considera uma missão sagrada mostrar ao mundo que é possível um país crescer sem destruir o meio ambiente. Afirmou, ainda, que o Brasil continuará priorizando a preservação de suas imensas florestas.

Será mesmo? Antes das eleições, em dezembro de 2009, o presidente Lula levou Dilma para a COP 15 (convenção da Organização das Nações Unidas (ONU) que reuniu líderes mundiais para debater as mudanças climáticas). Na avaliação do vereador de Porto Alegre Beto Moesch, que tem forte atuação na questão ambiental, a participação de Dilma na conferência foi meramente eleitoreira, tendo ofuscado a presença do Ministro Carlos Minc, elaborador das políticas públicas do Ministério. O parlamentar afirma que a Presidente Dilma nunca se mostrou entendida no assunto: devido ao seu perfil de gestora, passou por áreas pouco afeitas ao meio ambiente, como Minas e Energia, e a coordenação das grandes obras de infraestrutura do Programa de Aceleração do Crescimento - PAC.

Moesch considera que o principal desafio ambiental da Presidenta Dilma será reduzir ainda mais os níveis de desmatamento na Amazônia e evitar a prática nos outros biomas. Segundo ele, houve redução na Amazônia, mas o mesmo não ocorreu na Mata Atlântica e no Pampa, por exemplo. Além disso, o vereador aponta também a necessidade de se diversificar a matriz energética. Para ele, Dilma tende a seguir a política do governo Lula, que prioriza a instalação de grandes hidrelétricas: se, por um lado, aumentou a produção de energia eólica e de biocombustível, ainda há a opção por usinas nucleares, termoelétricas e mega-hidrelétricas, o que é uma lástima.

Além disso, não se pode esquecer, que durante a gestão de Lula a área ambiental foi motivo de desentendimentos entre ministros – inclusive fruto de críticas da própria presidente eleita – seu ministério sofreu três alterações: começou com Marina Silva, depois Carlos Minc e Izabella Teixeira. A permanência de Izabella na pasta demonstra que Dilma não pretende mudar a política ambiental. Quando ex-ministra da Casa Civil, a petista protagonizou atritos com Marina devido à liberação de licenças ambientais para as obras do PAC, sofrendo duras críticas da adversária na campanha eleitoral, que lhe atribuía a marca de “desenvolvimentista”, relegando as questões ambientais a um segundo plano.

De fato, na opinião de especialistas em meio ambiente, economia e relações internacionais ouvidos pela BBC Brasil, o grande desafio do governo Dilma no setor ambiental será criar uma política integrada, que possa abranger diversas áreas da gestão. Acreditam que a presidenta eleita tem de aproveitar as melhores condições da área ambiental brasileira que os concorrentes Estados Unidos, China e União Europeia, principalmente pelo fato de o Brasil ter conseguido reduzir o desmatamento e ter um crescimento menos dependente de combustíveis fósseis. No entanto, para o professor Abramovay, da Faculdade de Economia da USP, o uso sustentável da biodiversidade nunca esteve na pauta do governo, não se incentivou a criação de cadeias produtivas, não se discute para valer o desmatamento zero.

Há de se considerar que diversos especialistas alertam para o risco de o país não dar conta que questões ambientais não são uma barreira, e que sustentabilidade não é apenas um termo para marketing ambiental. A descrição é do professor da Unicamp, Thomas Lewinsohn, para quem a prioridade zero do novo governo deveria ser integrar efetivamente todas as suas ações ambientais e criar uma política que esteja presente em todo o planejamento. Para ele, entrariam nessa política não apenas os ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura, mas também outros setores como Ciência e Tecnologia, Minas e Energia e Desenvolvimento. Segundo Lewinsohn, esse é o grande desafio posto que não ocorreu nos dois governos Lula, onde o que havia eram posturas antagônicas dentro da mesma gestão.

Com relação à energia, um estudo apresentado pelo Greenpeace, aponta que a matriz energética brasileira pode chegar a 2050 com 93% de fontes renováveis, produzindo o triplo do que é ofertado hoje e já considerando a tendência de crescimento econômico. Contudo, com a descoberta do pré-sal, como fica essa questão e sua relação com o meio ambiente? Segundo o coordenador geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), João Moraes, as questões ambientais ainda são pouco exploradas na pauta sindical dos petroleiros. Para ele, a FUP como entidade representativa dos trabalhadores do setor petróleo, elaboraram um projeto de lei que prevê que 5% de todo o excedente da indústria petroleira sejam investidos em questões ambientais, como a aplicação em desenvolvimento de novas energias limpas e renováveis e em compensações ambientais pelos danos causados por esta indústria. Contudo, em sua opinião, as ações ainda estão aquém do necessário.

