terça-feira, 23 de março de 2010

A degradação dos recursos hídricos e os limites do crescimento


* Por Maurício Novaes Souza


O dia 22 de março foi escolhido pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 22 de Fevereiro de 1993 como o “Dia Mundial da Água”. Essa escolha se deu devido à presença de grandes índices de poluição ambiental no planeta. A partir desta data, a ONU elaborou uma série de medidas cautelosas a favor da água e impôs a consciência ecológica em relação a este bem natural. Nesse mês de março, em todo o mundo, mais uma vez essa data foi comemorada. Como se pergunta a todo ano, existe motivo real para comemoração? Ou teríamos pretextos suficientes para promover um dia de luto?

Na verdade, o modelo de desenvolvimento atual e como ele afeta as populações tem persistido na manutenção de erros graves. É realmente uma insanidade sem limites o que empresas e indivíduos vêm fazendo com o meio ambiente, interferindo em sua própria sobrevivência. É isso que se pode chamar de falso progresso (ou de desenvolvimento insustentável), mas que muitos teimam em chamar de crescimento econômico ou desenvolvimento sustentável.

De fato, percebe-se grande desconhecimento ou mesmo ignorância que tem origem no egoísmo humano e na percepção ilusória. Dessa forma, o mundo caminha para o crescimento “deseconômico”, que segundo o ilustre economista Herman Daly, ocorre quando aumentos na produção se dão à custa do uso de recursos e sacrifícios do bem-estar que valem mais do que os bens produzidos. Isso decorre de um equilíbrio indesejável de grandezas denominadas utilidade e desutilidade. Utilidade é o nível de satisfação das necessidades e demandas da população; a grosso modo é o nível de seu bem-estar. Desutilidade se refere aos sacrifícios impostos pelo aumento de produção e consumo. Pode incluir o uso de força de trabalho, perda de lazer, esgotamento de recursos, exposição à poluição e concentração populacional.

Segundo Loïc Fauchon, presidente do Conselho Mundial da Água, o comportamento humano com relação ao uso deste recurso é cada vez mais irrefletido e inconsequente. É preciso que se estabeleçam metas para a elaboração de um novo modelo de desenvolvimento e crescimento econômico. Deve-se haver a pretensão de apresentar resposta para escassez do recurso água provocada pelo crescimento da população, pelo desperdício, pelo consumo excessivo e pelo aumento da necessidade de energia.

Tal análise se justifica pelo fato de que a economia e o meio ambiente estão passando por uma crise sem precedentes. Em grande parte, o principal responsável é o modelo de desenvolvimento adotado pela maioria dos países. Para agravar ainda mais a situação, a atual crise econômica mundial tem trazido como solução o estímulo ao consumo – situação ainda mais ameaçadora às atuais situações ambientais. Esse modelo visa, efetivamente, a geração de lucros imediatos, não considerando os limites do crescimento; portanto, socialmente e ambientalmente não é sustentável.

Do ponto de vista social, 20% da população mais rica utilizam ¾ dos recursos naturais, causando a sua degradação. Do ponto de vista ambiental, considerando a Pegada ecológica, verifica-se que o ambiente está sendo usado além de sua capacidade de suporte e de reposição. Na verdade, o modelo de produção e consumo são os responsáveis pelas agressões cometidas sobre os ecossistemas aquáticos, indispensáveis para a sobrevivência da humanidade. A previsão é de que a população mundial, atualmente superior a 6,7 bilhões de habitantes, possa chegar a nove bilhões até meados deste século, o que aumentará consideravelmente a demanda de recursos hídricos.

Segundo a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE), o número de pessoas com graves problemas para conseguir água chegará a 3,9 bilhões em 2030. A falta do saneamento nas cidades, em níveis mínimos que assegurem o bem-estar das populações, tem gerado um quadro de degradação do meio ambiente urbano sem precedentes, sendo os recursos hídricos um dos primeiros elementos integrantes da base de recursos naturais a sofrer tais efeitos.

