quinta-feira, 30 de julho de 2015

Produção de hortaliças em sistema de plantio direto

* Silvane de Almeida Campos

A produção de hortaliças caracteriza-se pelo uso intensivo do solo, água e insumos. Diante dessa ação impactante sobre os recursos naturais, se faz necessário, buscar novos sistemas de produção e adotar práticas conservacionistas do solo e da água (Dalastra, 2010). Neste enfoque, o sistema de plantio direto (SPD) representa um processo com possibilidade mais sustentável para o cultivo de diversas olerícolas (Rissato et al., 2012).
O SPD fundamenta-se no mínimo revolvimento do solo, na sua cobertura permanente e na rotação de culturas (Fernandes, 2010) e apresenta como vantagens a redução no uso de máquinas, melhoria da estrutura do solo, aumento da infiltração e retenção de água no solo, redução das perdas de água por evaporação e escoamento superficial, aumento da eficiência do uso de água pelas culturas, melhoria do desenvolvimento do sistema radicular das plantas e controle de plantas invasoras (Breda Júnior e Factor, 2009).
O SPD de hortaliças é um sistema conservacionista em que o plantio das sementes ou transplantio das mudas é feito diretamente sobre os restos culturais da lavoura anterior, sobre adubos verdes ou ervas espontâneas em área de pousio temporário (Souza e Rezende, 2006).
No plantio direto de hortaliças podem ser utilizados vários tipos de cobertura do solo como a cobertura morta, a cobertura viva ou uso de plástico de polietileno.
A cobertura morta pode ser obtida de duas maneiras: pela importação de palhada de outra área como se efetua tradicionalmente na cultura do alho (Allium sativum L.) ou pelo cultivo de plantas de cobertura, fornecedoras de palhada, e seu manejo (corte) no próprio local. Várias espécies como leguminosas e gramíneas podem ser utilizadas, em cultivo exclusivo ou consorciado, até mesmo aquelas de maior interesse econômico tais como milho, soja e ervilha (Alcântara e Madeira, 2008).
De acordo com Alcântara e Madeira (2008), a escolha da planta para cobertura morta dependerá de diversos fatores: clima; esquema de rotação de culturas, devendo-se considerar o tempo disponível para a formação de palhada; capacidade das culturas hospedarem pragas e patógenos; características físicas do solo pela necessidade de rompimento de camadas compactadas; características químicas do solo considerando a necessidade de reciclagem de nutrientes e a velocidade na disponibilização destes pela cobertura morta; utilidade comercial das plantas de cobertura, entre outros. Se o desejado é a obtenção de uma cobertura morta duradoura, opta-se pelo plantio de gramíneas como o milho, o milheto, o sorgo, as aveias, entre outras. Caso seja uma cobertura morta de degradação mais rápida para liberação de nutrientes a cultura sucessora, utiliza-se o nabo forrageiro, o amaranto, as mucunas, as crotalárias, o lab-lab, as sojas, o guandu, o feijão-de-porco, entre outras. A utilização de consórcios com plantas de diferentes famílias é recomendada como milho e mucuna conseguindo assim maior proteção do solo e liberação mais rápida dos nutrientes. Outro consórcio, muito utilizado em regiões de clima ameno, é a combinação de aveia preta, ervilhaca e o nabo forrageiro, o qual atua como descompactador do solo.
A vegetação espontânea pode ser utilizada como planta de cobertura. Geralmente há predominância de gramíneas, especialmente no verão. No entanto, há que se observar se estão ocorrendo plantas espontâneas problemáticas como grama-seda, trapoeraba, tiririca, losna, entre outras que poderão competir por água e nutrientes durante o ciclo da cultura principal, invibilizando-a (Alcântara e Madeira, 2008).
A semeadura das culturas de cobertura poderá ser realizada a lanço ou em linhas, sendo necessária a incorporação da semente com auxílio de um rastelo ou grade niveladora. A densidade de sementes e o espaçamento entre linhas a ser adotado serão utilizados conforme recomendação técnica para cada espécie. As densidades de semeio por metro linear nos consórcios são as mesmas dos cultivos solteiros (Barradas et al., 2010).
O manejo da palha das plantas de cobertura é realizado pela roçada ou acamamento com auxílio de alguns equipamentos como roçadeira costal motorizada e rolo-faca, sem a utilização de dessecantes químicos. Normalmente ocorre no pleno florescimento, antes da existência de sementes viáveis. Nos casos em que as plantas de cobertura apresentem alguma capacidade de rebrota, a exemplo do sorgo e milheto, seu plantio em linha pode facilitar as capinas posteriormente, efetuando-se o semeio ou o transplantio de mudas da hortaliça nas entrelinhas das espécies de cobertura (Barradas et al., 2010).
A prática da cobertura do solo com filme plástico também proporciona diversos benefícios ao agricultor e ao ambiente, dentre os quais o controle de plantas invasoras, menor evaporação da água do solo e economia de água de irrigação (Branco et al., 2010). Estes autores recomendam dois tipos de cobertura para algumas espécies hortícolas: bagaço de cana-de-açúcar que formou na superfície do solo uma camada de palha de aproximadamente 35 mm e o plástico de polietileno dupla face (prateado-preto) de 35 micras, fixado nas bordas dos canteiros com grampos de arame. Concluíram que os cultivos de alface americana e de brócolis podem ser realizados nestas duas coberturas do solo sem prejuízos de produtividade; o tomateiro, a alface crespa, o feijão-vagem e o repolho foram mais produtivos no “mulching” plástico.