A representante do PNUMA (agência da ONU para o meio ambiente) no Brasil, Cristina Montenegro, lembra ainda outro fator que coloca o Brasil em uma posição mais favorável: a preparação do governo para a COP-15, em Copenhague, que ajudou a esclarecer as áreas ambientais prioritárias para o país. O diretor da ONG Amigos da Terra, Roberto Smeraldi, concorda que o mais urgente é mudar a maneira de olhar os temas ambientais. Se Dilma quer governar o país com a lógica do Século XXI, ela tem que perceber isso. Para Alfredo Bosi, Professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), é de fundamental importância pensar no longo prazo, harmonizando o desenvolvimento econômico com a proteção ambiental.

Considerando a importância estratégica que a temática ambiental vem ocupando nos principais fóruns políticos internacionais, tanto na esfera econômica como social nos últimos anos, como vem ocorrendo no G-20, em Davos e no Fórum Social Mundial; e ainda destacando o papel político que o Governo Brasileiro vem desempenhando nas Conferências Internacionais sobre questões socioambientais, a Secretaria Nacional de Meio Ambiente (SMAD) reafirma que para que seja retomado o nosso protagonismo, é necessário e estratégico que à frente do Ministério do Meio Ambiente tenha, no governo Dilma, um quadro político do Partido dos Trabalhadores que coloque em prática o projeto do PT para o meio ambiente.

Há de se considerar que na gestão do PT na implementação da política ambiental brasileira durante o Governo Lula, apesar dos problemas citados, houve resultados positivos: vão desde a redução dos índices de desmatamento e a criação de um número recorde de áreas protegidas no País, até a formulação de importantes Planos e Políticas Ambientais, como de Recursos Hídricos, Resíduos Sólidos, Gestão Florestal e Educação Ambiental, entre outros.

Na reunião do Diretório Nacional do PT, no final de 2010, foi distribuída nota da SMAD com as considerações relacionadas aos avanços que se fazem necessárias. Considerando a importância do Brasil como potencial ambiental, que possui uma das maiores biodiversidades do planeta, e diante dos compromissos assumidos pelo Governo Brasileiro na Conferência das Partes da Convenção da Diversidade Biológica de 2010; e considerando o compromisso histórico do PT com a questão ambiental e na elaboração de políticas socioambientais, caberá a Presidente Dilma a necessidade de reafirmar para a sociedade brasileira e para todo o mundo que manterá o protagonismo político na promoção da sustentabilidade ambiental do Brasil.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. Blog: www.mauriciosnovaes.blogspot.com.

Sustentabilidade das organizações: gestão ética e responsabilidade social


* Por Maurício Novaes Souza1, Maria Angélica Alves da Silva2 e Gabriela Alves de Novaes3

O dilema entre desenvolvimento econômico e preservação/conservação da natureza é tema de discussões no país há tempos remotos. Em períodos recentes, permanece a dificuldade de se fazer uma parceria Estado/Sociedade para uma solução equilibrada. De acordo com José Luiz de Andrade Franco, da Universidade de Brasília, autor de Proteção à natureza e identidade nacional no Brasil (FIOCRUZ), “No Brasil há um padrão histórico: as preocupações com o meio ambiente, em geral, resultaram da atuação de grupos de cientistas, intelectuais e funcionários públicos que, por meio de suas inserções no Executivo, procuraram influenciar as decisões dos governantes em favor da valorização da natureza”. Em função dessa situação, o andamento das políticas de proteção à natureza sempre dependeu mais de ligações com governos e apenas secundariamente do eco que as pessoas preocupadas com as questões ambientais alcançam na sociedade.

Nos dias atuais, o envolvimento do mundo corporativo será essencial para se atingir o desenvolvimento sustentável. As empresas devem agir como agentes transformadores. Devem ser capazes de alterar o modelo que visava o lucro imediato para o modelo que busca o Desenvolvimento Sustentável. Esse fato é importante porque as empresas exercem uma enorme influência sobre os recursos humanos, financeiros, tecnológicos, econômicos, sociais e ambientais. Diante desta nova realidade, surge o conceito de empresas socialmente responsáveis - são aquelas que procuram colaborar para o fortalecimento dos referidos setores, por meio da adoção de posturas éticas, agindo de forma transparente e tendo como objetivo o bem-estar coletivo e a justiça social.

