quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O desafio da sustentabilidade para o comércio varejista


* Por Maurício Novaes Souza


A tão discutida retomada do crescimento, intensamente discutida nos dias atuais, não é suficiente para a solução dos diversos problemas e não é a melhor alternativa para se chegar ao Desenvolvimento Sustentável. É necessário que haja, paralelamente à transformação da estrutura produtiva que garanta a recuperação do dinamismo econômico, políticas que promovam uma maior equidade social.

Há de se considerar que a ideia de objetivar o desenvolvimento sustentável revela, inicialmente, a crescente insatisfação com a situação criada e imposta pelos modelos vigentes de desenvolvimento e de produção das atividades humanas. Resulta de emergentes pressões sociais pelo estabelecimento de uma maior eqüidade social. De acordo com Luiz Carlos de Macedo, Assessor do Programa de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP) e Professor de pós-graduação e co-autor de livros e artigos sobre Responsabilidade Social Empresarial, Sustentabilidade, Varejo Sustentável e Comunicação, o setor varejista brasileiro, cheio de dilemas e problemas encontrados pelo caminho, tem encontrado na sustentabilidade um aprendizado constante.

Para esse mesmo autor, pelo fato de ser muito diversificado e possuir muitos ramos de atuação, as empresas estão em estágios distintos em relação às práticas sustentáveis. As micro e pequenas empresas, apesar de sempre estarem envolvidas com alguma iniciativa, ainda realizam mais projetos ligados à filantropia, tendo a comunidade do entorno como público-alvo. Já as médias e grandes empresas estão avançando para um estágio mais elevado, introduzindo aos poucos a sustentabilidade nas suas operações diárias e fazendo com que critérios sustentáveis sejam adotados e praticados por todos os seus públicos de interesse (“stakeholders”), principalmente, os funcionários, consumidores e fornecedores.

Esse resultado é reflexo de trabalho realizado, desde 2003, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), conhecido como “Programa de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo”. Desde então, tem-se acompanhado diversas iniciativas de empresas varejistas brasileiras com o objetivo de ajudá-las a inserir práticas sustentáveis na gestão dos seus negócios. Atualmente o banco de práticas da FGV, disponível no Portal Varejo Sustentável, conta com centenas de projetos de responsabilidade social e sustentabilidade de varejistas de todas as regiões do Brasil.

Para Macedo, isso demonstra que o varejo está praticando a sustentabilidade de maneira constante. Contudo, isso não quer dizer que essas empresas são plenamente sustentáveis. No sentido de incorporar a sustentabilidade no dia a dia do seu negócio, grandes cadeias de varejo têm desempenhado um grande papel, no intuito de envolver toda a sua cadeia de valor para cumprir uma série de metas sustentáveis. Da mesma forma, outras redes, têm estimulado fortemente seus consumidores a entender e aplicar os conceitos de sustentabilidade no cotidiano. Essas redes estão disseminando os valores sustentáveis nas suas lojas “verdes”, bem como estão adotando soluções alternativas no oferecimento de embalagens nos pontos de venda.

É fato que o consumismo é atualmente um dos males da humanidade. Agrava os problemas ambientais. Como promotor do consumo, o varejo está assumindo a promoção do consumo consciente em vez de somente estimular o consumo desenfreado e irresponsável. O consumidor, mesmo que ainda de forma tímida, deseja que os produtos e serviços que consome contribuam positivamente para o seu bem estar e para as futuras gerações do planeta. Ele quer saber a origem e a história dos produtos, e a tendência é que esse comportamento aumente nos próximos anos.

Pela sua capilaridade e pela sua intensa relação com os consumidores, o varejo terá um leque de opções em aberto para assumir sua responsabilidade frente a uma série de assuntos relevantes para a sociedade e para a sobrevivência do seu negócio, com uma grande oportunidade de se beneficiar das atitudes sustentáveis como diferencial competitivo. Justamente por sua característica de agente intermediário na cadeia produtiva, o varejo pode dar uma contribuição muito significativa no campo da sustentabilidade. Hoje as empresas varejistas podem e devem promover o consumo consciente em suas ações de comunicação e no ponto de venda. Abaixo, segue uma lista de sugestões da Fundação Getúlio Vargas:

• O setor varejista pode reformar ou construir novas lojas com materiais e equipamentos que reduzam o consumo de recursos naturais e diminuam a emissão de gases, muitas vezes reduzindo também o custo da operação no médio e longo prazo.
• As empresas varejistas também têm a possibilidade de influenciar diretamente seus fornecedores para que sejam parceiros de suas iniciativas sustentáveis.
• Podem estimular parceiros a seguir critérios de fornecimento que levem em consideração o respeito à legislação fiscal e trabalhista, favorecendo a erradicação do trabalho infantil e escravo da cadeia produtiva.
• O varejo também pode estimular que os produtos comercializados dos fornecedores não sejam provenientes da exploração predatória dos recursos naturais.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor-Geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