Wamser et al. (2010) ao avaliarem o efeito das culturas de cobertura do solo na produtividade de tomate formaram a palhada da seguinte forma: no preparo do solo foi utilizada uma gradagem leve. O pousio invernal foi formado pelo banco de sementes da área. As culturas de inverno foram semeadas a lanço nas densidades 80 kg ha-1 de aveia preta e 14 kg ha-1 de nabo forrageiro nos cultivos solteiros; e 40 kg ha-1 de aveia preta e 7 kg ha-1 de nabo forrageiro no cultivo consorciado. Após a semeadura, realizou-se gradagem leve para incorporar as sementes. No momento adequado, efetuou-se a roçada destas plantas, inclusive a área de pousio, e utilizou-se um sulcador com disco de corte para preparar a linha de plantio.
Para o cultivo de hortaliças é necessário realizar análise química do solo, pelo menos uma vez por ano, independente do tipo de fertilizante que se utiliza e das práticas adotadas. Se houver necessidade de realizar a calagem, a quantidade de calcário a ser utilizada deve ser calculada com base na análise química do solo. Deve-se realizar o cálculo das dosagens de adubos para o plantio, levando-se em consideração a análise do solo, a composição química do adubo e a exigência de cada cultura (Souza e Alcântara, 2008).
De forma geral, utilizam-se as mesmas recomendações de adubação do sistema orgânico, seja para o transplante de mudas quanto para o semeio diretamente sobre a palha. Para o transplante de mudas, a adubação pode ser feita de duas formas: a lanço em área total anteriormente ao sulcamento com incorporação parcial dos fertilizantes pelo revolvimento próximo ao sulco de plantio; simultaneamente ao sulcamento pela adaptação de depósitos de adubo e mecanismos de distribuição nos sulcos. Para a semeadura direta, a disposição de fertilizantes é feita nas linhas de plantio, concomitantemente ao semeio (Madeira et al., 2004).
Diversos insumos orgânicos e agroindustriais podem ser aplicados no cultivo de hortaliças como esterco curtido; torta de mamona; casca de café; cinzas combinadas com torta de mamona; cama de frango; farinha de ossos; composto orgânico; vermicomposto (húmus de minhoca); fertilizantes organominerais; biofertilizantes aplicados via solo e foliar; bokashis; adubos verdes como mucunas, crotalárias, guandu e feijão de porco; entre outros.  Somente os fertilizantes minerais de origem natural e de baixa solubilidade são permitidos em sistemas orgânicos de produção, como os fosfatos naturais, os calcários e os pós de rocha (Souza e Alcântara, 2008).
Para a cultura da cebola cultivada em sistema de plantio direto, a aplicação do adubo orgânico pode ser a lanço, distribuída em toda a área antes do encanteiramento, utilizando-se 10 t ha-1 de composto orgânico. Como alternativa pode ser utilizada a mesma quantidade de composto de farelos ou de esterco bovino curtido ou metade de esterco de aves. Além do fertilizante orgânico, uma vez constatado teores baixos de fósforo na análise de solo se deve aplicar de 100 a 200 g m2 de termofosfato no plantio (Madeira et al., 2004).
Segundo Pereira e Melo (2008), a incidência das plantas espontâneas, nas áreas de cultivo, depende de vários fatores que variam de acordo com o tipo de hortaliça, uma vez que são cultivadas em diferentes espaçamentos, arranjos, densidades populacionais e ciclos culturais. Além disso, as hortaliças apresentam diferentes taxas de crescimento e arquitetura resultando em diferentes índices de área foliar, cobertura do solo e graus de interceptação da luz solar, fator essencial para o estímulo, germinação de sementes e ocorrência das plantas espontâneas. As espécies hortícolas que cobrem mais rapidamente o solo, geralmente reduzem a incidência das plantas espontâneas na área cultivada.
O manejo das plantas invasoras no sistema de produção orgânica de hortaliças deverá ser realizado mediante a adoção de técnicas como a permanência de cobertura vegetal viva ou morta no solo; solarização antes da semeadura ou transplantio das mudas; capina seletiva para eliminar as espécies mais agressivas; rotação de culturas; aproveitamento do potencial alelopático de algumas plantas e utilização de sementes e mudas isentas de plantas invasoras. Em pequenas áreas, também é realizada a capina manual com auxílio de enxada ou de roçadeira costal motorizada (Pereira e Melo, 2008).
Pela utilização de algumas práticas culturais através do plantio de variedades adaptadas às condições edafoclimáticas; uso de sementes de boa qualidade ou mudas com sistema radicular bem desenvolvido; época de plantio, espaçamento e arranjo apropriados para as diversas variedades; preparo do solo e adubações adequadas, consegue-se direta ou indiretamente reduzir a infestação por plantas daninhas (Silva e Silva, 2007).
Considerando-se as olerícolas que se adaptam bem ao sistema de plantio direto e tendo como motivação para a adoção desse sistema os potenciais benefícios físicos, químicos e biológicos para o solo, é importante que se considere também os efeitos sobre crescimento e produtividade da cultura, controle de plantas espontâneas, pragas e patógenos, podendo refletir em redução de custos, adicionado aos efeitos sobre a economia hídrica, já que a água tem se tornado um recurso escasso e muitas das vezes é o principal fator limitante à produção agrícola em determinadas regiões e, ou, épocas do ano.
Em sistemas de plantio direto com hortaliças, inúmeros trabalhos, em diversas condições experimentais, têm resultados que permitem recomendar a adoção deste sistema visto que a produtividade pode ser próxima ao do cultivo com preparo convencional do solo.

