Sustentabilidade - A cidade do futuro

Entrevista à Revista da ACIRP - Associação Comercial de Rio Pomba - 24-10-2012



Sustentabilidade - A Cidade do Futuro

As grandes cidades brasileiras têm crescido e funcionado de forma descontrolada. Nossa sociedade vive sujeita à poluição, depara-se com trânsito caótico, desmata, polui e interfere de maneira predatória na natureza. A falta de planejamento para o crescimento responsável e gestão de nosso sistema urbano atinge de forma negativa em nossa qualidade de vida e impacta, gravemente, o nosso futuro. O impacto disto influencia a temperatura, a umidade, o vento e a própria pressão atmosférica sobre as regiões urbanas.
Ao nos depararmos com tantos problemas, encontramos também muitas possibilidades de soluções que atenuariam o impacto de nossa existência, principalmente para o bem do planeta. A ideia é criar as chamadas cidades sustentáveis, a “cidade do futuro”. A essência da ideia se baseia em melhorar a qualidade de vida dos moradores, explorando de maneira responsável seus recursos naturais.
Para o desenvolvimento dessas cidades seriam tomadas atitudes, tais como a construção ou reestruturação de pequenos bairros, onde haveria centros de convivência com escolas, hospitais, comércio, para que os habitantes não perdessem tempo com deslocamento. Incentivos para conscientização em diminuição de gastos com água e energia, desenvolvendo maior autossuficiência dos mesmos, de tal forma a converter energia solar em luz elétrica e utilizar energia eólica. O aquecimento de água seria feito por intermédio de painéis solares, excluindo o uso de chuveiros elétricos.  A coleta seletiva e reciclagem do lixo, atrelados a tratamento de grande parte de seus resíduos, junto com tratamento de esgoto, diminuiriam os danos causados aos rios e mares. O meio de transporte público adotado seria o metrô, com ônibus circulando apenas em rotas específicas e reduzidas. Carros passariam a ser elétricos, como medida de redução da emissão de poluentes; e seriam criadas ciclovias para pedestres e ciclistas. Revitalização e criação de mais espaços verdes. E, em vez de asfalto, as ruas seriam pavimentadas com blocos permeáveis, facilitando a infiltração da água e ajudando a prevenir alagamentos.
Em suma, a cidade traria mais qualidade de vida a seus habitantes, além de beneficiar a natureza, uma vez que todos os recursos utilizados teriam formas simples de serem reaproveitados. Agora, cabe a nós, cidadãos, a reflexão de todos nossos atos e hábitos, para só então realizarmos todas essas mudanças. Antes da reestruturação de cidades e das formas de energia e geração de lixo, precisamos reestruturar o pensamento e omodo como interagimos com o meio ambiente.


Entrevista

1 - No seu ponto de vista, essas mudanças estão muito longe de serem concretizadas?
A natureza era considerada fonte inesgotável de recursos até meados do Século XX. Acreditava-se que existia para ser estudada, compreendida e explorada, desde que fosse utilizada em benefício da humanidade e suprisse seus ilimitados desejos. Observa-se o eterno dilema entre desenvolvimento econômico e preservação/conservação da natureza. Para agravar a situação, o avanço tecnológico apontava que existiriam soluções para todos os problemas. Depois da enorme degradação resultante de tais procedimentos e pensamentos, a sustentabilidade deixou de ser modismo e desponta como tendência no mundo para um novo modelo de desenvolvimento econômico, para uma “economia verde”, inclusiva e responsável, que exige a adoção de uma série de medidas.