O consumismo e o papel do comércio varejista nos processos de inovação e educação


* Mauricio Novais Souza1 e Celso da Silveira de Barros2

A Revolução Industrial desenvolveu os processos de fabricação até chegar à produção em escala, substituindo a produção artesanal. Estes produtos proporcionam conforto para a população e de maneira direta ou indireta criam dispositivos que facilitam e dinamiza vários sistemas produtivos, como o comércio varejista. Contudo, esse processo iniciado com tal revolução e achegado ao sistema financeiro (consolidação do capitalismo) e a propaganda (marketing), em poucas décadas, transformou o cidadão em um consumista voraz e descomprometido, causando enorme degradação ambiental.

Evidentemente quando se compara os possíveis confortos que o homem poderia desfrutar no início da Revolução Industrial com os disponíveis nos dias atuais, a diferença é imensa. A indústria, abastecida com capital e a procura de lucros, teve crescimento rápido em produtividade e qualidade. Foi capaz de manter a filosofia de cada vez mais atender todas as exigências dos consumidores, dando-lhes inclusive a oportunidade de escolha ao oferecer-lhe um produto recém desenvolvido, mas com outro mais moderno já na planta da fábrica. Para se ter a ideia dos absurdos praticados, em todo o mundo, apenas nos Estados Unidos, atualmente, jogam-se fora 400 mil celulares por dia.

O consumidor, principalmente o mais jovem, oriundo de uma sociedade que valoriza a aparência em detrimento ao conteúdo, e instigado pela mídia, consome compulsivamente. O sistema mercadológico é tão estrategicamente bem elaborado, que desenvolveu armadilhas pouco perceptíveis para estimular ainda mais o consumidor: oportunidade de comprar sem dinheiro, parcelamento, cartão de crédito, cheque pré-datado, crediário e muitas outras supostas facilidades. Este tipo de consumismo, que geralmente promove a aquisição de supérfluos e não a aquisição de produtos para atenderem às necessidades básicas, gera uma série de consequências desastrosas: do ponto de vista ambiental, pelo excesso de resíduos gerados que irão sobrecarregar os “lixões” e aterros; e do ponto de vista financeiro, principalmente nas classes menos favorecidas, o endividamento futuro e a impossibilidade de honrar seus compromissos.

Analise que esse sistema produtivo consumiu, nas últimas décadas, aproximadamente 30% de todo patrimônio natural do planeta, acumulado ao longo de milhões anos. Além disso, está poluindo todos os sistemas naturais: há países que não têm mais local para estocar o próprio lixo. Considere-se ainda, que socialmente é excludente, pois os imensos lucros ficam com poucas pessoas ou grandes grupos financeiro-econômicos.

Nos dias atuais, tempos de crise econômica em países da Europa e dos EUA, os dirigentes mostram-se preocupados com a sua situação financeira e esquece-se de administrar os recursos e serviços oferecidos gratuitamente pela natureza e imprescindíveis para a manutenção da vida. Para reverter o quadro de lucro a qualquer preço e do consumismo ilimitado, não é tarefa das mais fáceis. Os pais e os educadores terão papel fundamental na educação. É fundamental que a população se informe sobre a situação e assuma as rédeas nas decisões por meio da escolha de dirigentes íntegros e que sejam realmente focados em suavizar as diferenças sociais e os impactos ambientais. O próprio comércio e a mídia poderão contribuir.

Daí a importância do comércio varejista: dada a sua capilaridade e pela sua intensa relação com os consumidores, o varejo terá um leque de opções em aberto para assumir sua responsabilidade frente a uma série de assuntos relevantes para a sociedade e para a sobrevivência do seu próprio negócio. Terá uma grande oportunidade de se beneficiar das atitudes sustentáveis como diferencial competitivo, nesses tempos em que se falam tanto de inovação tecnológica. Há de se considerar, que inovação por si só, não vale nada se não for concebida sob a ótica da sustentabilidade.

A inovação tem de ser social, não só de máquinas ou artefatos. Tem de ser inovação de processos. Tanto que hoje, quando se falam de “design”, o termo não se limita à confecção de objetos, inclui projetos e ideias. O “design” pode desenhar novas cidades e novas gestões dentro das empresas. Existe subjetividade na inovação. A inovação é cada vez mais intangível, subjetiva e desmaterializada. Estamos entrando no mundo da invenção das soluções, mas soluções não propriamente para atender às necessidades de consumo; e sim soluções para atender às necessidades do mundo.

