terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Concentração de riqueza = violência + corrupção + desigualdades sociais + problemas ambientais


* Maurício Novaes Souza

Em 2016, o grupo composto pelo 1% mais rico da população mundial deterá mais riquezas do que todo os demais 99% da população mundial; entre os 62 milionários que concentram riqueza equivalente a metade da população da Terra, 2 são brasileiros.  O fato é que a riqueza global está cada vez mais concentrada nas mãos de uma pequena e rica elite, que criou e manteve a sua vasta fortuna a partir de atividades das áreas econômica, financeira e saúde. Empresas destes setores gastam milhões de dólares por ano em atividades de lobby que visem promover um ambiente regulatório que protege e fortalece ainda mais os seus interesses. A maior parte do lobbying realizado nos EUA tenta influenciar as questões orçamentárias e fiscais, sobre os recursos públicos, que deveriam ser orientadas para beneficiar todos os cidadãos, em vez de refletir os interesses dos lobistas poderosos. Verdade seja dita: o Homem inventou modos de ficar rico à custa da precariedade, pobreza e miséria de outros homens. Assim, os poderes e os privilégios estão sendo usados para distorcer o sistema econômico, aumentando a distância entre os mais ricos e o restante da população.

Nessa semana começará o Fórum Econômico Mundial de Davos (Suíça) - de quarta-feira (20) a sábado (23), e reunirá líderes mundiais. Estudo divulgado pela ONG britânica OXFAM INTERNATIONAL, de combate à pobreza, pretende impactar o Fórum mostrando a necessidade de reverter o quadro mundial a cada ano mais favorável à concentração de riqueza. Caso nada seja feito, a concentração de riqueza no mundo poderá se radicalizar ainda mais, se governos, sociedades e os organismos financeiros multilaterais não adotarem ou reforçarem suas políticas de distribuição de renda. Um relatório divulgado por essa ONG aponta que em 2016 o grupo com 1% das pessoas mais ricas do planeta vai superar as posses dos 99% mais pobres. Em 2014, enquanto o grupo de 1% mantinha 48% de toda a riqueza, os 99% mais pobres detinham 52%. Desde 2010, esses números seguem tendências inversas, que favorecem a concentração: o estudo prevê que em 2016 os mais ricos vão superar 50% da riqueza total do mundo.

Por conta desses dados, a Oxfam, cuja diretora-geral, Winnie Byanyima, co-presidirá o Fórum em Davos, exigiu "a realização, este ano, de uma cúpula mundial para reescrever as regras fiscais internacionais". Segundo Winnie, "a amplitude das desigualdades mundiais é vertiginosa", para quem "o fosso entre as grandes fortunas e o resto da população aumenta rapidamente". Um detalhe que o relatório observa é que, no universo dos mais pobres, que o modelo de concentração também se reproduz. Dos 52% de riqueza do grupo, quase a totalidade está na mão dos 20% mais ricos, enquanto 80% da população contam com apenas 5,5% da riqueza para garantir a sua sobrevivência. O relatório, cuja base temporal compreende o período de 2010 a 2020, cita que a lista da Forbes com as 80 pessoas mais ricas do planeta também segue ritmo de concentração. Em 2010, esse grupo detinha 1,3 bilhão de dólares, cifra que em 2014 subiu para 1,9 bilhão de dólares. Atualmente, essas 80 pessoas possuem a mesma riqueza de 50% da população, que compreende 3,5 milhões de pessoas. Considerando a referência de 50% da riqueza, vê-se também que o grupo de 80 pessoas tende a diminuir. Em 2010, um grupo de 388 pessoas detinha 50% da riqueza mundial, número que caiu para 80 no ano passado. Entre as razões da concentração de riqueza, o relatório destaca os setores econômicos que têm contribuído para esse estado que espelha a injustiça social.

            Como agravante, há de se considerar, a população mundial aumentará 37,3% até 2050, passando dos atuais 7 bilhões de habitantes para 9,2 bilhões (2,5 bilhões a mais), o que equivale à população mundial de 1950. Este aumento será absorvido, na sua maioria, pelos países em desenvolvimento, que devem passar de 6,1 bilhões de habitantes em 2016 para 7,9 bilhões de habitantes em 2050. Tal crescimento preocupa em termos de trabalho e de produção de alimentos que garantam a segurança alimentar. Prevê-se que os impactos e externalidades ambientais serão inestimáveis nos países em desenvolvimento. Um grupo de ecólogos e economistas dos Estados Unidos afirmou que o consumo e a destruição de recursos da natureza por parte dos ricos entre as décadas de 1960 e 1990 deverão impor ao longo do século XXI uma perda de US$ 7,4 trilhões da economia de países de renda per capita baixa e média. A dívida externa dos países pobres nesse mesmo período atingiu US$ 1,7 trilhão. O estudo aponta ainda um novo número do prejuízo que o dano ambiental no período estudado causará à humanidade: US$ 47 trilhões.

O que se verifica, de forma clara, é que esse cenário representa a degradação social e ambiental: a riqueza e a pobreza; a opulência e a miséria. Dessa forma, percebe-se que apesar do “progresso”, da maior conscientização das pessoas e da pesquisa ter evoluído significativamente nos últimos tempos, os problemas sociais e ambientais vêm se agravando de forma considerável. Na verdade, os governos, as comunidades e os indivíduos não têm efetivamente adotado uma postura proativa. A Revolução Industrial criou o modelo de capitalismo atual, cujos processos de produção consideravam como pólos excludentes o homem e a natureza, com a concepção desta como fonte ilimitada de recursos à sua disposição. Esses problemas se tornam mais graves nos países subdesenvolvidos ou periféricos, onde a crise socioambiental está diretamente associada ao esgotamento de sua base de recursos. As lideranças mundiais devem assumir um compromisso mais efetivo de pôr fim aos paraísos fiscais e a regimes tributários prejudiciais, e reconhecer, definitivamente, que o atual modelo precisa ser modificado.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), é professor do IF Sudeste campus Rio Pomba. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.