Neste novo modelo os empresários se tornam cada vez mais aptos a compreender e participar das mudanças estruturais que abrangem os aspectos econômicos, ambientais e sociais. As companhias estão sendo incentivadas pela administração pública a gerenciar seu sistema produtivo de tal forma que se evite a ocorrência de impactos ambientais e sociais, por meio de estratégias apropriadas. Nos últimos anos houve progressos surpreendentes na área de gerenciamento ambiental. Mais recentemente, o mesmo ocorreu quanto à conscientização sobre a responsabilidade social e a crescente compreensão dos desafios de se produzir sustentavelmente. Sabe-se que para atingir esse objetivo, no médio e longo prazo, dependerá da capacidade das empresas em reverter a disposição de promover o crescimento econômico a qualquer custo.

Sabe-se que todas as empresas gostariam de ser reconhecidas pela sociedade, por seus funcionários, pelos parceiros de negócios e pelos investidores. O grande problema é estar disposto a encarar os desafios que se colocam no caminho de uma companhia realmente cidadã. O primeiro deles é o desafio operacional. Uma empresa responsável pensa nas consequências que cada uma de suas ações pode causar ao meio ambiente e à sociedade. De nada adiantaria investir em um projeto comunitário e poluir os rios próximos de suas fábricas; ou dar benefícios e oportunidades aos seus funcionários e não ser transparente com seus consumidores.

Neste sentido, responsabilidade social é a integração voluntária pelas empresas das preocupações sociais e ambientais nas suas atividades comerciais e nas suas relações com todas as partes. É a complementação das soluções legislativas e contratuais a que as empresas estão ou podem vir a estar obrigadas e que se aplicam às questões, por exemplo, ao desenvolvimento da qualidade de emprego, a adequada informação, a consulta e participação dos trabalhadores, bem como o respeito e promoção dos direitos sociais e ambientais e a qualidade dos produtos e serviços.

A responsabilidade social das empresas é, essencialmente, um conceito segundo o qual as empresas decidem, de forma voluntária, contribuir para uma sociedade mais justa e para um ambiente mais limpo. Para isso deverá implantar um sistema de gestão ambiental que proporcione que o seu desenvolvimento seja sustentável, necessitando, portanto, de profissionais que incorporem tecnologias de produção inovadoras.

O desenvolvimento econômico e o meio ambiente estão intimamente ligados. Os novos tempos se caracterizam por uma rígida postura dos clientes, que têm a expectativa de interagir com organizações que sejam éticas, com boa imagem institucional no mercado e que atuem de forma ecologicamente responsável. A internacionalização dos padrões de qualidade ambiental, a globalização dos negócios, a conscientização crescente dos atuais consumidores e a disseminação da educação ambiental nas escolas permitem antever que a exigência futura que farão os consumidores em relação à preservação ambiental e à qualidade de vida deverão se intensificar.

Empresas experientes identificam resultados econômicos e resultados estratégicos no engajamento da organização em causas ambientais. Há de se considerar que estes resultados não se viabilizam de imediato: há necessidade que sejam corretamente planejados e organizados todos os passos para a interiorização da variável ambiental na organização para que ela possa atingir o conceito de excelência ambiental, trazendo com isso vantagem competitiva.

O atual momento exige que as empresas adotem a educação e a gestão ambiental em seus programas de rotina, condicionados e geridos por princípios éticos, exigindo que estas possuam criatividade e condições internas que possam transformar as restrições e ameaças ambientais em oportunidades de negócios. Várias empresas têm demonstrado que é possível ganhar dinheiro, proteger o meio ambiente e ser socialmente responsável: é uma questão de opção e atitude.

1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor Geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

2. Pedagoga e Especialista em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É Diretora de Desenvolvimento Educacional do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. E-mail: gecamau@yahoo.com.br.

3. Formanda do Curso de Administração de Empresas da Universidade Federal de Viçosa, Brasil. E-mail: gabianovaes@gmail.com.

Resenha: Biografia do Abismo

Resenha:  Biografia do Abismo Autores: Graciandre Pereira Pinto Maurício Novaes Souza Título do livro: Biografia do Abismo   Referência ...