Justamente por sua característica de agente intermediário na cadeia produtiva, o varejo pode dar uma contribuição muito significativa no campo da sustentabilidade. Hoje as empresas varejistas podem e devem promover o consumo consciente em suas ações de comunicação e no ponto de venda. Será que os profissionais que trabalham em sua indústria, em sua fazenda, em seu comércio, já têm essa visão de futuro? Têm a capacidade (e o desejo) de receber, decodificar e disseminar informações sob uma perspectiva mais humanista e ambiental e menos financista e técnica?

1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

2. Graduando do Curso de Bacharel em Agroecologia do IF Sudeste MG campus Rio Pomba. E-mail: celsopirauba@yahoo.com.br.

Sustentabilidade das organizações: gestão ética e responsabilidade social


* Por Maurício Novaes Souza1, Maria Angélica Alves da Silva2 e Gabriela Alves de Novaes3

O dilema entre desenvolvimento econômico e preservação/conservação da natureza é tema de discussões no país há tempos remotos. Em períodos recentes, permanece a dificuldade de se fazer uma parceria Estado/Sociedade para uma solução equilibrada. De acordo com José Luiz de Andrade Franco, da Universidade de Brasília, autor de Proteção à natureza e identidade nacional no Brasil (FIOCRUZ), “No Brasil há um padrão histórico: as preocupações com o meio ambiente, em geral, resultaram da atuação de grupos de cientistas, intelectuais e funcionários públicos que, por meio de suas inserções no Executivo, procuraram influenciar as decisões dos governantes em favor da valorização da natureza”. Em função dessa situação, o andamento das políticas de proteção à natureza sempre dependeu mais de ligações com governos e apenas secundariamente do eco que as pessoas preocupadas com as questões ambientais alcançam na sociedade.

Nos dias atuais, o envolvimento do mundo corporativo será essencial para se atingir o desenvolvimento sustentável. As empresas devem agir como agentes transformadores. Devem ser capazes de alterar o modelo que visava o lucro imediato para o modelo que busca o Desenvolvimento Sustentável. Esse fato é importante porque as empresas exercem uma enorme influência sobre os recursos humanos, financeiros, tecnológicos, econômicos, sociais e ambientais. Diante desta nova realidade, surge o conceito de empresas socialmente responsáveis - são aquelas que procuram colaborar para o fortalecimento dos referidos setores, por meio da adoção de posturas éticas, agindo de forma transparente e tendo como objetivo o bem-estar coletivo e a justiça social.

Neste novo modelo os empresários se tornam cada vez mais aptos a compreender e participar das mudanças estruturais que abrangem os aspectos econômicos, ambientais e sociais. As companhias estão sendo incentivadas pela administração pública a gerenciar seu sistema produtivo de tal forma que se evite a ocorrência de impactos ambientais e sociais, por meio de estratégias apropriadas. Nos últimos anos houve progressos surpreendentes na área de gerenciamento ambiental. Mais recentemente, o mesmo ocorreu quanto à conscientização sobre a responsabilidade social e a crescente compreensão dos desafios de se produzir sustentavelmente. Sabe-se que para atingir esse objetivo, no médio e longo prazo, dependerá da capacidade das empresas em reverter a disposição de promover o crescimento econômico a qualquer custo.

Sabe-se que todas as empresas gostariam de ser reconhecidas pela sociedade, por seus funcionários, pelos parceiros de negócios e pelos investidores. O grande problema é estar disposto a encarar os desafios que se colocam no caminho de uma companhia realmente cidadã. O primeiro deles é o desafio operacional. Uma empresa responsável pensa nas consequências que cada uma de suas ações pode causar ao meio ambiente e à sociedade. De nada adiantaria investir em um projeto comunitário e poluir os rios próximos de suas fábricas; ou dar benefícios e oportunidades aos seus funcionários e não ser transparente com seus consumidores.

Neste sentido, responsabilidade social é a integração voluntária pelas empresas das preocupações sociais e ambientais nas suas atividades comerciais e nas suas relações com todas as partes. É a complementação das soluções legislativas e contratuais a que as empresas estão ou podem vir a estar obrigadas e que se aplicam às questões, por exemplo, ao desenvolvimento da qualidade de emprego, a adequada informação, a consulta e participação dos trabalhadores, bem como o respeito e promoção dos direitos sociais e ambientais e a qualidade dos produtos e serviços.

