Fome: falta de alimentos ou erros do modelo de produção capitalista?


Joara Secchi Candian1 e Maurício Novaes Souza2


A atual produção mundial de alimentos é superior à capacidade de consumo dos seres humanos; entretanto, esta já se encontra seriamente ameaçada em função do uso predatório dos recursos existentes. Se não bastasse, as produções agrícolas sofrem a ação constante de desperdícios desastrosos. Por estas questões, são inúmeras as regiões que enfrentam a fome como inimigo maior. Assim, podemos constatar que a fome não resulta de uma baixa produtividade ou de pouca produção de alimentos no mundo. A miséria advém da desigualdade do modelo de crescimento mundial, que levam alguns poucos países a um consumo excessivo, enquanto que a maior parte da população mundial, à pobreza e à fome. A realidade brasileira não é muito diferente dos padrões mundiais, uma vez que em nosso país o problema da fome não é, primordialmente, uma questão de oferta, mas sim de demanda, dada a enorme desigualdade existente no país e a consequente marginalização de grande parte da população.

Até 2030, as estimativas da FAO sugerem que 57 milhões de hectares adicionais serão utilizados para cultivo na África e 41 milhões de hectares na América Latina, representando aumentos de 25% e 20%, respectivamente. Essa expansão deve ocorrer necessariamente por meio de mais conversões de florestas e bosques ou pela conversão de áreas frágeis da zona semi-árida em terras próprias para cultivo. Ambas alternativas são graves motivos de preocupação ambiental. A degradação da terra leva a uma redução significativa de sua capacidade de produção. As atividades humanas que contribuem para a degradação do solo incluem o uso inadequado de terras agrícolas, práticas inadequadas de manejo da água e do solo, desmatamento, remoção da vegetação natural e redução da biodiversidade, uso frequente de maquinário, excesso de pastoreio, rotação incorreta de cultivos e práticas de irrigação inadequadas. Responsabilizando cada um dos setores, se observa que a agropecuária merece destaque negativo nesse ranking.

Nesse cenário, como está a situação em nosso país? A agricultura brasileira tem frequentado com assiduidade as páginas econômicas, pelo menos por intermédio de três temas: a) sua contribuição no crescimento da produção; b) sua posição no esforço e no aumento da exportação; e c) sua responsabilidade na situação do abastecimento do mercado doméstico e no crescimento dos índices de custo de vida. Contudo, o Brasil produz excessivamente monoculturas cuja produção é destinada à exportação; ou seja, produtos que, em sua maioria, não são consumidos pelos brasileiros. Por outro lado, o país vê, ano após ano, ser reduzida a produção de arroz, de feijão e de mandioca, produtos que constituem a nossa base alimentar. Em anos recentes, passamos a importar alguns produtos de nossa cesta básica com recursos das chamadas divisas do superávit da balança comercial resultante das exportações agrícolas.

Tal procedimento tem como consequência o aumento nas desigualdades sociais: contribuem para a concentração de renda nos países ricos e para o aumento da fome nos países pobres. Para exemplificar, o Brasil é o maior produtor de café em grão do mundo; no entanto, a Alemanha, país mais rico da Europa, é o maior exportador de café refinado do mundo sem produzir um único grão do referido produto. Nas últimas décadas a opção da agricultura moderna tem sido fortemente mediada pela questão da escala de produção. A mecanização intensiva pressupõe grandes áreas cultivadas que possam responder economicamente ao capital aplicado. Fertilizantes químicos, agrotóxicos e sementes geneticamente melhoradas completam o padrão tecnológico vigente, e são compatíveis com as grandes monoculturas. O conjunto sementes melhoradas e uso intensivo de agroquímicos, nos dias atuais, é sinônimo de uniformidade genética e lucro garantido; porém, com maior vulnerabilidade às pragas e doenças, e, portanto, maior risco à saúde e aos danos ambientais. No atual modelo de produção, as indústrias de insumos agrícolas causam graves danos ambientais; contudo, em função das pressões que vêm recebendo, em todo o mundo, dão indícios de uma preocupação inicial na alteração na sua forma de agir. Ou seja, estão abertas novas alternativas na agricultura para mudanças na forma de se produzir.

O fato é que a produção de alimentos terá de aumentar em 70% até 2050 para suprir a expansão da população mundial. Caso não sejam adotadas medidas urgentes, prevê-se que cerca de 370 milhões de pessoas poderão passar fome daqui a 40 anos. O padrão tecnológico está em transição, em fase de mudanças. A questão está em qual será a nova direção do progresso técnico na agricultura e se existe espaço para uma agricultura sustentável em bases científicas, com condições de competir com a agricultura convencional da “Revolução Verde”. Como novo paradigma, a “Agroecologia” é uma ciência que surge para propor um modelo de produção agrícola baseado nas técnicas de manejo e cultivo de forma tradicional, respeitando e valorizando os conhecimentos do homem do campo e sua relação com o meio ambiente e os recursos naturais, objetivando o tão propalado “Desenvolvimento Sustentável”.

1. Bacharel em Agroecologia – 6º período – Instituto Federal Sudeste de Minas campus Rio Pomba. E-mail: joara@live.com.

2. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental; e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

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