Os descaminhos à sustentabilidade são revelados pelo “Estado do Mundo”


* Por Maurício Novaes Souza

No mês anterior escrevi um artigo para o jornal INFORMACIRP, da Associação Comercial de Rio Pomba, MG, intitulado “Um novo mercado e a necessária formação de gestores ambientais”. Nessa semana, o Instituto AKATU pelo Consumo Consciente lançou em português o relatório “Estado do Mundo-2010”, uma das mais importantes publicações periódicas mundiais sobre sustentabilidade. O livro, produzido pelo World Watch Institute (WWI) – organização com sede em Washington (EUA) - traz anualmente um balanço com números atualizados e reflexões sobre as questões ambientais. Neste ano, o tema é “Transformando Culturas – do Consumismo à Sustentabilidade” e aborda as mudanças no consumo, sob a ótica da economia, negócios, educação, mídia e movimentos sociais.

Segundo dados do referido relatório, na última década a humanidade aumentou seu consumo de bens e serviços em 28%. Somente em 2008, foram vendidos no mundo 68 milhões de veículos, 85 milhões de refrigeradores, 297 milhões de computadores e 1,2 bilhão de telefones celulares. Para produzir tantos bens, é preciso usar cada vez mais recursos naturais. Entre 1950 e 2005, a produção de metais cresceu seis vezes, o consumo de petróleo subiu oito vezes e o de gás natural, 14 vezes. Atualmente, um europeu consome em média 43 quilos em recursos naturais diariamente – enquanto um americano consome 88 quilos, mais do que o próprio peso da maior parte da população. Além de excessivo, o consumo é desigual.

Em 2006, os 65 países com maior renda, que somam 16% da população mundial, foram responsáveis por 78% dos gastos em bens e serviços. Somente os americanos, com apenas 5% da população mundial, “morderam” uma fatia de 32% do consumo global. Se todos vivessem como os americanos, o planeta só comportaria uma população de 1,4 bilhão de pessoas. Atualmente já somos quase 7 bilhões, e projetam-se 9 bilhões para 2050. A conclusão do relatório não deixa dúvidas: sem uma mudança cultural que valorize a sustentabilidade e não o consumismo, não haverá esforços governamentais ou avanços tecnológicos capazes de salvar a humanidade dos riscos ambientais. De acordo com Mattar, presidente do AKATU, o “Estado do Mundo” é um choque de realidade. Vejamos importantes considerações encontradas no relatório sobre:

· Economia e Negócios - No âmbito da economia e negócios, uma dos aspetos fortemente recomendados pelo relatório é a “reavaliação do papel das grandes corporações”. O documento considera o poder de alcance do setor: “em 2006, as 100 maiores companhias transnacionais empregavam 15,4 milhões de pessoas com um volume de vendas de US$ 7 trilhões - o equivalente a 15% do produto mundial bruto” e conclui que “um sistema econômico sustentável dependerá de convencer as companhias, por meio de um conjunto de estratégias, de que a condução de seus negócios deverá ser conduzida de maneira sustentável”. No âmbito social, empresarial e pessoal, a compreensão e a adoção de práticas de sustentabilidade são limitadas. Mudar uma organização costuma ser um processo ainda mais longo do que o da mudança pessoal. Para alcançar esse nível de mudança, os líderes devem apresentar visões arrojadas e devem envolver suas organizações em discussões diversas, mais profundas, sobre o objetivo e a responsabilidade da empresa em oferecer valor verdadeiro para os clientes e a sociedade.

· Educação - Segundo o relatório, uma pesquisa anual com alunos de primeiro ano de faculdades nos Estados Unidos investigou durante mais de 35 anos as prioridades de vida dos alunos. No transcorrer desse tempo, a importância atribuída a ter boa situação financeira aumentou de pouco mais de 40% para quase 80%, enquanto a importância atribuída à construção de uma filosofia de vida plena de sentido diminuiu de 75% para pouco mais de 45%. E “este não é um fenômeno apenas americano”, ressalta o documento. Para romper com o padrão do consumismo, todos os aspectos da educação terão de ser pautados pela sustentabilidade. Hábitos, valores, preferências – todos são, em grande medida, formados na infância. E durante a vida, a educação pode ter um efeito transformador sobre quem aprende. Portanto, explorar essa instituição poderosa será essencial para redirecionar a humanidade para culturas de sustentabilidade. A partir de então, a educação funcionará como ferramenta poderosa para criar sociedades sustentáveis.

· Mídia - Segundo o relatório, 83% das residências no mundo têm aparelhos de televisão e 21 em cada 100 pessoas têm acesso à “internet”. Entretanto, a maior parte da mídia ainda reforça o consumismo, apesar de existirem esforços no mundo todo para que seu vasto poder e alcance seja utilizado para promover culturas sustentáveis.

Voltando ao artigo do mês anterior, a indicação era de se preparar um profissional que um novo mercado requer e precisa, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, que deverá saber e praticar a Gestão Ambiental, tendo como princípio básico a Ética - para que efetivamente se atinja o Desenvolvimento Sustentável. Os Benefícios imediatos de sua aplicação será a própria Sobrevivência Humana. Há de se considerar, ainda, que para atender as propostas do Desenvolvimento Sustentável, os profissionais deverão fundamentalmente compreender a complexidade e os descaminhos do mundo globalizado em que vivemos para que, então, comecemos, de fato, a mudá-lo.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor-Geral do IF Sudeste MG campus São João Del Rei. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

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