Mudanças Climáticas, Produção Agropecuária e Agrometeorologia


* por Maurício Novaes Souza

Dados recentes apontam que o mundo enfrentará um crescente risco de mudanças climáticas bruscas e irreversíveis em função do aquecimento global mais forte que o previsto. Tal afirmação é resultado de que situação? Anos atrás, sob condições de população escassa e exploração industrial mínima, parecia que a Terra poderia ser o provedor inesgotável dos recursos naturais. Entretanto, a população cresceu, a industrialização se expandiu, as florestas foram destruídas, os solos erosionados, os depósitos minerais exauridos, o ar e a água se tornam cada vez mais poluídos, e cada vez mais estamos preocupados com as limitações dos recursos da Terra.

Paralelamente, existe uma grande necessidade de aumento na produção de alimentos, para atender aos crescentes aumentos populacionais e de consumo em função da melhoria da renda dos países emergentes, como aqueles que compõem o BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). Para isso, é necessário que as perdas agrícolas e pastoris sejam minimizadas e a eficiência da produção agropecuária melhorada. Sabe-se que essa atividade é altamente dependente das condições do clima e do tempo em uma dada região. Entretanto, o aumento da produção de alimentos vem sendo feito por intermédio da exploração inadequada dos recursos naturais, prejudicando o ambiente, o solo, a água e o ar. Existe uma ciência que pode contribuir para o entendimento dessas questões e auxiliar o mundo e o produtor rural – a Agrometeorologia.

Antes de falar dessa ciência, faz-se necessário alguns comentários sobre clima. Os maiores problemas relacionados ao aquecimento global e às mudanças climáticas, associados ao efeito estufa, refere-se à sua aceleração. Várias notícias de cientistas renomados têm mostrado imagens tenebrosas de tais efeitos, alertando para o derretimento das geleiras e aumento do nível das águas, descongelamento do subsolo e florestas mais suscetíveis a insetos e queimadas. A verdade é que não mais existe incerteza com relação a esses fatos. Os cientistas afirmam que o verão do Ártico poderá não ter gelo antes de meados do século, abrindo as rotas marítimas do Norte, mas ameaçando a existência de mamíferos que dependem da existência do gelo para viver. Outros assinalaram os efeitos do aquecimento nos peixes, florestas e na tundra.

Isso ocorrerá porque o aquecimento global tornará o clima quente e seco, gerando com decorrer do tempo um superaquecimento global. Inexoravelmente, quebrará gradativamente o ciclo hidrológico. Isso porque, mesmo existindo intenso calor, com a umidade relativa do ar sendo baixa, será impossível formar chuva, pois para que exista a sua formação, será preciso que a umidade do meio ambiente esteja saturada. Além disso, é preciso também, que esta referida umidade saturada, encontre uma massa de ar frio, para se condensar e se precipitar em forma de chuva. Entretanto, o efeito estufa, tira essa condição. Pois, “teoricamente” dissipa (aquece) a massa de ar frio, que funcionaria como elemento condensador do vapor da água (umidade ambiental), que estaria se saturando, ou melhor, deixando esta massa de ar, mencionada anteriormente, quente e seca.

Quebrando o ciclo hidrológico, irá piorar as condições ambientais, para existência de vidas vegetais, animais e humana. Principalmente as espécies animais e vegetais, devido às condições ambientais adversas, do que a espécie humana: por ser um animal racional e se adaptar momentaneamente às condições adversas ambientais. Há de se considerar o fato de que a espécie humana é a principal depredadora do meio ambiente (fauna e flora). Isto, certamente, levará a biosfera terrestre a um ciclo involutivo, o qual já está se processando. Estão se observando um contínuo e vertiginoso declínio das espécies animais e vegetais, que pouco a pouco vão perdendo suas biodiversidades e, paradoxalmente, este quadro degenerativo do meio ambiente global vem se agravando. As questões que ainda precisam ser respondidas são quanto do aquecimento é causado pelos humanos, e o quanto drástico serão os efeitos a longo prazo.

Assim, percebe-se, que a desordem ambiental no mundo chegou a um ponto em que, ou se conscientizam as pessoas – e principalmente, os governos – para o tamanho da catástrofe que se avizinha, ou iremos pagar um custo alto pela sobrevivência – se ela for viável. Não há mais certezas com relação ao clima em nenhum lugar do mundo. E isto é apenas um sintoma. Cidades do norte da Europa que sempre consumiram energia para prover aquecimento, hoje estão preocupadas em instalar sistemas de refrigeração; nevascas intensas, e comuns no auge do inverno, surpreendem Nova York no meio do outono; o verão parece não ter se acabado ainda no sul da Europa, as temperaturas sobem a níveis inéditos. No Brasil, no início da primavera, tem-se observado chuvas típicas de verão.

