segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Somos sete bilhões ... brasileiros, africanos, americanos, europeus... estamos todos bem?


* Por Maurício Novaes Souza1 e Maria Angélica Alves da Silva2

Foi publicado nas revistas, nos jornais, nas TVs, enfim, em toda a imprensa falada e escrita, exatamente no dia 31 de outubro, o nascimento da criança que nos fez completar sete bilhões de seres humanos em nosso planeta “Terra”. Especularem-se quem foi essa criança e onde tenha nascido - simbolicamente, foi escolhida uma menina que veio ao mundo à zero hora do dia 31 nas Filipinas... mas é um dado simbólico e aproximativo. Entretanto, sem dúvida alguma, e com a chancela da ONU, de fato, somos sete bilhões. Basta dizer isso e surgem diversas perguntas: a terra cabe tanta gente? Há alimento para tantas bocas? Empregos? Saúde? Moradia? Dignidade? Cidadania? Como fica o meio ambiente?

De acordo com Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, em artigo publicado no site ADITAL da cidade de Fortaleza, evidentemente há problemas e a humanidade terá de tomar decisões importantes. Sem dúvida, o maior problema é que a população mundial cresce, principalmente, em países pobres e onde a situação de alimentação, saúde e condições de vida são precárias. Enquanto no Japão e na França a média de vida ultrapassa os 80 anos, em Uganda, Nigéria e em outros países da África, não chega a 48. Em todo o Planeta, mais de um bilhão de pessoas passa fome ou não tem segurança alimentar. Quase um bilhão não tem acesso à água potável suficiente. Em contrapartida, dois cidadãos norte-americanos ricos acumulam uma riqueza maior do que quase todos os países da África possuem para produzir, alimentar e cuidar de suas populações.

O fato é que a Terra sofre com o tipo de organização humana e modelos de produção que lhe pede cada dia mais recursos para sobreviver e preencher suas aspirações ao consumo. Dessa forma, por quanto tempo poderá a terra sobreviver como sistema de vida equilibrado ao modelo de progresso tecnológico do mundo atual? Segundo BARROS, os estudiosos garantem que, sem recorrer a sementes transgênicas e à produção desumana de carne em sistemas intensivos com uso de antibióticos e hormônios, a terra pode alimentar onze bilhões de pessoas. Em tempos passados, Mahatma Gandhi disse: "A terra tem riquezas naturais suficientes para alimentar a humanidade e todos os seres vivos, mas não basta uma terra inteira para saciar a ganância dos que só visam o lucro pessoal e a ambição”. Em termos de espaço, um cálculo de cientistas revela que se colocássemos os sete bilhões de humanos um ao lado do outro, todos caberiam na ilha de São Luiz no Maranhão ou na área urbana da cidade de Los Angeles (Cf. Folha de São Paulo, 30/10/2011).

Então, onde está o grande entrave não nos permite resolver tais questões? Vejamos o caso do Brasil: temos condições excepcionais de clima, solo, riquezas naturais e minerais de dar inveja a qualquer outro país desenvolvido. As condições naturais de nossos ecossistemas permitem que sejamos um dos maiores produtores agrícolas de todo o mundo. Para termos uma idéia da capacidade brasileira de produção agropecuária, segundo Fábio Oliveira, nos últimos 10 anos, enquanto a área plantada no Brasil foi acrescida em 12%, a produção cresceu 99%. Ou seja, a produtividade no campo aumentou 74% nesse período – passamos a produzir muito mais sem que o mesmo percentual de novas áreas de lavoura tenha sido incorporado ao processo produtivo. Podemos dizer que o crescimento da produção agrícola se deve ao aumento do uso de novas tecnologias no campo. Houve o emprego de equipamentos modernos em todo o processo produtivo, uso de agroquímicos, além de tecnologias e máquinas que realizam o controle do plantio à colheita, são alguns exemplos dessa nova forma de produção, que há de se considerar ser bastante agressiva ao meio ambiente e questionável. Entretanto, mesmo com esse aumento na produção de alimentos, ainda temos um enorme contingente de famintos no Brasil. Contrapõe-se a este fato uma triste realidade: todos os dias 39 mil toneladas de comida vão para o lixo no Brasil. Infelizmente, ao mesmo tempo em que o país produz muito mais no campo, aumenta-se o consumo de produtos alimentícios por uma pequena parcela da população, aumenta a quantidade de produtos jogados no lixo, que poderiam alimentar quem sofre com a fome no país. Ou seja, o problema está na má distribuição de renda no país.

O desperdício é gerado na colheita, no transporte, nos restaurantes, mercados, feiras, fábricas, quitandas, açougues e até mesmo dentro de nossa própria casa. Segundo Oliveira, o que se joga fora é suficiente para dar café, almoço e jantar diariamente a milhões de pessoas. Enquanto toda essa comida é jogada no lixo, mais de 44 milhões de brasileiros vivem na linha da miséria, passando fome. Daí a importância de campanhas que combatam o desperdício. Aproveitem esse fim de ano, aproximando-se o NATAL, faça uma pesquisa em sua casa, em sua escola, em seu bairro, veja o quanto de comida é desperdiçado. Discuta com seus parentes e amigos formas de diminuir esse desperdício e de ajudar àqueles que não têm nada para comer. Infelizmente, o Brasil e a maioria dos países desenvolvidos em todo o mundo, vivem-se o desperdício, o egoísmo, a falta de respeito ao próximo e a ignorância sem limites... O que poderá acabar com a fome, a miséria e a violência, particularmente nos países pobres e naqueles em desenvolvimento, como o Brasil, será, prioritariamente: reforma agrária ampla, distribuição justa de renda e riqueza, educação de qualidade (para todos) e saneamento básico.