REFERÊNCIAS


ALCÂNTARA, F. A.; MADEIRA, N. R. Manejo do solo no sistema de produção orgânico de hortaliças. Brasília: Embrapa Hortaliças, 12p., julho, 2008. (Circular Técnica, 64).

BARRADAS, C.A.A. Adubação verde. Niterói-RJ: Programa Rio Rural, julho, 2010. (Manual Técnico, 25).

BRANCO, R.B.F; SANTOS, L.G.C; GOTO, R; ISHIMURA, I; SCHLICKMANN, S; CHIARATI, C.S. Cultivo orgânico seqüencial de hortaliças com dois sistemas de irrigação e duas coberturas de solo. Horticultura Brasileira, Brasília, v.28, n.1, p.75-80, 2010.

BREDA JUNIOR, J. M.; FACTOR, T. L. Oportunidades e dificuldades no plantio direto de hortaliças: o caso de são José do Rio Pardo. Horticultura Brasileira, Brasília, v.27, p. S4033-S4035, 2009.

DALASTRA, G. M. Cultivo da mini abóbora na região oeste do Paraná em diferentes plantas de cobertura, em dois sistemas de manejo de solo. 2010. 83p. (Trabalho de conclusão de curso), UNIOESTE, Marechal Cândido Rondon, 2010.

FERNANDES, D. Interferência de plantas daninhas na produção e qualidade de frutos de melão nos sistemas de plantio direto e convencional. 2010, 62f. Dissertação (Mestrado em Fitotecnia),UFERSA, Mossoró, 2010.
MADEIRA, N.R.; RESENDE, F.V.; SOUZA, R.B. 2004. Sistema de Plantio Direto. Embrapa Hortaliças. Disponível em: . Acessado em: 09 de maio de 2013.

PEREIRA, W.; MELO, W.F. Manejo de plantas espontâneas no sistema de produção orgânica de hortaliças. Brasília-DF: Embrapa Hortaliças, julho, 2008. 8p. (Circular Técnica, 62).

RISSATO, B. B.; ECHER, M.M.; HACHMANN, T.L.; FAVORITO, P.A.; LORENZETTI, E.; YASSUE, R.M.; SILVA, M.B. Produtividade e qualidade de cultivares de pak choi sobre diferentes coberturas de solo. In: 52º CONGRESSO BRASILEIRO DE OLERICULTURA. Viçosa, Anais... ABH: julho. 2012. (CD Rom).

SILVA, A. A.; SILVA, J. F. Tópicos em manejo de plantas daninhas. Viçosa, MG: Universidade Federal de Viçosa, 2007. 367p.

SOUZA, J.L. de; REZENDE, P.L. Manual de horticultura orgânica. 2 ed. Viçosa: Aprenda Fácil. 2006. 843 p.

SOUZA, R.B.; ALCÂNTARA, F.A.; Adubação no sistema orgânico de produção de hortaliças. Brasília-DF: Embrapa Hortaliças, 8p., julho, 2008. (Circular Técnica, 65).


WAMSER, A.F; VALMORBIDA, J.; MUELLER, S.; GONÇALVES, M.M; FELTRIM, A.L. Produtividade de tomate em função de sistemas de plantio e plantas de cobertura do solo. Horticultura Brasileira, Brasília, v.28, n.2, julho, 2010. (CD Rom).

Técnica em Meio Ambiente pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Rio Pomba; Bacharel em Agroecologia no IF Sudeste de Minas - Câmpus Rio Pomba; Lato Sensu em Gestão Ambiental na FIJ - Faculdades Integradas de Jacarepaguá, no Pólo de Barbacena - MG; Formação Pedagógica em Ciências Biológicas (Licenciatura plena) na Universidade Vale do Rio Verde - Câmpus Betim - MG; Mestre em Agroecologia na Universidade Federal de Viçosa - Câmpus Viçosa - MG; e doutoranda pela UFV.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Pecuária Produtiva e Sustentável


* por Diana Carla Fernandes Oliveira e Gabriela Peluso Demartini


A pecuária brasileira é a mais competitiva do mundo, e pode ser ainda mais. Principalmente se houver recuperação de pastagens degradadas, uso racional dos recursos, manejo adequado e maior concentração de cabeças por hectare.  Essa competitividade esta justamente por ser extensiva, com enorme quantidade de pastagem, alimentar o gado com capim e com isto ter um menor custo de produção que outros países que têm com base o confinamento.
            Atualmente, diante de um cenário mundial que reúne de um lado, uma crescente necessidade de ampliação na produção de alimentos, e de outro, o avanço de problemas ambientais, exigindo a adoção de práticas sustentáveis como o desenvolvimento de energias renováveis e a preservação de florestas, a pecuária brasileira precisa mudar sua forma de atuação. Basta aperfeiçoar nosso modelo, contando com o aperfeiçoamento genético, técnico e de gestão, assim, nosso gado tornará mais competitivo e atenderá as exigências do mercado em que diz respeito à sustentabilidade.
            O emprego da pecuária produtiva, além de garantir a preservação do meio ambiente, possibilita mais qualidade e competitividade aos produtos. Com uma gestão responsável, o produtor tem em mãos uma ferramenta a mais para atender às exigências dos importadores e consumidores quanto à garantia da qualidade e sanidade dos alimentos. O conceito envolve mudanças de hábitos, de práticas de manejo e exige investimentos, sendo fundamental o incentivo de desenvolvimento de mecanismos.

            Segundo a revista “Panorama Rural”, o pecuarista por meio da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), receberá conhecimentos técnicos sobre manejo adequado do solo, variedades de capim, leguminosas para rotação de culturas e alimentação complementar do gado. O trabalho de conscientização é fundamental. É preciso que o pecuarista passe a ter a convicção de que ele pode aumentar consideravelmente sua produção de carne de forma economicamente viável sem derrubar áreas de florestas. Quando o pecuarista perceber que a atividade sustentável faz bem ao ambiente, e ao bolso, não vai querer outra prática.

* alunas da disciplina AGROMETEOROLOGIA, coordenada pelo Professor Maurício Novaes, do curso de Zootecnia do IF SUDESTE DE MINAS campus RIO POMBA, 2011.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

“A importância de se valorar os recursos naturais”

*André Bacic Olic e Maurício Novaes Souza

INTRODUÇÃO:
            A existência humana pressupõe uma interação com o meio físico. O desenvolvimento dos processos industriais de produção, o crescimento exponencial da população e a mudança nos hábitos de consumo tornaram o ambiente mais vulnerável aos efeitos nefastos das atividades antrópicas. A qualidade de vida na terra exige dos homens uma relação respeitosa com seu suporte material de entorno, o que passa pela valoração dos recursos naturais.

