É possível existir “Desenvolvimento Sustentável”?


*por Maurício Novaes Souza1 e Wantuelfer Fernandes Gonçalves2


A famosa revista “Veja” lançou uma edição especial, no final de 2009, intitulada “O ano zero da economia sustentável”. De fato, a revista está muito interessante e, não intencionalmente, faz um diagnóstico da sociedade atual em relação ao tema (que poderia ter o título trocado por “conhecimento zero da economia sustentável”). Além disso, conforme sugere o título, aponta que em anos recentes, principalmente as duas últimas décadas de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias limpas, deram origem a uma nova linha de pensamento e comportamento: economia e ecologia em sociedade... Sugere desenvolvimento sustentável?

Em tempos recentes, todas as responsabilidades para reestruturação harmônica global, vêm sendo transferidas para a sociedade e as empresas. Para quem é da área rural, pode-se perceber semelhanças com a maior parte das propostas sugeridas pela revista com o modelo agrícola de substituição de insumos, proposta da “Agroecologia”, inclusive citado na revista. A ideia geral é de se substituir as partes com distorções, e não redesenhar um sistema focando, principalmente, os hábitos como fator principal, pois isso inevitavelmente já mudaria a postura das empresas. Em longo prazo, adotar medidas ineficientes pode tornar o trabalho desse grupo que sugere tais mudanças, que são imprescindíveis, desacreditado, o que dificultaria ações futuras.

Contudo, depois do encontro de Copenhagen e do relatório acusatório dos cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, de dezembro de 2009, já ouvimos e lemos centenas de palestras, entrevistas, informações, discursos, proferidos por pessoas que, institucionalmente, são ou se sentem autoridades no assunto ambiental. Todas são unânimes em tratar o problema vivencial do planeta de uma forma inteiramente em desacordo com a realidade. Pior ainda: defendem que o desenvolvimento deve ser feito de forma sustentável.

De fato, deveríamos nos sentir desconfortáveis ao ouvirmos alguém defender o desenvolvimento sustentável para simplesmente ficar bem com a classe econômica e com os ambientalistas. Uns o fazem na intenção de colocar o desenvolvimento materialista em destaque. Outros, inadvertidamente, se deixam levar para a semântica que transformou a expressão em “sustentabilidade”, palavra que também é bandeira dos defensores da ecologia. Percebemos que aquele discurso está sendo dirigido a ingênuos, a quem compete apenas balançar a cabeça, como concordância cômoda e irracional.

Os participantes da engrenagem econômica repetem e defendem o mesmo bordão, por ser conveniente aos seus interesses de ganância. O que o planeta precisa, e com urgência, é da reversão civilizacional das atividades nocivas que o estão degradando. A sustentabilidade se fará naturalmente, pois será consequência de atitudes que sustentarão a capacidade planetária de prover os meios de vida à biodiversidade. Até o momento, é possível reverter o caos que se anuncia... Daqui a vinte anos a sentença já estará dada.

Na Conferência de Copenhagen, os impasses trouxeram de volta discussões antigas, sobre formas de superar problemas como a exigência de consenso para decisões. Mas as alternativas já foram discutidas em outras Conferências (COPs), como a de criar uma organização mundial só para o meio ambiente, separada da ONU. Só que ela enfrentaria problemas semelhantes: como ter regras universais sem a concordância de todos os países? O fato é que a urgência de decisões é implacável. Ainda há poucos dias a Organização Meteorológica Mundial advertiu que esta primeira década do Século XXI está sendo e será a mais quente desde 1850, com temperatura média superior à da década de 1990, que já fora mais quente que a de 1980. Há uma corrida contra o tempo, que não está sendo ganha.

No entanto, há de se tocar no mérito, a reportagem comentada da revista “Veja” no início deste artigo abre espaço para a discussão desses assuntos, além de apontar tendências de mercado: vale citar que a revista elegeu as 10 profissões mais importantes para o futuro, quando se pensa e se vislumbra o Desenvolvimento Sustentável: o perfil do agroecólogo se encaixa diretamente em 7 delas e indiretamente em 1 (as outras duas eram instalador de células fotovoltaicas e de coletores eólicos).

1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF SEMG Rio Pomba e Diretor-Geral do IF SEMG São João del-Rei. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

2. Graduando do Curso de Bacharel em Agroecologia do IF SEMG Rio Pomba. E-mail: wantuelfer@yahoo.com.br.

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