Os pesquisadores tem insistentemente avisado, mas ainda grande parte da população não se atenta para os assuntos relativos às mudanças climáticas. Uma pesquisa recentemente publicada nos Estados Unidos mostrou que a proporção de norte-americanos convencidos de que o homem é responsável por boa parte do aquecimento global caiu 40% desde o ano passado. O site do “Correio Brasiliense” perguntou aos internautas se eles acreditam que os participantes da COP-15 (Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) chegarão a algum acordo, em dezembro, na Dinamarca. O resultado apontou que 66,67% acreditam que não e apenas 33,33% acreditam que sim. As principais autoras do estudo, Debika Shome e Sabine Marx, concluíram que, para os leigos, as questões climáticas parecem confusas, opressivas e ligadas a negociações políticas. Segundo essas autoras, boa parte da culpa está na forma como a mídia trata o tema. Para elas, é preciso aproximar o aquecimento global da realidade do público (EcoDebate, 09/11/2009).

De fato, na raiz de todo esse problema, está a predação obstinada em busca do crescimento sem limites, a qualquer custo. É evidente que, no cenário que se estuda, há fenômenos que são cíclicos na natureza, de transformação de florestas em desertos por processos naturais, mas os cientistas, com base nos parâmetros cada vez mais assustadores, avisaram ao mundo que nos aproximamos do caos. Com o Tratado de Quioto, em vigor desde fevereiro de 2005, houve um sopro de esperança; contudo, logo seguido do desencanto pela recusa dos Estados Unidos, o maior emissor de carbono do mundo, em acatar as propostas de redução desse avanço em direção à insensatez, com o seguinte o argumento: prejudicaria o desenvolvimento do país.

Bem recente, existe um documento que sintetiza mais de 1.400 estudos apresentados na conferência sobre o clima realizada em março passado, em Copenhague, onde, em dezembro próximo, será realizada a reunião das Nações Unidas para negociar um acordo que substituirá o Protocolo de Kyoto, que expira em 2012. Segundo esse documento, a superfície global e a temperatura dos oceanos, os níveis do mar, os acontecimentos climáticos extremos e o degelo do Ártico estão se intensificando mais significativamente e mais rápido do que haviam previsto os especialistas há apenas alguns anos. O relatório revela que as emissões de gases de efeito estufa e outros indicadores climáticos estão próximos dos limites previstos pelo Painel Intergovernamental da ONU sobre a Mudança Climática (IPCC), que em 2007, foi o ponto de referência para as turbulentas conversações na ONU.

Também há novas provas de que o próprio planeta começou a contribuir para o aquecimento global em consequência da atividade humana. Grande quantidade de gases, como o metano, retida durante milênios na camada subterrânea do gelo ártico, pode estar começando a serem lançados na atmosfera, acelerando o processo de aquecimento. A capacidade natural dos oceanos e das florestas de absorver o CO2 originado pela queima de combustíveis fósseis também está em perigo. Esse novo documento, escrito e revisado por muitos dos cientistas que compilaram o documento do IPCC, pede que os políticos tomem atitudes urgentes para evitar que a temperatura média global aumente mais de dois graus centígrados em comparação com os níveis pré-industriais. Uma moderação rápida, sustentável e efetiva é necessária para evitar a perigosa mudança climática. Uma elevação das temperaturas de mais de dois graus dificultará a vida das sociedades futuras e é provável que causem maiores transtornos ambientais e sociais durante e a partir do próximo século.

O IPCC diz que para alcançar este objetivo é necessário que as nações industrializadas diminuam drasticamente as emissões de gás de efeito estufa entre 20 e 45% em comparação com os níveis de 1990. O novo documento sugere que são essenciais novos e profundos cortes nas emissões, um dos assuntos mais espinhosos colocados sobre a mesa nas conversações da ONU. Objetivos menores para 2020 aumentam o risco de impactos sérios, incluindo a superação da barreira a partir da qual as forças naturais começam a empurrar as temperaturas para cima, inclusive mais rapidamente. Muitos cientistas acreditam que, se forem superados esses limites, será difícil, talvez impossível, reverter o processo.

O novo documento não tem o mesmo peso que o informe do IPCC, que se baseou em uma quantidade ainda maior de estudos e - o mais importante - é um documento de consenso, o que significa que até os pontos de vistas mais conservadores foram levados em conta. Mas os dados do IPCC remontam a pelo menos quatro a cinco anos e uma avalanche de novas pesquisas sugere que os impactos da mudança climática podem ser ainda piores, e que chegarão mais cedo do que mais tarde. Os especialistas em clima do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), por exemplo, calcularam recentemente que, apesar dos grandes esforços feitos para reduzir drasticamente a poluição, a temperatura da superfície da Terra aumentará 5,2o C até 2010, mais que o dobro do que predisseram em 2003.