DISCUSSÃO:
            O século XX foi marcado por um intenso processo de industrialização dos processos produtivos. Este fenômeno ocorreu concomitantemente ao deslocamento em massa das pessoas, que do campo passaram a viver em grandes aglomerados urbanos.
            O sistema da atual tecnosfera é criticamente dependente da base de recursos naturais. Nas civilizações mais primitivas, também se encontra este tipo de dependência. No passado civilizações sucumbiram por conta do manejo inadequado das fontes de matérias primas. O grande diferencial entre os impactos de outrora, daquele potencial da sociedade contemporânea reside na mudança de escala. Hoje a população é muito maior e a existência material de cada indivíduo requer maior quantidade de recursos. O advento das novas tecnologias de exploração do meio, aliado as novas necessidades de consumo, quais surgiram desde o início da revolução industrial, são fatores que transformaram significativamente a interação humanidade-ambiente.
             A intensificação da extração de recursos naturais e despejo de resíduos na natureza levou a sociedade pensar no conceito de Capacidade de Carga (ou suporte): que se refere à capacidade da geosfera de manter seus serviços (nível máximo de ação antrópica, que o planeta consegue absorver).

VALORES, SERVIÇOS E BENS FORNECIDOS PELA GEOSFERA (Adaptado de Moldan e Bilharz, 1997).
  • Manutenção de uma interface de proteção contra a interação cósmica.
  • Manutenção de uma temperatura adequada (média, distribuição no tempo, proteção contra ocorrência extremos).
  • Manutenção relativamente estável de condições geofísicas.
  • Manutenção da qualidade do ar.
  • Múltiplos serviços de água e ciclos de água.
  • Ciclo de nutrientes.
  • Reciclagem dos resíduos e desintoxicação de substâncias.
  • Provimento de espaço na superfície terrestre. Bases para a construção.
  • Provimento de fontes de energia.
  • Fornecimento de materiais (elementos químicos, minerais, biomassa etc).
  • Provimento de solo fértil.
  • Base para ocorrência da biodiversidade e seus múltiplos serviços.
  • Manutenção de condições microbiais sustentáveis (nível de micróbios patogênicos, alergênicos).

            Nas últimas décadas, os recursos naturais passaram, gradualmente, a ser mais bem valorizados pela sociedade como um todo. Isto se dá a partir de um processo de conscientização (que em boa medida é alcançado com programas de educação ambiental).
            Sistemas de Gestão Ambiental (SGA) foram desde então sendo desenvolvidos, com intuito de reverter o quadro de degradação. Trata-se da busca de administrar a utilização dos recursos naturais. É o exercício de planejamento das atividades econômicas e sociais de forma a utilizar de maneira racional os recursos naturais (renováveis ou não). Os SGA visam implementação de práticas, que garantam a conservação e preservação da biodiversidade, a reciclagem das matérias-primas e a redução do impacto ambiental das atividades humanas sobre os recursos naturais.
            A prática da gestão ambiental introduz a variável ambiental no planejamento empresarial, e quando bem aplicada, permite a redução de custos diretos - pela diminuição do desperdício de matérias-primas e de recursos cada vez mais escassos e mais dispendiosos, como água e energia - e de custos indiretos - representados por sanções e indenizações relacionadas a danos ao meio ambiente ou à saúde de funcionários e da população de comunidades que tenham proximidade geográfica com as unidades de produção da empresa. Um exemplo prático de políticas para a inserção da gestão ambiental em empresas tem sido a criação de leis que obrigam a prática da responsabilidade pós-consumo.
            O aumento da procura pelas empresas de profissionais com conhecimentos em técnicas de gestão ambiental motivou o intensificou a presença deste tema nos mais diversos cursos de formação profissional. Deste ponto de vista, a carreira do Agroecólogo se mostra promissora.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
            Décadas de agravamento das questões ambientais e a intensificação das discussões sobre conservação dos recursos naturais levam a formação gradual da consciência das pessoas com relação ao problema. Assistimos à tendência da diminuição da produção e do consumo de recursos energéticos intensivos, pelo aumento de consumo de produtos energéticos não intensivos e pelo crescimento do setor de serviços. As estimativas de crescimento populacional apontam um acréscimo de 3 bilhões de almas, até 2050, quando este crescimento se estabilizará.
            Sistemas tecnológicos produtivos passam a exigir uma abordagem multidisciplinar. A ciência econômica deverá cada vez mais ser permeada pela dinâmica de sistemas naturais.  Cabe aos mais diversos ramos profissionais buscar pelas ferramentas de gestão ambiental apropriadas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
            Wikipédia. Sobre o termo Desenvolvimento Sustentável e Gestão Ambiental.
            Bellen, Hans Michel van. Sustentabilidade: uma análise comparativa. 2ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006
            Araujo, G. H.;  Almeida, J.R.; Guerra, A.J.T. Gestão Ambiental de Áreas Degradadas, 6ed. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

            Souza, M. N.; Degradação e Recuperação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável – Tese Magister Scientiae – Viçosa: UFV, 2004.

* Estudante do curso de Agroecologia do IF Sudeste de Minas campus Rio Pomba.

Por que falta água na Cantareira?


ECONOMIA & NEGÓCIOS - 04 Fevereiro 2015 | 11:58

É necessário recuperar a vegetação nas áreas de nascentes e cursos d’água ao invés de apenas fazer obras de engenharia, defendem os especialistas Eduardo Assad e Roberto Rodrigues.


Foto aérea da represa Atibainha, parte do sistema Cantareira (Reuters).

