sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Educação no Brasil: entre os piores no ranking de conhecimentos básicos da OCDE


* Por Maurício Novaes Souza

Nesta quarta-feira de cinzas, segundo relatório divulgado pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), em Paris, que avaliou a situação de 64 nações, o Brasil é o segundo pior país (ficou atrás apenas da Indonésia) em alunos que apresentam baixo rendimento escolar em matemática, leitura e ciência. De acordo com esse levantamento, 1,7 milhão de estudantes brasileiros com 15 anos não têm capacidades elementares para compreender o que leem, nem conhecimentos essenciais de matemática e ciências: mais de 25% dos estudantes têm notas ruins nas referidas disciplinas.

A OCDE incentiva os países a investir na educação para um retorno econômico mais favorável. Segundo a OCDE, "os maus resultados escolares têm consequências em longo prazo, com um alto risco de abandono desses jovens e um crescimento econômico inferior. Alguns países se encontram, inclusive, em um estado de recessão permanente". Segundo o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), que realizou a pesquisa para a OCDE, a luta contra os maus resultados escolares, que dizem respeito a 28% dos alunos de 15 anos, é onerosa, mas uma medida rentável em longo prazo. Os dados reunidos este ano serviram de base para o novo relatório chamado "Estudantes com baixo desempenho: por que eles ficam para trás e como ajudá-los?". O fato é que os benefícios da luta contra esse fenômeno "superam de longe os custos da melhoria".

Para se fazer uma projeção de como tal realidade poderá influenciar a economia, se dos dias atuais até 2030 cada aluno de 15 anos conseguir "adquirir uma bagagem mínima de competências fundamentais" em literatura e matemática nos países de alta renda da OCDE, os benefícios a longo prazo para a economia destes países poderão alcançar "aproximadamente 1,5 vezes seus PIBs atuais". Uma boa notícia: entre 2003 e 2012, a OCDE fez o censo de nove países que conseguiram reduzir sua proporção de alunos com resultados ruins em matemática, entre eles, está o Brasil! Como entre estes não há muitos pontos em comum, a organização chega à conclusão de que "todos os países podem melhorar os resultados de seus alunos" se decidirem que é uma "prioridade de sua política educacional" e fornecerem os recursos suplementares.
De acordo com a OCDE, "é preciso envolver os pais e as coletividades locais, incentivar os estudantes a aproveitar as possibilidades de educação oferecida, identificar os alunos com maus resultados e dar apoio aos alunos, aos estabelecimentos de ensino e às famílias". A OCDE também defende "programas específicos para os alunos imigrantes, que falam uma língua minoritária ou que vivam na zona rural, a luta contra os estereótipos de gênero e a redução das desigualdades de acesso à educação".

Vários fatores podem contribuir para que os alunos tenham resultados ruins: a probabilidade de estar nessa situação é 2,5 vezes maior para os jovens procedentes da migração e quando se vive no campo ou em uma família monoparental. Quando se acumulam vários fatores de risco, a possibilidade de ter maus resultados em matemática é de 76% para uma menina procedente da imigração, que fala em casa outro idioma, que vive numa família monoparental e na zona rural. Não apenas os fatores de risco são maiores para os alunos de setores sociais desfavorecidos, como também "têm uma incidência mais forte em seus resultados". Como a inclusão se dá incorporando alunos que estão na base da pirâmide social, em classes mais desfavorecidas, seus primeiros anos de educação são mais problemáticos, por frequentarem escolas com menos recursos, como ocorre em regiões rurais. Na média, mais de um terço da diferença dos resultados em matemática entre alunos é atribuível à diferença entre os estabelecimentos de ensino.

Outra constatação do estudo é de que o Brasil está no “top 10” de países mais desiguais do mundo no que diz respeito à diferença de desempenho entre estudantes de classes sociais altas e baixas.  Por fim, os alunos com más classificações faltam mais as aulas do que os demais, têm menos perseverança e menos confiança em si mesmo, o que não é surpreendente. Para romper o ciclo de baixo nível educacional, a OCDE recomenda que os governos nacionais identifiquem os estudantes com baixa performance e lhes ofereçam estratégias para recuperação de nível. Entre as propostas da entidade, a maior parte tem caráter estrutural: reduzir a desigualdade no acesso à educação, estimular a inscrição escolar o mais cedo possível, envolver os pais na comunidade escolar e fornecer programas de auxílio financeiro às instituições de ensino e às famílias carentes.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), é professor do IF Sudeste campus Rio Pomba. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A Economia e o Ambiente: como conciliar?