Como consequência, e com o aumento acelerado da população, o mundo está enfrentando intensas mudanças globais, como migração, urbanização, mudança do clima, desertificação, seca, alteração do uso e degradação do solo, crises econômicas e alimentares. Caso continuemos a agir dessa forma, não respeitando os limites do crescimento, pouco restará para as gerações futuras. Como bem lembra Leonardo Boff, caso não se cuide do planeta a partir de uma visão sistêmica e holística, poderá submetê-lo à destruição de suas partes e inviabilizar a própria vida. Há inúmeras evidências que existem limites para o crescimento econômico, considerando que os recursos naturais são escassos.

Respondendo à pergunta inicial: teve-se o que comemorar neste dia 22 de março de 2010? Não existe motivo para pleno luto, mas é muito cedo para comemorações, apesar das inúmeras iniciativas governamentais e organizacionais. A indústria, o comércio e a população devem refletir sobre a necessidade urgente de abandono às concepções anacrônicas ligadas à produção e ao consumo, adotando a sustentabilidade sócio-ambiental nas ações públicas e privadas, em todos os níveis, do local ao global. Essas deverão ser as propostas de um novo modelo guiado pelos princípios do “Desenvolvimento Sustentável”.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor-Geral do IF Sudeste MG campus São João Del Rei. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Comércio varejista e o desenvolvimento sustentável


*por Maurício Novaes Souza

Meio ambiente e desenvolvimento sustentável são assuntos em evidência nos dias atuais. Isso acontece em função da preocupação com os limites da exploração dos recursos naturais e da necessidade de se buscar alternativas de desenvolvimento compatíveis com a sustentabilidade do planeta. Dessa forma, a sustentabilidade é um diferencial de posicionamento e competitividade, um objetivo para qualquer tipo de empresa. Deve estar no cerne do negócio: não é preciso deixar para depois ou esperar que outras prioridades estejam resolvidas para então pensar a respeito. Os resultados e benefícios serão reais e crescentes, tanto para a empresa, como para a sociedade, numa relação onde todos se beneficiam.

Contudo, é preciso reafirmar a importância da liderança na efetividade da estratégia de sustentabilidade das empresas: se quem decide não tiver esta visão ou não estiver convencido do valor para o negócio, se o fizer sem convicção, por modismo ou influência de terceiros, tudo isso não irá passar de ideologia ou de ideias acadêmicas de pouca utilidade concreta e efetiva.

Isso porque, na prática, integrar aspectos econômicos, ambientais e sociais diminui custos (principalmente futuros), reduzem riscos, evita desperdícios, gera lucros. Além disso, em um investimento de longo prazo, constrói relacionamentos sólidos e duradouros com o público da empresa, em especial colaboradores, clientes e comunidade do seu entorno, criando com eles vínculos de confiança e lealdade.

De que forma isso acontece? Tomemos o setor de varejo como exemplo, onde empresas de qualquer porte têm processos sustentáveis mais rentáveis para implantar. Começando pela construção “verde”, assim denominada porque privilegia a conservação/preservação ambiental como critério para projetos e obras de lojas, com iluminação natural, materiais de origem certificada, reuso de água, descarte de entulho em local apropriado, entre outros. A construção sustentável tem um custo, em média, 15% mais elevado, mas se justifica pela redução de custos operacionais em curto prazo. Em 50 anos, a redução poderá chegar a 80%. Nesse mesmo direcionamento, programas de eficiência energética não só reduzem despesas com iluminação e equipamentos de refrigeração, como também buscam formas alternativas de geração e utilização de energia.

Na logística e na operação da loja, iniciativas como o descarte de embalagens junto às cooperativas e indústrias de reciclagem, geram emprego e renda. Como consequência, trazem economias que, em muitos casos, são revertidas para investimentos sociais da empresa, especialmente ligados à educação de crianças e jovens, projetos comunitários e conscientização ambiental. Assim, estará apresentando novos contornos para um assunto de grande relevância para toda a sociedade, atravessado por inúmeras implicações, como a garantia das condições de sobrevivência e qualidade de vida das gerações presentes e futuras.