2 - Você acha possível adotar todas essas medidas?
O início deste Século e milênio nos impõe a urgência de pensarmos novas alternativas diante do mundo, das relações e, portanto, das organizações. Dependemos de pensamentos e ações que determinam nossa cultura e, ao mesmo tempo, são determinados por ela. As sociedades, em sua diversidade múltipla, ditam regras e normas que são aceitas e incorporadas moralmente pelas comunidades, no intuito, cada vez mais frequente, de adequar e unificar procedimentos e critérios, que não apenas distinguem os povos, mas, sobretudo, aproximam os indivíduos membros de um grupo.
Dessa forma, nos dias atuais, para que tais medidas sejam adotadas, as lideranças mais responsáveis, sejam elas oriundas da administração pública, do meio empresarial ou do terceiro setor, não deveriam divergir sobre a necessidade de continuarmos a gerar atividade econômica que permita garantir a sobrevivência de nosso Planeta: que passará dos atuais 7 bilhões de habitantes para 9 bilhões em um horizonte inferior a 30 anos. Há de se considerar que o ano de 2010 representou um marco no qual pela primeira vez na história da humanidade a população urbana superou a população rural. Recentemente, o cenário mundial tem sido pautado por exigências de todos os envolvidos (stakeholders): sociedade civil, investidores, financiadores e consumidores, que obrigam as empresas, as corporações, o setor público, todos enfim, a considerarem o impacto de suas atividades em seus procedimentos diários, mitigando-os, reduzindo-os, eliminando-os.

3 - Quais iniciativas precisam ser tomadas para iniciar esse processo de mudança das cidades atuais para as cidades sustentáveis?
A educação é fundamental. Da população e dos setores produtivos. Para exemplificar, os setores imobiliários e da construção civil, atividades que mais geram resíduos, contribuem massissamente na produção de gases de efeito estuda e alteram o meio ambiente; as exigências se acentuam pelo elevado impacto ambiental e social das atividades da extração de matérias-primas, fabricação de materiais, projeto, construção e uso e operação de edificações, empreendimentos e obras pesadas, até ao final da vida útil das edificações. A sustentabilidade, no entanto, não se restringe às questões ambientais. Os resultados financeiros e os resultados sociais gerados pelas empresas, permeados pela ética e responsabilidade social e empresarial, são fundamentais para o desenvolvimento sustentável do setor da construção e do mercado imobiliário, com a parceria e fiscalização do setor público (não conivência, como se tem observado).
Na elaboração da “Agenda 21”, nasceu um movimento denominado de “Construção Sustentável”, que visa o aumento das oportunidades ambientais para as gerações futuras e que consiste em uma estratégia ambiental com visão holística. Repensa toda a cadeia produtiva e leva em consideração os processos produtivos, com preocupações extensíveis à saúde dos trabalhadores envolvidos no processo e considera os consumidores finais das edificações. Fundamenta-se na redução da poluição, na economia de energia e água, na minimização da liberação de materiais perigosos no ambiente, na diminuição da pressão de consumos sobre matérias-primas naturais, no aprimoramento das condições de segurança e saúde dos trabalhadores, e na qualidade e custo das construções para os usuários finais.
O atual momento exige que as empresas e os empresários se tornem cada vez mais aptos a compreenderem e participarem das mudanças estruturais que abrangem os aspectos econômicos, ambientais e sociais. Em alguns países, em algumas cidades, as companhias estão sendo incentivadas pela administração pública a gerenciar seu sistema produtivo de tal forma que se evite a ocorrência de impactos ambientais e sociais, por meio de estratégias apropriadas. Nos últimos anos houve progressos surpreendentes na área de gerenciamento ambiental. Mais recentemente, o mesmo ocorreu quanto à conscientização sobre a responsabilidade social e a crescente compreensão dos desafios de se produzir e de se viver sustentavelmente.