Eduardo Assad e Roberto Rodrigues*

Em meio a tantas notícias ruins, como queda da Bolsa, falta de água, falta de luz, eis que das montanhas de Minas Gerias surgem notícias razoavelmente boas. A água voltou a brotar nas nascentes no alto da serra da Mantiqueira, nos municípios que alimentam o rio Jaguari, principal fornecedor de água para a Cantareira.
O problema é que ainda não tem volume nem força para percorrer 100 quilômetros e encher os reservatórios do Sistema Cantareira em Bragança Paulista e Joanópolis, em São Paulo. Mas é a natureza nos indicando que se preservarmos ela reage.
Nos últimos 500 anos desmatamos as nascentes e as áreas ao longo dos rios que nos abastecem de água. No passado, Minas Gerais e São Paulo brigaram por causa do ouro: foram guerras localizadas e sangrentas, todas para atender a corte. Hoje o ouro é a água. E vindo também de Minas Gerais, de Munícipios que adotam políticas de preservação dos seus rios, como o município de Extrema. Não poderia ser diferente: preservou, choveu e a água brotou.

Mas, por que não brota nos outros oito municípios paulistas que compõem a região da Cantareira?

A resposta é simples. O desmatamento no passado foi muito grande. Enquanto nos preocupávamos, com razão, com os impactos do desmatamento na Amazônia, nos esquecemos de cuidar do quintal de casa.
Permitimos a expansão urbana desenfreada, impermeabilizamos os solos, cortamos as árvores e reduzimos a infiltração da água que alimenta o lençol freático.
Aumentou a erosão e as enchentes se multiplicaram. As mudanças climáticas explicam em parte a maior frequência de ocorrência de chuvas intensas nos últimos anos.
Mas o maior o problema foi a redução dramática da vegetação em torno das nascentes e dos cursos d´água. Nos 12 municípios que estão em volta da Cantareira, quatro estão em Minas Gerais e oito em São Paulo: Itapeva, Camanducaia, Sapucaí-Mirim e Extrema em Minas Gerais e Bragança Paulista, Vargem, Joanópolis, Piracaia, Nazaré Paulista, Mairiporã, Franco da Rocha e Caieiras, em São Paulo.
Em todos eles a situação é alarmante. Estudos da Embrapa com a Fundação Getúlio Vargas indicam que são mais de 8.100 km de rios e córregos com menos de 10 metros de largura não protegidos, em 34 mil hectares desmatados.
Existem diversos exemplos no Brasil mostrando que a simples revegetação promove a volta da água. Para iniciar essa recuperação na Cantareira serão necessárias milhões de mudas de espécies nativas da Mata Atlântica. Muitas são conhecidas e bem estudadas. E em São Paulo estão as maiores empresas capazes de indicar as espécies e produzi-las. Pena que nada foi feito. Enquanto isso, só se fala em buscar água daqui e de acolá, e em obras de engenharia.
Nova York passou por problemas parecidos. Preservou as nascentes na áreas mais altas e revegetou as áreas de preservação permanente. Atuou diretamente naquilo que é conhecido como segurança hídrica, que é manter o ciclo hidrológico funcionando, preservando as funções hídricas da biodiversidade.
Em 17 de março de 1537, Duarte Coelho, Governador de Pernambuco, enviou requerimento à câmara de vereadores de Olinda, proibindo o corte  de todas as madeiras ao redor dos ribeiros e das fontes sob pena posta em regimento. Também proibiu que os colonos jogassem lixo nos rios e nas aguadas. Temos história! Acorda Brasil! Acorda São Paulo!

*  Pesquisador da Embrapa e Pesquisador Visitante da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas
** Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, Embaixador Especial da FAO para as Cooperativas e Presidente da Academia Nacional de Agricultura SNA e ex-ministro da Agricultura


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Recuperação de Áreas Degradadas do Sítio Bulcão – Aimorés, Minas Gerais


Estudo de Caso: Instituto Terra

Curso: Bacharel em Agroecologia
Disciplina: Recuperação de Áreas Degradadas
Professor: Maurício Novaes Souza
Aluna: Suzane Paiva Melo
Maio, 2014

Resumo executivo

O Instituto Terra foi fundado em abril de 1998, em Aimorés (MG), por Lélia Deluiz Wanick Salgado e Sebastião Salgado, com o objetivo de desenvolver ações de recuperação e educação ambiental e promover o desenvolvimento sustentável no Vale do Rio Doce.
O Instituto fica localizado na Fazenda Bulcão, em Aimorés, Minas Gerais, com área de 676 ha e reconhecida como Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN). Por sinal, foi a primeira RPPN criada em uma área totalmente alterada, apenas portando um bom programa ambiental (conjunto de metas e projetos) dedicado a reabilitá-la em todos os seus aspectos.
As iniciativas do Instituto Terra apoiadas pelo programa BNDES Mata Atlântica incluem a restauração de dois sítios de reflorestamento na região, originalmente cobertos pelo bioma Mata Atlântica que, ao longo de décadas, foi sendo substituída por pastagens e lavouras. Atualmente, os fragmentos florestais remanescentes são raros no Vale do Rio Doce, e os problemas com o solo e com o balanço hidrológico estão mais acentuados.
Na RPPN Fazenda Bulcão, o projeto apoiado pelo BNDES consiste no enriquecimento da vegetação em 55 hectares da mata ciliar, além da implantação de um Laboratório de Sementes – um núcleo de pesquisa para seleção de espécies florestais mais resistentes e favoráveis à atividade de reflorestamento em áreas degradadas.
Com o objetivo de reconstruir o ecossistema florestal da região, por meio de diferentes formas de intervenção, recuperando os processos ecológicos e contribuindo para a manutenção da biodiversidade local, foi fundado o Instituto Terra, uma associação civil sem fins lucrativos voltada para preservação do meio ambiente com ênfase em reflorestamento, educação e pesquisa, onde em menos de 10 anos já foram plantadas 1 milhão de mudas. O Instituto é aberto a visitações, oferece cursos e desenvolve a extensão rural nas comunidades.