Há de se considerar que o impacto ambiental do varejo é pequeno, quando comparado ao produzido por indústrias que usam recursos naturais ou emitem enormes quantidades de gases que contribuem para o agravamento do efeito estufa. Assumindo, porém, um trabalho de mobilização e conscientização no consumo, muitas redes estimulam uma mudança cultural importante junto aos consumidores, comercializando sacolas retornáveis, disponibilizando caixas de papelão para acondicionar as compras, desenvolvendo sacolas plásticas mais resistentes: geralmente mais caras, contudo mais econômicas pela utilização em menor quantidade.

Com tanto ênfase sobre as questões ambientais, os consumidores têm se tornado cada vez mais conscientes, participando ativamente de programas de coleta seletiva de embalagens, adquirindo produtos orgânicos, de marca própria sustentáveis ou de manejo sustentável (provenientes de comunidades, cooperativas e associações). Junto aos fornecedores, há frentes importantes, como a negociação para redução de tamanho e utilização de matéria-prima certificada nas embalagens, exigências contratuais proibindo práticas trabalhistas ilegais e discriminatórias. Colaboradores também pode ser alvo de práticas interessantes, desde a adesão a programas de voluntariado e relacionamento comunitário até o estímulo à participação no processo de sustentabilidade: prática já exercida pela NATURA há bastante tempo. A empresa pode, ainda, posicionar-se como “parceira” na solução de problemas locais e no desenvolvimento das comunidades em que atua, investindo no futuro.

Hoje, as atividades econômicas e seus efeitos sobre o meio ambiente são questões debatidas mundialmente e há esforços bem-sucedidos, embora insuficientes, no sentido de compensar ou minimizar os impactos ambientais negativos. Desta forma, ligados na evolução da sociedade, percebendo essa nova realidade e conscientes do atual papel das empresas no mundo e, ainda, com sua crença na proposta da sustentabilidade, empresários e executivos de vanguarda irão comemorar algo ainda visto por muitos como inconciliável: resultados e benefícios para o negócio ao lado de resultados e benefícios para a sociedade e o ambiente.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF SEMG Rio Pomba e Diretor-Geral do IF SEMG São João del-Rei. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Campus Rio Pomba forma primeira turma de Agroecologia do Brasil


A primeira turma de bacharéis em Agroecologia do país se formou nesta sexta-feira (12/03) em Rio Pomba, MG. A turma de 2009 recebeu o diploma das mãos do paraninfo e reitor do Instituto Federal Sudeste de Minas Gerais, Prof. Mário Sérgio Costa Vieira e do patrono, deputado federal Reginaldo Lopes. Na mesma cerimônia, também aconteceu a formatura da turma de Tecnologia em Agroecologia, tendo como paraninfo o professor Maurício Novaes Souza, Diretor geral do IF Sudeste de Minas Campus São João del Rei.


O reitor do Instituto destacou a importância do curso para o país, afirmando que “a criação do bacharelado em agroecologia é uma iniciativa que pode revolucionar as ciências agrárias”. Para Mário Sérgio, “as ditas técnicas modernas agrícolas, com seus pacotes tecnológicos, produzem alimentos com alto custo ambiental. Já a agroecologia, trabalhando a agricultura em parceria com as leis da natureza, fornece altas produtividades e alimentos limpos, preservando a saúde do planeta e seus habitantes”.


Em seu pronunciamento, Maurício Novaes frisou que temos de admitir que o projeto da modernidade cumpriu algumas das suas promessas, e até as cumpriu em excesso, e por isso mesmo inviabilizou o cumprimento de todas as promessas restantes. Como resultado desses equívocos, vivemos em um ponto de inflexão: “não mais existe a possibilidade de adiarmos uma mudança em nosso comportamento diário”. Afirmou que passamos por um período onde se estabeleceu uma enorme crise de percepção, conseqüência da falta de atitude por parte do poder público, dos empresários, das comunidades, da sociedade em geral.


Disse ainda que do ponto de vista político-social, atingiu-se o ponto mais crítico com relação às questões de ética, que necessariamente precisam ser retomadas. Segundo Novaes, “embora o mais esperado fosse falar sobre tecnologia e as implicações que estas têm em nossas vidas, o que é comum em formaturas, tratando-se de Agroecologia, temos que obrigatoriamente falar sobre humanidade. Como disse Charles Chaplin: ".....Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas e crescimento, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo estará perdido". De pouco adianta o “saber”, sem o comprometimento do “ser”.


