Questões Educacionais e culturais - SOLETRANDO 2010

“KIRSCH” É POBREZA VOCABULAR

* Por DALVA DIAS MAGALHÃES

O combate ao estrangeirismo na Língua Portuguesa vem sendo alvo de discussões ao longo da década. Essa mania de utilizar palavras e expressões em outras línguas foi ganhando dimensão e tornou-se comum na paisagem urbana brasileira.

Em 2001, o deputado Aldo Rebelo criou um projeto de lei combatendo tal uso, o que provocou polêmica nacional. Para muitos era difícil condenar ações que promovessem a defesa do idioma.

No entanto, defender e valorizar a Língua como Patrimônio Nacional e elemento de identidade mais importante que a própria Bandeira é tarefa de todos que dela fazem uso – em especial – programas de caráter educativo como o quadro “SOLETRANDO’, do Caldeirão do Hulck , da Rede Globo de Televisão.

Vale lembrar ainda a orientação dada por alguns mestres da Língua Portuguesa para se evitar o uso de certos estrangeirismos como forma de valorização da cultura e preservação das raízes.Tais palavras vão sendo inseridas no contexto da língua por fatores diversos: econômicos, culturais ou até mesmo por sermos um país que respira até hoje resquícios de colônia e, naturalmente, não consegue se firmar como nação independente.

Desta forma o quadro “ SOLETRANDO” que prima pelo bom uso do Português, concedendo oportunidades a estudantes de escolas públicas e buscando talentos escondidos em todos os rincões deste imenso país, eliminar o Estado de Minas Gerais, através de seu representante Daniel Nepomuceno Coutinho, utilizando um vocábulo de origem alemã, desconhecido pela maioria dos brasileiros, constitui uma imensa pobreza vocabular.

Ele que demonstrou segurança no domínio da Língua Portuguesa --- com suas peculiaridades ortográficas de maior ou menor complexidade --- e ultrapassou até mesmo os limites do Novo Acordo Ortográfico vigente, num talento todo especial.

Ao depararmos com um vasto universo cultural contido nos clássicos da Literatura Brasileira, através de obras e autores imortais como, por exemplo, o nacionalismo de José de Alencar e o regionalismo de Guimarães Rosa, até a originalidade de João Ubaldo Ribeiro e Raquel de Queirós --- viajando pelas escolas literárias do Trovadorismo até a contemporaneidade ---, nos perderíamos num labirinto de infinitas palavras, dispensando qualquer estrangeirismo como “ KIRSCH”, por exemplo. Seria ainda faltar com a ética o uso da palavra cujo significado é inadequado em um programa dedicado a crianças e adolescentes. Tal bebida aguçou a curiosidade de alguns de nossos alunos do Ensino Fundamental II que despertaram o desejo de prová-la.

Detentor de um profundo conhecimento vocabular, o garoto Daniel dificilmente seria vencido por qualquer palavra, desde que fosse de origem portuguesa. E palavras é que não faltam, é claro. Portanto ele certamente é e sempre será motivo de orgulho para todos os mineiros e, em especial, para nós cidadãos barbacenenses que o elegemos nosso pequeno grande Campeão!
Quanto à seleção do programa, creio que tais palavras possam colocar em xeque a credibilidade do quadro bem como seu caráter de seriedade e imparcialidade.Deixo a sugestão de que nos próximos programas a palavra soletrada seja do mesmo nível de dificuldade para os três finalistas. Creio que será humanamente mais justo e politicamente mais correto.


