O consumismo e o papel do comércio varejista nos processos de inovação e educação


* Mauricio Novais Souza1 e Celso da Silveira de Barros2

A Revolução Industrial desenvolveu os processos de fabricação até chegar à produção em escala, substituindo a produção artesanal. Estes produtos proporcionam conforto para a população e de maneira direta ou indireta criam dispositivos que facilitam e dinamiza vários sistemas produtivos, como o comércio varejista. Contudo, esse processo iniciado com tal revolução e achegado ao sistema financeiro (consolidação do capitalismo) e a propaganda (marketing), em poucas décadas, transformou o cidadão em um consumista voraz e descomprometido, causando enorme degradação ambiental.

Evidentemente quando se compara os possíveis confortos que o homem poderia desfrutar no início da Revolução Industrial com os disponíveis nos dias atuais, a diferença é imensa. A indústria, abastecida com capital e a procura de lucros, teve crescimento rápido em produtividade e qualidade. Foi capaz de manter a filosofia de cada vez mais atender todas as exigências dos consumidores, dando-lhes inclusive a oportunidade de escolha ao oferecer-lhe um produto recém desenvolvido, mas com outro mais moderno já na planta da fábrica. Para se ter a ideia dos absurdos praticados, em todo o mundo, apenas nos Estados Unidos, atualmente, jogam-se fora 400 mil celulares por dia.

O consumidor, principalmente o mais jovem, oriundo de uma sociedade que valoriza a aparência em detrimento ao conteúdo, e instigado pela mídia, consome compulsivamente. O sistema mercadológico é tão estrategicamente bem elaborado, que desenvolveu armadilhas pouco perceptíveis para estimular ainda mais o consumidor: oportunidade de comprar sem dinheiro, parcelamento, cartão de crédito, cheque pré-datado, crediário e muitas outras supostas facilidades. Este tipo de consumismo, que geralmente promove a aquisição de supérfluos e não a aquisição de produtos para atenderem às necessidades básicas, gera uma série de consequências desastrosas: do ponto de vista ambiental, pelo excesso de resíduos gerados que irão sobrecarregar os “lixões” e aterros; e do ponto de vista financeiro, principalmente nas classes menos favorecidas, o endividamento futuro e a impossibilidade de honrar seus compromissos.

Analise que esse sistema produtivo consumiu, nas últimas décadas, aproximadamente 30% de todo patrimônio natural do planeta, acumulado ao longo de milhões anos. Além disso, está poluindo todos os sistemas naturais: há países que não têm mais local para estocar o próprio lixo. Considere-se ainda, que socialmente é excludente, pois os imensos lucros ficam com poucas pessoas ou grandes grupos financeiro-econômicos.

Nos dias atuais, tempos de crise econômica em países da Europa e dos EUA, os dirigentes mostram-se preocupados com a sua situação financeira e esquece-se de administrar os recursos e serviços oferecidos gratuitamente pela natureza e imprescindíveis para a manutenção da vida. Para reverter o quadro de lucro a qualquer preço e do consumismo ilimitado, não é tarefa das mais fáceis. Os pais e os educadores terão papel fundamental na educação. É fundamental que a população se informe sobre a situação e assuma as rédeas nas decisões por meio da escolha de dirigentes íntegros e que sejam realmente focados em suavizar as diferenças sociais e os impactos ambientais. O próprio comércio e a mídia poderão contribuir.

Daí a importância do comércio varejista: dada a sua capilaridade e pela sua intensa relação com os consumidores, o varejo terá um leque de opções em aberto para assumir sua responsabilidade frente a uma série de assuntos relevantes para a sociedade e para a sobrevivência do seu próprio negócio. Terá uma grande oportunidade de se beneficiar das atitudes sustentáveis como diferencial competitivo, nesses tempos em que se falam tanto de inovação tecnológica. Há de se considerar, que inovação por si só, não vale nada se não for concebida sob a ótica da sustentabilidade.

A inovação tem de ser social, não só de máquinas ou artefatos. Tem de ser inovação de processos. Tanto que hoje, quando se falam de “design”, o termo não se limita à confecção de objetos, inclui projetos e ideias. O “design” pode desenhar novas cidades e novas gestões dentro das empresas. Existe subjetividade na inovação. A inovação é cada vez mais intangível, subjetiva e desmaterializada. Estamos entrando no mundo da invenção das soluções, mas soluções não propriamente para atender às necessidades de consumo; e sim soluções para atender às necessidades do mundo.

Justamente por sua característica de agente intermediário na cadeia produtiva, o varejo pode dar uma contribuição muito significativa no campo da sustentabilidade. Hoje as empresas varejistas podem e devem promover o consumo consciente em suas ações de comunicação e no ponto de venda. Será que os profissionais que trabalham em sua indústria, em sua fazenda, em seu comércio, já têm essa visão de futuro? Têm a capacidade (e o desejo) de receber, decodificar e disseminar informações sob uma perspectiva mais humanista e ambiental e menos financista e técnica?

1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

2. Graduando do Curso de Bacharel em Agroecologia do IF Sudeste MG campus Rio Pomba. E-mail: celsopirauba@yahoo.com.br.

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