Concluindo, reiterou o encantamento pelo curso de Agroecologia: “Para sobreviver ao atual momento econômico, mas ser “diferente”, além de um forte embasamento teórico e um profundo conhecimento técnico, o Agroecólogo deve possuir a habilidade de se relacionar com outras pessoas. Para isto, é preciso muito mais do que tecnologia. Precisamos conhecer conceitos antropológicos, sociológicos, filosóficos... para que possamos construir uma elevada sensibilidade social e que as questões relacionadas à ética da produção sejam retomadas.


Fonte: Site IF SUDESTE MG.

Mercado consumidor e tendências dos produtos orgânicos na cidade de Juiz de Fora, MG.


Natan Carrilho Antunes1; Maurício Novaes Souza2; Carla R. Ribas3.


Resumo

O objetivo deste estudo foi compreender o atual estágio, características, limites e potencialidades do mercado de produtos orgânicos na cidade de Juiz de Fora, MG. Foram aplicadas entrevistas em feiras-livres e mercados nos diferentes pontos da cidade, de forma arbitrária e espontânea. Do total de 165 questionários se verificou que 72% dos entrevistados conhecem ou pelo menos têm noção sobre produtos orgânicos. A maioria dos entrevistados que, pelo menos detêm conhecimento prévio sobre produtos orgânicos, são também consumidores, totalizando 92%. Quando se considerou a disposição dos consumidores para incluírem os produtos orgânicos em sua alimentação, 99% se disseram dispostos. Contudo, ao buscar entender quais motivos dificultam as pessoas adquirirem os produtos orgânicos, 28% responderam que pela dificuldade de mercado e 23% pela pouca variedade de produtos. Observou-se um percentual expressivo de pessoas dispostas a incluírem produtos orgânicos em sua alimentação.


Palavras-chave: Potencialidades; mercado orgânico; Juiz de Fora; inclusão de produtos.


Consumer market and trends of the organic products in Juiz de Fora, MG

Abstract

The aim of this study was to understand the real period of probation, characteristics, limits and potentialities of the market of organic products in Juiz de Fora, MG. Interviews were applied in free fairs and market places in different points of the city on an arbitrary and spontaneous form. Of the total of 165 questionnaires it was verified that 72% of the interviewed know, or at least, have a little notion on what are organic products. The majority of the interviewed that, at least, withhold previous knowledge of organic products, are also consumers, totalizing 92%. When the disposal of the consumers was considered to include the organic products in its feeding, 99% had said that they are willing to. However, when we tried to understand what reasons make it difficult for people to acquire the organic products, 28% had answered the difficulty in finding these products in the market place and 23% for the little variety of products. It was observed an expressible percentage of people willing to include organic products in their feeding.


Keywords: Potentialities; Organic market; Juiz de Fora; inclusion of products.


Introdução

A produção agrícola mundial teve grande impulso com a evolução tecnológica que a "Revolução Verde" proporcionou a partir da segunda metade do século XX. Segundo GLIESSMAN (2001), seis práticas caracterizam a agricultura convencional: o cultivo intensivo do solo, a monocultura, a irrigação, a aplicação de fertilizante inorgânico, o controle químico de pragas e doenças e a manipulação genética de plantas cultivadas. No entanto, o modelo convencional não foi capaz de acabar ou ao menos reduzir a fome no mundo.

As experiências no campo das ciências agrárias e de estudos da sociedade mostram que as questões ambientais e humanas não obtiveram as prometidas melhorias. Por estas questões, começaram a surgir movimentos contrários aos sistemas predominantes, como os modelos alternativos de produção, de beneficiamento e de mercado. De acordo com SANTOS (2002), a agricultura orgânica representa o mais significativo destes movimentos de oposição aos métodos atuais de exploração dos recursos naturais.

Nos dias atuais, no Brasil, de acordo com SILVA & FIÚZA (2003), há significativa concentração de estudos sobre mercados alternativos de produtos orgânicos. Pesquisa divulgada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES, 2004) comprovou o crescimento deste setor em todo território nacional - o Brasil soma 7.063 produtores certificados ou em processo de conversão e cerca de 13 mil produtores que produzem organicamente e não tem certificação, distribuídos numa área de 269.718 hectares.