* DALVA DIAS MAGALHÃES
PROFESSORA DE LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURA BRASILEIRA
ESCOLA ESTADUAL ADELAIDE BIAS FORTES
BARBACENA – MINAS GERAIS

Fonte: Prefeitura Municipal de Barbacena

Comentários da Professora Ozana* à Maria Angélica Alves da Silva (Diretora de Desenvolvimento Institucional do IF SUDESTE MG campus São João del Rei,

Eu gostaria que as considerações abaixo fossem lidas pela autora do texto, professora Dalva, mas não sei como fazer chegar até ela. Porém servem de discussão para pessoas interessadas em educação como nós duas. Aí vão alguns pontos:

1 - caráter educativo - não sei se um quadro que prima pela "decoreba" (afinal de contas regras de ortografia são, no fundo, isso mesmo) é tão educativo assim. Não vejo nesse quadro uma discussão sobre linguagem (em qualquer aspecto, inclusive ortográfico), literatura, cultura nacional. São sorteadas palavras aleatoriamente para que os meninos soletrem o que memorizaram;

2 - defender a língua nacional - isso não se faz por decreto, lei, regulamentação ou qualquer coisa do gênero como desejou o deputado Rebelo. Só existe algo que pode fazer com que valorizemos nosso idioma: EDUCAÇÃO;

3 - somos um país periférico, ex-colônia, sob imensa influência econômica e cultural (aí incluída a linguística) norte-americana. Mais uma vez, todos esses males só serão sanados com EDUCAÇÃO;

4 - inserção de estrangeirismos - isso acontece em qualquer idioma, sempre aconteceu. Alguém se lembra hoje que "jaleco" é palavra importada do árabe? Isso porque a península Ibérica sofreu aproximadamente 700 anos de dominação árabe bem antes de Cabral aportar por aqui. Dessa forma, o português e o espanhol estão "infestados" de termos de origem árabe. E mais, quem diz que "blitz" veio do alemão? E hoje então, na era da informação, o contato linguístico é imensurável, impossível não haver trocas, assimilações. Os falantes da língua acabam por filtrar aquilo que é útil e descartar o inútil;

5 - a palavra "kirsch" está dicionarizada, isso quer dizer que ela não é tão estranha assim aos brasileiros, em alguma época, em algum lugar ela foi/é bastante utilizada, a ponto de merecer um lugar no dicionário, há inclusive a forma aportuguesada "quirche";

6- parece que em uma( ou em todas) fases do programa um escritor é homenageado e as palavras são retiradas das obras de tal autor. Não seria o caso de "kirsch"?

7 - usar palavras de origem portuguesa - se isso fosse uma regra, inúmeras palavras teriam de ser cortadas: as de origem árabe (ex., almeirão), as originárias das línguas indígenas (ex. abacaxi, itu), das línguas africanas (fubá) e tantas outras de Guimarães Rosa (formadas por uma miscelânea). Isso parece um tanto quanto xenófobo;

8- primar pelo bom uso do português - será mesmo? Soletrar palavras é fazer bom uso do português? Será que o programa faz isso? Prima e incentiva pelo bom uso do português? E o que é bom uso do português? Para quem? Em que circunstâncias. Falar "valeu brou" é um ótimo uso do português para os surfistas na praia;

9- ética - essa discussão sobre mídia e ética é muito looooonga... Não sei se o uso momentâneo da palavra já seria o suficiente para incitar os meninos a provar a tal bebida. O que dizer então das bailarinas do programa com roupas minúsculas, incita os meninos a quê?

10 - competência - nem de longe discutir a competência (de memorização principalmente) do menino, aliás de todos que chegaram lá, afinal eles passaram por seletivas e são competentes com certeza;

11 - "sacanagem" é claro que é uma "tremenda sacanagem" querer que um adolescente soletre a desconhecidíssima e difícil "kirsch";

12 - nível de dificuldade - será que o nível de dificuldade foi diferente para os três candidatos? Será que as palavras dos outros eram mais fáceis? Fizeram isso de propósito com o menino Daniel?

13- emocionalismo - se o aluno fosse meu (como parece ter sido ou ainda é da professora Dalva) eu também o defenderia com "unhas e dentes", mas usaria apenas o argumento 11.



* OZANA APARECIDA DO SACRAMENTO
Professora de língua portuguesa, inglesa e literatura brasileira do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Sudeste de Minas Gerais campus São João del Rei
SÃO JOÃO DEL REI – MINAS GERAIS
E-mail: ozanaap@yahoo.com.br

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