Área do projeto

A região do Vale do Rio Doce, onde está localizada a Fazenda, era originariamente coberta pelo bioma da Mata Atlântica em estado primitivo. No entanto, quando foi adquirida pelo casal, sua mata encontrava-se em acelerado estágio de desmatamento, havia perdas expressivas de nutrientes em seus solos expostos, sua fauna específica evadira-se e ocorriam graves ameaças às nascentes situadas em seu sítio.
Entre as alterações ambientais que motivaram esses impactos estavam (i) o processo de colonização da região, com a exploração comercial de madeira; (ii) o desmatamento generalizado; e (iii) atividades agrícolas e pecuárias mal planejadas e fadadas ao fracasso ambiental.
O conjunto das edificações do Instituto Terra está localizado num vale de cerca de 30 ha, criando assim um pequeno centro urbano, rodeado por florestas e dentro de um grande jardim. O antigo curral e sua balança foram transformados em escritórios, sala de exposição e refeitório.
Atrás, o Centro de Educação e de Recuperação Ambiental, com uma sala polivalente para 180 lugares, é ao mesmo tempo, auditório, cinema e teatro. Três salas de aulas com capacidade para 25 pessoas cada uma. A biblioteca, o laboratório e a secretaria do Centro. O almoxarifado, com uma grande varanda que serve de refeitório para os trabalhadores do campo. O alojamento dos professores, com seis suítes duplas. O alojamento dos alunos, com capacidade para 36 pessoas. Todos os edifícios têm acesso para pessoas com deficiências.
Em agosto de 2004 foi inaugurada uma área de residência dos alunos como parte da infraestrutura de um Centro de Reabilitação Ambiental e de Desenvolvimento Rural, com capacidade para receber até 30 alunos.

Descrição da organização executora do projeto e parcerias

O casal, que foi exilado na época da ditadura, ao voltar para o Brasil após a anistia, cansados de ver toda aquela degradação resolveram substituir as pastagens por florestas. O pai de Sebastião Salgado, assim como a maioria da população de Aimorés, achava um absurdo plantar florestas.
Foram anos de pesquisa até que a idéia foi crescendo junto com o apoio dos amigos, até que se criou o Instituto Terra, uma RPPN - Reserva Particular do Patrimônio Natural, uma associação civil sem fins lucrativos, com reconhecimento difícil pelo histórico do local.     
 O Instituto Terra hoje é o segundo maior empregador de Aimorés, contando com um quadro de 55 funcionários com carteira assinada. Os projetos são financiados por empresas públicas e privadas além de fontes externas vindas de países como Itália, Espanha e EUA e também de doações de pessoas físicas  e jurídicas.

Descrição do meio físico

O relevo do município de Aimorés é predominantemente ondulado. A altitude máxima encontra-se na Serra da Mata Fria, situada a sul do município, que chega aos 1.118 metros, enquanto que a altitude mínima está no Rio Doce, chegando a 83 metros acima do nível do mar, em um trecho a nordeste da cidade.
O clima aimoreense é caracterizado, como tropical quente semiúmido, ou tropical com estação seca (tipo Aw segundo Köppen), tendo temperatura média anual de 25,2 °C com invernos secos e amenos e verões chuvosos com temperaturas elevadas.18 19 O município é conhecido por ser a cidade mais quente do estado de Minas Gerais. A precipitação média anual é de 1 062,6 mm, sendo julho o mês mais seco, quando ocorrem apenas 17,9 mm. Em dezembro, o mês mais chuvoso, a média fica em 202,0 mm.
O solo encontrado no local onde se deu início ao projeto era bem degradado, com pouca matéria orgânica, sem a presença de horizonte O e quase nada do horizonte A, marcado pela utilização inadequada de técnicas agrícolas, como aração do morro abaixo, topos de morros desmatados, gados circulando em áreas de nascentes.
A cidade era cortada pelo Rio Doce, que há alguns anos diminui significativamente sua vazão, se tornando quase inexistente, devido a transposição de parte de suas água para a criação de uma usina. Este cenário alertava aos moradores para a importância de se ter água em sua propriedade, mas pouco era feito para mantê-las, causando a extinção de nascentes e pequenos córregos.

Justificativa

O enriquecimento da mata ciliar vai favorecer o projeto de recuperação de Mata Atlântica em curso na Fazenda Bulcão e que está entre os maiores do Brasil em termos de área contínua. São 709,84 hectares que estão sendo reflorestados, sendo que 608,69 hectares se constituem em Reserva Particular de Patrimônio Natural – título recebido pelo Instituto Terra em 1998 e que conserva seu ineditismo por se tratar da primeira RPPN constituída em uma área degradada de Mata Atlântica com o compromisso de vir a promover um processo de recuperação ambiental associado a atividades educacionais.

Objetivos

Geral

Reconstituir o ecossistema florestal da região, por meio de diferentes formas de intervenção, recuperando os processos ecológicos e contribuindo para a manutenção da biodiversidade local.

Específicos

·         Reconstituir o bioma original da Mata Atlântica;
·         Contribuir para a recuperação da biota e da biodiversidade de fauna e flora;
·         Recuperar as águas do córrego Bulcão e Constância e de outras nascentes;
·         Recuperar as bacias hidrográficas da região;
·         Enriquecer a vegetação em 55 hectares da mata ciliar;
·         Implantar de um Laboratório de Sementes;
·         Criar corredores ecológicos para facilitar o trânsito da fauna;
·         Conscientizar a população da importância de se recuperar e preservar áreas de matas