Apesar do crescimento deste setor no Brasil, um levantamento do BNDES aponta que a agricultura orgânica é responsável por apenas 1% da produção de alimentos no país (NAVARRO FILHO, 2002). A cidade de Juiz de Fora, assim como tantas outras cidades no Brasil e no mundo, tem apresentado um significativo aumento na demanda de produtos orgânicos. Segundo CARVALHO (2002), o elevado potencial do município se justifica devido ao seu porte, localização geográfica, características sócio-culturais e econômicas da população, estrutura agrária e presença de número e variedade significativa de instituições de ensino e pesquisa.

No entanto é sabido que os produtos orgânicos são de restrito acesso. Contudo, uma vez que seu potencial está em crescente expansão, intensifica a necessidade de entendimento da cadeia produtiva e consumidora. Dessa forma, o presente trabalho teve por objetivo compreender o atual estágio, características, limites e potencialidades do mercado de produtos orgânicos na cidade de Juiz de Fora.


Metodologia

Juiz de Fora tem uma área de 1.434,69 Km2, onde 983,32 Km2 são considerados zona rural. É o maior e mais populoso município da Zona da Mata (513.348 habitantes) e o quarto no estado de Minas Gerais (IBGE, 2007). A maior parte da população se encontra em áreas urbanas. A cidade está localizada em região estratégica, visto que se encontra relativamente próximo dos três principais centros urbanos do país - Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo, com 180, 240 e 400 km de distância respectivamente. Para caracterizar e quantificar o atual conhecimento e aceitação dos produtos orgânicos, tendo atenção especial para os produtos certificados, o presente trabalho fez uso de uma pesquisa de mercado junto à população realizada entre julho e outubro do ano de 2008 em diferentes estabelecimentos e pontos comerciais. No trabalho de pesquisa se utilizou um questionário semi-estruturado e método de resposta espontânea, abrangendo consumidores de diversas classes sociais em diferentes opções de estabelecimentos. Totalizaram-se 165 questionários aplicados aos consumidores de feiras-livres (3) e de supermercados (6) com o número total de entrevistas variando de forma aleatória.


QUADRO 1. Perguntas/características sobre hábitos alimentares em relação ao mercado consumidor e as tendências dos produtos orgânicos na cidade de Juiz de Fora – MG.

1. Você conhece algum produto orgânico?
a. Sim. Quais?
b. Não
2. Você já consumiu algum produto orgânico?
a. Sim. Quais?
b. Não
3 - Como você reconhece um produto orgânico?
a. As pessoas me informam
b. Por meio de cartazes
c. Pelo selo de certificação
d. Pelo local de comercialização
e Pela confiança no produtor/comerciante
f Nenhuma das alternativas anteriores.
4 - Qual a principal vantagem você atribui ao produto orgânico?
a. Sem substâncias “químicas”
b. Mais saudável e nutritivo
c. Preserva o meio ambiente
d. Processo produtivo inspecionado
e. Valorização da mão de obra
f. Nenhuma das alternativas anteriores. Quais?
5 - Está disposto a incluir produtos orgânicos em sua alimentação?
a. Sim
b. Não
6 - Em sua opinião, o que dificulta as pessoas adquirirem os produtos orgânicos?
a. Não há no mercado
b. Pouca divulgação
c. Pouca variedade de produtos
d. Por desconhecimento
e. Pelo preço
f. Nenhuma das alternativas anteriores. Qual?


Resultados e discussões

Do total de 165 amostras se verificou que 118 (72%) dos entrevistados conhecem ou pelo menos têm uma breve noção sobre o que são produtos orgânicos. Quando a resposta era “Não” a entrevista se dava por encerrada; portanto, reduzindo o número total de amostra a 118 após a negativa da questão 1. Na segunda questão, observou-se que a maioria dos entrevistados que, pelo menos detêm conhecimento prévio sobre produtos orgânicos, são também consumidores, totalizando 111 (92% - sim) que já consumiram e 12 (8% - não) que, conhecem, porém nunca comeram - fazem destes potenciais consumidores. A terceira pergunta do questionário se refere sobre as diferentes formas de identificação do produto orgânico pelos consumidores (Figura 1).

