A degradação ambiental e os limites do crescimento


Por Maurício Novaes Souza1 e Jozilene das Mercês Mota Ferreira2

No dia 22 de março se comemorou o “Dia Mundial da Água”. Como se pergunta a todo ano, existe motivo real para comemoração? Ou teríamos pretextos suficientes para promover um dia de luto? Na verdade, o modelo de desenvolvimento atual e como ele afeta as populações foi um dos temas discutidos no recente Fórum Social, em Belém. Nesse encontro se estabeleceram metas para a elaboração de um novo modelo de desenvolvimento e crescimento econômico. Contudo, o seu sucesso dependerá da participação e esforço de cada um dos habitantes de nosso planeta, posto que as atitudes individuais que trarão soluções sustentáveis para os problemas relativos às questões sociais e ambientais.

Tal análise se justifica pelo fato de que o meio ambiente está passando por uma crise sem precedentes. Em grande parte, o principal responsável é o modelo de desenvolvimento adotado pela maioria dos países, que tem os EUA como seu maior representante. Para agravar ainda mais a situação, a atual crise econômica mundial tem trazido como solução o estímulo ao consumo – situação ainda mais ameaçadora às atuais situações ambientais. Esse modelo visa, efetivamente, a geração de lucros imediatos. Socialmente e ambientalmente não é sustentável.

Socialmente - 20% da população utilizam ¾ dos recursos naturais, sendo que os 80% mais pobres utilizam apenas ¼ desses recursos. Tal comportamento tem gerado a degradação dos recursos naturais... a continuar dessa forma, as gerações futuras não terão onde e nem como produzir para se sustentarem. Ambientalmente, considerando a Pegada ecológica (índice que expressa a área produtiva necessária para sustentar o consumo de recursos e assimilação de resíduos de uma dada população) mostra que há 1,8 hectare de área disponível para cada habitante, dentro do padrão que se pode considerar sustentável. No entanto, o consumo global atual apresenta uma média de consumo relativo a 2,2 hectares por habitante. Ou seja, o ambiente está sendo usado além de sua capacidade de suporte e de reposição.

Analisando os EUA, verifica-se que o seu padrão de consumo é de 9,6 hectares por habitante, sendo que sua capacidade é de apenas 4,7 hectares por habitante. Pergunta-se, então, de onde eles retiram esses recursos para manter consumo tão elevado? A resposta está na exploração de outros países que tem uma capacidade maior, como o Brasil. Se todos os habitantes tivessem o mesmo padrão de consumo dos EUA, seriam necessários 6 planetas iguais a Terra para atender à tal demanda.

Estas foram as questões que estimularam no mês de fevereiro desse ano representantes de 160 países se encontrarem em Belém do Pará, para avaliarem os grandes problemas ambientais e sociais durante o Fórum Social Mundial. Foram discutidos temas associados à crise financeira, ao aquecimento global, às doenças associadas à ausência de saneamento ambiental, entre outras. Esses encontros representam o início da mobilização da população mundial, embora saibamos que ainda há muito que se fazer. O Tratado de Quito é um exemplo da inconsequente irresponsabilidade dos países que têm elevada liberação de gases poluentes e de efeito estufa, que não o assinam e não o adotam.

Nos dias atuais, percebe-se que o crescimento urbano e industrial nem sempre significa desenvolvimento humano: particularmente nos países em industrialização, vem acompanhado de desigualdade de acesso aos itens básicos necessários a uma sobrevivência digna, tais como à educação, à alimentação e à saúde. A falta do saneamento nas cidades, em níveis mínimos que assegurem o bem-estar das populações, tem gerado um quadro de degradação do meio ambiente urbano sem precedentes, sendo os recursos hídricos um dos primeiros elementos integrantes da base de recursos naturais a sofrer tais efeitos. Por esta razão, não há curso d’água que esteja próximo ou que passe por alguma cidade que não esteja poluído, sendo o grau de poluição diretamente proporcional à população e ao nível de atividade produtiva da cidade.

Respondendo à pergunta inicial: teve-se o que comemorar neste dia 22 de março de 2009? Pensamos que ainda não existe motivo para pleno luto, mas é muito cedo para comemorações, apesar das inúmeras iniciativas governamentais e organizacionais. Deve-se refletir sobre a necessidade urgente de abandono às concepções anacrônicas ligadas à produção e ao consumo, adotando a sustentabilidade sócio-ambiental nas ações públicas e privadas, em todos os níveis, do local ao global.

Como sempre lembra Leonardo Boff, caso não se cuide do planeta como um todo, poderá submetê-lo à destruição de suas partes e inviabilizar a própria vida. Há inúmeras evidências que existem limites para o crescimento econômico. É preciso reverter a atual situação rapidamente, necessitando, portanto, da contribuição de todos. Essas deverão ser as propostas de um novo modelo guiado pelos princípios do “Desenvolvimento Sustentável”.


1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do IFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM - Zona da Mata, MG e do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.
2. Estudante do Curso de Técnico em Meio Ambiente do IFET/RIO POMBA.

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