4 – Para você, qual cidade brasileira está mais próxima dessas mudanças?
            Poucas são as cidades brasileiras que adotam, de fato, o pacote de medidas citados acima. Contudo, sem dúvidas, a cidade de Curitiba, capital do Paraná, por ser uma grande cidade, é sem dúvida aquela que pode ser considerada um modelo. Foi a primeira cidade brasileira que trabalhou de forma responsável tais conceitos relativos à sustentabilidade. À época, seu prefeito, o urbanista Jaime Lerner, foi o grande idealizador desse novo modelo.
Recentemente, nesse ano de 2012, o “Mother Nature Network” (órgão internacional que analisa em todo o mundo a sustentabilidade das cidades) fez uma nova lista das cidades mais verdes do mundo. Para entrar no ranking, não bastava apenas apresentar sistemas de coleta de lixo, meio de transporte alternativo ou programas de reflorestamento. O município precisava ser um exemplo completo de desenvolvimento sustentável para outros grandes centros urbanos. O Brasil estava representado no Top10: Curitiba aparece como a sexta cidade mais verde do mundo! Entre os pontos destacados estão os 16 parques, 14 bosques e  mais de 1000 espaços verdes urbanos; a legislação ambiental, que protege a vegetação local; os 70% dos resíduos reciclados; o plantio de 1,5 milhão de árvores em suas vias e estradas.
Há também pequenas cidades, como Gramado e Canela, no Rio Grande do Sul; Castelo, no Espírito Santo; entre outras. Considerando o índice “Qualidade de Vida”, as três primeiras cidades brasileiras são do interior paulista: Araraquara, Indaiatuba e Vinhedo. Mas são exceções; afinal, temos 5.564 municípios no Brasil.

5 – Você acredita que as pessoas se adaptariam a esse novo modelo de vida?
Não há dúvida que sim. Entretanto, a vida contemporânea nos coloca a possibilidade da reflexão sobre a necessidade de se adotarem nova postura e comportamento, que são influenciados pelo modo de pensar. Dizendo de uma forma mais simples, os pensamentos determinam as práticas que se estabelecem e se desenvolvem nas sociedades. Cada vez mais, a urgência e as mudanças céleres nas diversas áreas do conhecimento nos indicam que a aprendizagem dos indivíduos está em toda parte e em todos os tempos. Já compreendemos que é necessário mudar, criar novas alternativas e desenvolver critérios e procedimentos éticos diversificados, para sobrevivermos ao caos. É preciso resistir e manter viva a esperança de transformação, num mundo cada vez mais excludente e violento.
Infelizmente, estamos vivendo uma grave crise mundial, um processo mundialmente desequilibrado, crise econômica e de valores éticos, mesmo com avanços visíveis, como no Brasil. Apesar de já existirem, são poucos os países, as empresas, que estão levando a sustentabilidade sob uma abordagem holística, integral. De fato, poucas empresas observam esse aspecto, onde se ouve muito discurso e pouca prática. No presente momento, ainda não é possível se acreditar em sustentabilidade, pois não se vê as empresas com atitudes verdadeiramente humanistas e ambientalmente preocupadas no ambiente de trabalho. É fundamental que ao lado de um grande programa de capacitação da população, devêssemos criar outro de fortalecimento das micro e pequenas empresas. Elas podem ser a ferramenta mais importante para que se tenha um desenvolvimento econômico e social equilibrado, com diminuição das disparidades entre ricos e pobres e melhor distribuição de renda. Isso seria muito bom para todos os setores produtivos da economia.
As Instituições de Ensino e Pesquisa, como aquela onde trabalho, o Instituto Federal Sudeste de Minas, campus Rio Pomba, e tantas outras Organizações|Instituiçoes dispersas por todo o Brasil, poderão contribuir significativamente nesse processo de desenvolvimento e implantação de um novo modelo. Quanto às empresas, várias têm demonstrado que é possível ganhar dinheiro, proteger o meio ambiente e ser socialmente responsável: é uma questão de opção e atitude – dependerá de cada um de nós.


* Professor MAURÍCIO NOVAES SOUZA , é Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela UFViçosa. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Assessor da FAPEMIG. É autor de centenas de artigos, livros e responsável pela Coluna "Ambiente Sustentável" no Zwela Angola, Houston, EUA; e da coluna “Ambiental” do Informativo da ACIRP, desde 2006. Visite o Blog do Prof. Novaes Souza. (www.mauriciosnovaes.blogspot.com).



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http://www.siemens.com.br/desenvolvimento-sustentado-em-megacidades/

Alessandra Ribeiro

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