FIGURA 1. Distribuição percentual das diferentes formas de identificação do produto orgânico pelos consumidores: (a) As pessoas me informam; (b) Por meio de cartazes; (c) Pelo selo de certificação; (d) Pelo local de comercialização; (e) Pela confiança no produtor/comerciante; (f) Nenhuma das alternativas anteriores.

A principal vantagem atribuída pelos consumidores de produtos orgânicos foi constatada na pergunta 4, onde se obteve os seguintes itens com os respectivos valores: 52%, (a) Sem substâncias “químicas”; 34%, (b) Mais saudável e nutritivo; 12%, (c) Preserva o meio ambiente; 0%, (d) Processo produtivo inspecionado; 0%, (e) Valorização da mão de obra; e 2%, (f) Nenhuma das alternativas anteriores, totalizando as 118 respostas. A pergunta 5 considerou a disposição dos consumidores para incluírem os produtos orgânicos em sua alimentação, sendo que 117 (99%) responderam que sim.

Na pergunta 6 do questionário, buscaram-se entender quais motivos dificultam as pessoas adquirirem os produtos orgânicos (Figura 2).

FIGURA 2: Distribuição percentual sobre dificuldades que as pessoas encontram ao adquirem os produtos orgânicos: (a) Não há no mercado; (b) Pouca divulgação; (c) Pouca variedade de produtos; (d) Por desconhecimento; (e) Pelo preço; (f) Nenhuma das alternativas anteriores.

O mercado consumidor de produtos orgânicos apresenta demanda crescente na cidade de Juiz de Fora, apesar da considerável falta de informação sobre o setor. Há contradições das pessoas na identificação de tais produtos e das questões relativas aos benefícios com relação à saúde e à segurança alimentar. No entanto, existe um forte mercado em torno de pessoas que estão dispostas a valorizar os alimentos de produção ecológica. A sólida estrutura de associações de produtores rurais, principalmente os agricultores familiares, representa um importante foco de desenvolvimento da agricultura orgânica no município.

Conclusões

Ao identificar as atuais potencialidades e tendências do mercado de produtos orgânicos na cidade de Juiz de Fora, e ao considerar que um percentual expressivo de consumidores está disposto pagar “a mais” pelos produtos orgânicos em relação aos produtos convencionais, identificou-se o potencial de crescimento desse setor. Contudo, faz-se necessária uma maior divulgação e conscientização dos vários agentes envolvidos: sociedade, poder público e privado.


Referências Bibliográficas

BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Pesquisa nacional sobre produção de orgânicos. Disponível em: www.bndes.com. Acesso em 28 mar. 2009.

CARVALHO, F. S. O mercado de produtos orgânicos em Juiz de Fora – MG. Escola Superior de Agricultura e Ciências de Machado: Machado, 2002.

IBGE. População de Juiz de Fora – MG. Disponível em: www.ibge.gov.br/cidades. Acesso em 03 set. 2008.

GLIESSMAN, S. R. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. 2001. 201p.

NAVARRO FILHO, C. Sem agrotóxicos. Negócios Agrícolas, ano IV, n.16, p. 49. 2002.

SANTOS, H. L. Construção Social de Mercado Orgânico: O Caso da Cooperativa Ecoserra na Serra Catarinense. Disponível em: www.pos.ufsc.br/arquivos/41000382/imagens/hete_leepkaln.pdf. Acesso em 28 mar. 2008.

SILVA, D. E. T.; FIÚZA, A. L. C. O Consumo de Orgânico Como Objeto de Distinção Social. Disponível em: www.rimisp.org. Acesso em 22 mar. 2008.
1. Tecnólogo em Agroecologia e Bacharel em Agroecologia. IFET SE campus Rio Pomba.

2. Eng. Agrônomo, DSc., Prof. Titular IFET SE campus São João del Rei. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

3. Bióloga, DSc., Setor de Ecologia. Departamento de Biologia. Universidade Federal de Lavras.