A responsabilidade social das empresas é, essencialmente, um conceito segundo o qual as empresas decidem, de forma voluntária, contribuir para uma sociedade mais justa e para um ambiente mais limpo. Para isso deverá implantar um sistema de gestão ambiental que proporcione que o seu desenvolvimento seja sustentável, necessitando, portanto, de profissionais que incorporem tecnologias de produção inovadoras.

O desenvolvimento econômico e o meio ambiente estão intimamente ligados. Os novos tempos se caracterizam por uma rígida postura dos clientes, que têm a expectativa de interagir com organizações que sejam éticas, com boa imagem institucional no mercado e que atuem de forma ecologicamente responsável. A internacionalização dos padrões de qualidade ambiental, a globalização dos negócios, a conscientização crescente dos atuais consumidores e a disseminação da educação ambiental nas escolas permitem antever que a exigência futura que farão os consumidores em relação à preservação ambiental e à qualidade de vida deverão se intensificar.
Empresas experientes identificam resultados econômicos e resultados estratégicos no engajamento da organização em causas ambientais. Há de se considerar que estes resultados não se viabilizam de imediato: há necessidade que sejam corretamente planejados e organizados todos os passos para a interiorização da variável ambiental na organização para que ela possa atingir o conceito de excelência ambiental, trazendo com isso vantagem competitiva.

O atual momento exige que as empresas adotem a educação e a gestão ambiental em seus programas de rotina, condicionados e geridos por princípios éticos, exigindo que estas possuam criatividade e condições internas que possam transformar as restrições e ameaças ambientais em oportunidades de negócios. Várias empresas têm demonstrado que é possível ganhar dinheiro, proteger o meio ambiente e ser socialmente responsável: é uma questão de opção e atitude.

1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor Geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

2. Pedagoga e Especialista em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É Diretora de Desenvolvimento Educacional do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. E-mail: gecamau@yahoo.com.br.

3. Estudante do Curso de Administração de Empresas da Universidade Federal de Viçosa, Brasil. E-mail: gabianovaes@gmail.com.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Que é Ecologia Profunda?


Por Carlos Cardoso Aveline

A natureza, cuja evolução é eterna, possui valor em si mesma, independentemente da utilidade econômica que tem para o ser humano que vive nela. Esta idéia central define a chamada ecologia profunda – cuja influência é hoje cada vez maior – e expressa a percepção prática de que o homem é parte inseparável, física, psicológica e espiritualmente, do ambiente em que vive.

Na nova era global, milhões de pessoas voltam a perceber que o sentimento de comunhão com a natureza é um dos mais elevados de que o ser humano é capaz, e fonte de grande felicidade. Não é coisa do passado ou um costume do tempo das cavernas. Ao contrário, deverá marcar as civilizações do futuro. Em qualquer tempo histórico, o convívio direto com a natureza foi e será um fator decisivo para o bem-estar físico e psicológico do ser humano.

A expressão ecologia profunda foi criada durante a década de 1970 pelo filósofo norueguês Arne Naess, em oposição ao que ele chama de "ecologia superficial" – isto é, a visão convencional segundo a qual o meio ambiente deve ser preservado apenas por causa da sua importância para o ser humano.

Ao nível superficial, o homem coloca-se como centro do mundo e quer preservar os rios, o oceano, as florestas e o solo porque são instrumentos do seu próprio bem-estar. Quando olha para o meio ambiente com esta preocupação, o homem só enxerga os seus próprios interesses, já que, inconscientemente, se considera a coisa mais importante que há no universo. Olha a árvore e vê madeira. Olha o solo e vê o potencial agrícola ou a possível exploração de minérios. Olha o rio e vê um curso d’água navegável por barcos de determinado porte. Ele sabe que deve preservar os chamados recursos naturais, porque são preciosos. A natureza para ele é um grande cofre, abarrotado de riquezas renováveis, mas que deve ser cuidadosamente preservado. Daí a necessidade de autoridades ambientais atuantes e uma boa legislação que preserve o meio ambiente.

Este nível da consciência ecológica tem importância, porque faz com que os seres humanos questionem seu comportamento econômico e comecem a perceber mais claramente que a ética, afinal, dá bons resultados. A postura mais primitiva, de mera pilhagem, vem sendo deixada de lado em grande parte da economia. As políticas públicas de meio ambiente têm reforçado até hoje prioritariamente este primeiro nível, claramente insuficiente, de consciência ambiental. A multa, a repressão, a aplicação da legislação ambiental e a fiscalização seriam instrumentos muito úteis a curto prazo, se no Brasil a política nacional de meio ambiente não tivesse sido tão persistentemente esvaziada.