Metodologia

É essencial demonstrar às pessoas sobre as questões do ambiente. Como produzir com ele, como conservá-lo, como preservá-lo, bem como fazer uma reflexão sobre o atual modelo de desenvolvimento adotado para a produção no campo brasileiro.
Através do Centro de Educação e de Recuperação Ambiental, unidade de treinamento do Instituto Terra, são ministrados cursos em módulos sobre temas tais como: ecologia, alteração ambiental, manejo florestal, agroecologia, sistemas agroflorestais, silvicultura, permacultura, educação ambiental, combate a incêndios, pronta-resposta a acidentes e outros.
A estratégia é trabalhar o público que demonstrava relevância na formação e difusão de ideias ambientais, tais como professores do ensino médio, prefeitos, secretários do ambiente, lideranças da sociedade civil e, sobretudo, os próprios produtores rurais.
O trabalho consistiu inicialmente, no isolamento da área ao redor e na retirada dos gados do pasto. Foram criadas parcerias com as escolas da cidade que ajudaram no primeiro plantio que teve de mudas de árvores, até então doadas, nos morros que cercavam a propriedade. A partir disso, passou a se fazer o monitoramento dessas plantas e a manutenção, pois os indivíduos dominantes eram, basicamente, capim colonião, uma gramínea bastante agressiva. Com o estabelecimento destas primeiras espécies, passou a ser implantada a técnica da muvuca, que constituía em uma mistura de terra, adubos e sementes.
Nesta mistura, também havia espécies armadilhas, ou seja, elas eram implantadas com a finalidade de atrair formigas cortadeiras e diminuir o ataque das mesmas em espécies florestais. Essa muvuca era espalhada ao longo dos terraços de base estreita que eram feitos em épocas de chuva, facilitando a germinação e pegamento das plântulas. Técnicas de nucleação por galhadas também foram implantadas, assim como o plantio aleatório, de espaçamento 2m x 2m, intercalando mudas pioneiras e secundárias.
Na propriedade são produzidas as mudas das árvores, assim como a coleta de sementes que é realizada nas proximidades pela equipe responsável. No viveiro onde se tinha problemas com a dormência das sementes, hoje se tem registrado mais de 300 espécies, contendo nome cientifico, popular, se tem ou não dormência e como tratar essa dormência. No último ano foram gastos 2.300 kg de sementes. São produzidas hoje mudas de mais de 60 espécies como Pau Brasil, Paracatu, Jequitibá entre outras. As mudas são plantadas na época das chuvas, com espaçamento de 4 m² por planta, sendo umas 2.300 plantas por há, na proporção de 60 pioneiras, 30 secundarias e 10 climax, com um custo variando entre R$ 7.000,00 por ha.
O projeto com a ajuda de um empresário da cidade é “vendido” para empresas de vários países, que passam a financiá-lo, em troca do crédito de carbono. Uma compensação ambiental que, para o município e seus moradores é de grande valor, econômico e ambiental, gerando  renda e garantindo além de uma melhor qualidade de vida daqueles, sua permanência na região.

Apresentação dos resultados

Em pouco mais de uma década, o sonho do casal já rendeu muitos frutos. Por conta da atuação do Instituto Terra, mais de 7.000 hectares de áreas degradadas estão em processo de recuperação na região e mais de 4 milhões de mudas de espécies de Mata Atlântica já foram produzidas em seu viveiro para abastecer tanto os plantios na RPPN Fazenda Bulcão quanto os projetos de restauração que desenvolve na região.
A antiga fazenda de gado, antes completamente degradada, hoje abriga uma floresta rica em diversidade de espécies da flora de Mata Atlântica. A experiência comprova que junto a recuperação do verde, nascentes voltam a jorrar e espécies da fauna brasileira, em risco de extinção, voltam a ter um refúgio seguro.
Com o reflorestamento da RPPN Fazenda Bulcão, cujo primeiro plantio foi realizado em dezembro de 1999, o Instituto Terra está perto de concluir um projeto de recuperação de Mata Atlântica sem precedentes no Brasil em termos de área contínua.

Considerações Finais


O projeto desenvolvido pelo casal Lélia e Sebastião mostra o quão é possível que iniciativas de recuperação saiam do papel. Além de que, demonstram para a população daquele local e demais curiosos as vantagens da regeneração da Mata Atlântica e, principalmente, que esta regeneração pode acontecer em conjunto com as atividades econômicas da propriedade em questão, aumentando a renda e melhorando a qualidade de vida dos indivíduos.

sábado, 22 de março de 2014

A crise no abastecimento de água decorrentes da degradação dos ecossistemas aquáticos




* Por Maurício Novaes Souza


O dia 22 de março foi escolhido pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 22 de Fevereiro de 1993 como o “Dia Mundial da Água”. Essa escolha se deu devido à presença de grandes índices de poluição ambiental no planeta. A partir desta data, a ONU elaborou uma série de medidas cautelosas a favor da água e impôs a consciência ecológica em relação a este bem natural. Nesse mês de março, em todo o mundo, mais uma vez essa data é comemorada. Como se pergunta a todo ano, existe motivo real para comemoração? Ou teríamos pretextos suficientes para promover um dia de luto?

Apesar do Brasil ter 12% da água doce do mundo, a crescente demanda provoca aumento da poluição de rios, lagos e represas e pressiona fortemente os recursos hídricos. Sabemos que a água está distribuída de forma desigual pelo País. Regiões como São Paulo, por exemplo, têm acúmulo de população e pouca reserva de água. Já no Amazonas, ocorre o inverso. Além disso, há a questão da exploração dos aquíferos, pois muitos não são bem explorados, como na cidade de Manaus.

Com o aumento da pressão sobre os recursos hídricos, a resposta da natureza será mais lenta, provocando em determinados períodos escassez. Tudo na água se resume a uma relação de disponibilidade e demanda. Se continuarmos utilizando acima da disponibilidade, as reservas vão diminuir e coloraremos o abastecimento em risco, como acontece agora na cidade de São Paulo.

Na verdade, o modelo de desenvolvimento atual e como ele afeta as populações tem persistido na manutenção de erros graves. É realmente uma insanidade sem limites o que empresas e indivíduos vêm fazendo com o meio ambiente, interferindo em sua própria sobrevivência. É isso que se pode chamar de falso progresso (ou de desenvolvimento insustentável), mas que muitos teimam em chamar de crescimento econômico ou desenvolvimento sustentável.