Cientificamente comprovado, temos a consciência de que pertencemos a uma única família humana. Asiáticos, africanos, latino-americanos, europeus ou norte-americanos: temos o mesmo tipo de organismo, as mesmas fragilidades e uma necessidade comum a todos - a de amar e sermos amados. Muitos propõem um programa rígido de limitação de nascimentos; entretanto, isso não é suficiente e profundo para resolver tais questões: vejam o caso da Europa... Segundo Oliveira (http://fabioxoliveira.blog.uol.com.br/), o mais urgente é refazer as regras da convivência social, reformar a ONU para lhe dar poder de defender a justiça internacional e garantir o direito e a dignidade dos países pobres, assim como conceber um modelo de desenvolvimento baseado na justiça sócio-ambiental e no respeito à natureza. Formamos, com todos os seres vivos, uma só comunidade terrena. Segundo Leonardo Boff, com o qual plenamente faço anuência, quem pertence a alguma tradição religiosa e todas as pessoas comprometidas com a paz e a justiça, sentem-se chamados (as) a colaborar para a construção desse mundo renovado, no qual o direito, a justiça e a paz possam brotar como flores de um jardim bem cultivado.

1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

2. Mestranda em Extensão Rural na UFV, Pedagoga e Especialista em Agroecologia do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e. E-mail: maria.angelica@ifsudestemg.edu.br.

sábado, 5 de novembro de 2011

Água: controle no consumo ou efluentes “zero”?

* Wantuelfer Fernandes Gonçalves

Existe hoje um grupo de pessoas muito engajado em salvar o planeta, tentando reduzir o impacto de suas atividades no ambiente. Dentro deste grupo, existe um grande número de pessoas que, embora muito engajados, não estão exatamente preocupados em pensar no que tem que ser feito deixando essa tarefa para os “especialistas” da área. Aproveitando desta situação, diversos oportunistas têm criado produtos com intenção de ganhar esses consumidores, aproveitando do baixo conhecimento dos mesmos, e lançado no mercado produtos de funcionalidade duvidosa[1]. O grande problema é que isso tem criado pontos onde muita gente tem priorizado esforço a fim de desenvolver conhecimentos para atender a fabricação (e o marketing) destes produtos.

Um dos fatores que tem tomado conta da indústria são metodologias para reduzir o consumo de água para se tornarem empresas mais verdes. Algumas técnicas, como o reuso da água, tem gerado para algumas empresas selos de sustentabilidade. Ora, o reuso da água, assim como a redução do seu consumo, torna, em longo prazo, a cadeia produtiva mais barata. Não é um favor ao ambiente que empresa faz, e sim um investimento. Mas a diminuição do uso da água, tanto pelas empresas quanto para os consumidores, tem sido um assunto constante nos debates de sustentabilidade, logo é uma fonte rica para o marketing verde. Pensando nesses debates uma empresa holandesa desenvolveu uma metodologia para calcular o consumo direto e indireto de água, tanto para pessoas quanto para empresas. Essa metodologia se chama Water Footprint (pegada hídrica).

Qual o problema dessa metodologia afinal? Bom, em primeiro lugar devo deixar claro que não é minha intenção desmerecê-la. Acho até muito interessante conhecer o consumo de água. Cabe um estudo mais aprofundado para chegar a qualquer crítica ou elogio, e, ainda assim, os próprios desenvolvedores reconhecem a necessidade de se aprimorá-la. Nesse ponto o máximo que posso fazer é reclamar da existência do calculo rápido (que leva em consideração apenas quatro parâmetros: nacionalidade, gênero, hábito alimentar e renda) que, a meu ver, não possui precisão relevante. Então, novamente, qual é o problema?

Na metodologia nenhum, o problema está na priorização do consumo de água por parte dos consumidores brasileiros. Isso pode ser levado em consideração no Brasil? No meu ver não. Aqui, a disponibilidade supera em muito a demanda (exceto em algumas regiões muito específicas). A preocupação aqui deve ser outra.

Vamos fazer um calculo de economia: Você passa a escovar os dentes usando um copo de água, desliga o chuveiro ao se ensaboar e diminui o tempo de banho. Quanto se economizou de água com isso? Na conta de água bastante. Para o ambiente nada, afinal, a água não utilizada deixou de ser capitada pela empresa de tratamento de água e pode seguir seu curso natural até... o lugar onde se deságua o esgoto. Bom, essa água foi contaminada de qualquer forma.

É importante perceber que a água consumida, apesar deste termo, não some do ambiente. Ela está ciclando. Dizer apenas que se consomem cem ou mil litros por dia não faz diferença. Dentro de uma atividade qualquer, um consumo de mil litros de água, que ao serem utilizados são sujeitos ao tratamento antes de serem devolvidos ao ambiente, é infinitamente melhor que um consumo reduzido de, por exemplo, cem litros de água para onde os efluentes são dispostos em cursos de água naturais e dado a natureza a função de tratá-la. O esforço de todos deveria ser voltado à emissão de efluentes “zero”, e atingindo isso sim pode começar a se condenar consumos elevados.

Wantuelfer Fernandes Gonçalves – Agroecologia 6º P – IF RIO POMBA

Professor – Maurício Novaes Souza

26/09/11



[1] - Essa pratica foi cunhada pela mídia por Greenwatching, em referência a sua tentativa de tornar “verde” um produto que, na verdade, não é.