Mas as boas notícias são mais fortes que as más. Uma nova consciência empresarial já repensa o conjunto das atividades econômicas a partir da meta de administrar sabiamente, a longo prazo, os recursos naturais. As gerações mais recentes de empresários e executivos trazem consigo uma forte consciência ambiental. Sua atitude é compatível com a descrição holista do universo e com a ecologia profunda. Progresso econômico e bem-estar material deixam de ser inimigos da preservação ambiental ou da busca espiritual. As novas tecnologias permitem aumentar a produção, ao mesmo tempo que se diminui, radicalmente, o impacto ambiental. O verdadeiro progresso econômico – surge agora um consenso em torno disso – deve ser socialmente justo e ecologicamente sustentável. As medidas convencionais e de curto prazo para a preservação ambiental combatem os efeitos da devastação e pressionam pela gradual adaptação das atividades econômicas às leis da natureza. Mas a ecologia profunda dá um sentido maior às estratégias convencionais de preservação. Atacando as causas ocultas da devastação, projeta e estimula o surgimento de uma nova civilização culturalmente solidária, politicamente participativa e ecologicamente consciente.

Em última instância, as causas da destruição ambiental são o individualismo ingênuo, o sentimento de cobiça material sem freios e a ilusão de que o ser humano está separado do meio ambiente, podendo agir sobre ele sem sofrer as conseqüências do que faz. Ter isto claro é importante. No entanto, não basta uma percepção teórica deste dilema ético. Além de compreender intelectualmente o princípio da unidade ecológica de tudo o que há, é oportuno vivenciar e deixar-se inspirar pelo sentimento da comunhão com a natureza. Deste modo, aprende-se a colocar cada um dos processos econômicos e sociais a serviço da vida, já que é absurdo pretender inverter o processo e colocar a vida a serviço deles.

Não há, pois, oposição real entre a ecologia convencional ou de curto prazo e a ecologia profunda ou mística. São dois níveis diferentes de consciência. Ambos são indispensáveis, e são mutuamente inspiradores. Foi em meados da década de 1980 que diversos pensadores – Warwick Fox, Henryk Skolimowski e Edward Goldsmith, além do próprio Arne Naess – começaram a produzir textos variados a partir do ponto de vista da ecologia profunda. A nova física e a nova biologia, com Fritjof Capra, Gregory Bateson, Rupert Sheldrake, David Bohm, e também os trabalhos científicos de James Lovelock e Humberto Maturana, entre outros, deram legitimidade científica à ecologia profunda. Em sua vertente religiosa, esta corrente de pensamento tem ampla base de apoio na tradição mística de todas as grandes religiões da humanidade. São Francisco de Assis, padroeiro da ecologia, está longe de ser uma figura isolada.

Cauteloso, Arne Naess recusou-se a criar um sistema racionalmente coerente – um circuito fechado de idéias – capaz de limitar o conceito de ecologia profunda, e manteve-o como uma idéia aberta segundo a qual a variedade da vida é um bem em si mesma. Para Naess, esta ecologia surge do reconhecimento interior da nossa unidade com a natureza. O fato nem sempre requer explicações e muitas vezes não pode ser descrito com palavras. Mas a ação freqüentemente mostra com clareza o que é ecologia profunda.

Em certa ocasião, um rio da Noruega foi condenado à destruição para que fosse construída uma grande hidrelétrica. As margens do curso d’água seriam inundadas para que se fizesse o lago da barragem. Um nativo do povo Sami recusou-se, então, a sair do lugar. Quando, finalmente, foi preso por desobediência e retirado dali à força, ele não teve opção. Mais tarde a polícia perguntou-lhe por que se recusara a sair do rio. Sua resposta foi lacônica:

"Este rio faz parte de mim mesmo".

O indígena estava certo. O meio ambiente faz, realmente, parte de nós mesmos. São dele o ar que respiramos e a água que compõe 70 por cento do nosso corpo físico. Dele vêm os nutrientes que renovam a cada instante as nossas células. Esta unidade dinâmica não está limitada ao plano material da vida, mas também é psicológica e espiritual, mesmo que alguns de nós não tenham plena consciência disso.

A Vida Secreta da Natureza reúne textos publicados inicialmente nas revistas Planeta, Planeta Nova Era e outras publicações. A seguir, veremos experiências de contato direto com o mundo natural como fonte de inspiração para a alma humana em seu crescimento interior. E também reflexões sobre a proposta de um desenvolvimento ecologicamente sustentável; sobre a cidadania local e global como base para a construção de uma civilização solidária; e sobre a poderosa combinação atual entre o pensamento ecológico, a ciência moderna e a tradição esotérica.
Fonte :http://fabioxoliveira.blog.uol.com.br/