Água: controle no consumo ou efluentes “zero”?

* Wantuelfer Fernandes Gonçalves

Existe hoje um grupo de pessoas muito engajado em salvar o planeta, tentando reduzir o impacto de suas atividades no ambiente. Dentro deste grupo, existe um grande número de pessoas que, embora muito engajados, não estão exatamente preocupados em pensar no que tem que ser feito deixando essa tarefa para os “especialistas” da área. Aproveitando desta situação, diversos oportunistas têm criado produtos com intenção de ganhar esses consumidores, aproveitando do baixo conhecimento dos mesmos, e lançado no mercado produtos de funcionalidade duvidosa[1]. O grande problema é que isso tem criado pontos onde muita gente tem priorizado esforço a fim de desenvolver conhecimentos para atender a fabricação (e o marketing) destes produtos.

Um dos fatores que tem tomado conta da indústria são metodologias para reduzir o consumo de água para se tornarem empresas mais verdes. Algumas técnicas, como o reuso da água, tem gerado para algumas empresas selos de sustentabilidade. Ora, o reuso da água, assim como a redução do seu consumo, torna, em longo prazo, a cadeia produtiva mais barata. Não é um favor ao ambiente que empresa faz, e sim um investimento. Mas a diminuição do uso da água, tanto pelas empresas quanto para os consumidores, tem sido um assunto constante nos debates de sustentabilidade, logo é uma fonte rica para o marketing verde. Pensando nesses debates uma empresa holandesa desenvolveu uma metodologia para calcular o consumo direto e indireto de água, tanto para pessoas quanto para empresas. Essa metodologia se chama Water Footprint (pegada hídrica).

Qual o problema dessa metodologia afinal? Bom, em primeiro lugar devo deixar claro que não é minha intenção desmerecê-la. Acho até muito interessante conhecer o consumo de água. Cabe um estudo mais aprofundado para chegar a qualquer crítica ou elogio, e, ainda assim, os próprios desenvolvedores reconhecem a necessidade de se aprimorá-la. Nesse ponto o máximo que posso fazer é reclamar da existência do calculo rápido (que leva em consideração apenas quatro parâmetros: nacionalidade, gênero, hábito alimentar e renda) que, a meu ver, não possui precisão relevante. Então, novamente, qual é o problema?

Na metodologia nenhum, o problema está na priorização do consumo de água por parte dos consumidores brasileiros. Isso pode ser levado em consideração no Brasil? No meu ver não. Aqui, a disponibilidade supera em muito a demanda (exceto em algumas regiões muito específicas). A preocupação aqui deve ser outra.

Vamos fazer um calculo de economia: Você passa a escovar os dentes usando um copo de água, desliga o chuveiro ao se ensaboar e diminui o tempo de banho. Quanto se economizou de água com isso? Na conta de água bastante. Para o ambiente nada, afinal, a água não utilizada deixou de ser capitada pela empresa de tratamento de água e pode seguir seu curso natural até... o lugar onde se deságua o esgoto. Bom, essa água foi contaminada de qualquer forma.

É importante perceber que a água consumida, apesar deste termo, não some do ambiente. Ela está ciclando. Dizer apenas que se consomem cem ou mil litros por dia não faz diferença. Dentro de uma atividade qualquer, um consumo de mil litros de água, que ao serem utilizados são sujeitos ao tratamento antes de serem devolvidos ao ambiente, é infinitamente melhor que um consumo reduzido de, por exemplo, cem litros de água para onde os efluentes são dispostos em cursos de água naturais e dado a natureza a função de tratá-la. O esforço de todos deveria ser voltado à emissão de efluentes “zero”, e atingindo isso sim pode começar a se condenar consumos elevados.

Wantuelfer Fernandes Gonçalves – Agroecologia 6º P – IF RIO POMBA

Professor – Maurício Novaes Souza

26/09/11



[1] - Essa pratica foi cunhada pela mídia por Greenwatching, em referência a sua tentativa de tornar “verde” um produto que, na verdade, não é.

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