Como ficaria a agropecuária brasileira? Sabemos que o Brasil tem uma das maiores indústrias agropecuárias do Mundo. A importância da contribuição do Agronegócio no PIB brasileiro é imensa e inquestionável. Por essas questões, existe uma grande necessidade de informações meteorológicas e climatológicas específicas que capacitem os agropecuaristas a fazerem decisões operacionais. A Agrometeorologia é uma combinação de ciências físicas e biológicas que estuda as relações entre os elementos climáticos, o solo e os seres vivos e avalia os fenômenos climáticos que influenciam a produção e a produtividade agrícola. Isto faz da agrometeorologia uma técnica indispensável na formação dos profissionais que trabalham nas áreas agropecuárias, e fundamentais aos produtores rurais. Assim, pode-se considerar que o principal objetivo da Agrometeorologia é colocar a ciência da meteorologia a serviço da agropecuária para melhorar o uso da terra, para ajudar a produzir o máximo de alimentos e evitar o abuso irreversível dos recursos naturais (água e solo).

Em face dessas questões, em décadas recentes, o uso da Agrometeorologia na agropecuária vem aumentando. Isto tem sido devido, largamente, aos estudos de laboratório, casa de vegetação e de campo, nos quais as respostas biológicas têm sido medidas sob condições controladas. Existem diversas aplicações das técnicas meteorológicas às operações de campo. Alguns exemplos importantes: a) previsão e proteção contra geadas; b) avisos contra fogo nas florestas; c) planejamento da irrigação; d) calendários de plantio e colheitas; e) seleção de lugares para as culturas; f) controle de insetos; e g) controle de doenças e muitas modificações microclimáticas, como a utilização da prática de quebra-ventos.

Com tantos argumentos irrefutáveis, percebe-se que as mudanças climáticas poderão aumentar a freqüência de vários tipos de desastres naturais. Fortalece-se, assim, o conceito de “Desenvolvimento Sustentável”, que pressupõe maior conhecimento do sistema climático e, em conseqüência, maior capacidade de prever as mudanças climáticas futuras e seus possíveis efeitos nas atividades sócio-econômicas e no meio ambiente. Dessa forma, os serviços meteorológicos devem estar aptos a satisfazer pelo menos quatro tipos de exigências dos agricultores e pecuaristas: a) Previsões do tempo detalhadas, na ocasião exata e adaptadas para operações agrícolas comuns; b) Serviços de extensão para ensinar aos agricultores usar as informações do item anterior; c) Observações especializadas de clima no lugar onde as culturas são realizadas; e d) Um sistema de comunicações para levar as informações atualizadas sobre o clima por intermédio do rádio, da televisão e dos jornais.

Com tantos fatos e argumentos incontroversos, percebe-se que as atividades antrópicas causaram alterações sem precedentes nos ecossistemas nas últimas décadas para atender às crescentes demandas por espaço, alimentos, água, fibras e energia. É incontestável que essas alterações ajudaram a melhorar a vida de bilhões de pessoas; entretanto, paralelamente, enfraqueceram a capacidade da natureza de prover esses e outros serviços fundamentais. A indispensável proteção do meio ambiente global depende de mudanças estruturais na economia e na cultura do consumo.

A tecnologia e o conhecimento de que dispõe hoje a sociedade humana podem reduzir consideravelmente os impactos nos ecossistemas, mas sua utilização em todo o seu potencial permanecerá reduzida enquanto os serviços oferecidos por esses ambientes naturais continuarem a ser percebidos como gratuitos e ilimitados e não receberem seu devido valor. Verifica-se a insustentabilidade dos caminhos atuais da civilização humana.

Portanto, o modelo de produção, agrícola e urbano-industrial, precisa ser redesenhado, bem como as políticas públicas precisam ser revistas. A pesquisa deverá estar direcionada e sustentada, fundamentalmente, por princípios éticos. Em cenários onde se deslumbra a possível realidade de mudanças climáticas e aquecimento global, o atual modelo de produção agrícola tornar-se-á insustentável. A ciência “Agrometeorologia” poderá ser uma ferramenta importante para auxiliar os produtores rurais a enfrentarem essa nova realidade.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IFET Rio Pomba e Diretor-Geral do IFET São João del-Rei. É Conselheiro do COPAM e do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

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