O marketing e a importância da informação socioambiental



* Por Mauricio Novais Souza1 e Vilmar Berna2

As escolhas da sociedade tenderão a ser tanto melhores quanto melhores forem as informações ambientais que conseguirem chegar ao povo. Se estas informações forem insuficientes, falsas, tendenciosas ou dominadas pelas forças que desejam manter os atuais rumos insustentáveis de consumismo e poluição, isso certamente influenciará em nossas decisões. Por isso é tão importante, na verdade fundamental e estratégico para a sustentabilidade, refletirmos sobre a comunicação e a publicidade que são apenas ferramentas: tanto podem estar a serviço de um modelo consumista e desperdiçador ou a serviço da sustentabilidade, dependendo dos valores que motivam nossas escolhas. Entretanto, um dos motivos que impede a democratização da informação socioambiental comprometida com valores sustentáveis, é a falta de financiamento para esta informação. Portanto, assegurar tais recursos não se trata de uma reivindicação meramente comercial, mas de uma estratégia em opor-se à informação baseada no consumismo e no desperdício como valores em nossa sociedade.

A ausência de políticas públicas e, consequentemente, verbas públicas para campanhas de propaganda e marketing ambientais, que ofereçam um contraponto à propaganda e ao marketing comprometido com o consumismo crescente e ilimitado, reforça na sociedade brasileira a permanência por escolhas tradicionais, insustentáveis, consumistas e desperdiçadoras. Hoje, quem financia a publicidade é a lógica do mercado que está comprometida com lucros, também crescentes e, de preferência, ilimitados. Para aumentar as vendas, usam-se das ferramentas da propaganda e do marketing para criar necessidades e desejos onde as pessoas nem sabiam que tinham, transformar em mercadorias sentimentos e o psicológico das pessoas (por exemplo, o medo da violência em venda de armas e sistemas de segurança). Um mesmo consumidor é estimulado a trocar um produto em bom estado de funcionamento, por outro quase igual, mas com um pequeno diferencial. Isso quando o mercado não providencia para que um produto que poderia durar muito mais já saia da fábrica programado para durar menos: assim o consumidor terá de comprar de novo e descartar o usado que ainda poderia servi-lo.

A mesma ferramenta da propaganda e marketing que tem sido usada a serviço da destruição e do mau uso dos recursos do Planeta, pode e deve ser usada para sensibilizar as pessoas para a necessidade de mudar seus hábitos de consumo. Deverão levar as pessoas a refletirem e fazerem escolhas melhores no próprio ato de consumir, recusando produtos poluidores, de obsolescência planejada, desperdiçadores de recursos naturais, não recicláveis, com elevadas emissões de carbono, por outros, mais sustentáveis e também solidários no sentido de promover a inclusão social.

O Brasil abarcou essa ideia e incluiu na lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, que criou a Política Nacional de Educação Ambiental, o art. 5º, inciso II, que garante a democratização das informações ambientais como um dos objetivos fundamentais da educação ambiental. Durante a Eco 92, o Governo Brasileiro assinou, também, na Agenda 21, o compromisso de (artigo 40.18) "sempre que exista impedimento econômico ou de outro tipo que dificultem a oferta de informação e o acesso a ela, deve-se considerar a criação de esquemas inovadores para subsidiar o acesso a essa informação ou para eliminar os impedimentos não econômicos." De fato assinou, mas não se cumpre, ainda. Para tirar estes compromissos e direitos do papel, os governantes precisam perceber a mobilização da sociedade em torno da causa, já que são tantas as prioridades e o cobertor do orçamento geralmente é curto. Atualmente, apenas a chamada Grande Mídia, não especializada em meio ambiente, recebe o aporte das verbas públicas por meio da publicidade de empresas do Governo Federal. Um pequeno percentual disso poderia estar financiado as mídias ambientais, como sugeridos em moção aprovada por mais de 2.000 representantes da sociedade civil durante a II Conferência Nacional de Meio Ambiente.

E como está o nível de informação ambiental da população brasileira? A pesquisa “O que o brasileiro pensa do meio ambiente”, do ISER/MMA, citado no Portal do Meio Ambiente, tem constatado que a conscientização do brasileiro em relação ao meio ambiente aumentou 30% nos últimos 15 anos e cresceu o número de brasileiros que não consideram exagerada a preocupação com o meio ambiente (42% em 97; 46% em 2001 e 49% em 2006). Por outro lado, outra pesquisa, também do ISER/MMA, realizada com 1.141 dos 1.337 delegados participantes da “II Conferência Nacional de Meio Ambiente”, em fevereiro de 2005, constatou que a falta de informação sobre Meio Ambiente e Educação Ambiental está incluída por estes multiplicadores de opinião entre os três principais problemas ambientais brasileiros.


1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. www.mauriciosnovaes@blogspot.com.

2. Escritor e jornalista, editor da Revista e do Portal do Meio Ambiente. www.escritorvilmarberna.com.br.

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