* Por Maurício Novaes Souza

Em todo o mundo, mas particularmente no Brasil, a preocupação está voltada para a crise financeira que atravessamos. Contudo, a questão ambiental, que deveria ser prioridade posto ser a fonte de todos os recursos utilizados nos processos produtivos, vem sendo relegada ao segundo plano. Na prática, o antigo discurso da necessidade de crescimento econômico para a geração de emprego e renda acaba prevalecendo. Ou seja, continua vigorando a visão de curtíssimo prazo, cujos resultados finais são conhecidos e previsíveis. De fato, a economia global está perdendo mais dinheiro com a destruição dos recursos naturais do que com a atual crise financeira global.

Calcula-se que os desperdícios anuais, apenas com o desmatamento, variam de US$ 3 trilhões a US$ 6 trilhões. O número inclui o valor de vários serviços oferecidos pelas florestas, como água limpa e a absorção do dióxido de carbono. Já estimado, o custo resultante da degradação da natureza ultrapassa o dos mercados financeiros globais. Cabe ainda uma consideração sobre os custos ambientais: pelo fato de serem contínuos, seus reflexos no longo prazo serão ainda maiores e de difícil quantificação. Na verdade, os economistas desconhecem ou simplesmente desconsideram os serviços ambientais prestados pela natureza.

Tais serviços ou funções, como o armazenamento de água e a regulação do ciclo de carbono, cria condição para um meio ambiente saudável, oferecendo não só água e ar limpos, chuvas, solo fértil e elasticidade das bacias fluviais, como também certas funções imprescindíveis para a manutenção da sustentabilidade, tais como: a) o processamento de resíduos (naturais e industriais); b) a proteção contra os extremos do clima; e c) a regeneração atmosférica. Por estas questões, o homem em suas atividades produtivas deve sempre considerar que os ecossistemas são sistemas abertos e integrados por todos os organismos vivos, inclusive ele próprio, e os elementos não viventes de um setor ambiental, cujas propriedades globais de funcionamento e controle derivam das relações entre todos os seus componentes, tanto pertencentes aos sistemas naturais, quanto aos criados ou modificados pelo Homem.

            De fato, o desconhecimento dos profissionais da área econômica e da maioria de nossos gestores sobre conceitos básicos de ecologia e de economia dos recursos naturais e renováveis, os impedem de perceber que existem limites ao crescimento. O homem, na ânsia de sucesso e maximização de suas atividades, força o ambiente a realizar um esforço amplificador a fim de produzir um determinado resultado desejado; contudo, os ecossistemas têm sua capacidade de suporte e de regeneração que dependerá da sua resistência e da sua resiliência. Ocorrido um estresse, caso seja ultrapassado o seu limite, podem-se criar efeitos secundários que acabam reduzindo o ritmo e as chances de sucesso que uma determinada atividade vinha alcançando. Percebe-se então, que o importante é não forçar o crescimento, mas sim conhecer o ambiente e conviver dentro da possibilidade e dos fatores que o limitam.

            Considere-se a situação dos ecossistemas aquáticos. De fato, a qualidade das águas de praticamente todos os rios do Brasil piorou nos últimos anos. Esse fato é o resultado do modelo de desenvolvimento atual e que afeta drasticamente as populações. É preciso apresentar respostas para escassez do recurso provocada pelo crescimento da população, o desperdício, o consumo excessivo e o aumento da necessidade de energia. Aumentar indefinidamente a demanda por água, nos dias atuais, além de colocar em perigo o meio natural, torna-se cada vez mais caro o seu tratamento e distribuição em um contexto de mudança do clima e crise financeira.

            Apesar das inúmeras iniciativas governamentais e organizacionais, os efeitos efetivos ainda são discretos. Devemos refletir sobre a necessidade urgente de abandono às concepções antiquadas ligadas à produção e ao consumo, adotando a sustentabilidade socioambiental nas ações públicas e privadas, em todos os níveis, do local ao global. É preciso que sejam conhecidos e respeitados os limites do crescimento. Essas deverão ser as propostas de um novo modelo guiado pelos princípios do “Desenvolvimento Sustentável”. Contudo, o seu sucesso dependerá da participação e esforço de cada um dos habitantes, de cada comunidade, posto que o somatório das atitudes individuais trará soluções sustentáveis para os problemas relativos às questões sociais e ambientais.



* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), é professor do IF Sudeste campus Rio Pomba. E-mail: mauricios.novaes@ifsudestemg.edu.br.