Separar Política e Economia do Meio Ambiente é Evidenciar a Insustentabilidade do Modelo



* Por Maurício Novaes Souza

Em todo o mundo, nos gabinetes e escritórios onde se manipulam os complexos emaranhados que determinam os rumos do capitalismo, ninguém fala em mudança na ordem econômica mundial. Vai tudo muito bem, desde que grandes volumes de dinheiro continuem fluindo na direção das grandes empresas, entupindo os bancos e alimentando a indecência das mega-fortunas. Contudo, de fato, uma grande e decisiva virada precisa ser dada no modelo que hegemonicamente vem dando as cartas, sob pena de se abreviar a história da raça humana na Terra.

O “Sistema”, essa entidade invisível e todo-poderosa, faz a sociedade acreditar que é possível seguir consumindo ilimitadamente. Impõe como paradigma a necessidade de crescimento continuado e entroniza como sagrado um instrumento de aferição: o PIB (Produto Interno Bruto). A ordem é girar a roda da economia cada vez mais velozmente afirmando que é preciso consumir, investir, importar, exportar, lucrar... não importando os indícios de destruição que ficam a partir da adoção desses procedimentos.

A conta, porém, é alta... e já está sendo cobrada: por exemplo, a queima de combustíveis fósseis para movimentar fábricas e automóveis, a devastação dos ambientes naturais pelas atividades de mineração ou para ampliar as fronteiras da agricultura e da pecuária, a utilização de produtos poluentes que se perpetuam na natureza, tudo isso está determinando a destruição pausada do planeta.

Segundo estudo da organização humanitária OXFAM, as vítimas de desastres naturais provocados pelas mudanças climáticas aumentarão em mais de 50 por cento nos próximos cinco anos. No calendário desse holocausto, o amanhã já chegou. As inundações, as secas e furacões estão se sucedendo com frequência e intensidade jamais vistas. Teme-se que se tenha tornado irreversível... principalmente quando avaliamos as questões éticas e políticas.

É sabido que foi mérito dos filósofos gregos terem construído uma arquitetônica ética fundada em algo universal, exatamente na razão, presente em todos os seres humanos. As normas que regem a vida pessoal chamaram de ética; e as que presidem a vida social chamaram de política. Por isso, para eles, POLÍTICA É SEMPRE ÉTICA. Não existe, como entre nós, política sem ética.

Quando analisamos a história e vislumbramos o futuro, percebemos que nenhuma sociedade no passado ou no presente vive sem uma ética. Como seres sociais, precisamos elaborar certos consensos, coibir certas ações e criar projetos coletivos que dão sentido e rumo à história. O planeta, a natureza, a humanidade, os povos, o mundo da vida estão demandando cuidado e responsabilidade. Se não transformarmos estas atitudes em valores normativos, dificilmente evitaremos catástrofes em todos os níveis. Os problemas do aquecimento global e o complexo das várias crises, só serão equacionados no espírito de uma ética do cuidado e da responsabilidade coletiva.

E a questão política? Política pode ser definida como estratégia de ação (e neste sentido todos nós fazemos política, quando nos posicionamos diante de alguma situação), exige-nos um constante exercício evolutivo. A atuação política está relacionada ao conflito do terceiro estado de consciência (Mandar x Obedecer), precisando, ainda, evoluir para o quarto estado de consciência (afetivo), quinto (raciocínio lógico), intuitivo e espiritual. Pensando apenas sob o ponto de vista monetário, o Brasil poderia ter aproveitado melhor a situação favorável que teve diante da crise econômica, caso tivéssemos hoje um sistema de ciência e tecnologia na rota do que precisa ser feito. Sem dúvida, estaríamos aproveitando isso justamente para nos tornarmos em pouco tempo mais competitivos na linha da sustentabilidade, que é o elemento decisivo neste século. Contudo, sabemos que sustentabilidade é um processo, não acontece da noite para o dia.

Há de se considerar, ainda o conceito “moral” - configura o conjunto de padrões comportamentais tidos como corretos, segundo as regras de boa convivência e educação, podendo variar de cultura para cultura. Dessa forma, as questões éticas e morais deveriam ter sido uma das maiores bandeiras dos governos atuais. Infelizmente, as negociações e tratados estabelecidos nas últimas duas décadas para proteger o meio ambiente foram inúteis. A culpa tem recaído apenas sobre os governantes. Sabe-se que por trás dos argumentos políticos, escondem-se interesses econômicos que impedem decisões em assuntos cruciais... no longo prazo, problemas ligados ao meio ambiente serão tão ameaçadores quanto o terrorismo.

Na verdade, nestes 60 minutos que demorei a escrever este artigo, devemos ter perdido 1.600 hectares de floresta tropical. Certamente mais desertos se espalharam, gases que prejudicam o clima foram emitidos, assim como poluentes tóxicos. É uma evidência da urgência da questão ambiental. Levando esses valores em consideração, novos paradigmas poderão ser construídos e, quem sabe, ainda haja tempo de refrear a corrida rumo ao abismo. É hora de dar atenção àquelas vozes que ecoam mensagens de uma lucidez desconcertante: mais respeito à natureza, menos ambição, mais ética e solidariedade, menos consumo, menos PIB, mais FIB (Felicidade Interna Bruta).


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IFET Rio Pomba e Diretor do IFET São João del-Rei. É Conselheiro do COPAM e do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

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