De fato, percebe-se grande desconhecimento ou mesmo ignorância que tem origem no egoísmo humano e na percepção ilusória. Dessa forma, o mundo caminha para o crescimento “deseconômico”, que segundo o ilustre economista Herman Daly, ocorre quando aumentos na produção se dão à custa do uso de recursos e sacrifícios do bem-estar que valem mais do que os bens produzidos. Isso decorre de um equilíbrio indesejável de grandezas denominadas utilidade e desutilidade. Utilidade é o nível de satisfação das necessidades e demandas da população; de fato, é o nível de seu bem-estar. Desutilidade se refere aos sacrifícios impostos pelo aumento de produção e consumo. Pode incluir o uso de força de trabalho, perda de lazer, esgotamento de recursos, exposição à poluição e concentração populacional.

Segundo Loïc Fauchon, presidente do Conselho Mundial da Água, o comportamento humano com relação ao uso deste recurso é cada vez mais irrefletido e inconsequente. É preciso que se estabeleçam metas para a elaboração de um novo modelo de desenvolvimento e crescimento econômico. Deve-se haver a pretensão de apresentar resposta para escassez do recurso água provocada pelo crescimento da população, pelo desperdício, pelo consumo excessivo e pelo aumento da necessidade de energia.

Tal análise se justifica pelo fato de que a economia e o meio ambiente estão passando por uma crise sem precedentes. Em grande parte, o principal responsável é o modelo de desenvolvimento adotado pela maioria dos países. Para agravar ainda mais a situação, a atual crise econômica mundial tem trazido como solução o estímulo ao consumo – situação ainda mais ameaçadora às atuais situações ambientais. Esse modelo visa, efetivamente, a geração de lucros imediatos, não considerando os limites do crescimento; portanto, socialmente e ambientalmente não é sustentável.

Do ponto de vista social, 20% da população mais rica utilizam ¾ dos recursos naturais, causando a sua degradação. Do ponto de vista ambiental, considerando a Pegada ecológica, verifica-se que o ambiente está sendo usado além de sua capacidade de suporte e de reposição. Na verdade, o modelo de produção e consumo são os responsáveis pelas agressões cometidas sobre os ecossistemas aquáticos, indispensáveis para a sobrevivência da humanidade. A previsão é de que a população mundial, atualmente superior a 7 bilhões de habitantes, possa chegar a nove bilhões até meados deste século, o que aumentará consideravelmente a demanda de recursos hídricos.

Segundo a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE), o número de pessoas com graves problemas para conseguir água chegará a 3,9 bilhões em 2030. A falta do saneamento nas cidades, em níveis mínimos que assegurem o bem-estar das populações, tem gerado um quadro de degradação do meio ambiente urbano sem precedentes, sendo os recursos hídricos um dos primeiros elementos integrantes da base de recursos naturais a sofrer tais efeitos.

No Brasil, caso o consumo de água continuar no ritmo atual, em 30 anos teremos problemas sérios de abastecimento, principalmente nas Regiões Sul e Sudeste. Em algumas cidades já há uso competitivo da água a ponto de abastecimento público e produção de alimentos concorrerem pelo recurso. Na verdade, falta ao País uma cultura de gestão de água integrada e nacional, que ocorre de forma setorial, com políticas locais, enquanto deveria ser nacional e integrada. Existem boas iniciativas no Brasil, mas são todas pontuais e localizadas. Se fossem mais amplas, teríamos resultados mais efetivos.
Como consequência, e com o aumento acelerado da população, o mundo está enfrentando intensas mudanças globais, como migração, urbanização, mudança do clima, desertificação, seca, alteração do uso e degradação do solo, crises econômicas e alimentares. Caso continuemos a agir dessa forma, não respeitando os limites do crescimento, pouco restará para as gerações futuras. Como bem lembra Leonardo Boff, caso não se cuide do planeta a partir de uma visão sistêmica e holística, poderá submetê-lo à destruição de suas partes e inviabilizar a própria vida. Há inúmeras evidências que existem limites para o crescimento econômico, considerando que os recursos naturais são escassos.

A gestão das águas deve ser realizada por bacia hidrográfica, respeitando as características específicas de cada uma e da região em que estão. É preciso entender como cada bacia hidrográfica funciona, relacionar disponibilidade e demanda, analisar fontes de poluição, ter um banco de dados regional. Assim é possível fazer uma gestão sistêmica da água. No Brasil já existem comitês de bacias, mas eles ainda estão em fase de implantação e com andamento muito lento.

Faz-se necessário mudar a visão mais imediatista dos governantes por uma que contenha uma estratégia de futuro. O professor Tundisi adverte que o modelo atual de gestão do meio ambiente está relacionado a um tipo de economia, na qual o capital natural não está inserido. Sabemos que há limites para o crescimento. A Amazônia, por exemplo, tem um grande potencial hidrelétrico, mas não adianta abarrotar a região de usinas. Isso significa que estamos trocando evolução natural por economia. Precisa haver um equilíbrio, pois os efeitos podem ser irreversíveis. O capital natural é algo explorável, mas dentro de limites.

Respondendo à pergunta inicial: teve-se o que comemorar neste dia 22 de março de 2012? Não existe motivo para pleno luto, mas é muito cedo para comemorações, apesar das inúmeras iniciativas governamentais e organizacionais. A indústria, o comércio e a população devem refletir sobre a necessidade urgente de abandono às concepções anacrônicas ligadas à produção e ao consumo, adotando a sustentabilidade sócio-ambiental nas ações públicas e privadas, em todos os níveis, do local ao global. Essas deverão ser as propostas de um novo modelo guiado pelos princípios do “Desenvolvimento Sustentável”.



* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Assessor da FAPEMIG. E-mail: 
mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

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