O ESPECIALISTA EM AGROECOLOGIA COMO PRODUTOR E GESTOR AMBIENTAL

* Por Maurício Novaes Souza1 e Márcio Soares Santos2


O desenvolvimento rural no Brasil ficou, ou ainda é centrado, salvo algumas exceções, em pesquisas agropecuárias voltadas para um modo de produção dissociado dos princípios e dos conhecimentos da ecologia - isto explica o porquê da elevada degradação ambiental. Paralelamente, nas políticas ambientais, tem-se desenvolvido mecanismos de conservação de ecossistemas naturais, contudo dissociando-os de modelos que elaborem projetos de utilização social dos recursos naturais. Dessa forma, nem as pesquisas agropecuárias, nem as políticas ambientais, atribuem maior conceito de conservação e de reprodução das condições ecológicas nos sistemas produtivos.

Mediante a esse fato, observa-se que a nossa situação em relação ao meio é de extrema vulnerabilidade, posto que se possuem cerca de 45% da superfícies de nossos ecossistemas ocupados pelo sistemas agropecuários. Esta enorme ocupação territorial da agricultura/pecuária brasileira faz com que tudo o que diz respeito à organização socioeconômica, técnica e espacial da produção desses setores devam ser consideradas de importância estratégica e vital no enfoque dos impactos ambientais. Contudo, ao invés de se criar estratégias de manejo sustentável da área rural, na maioria das vezes, foram e às vezes são implantados sistemas de subordinação da agropecuária nacional às lógicas econômicas externas, caracterizando-a como setor de transferência de riquezas, a expensas da exploração predatória de recursos naturais e da exclusão social.

Junto a isto nos deparamos com os meios de desenvolvimento dessas políticas e pesquisas elaboradas nas universidades federais, que em sua maioria, mantém dependência econômica principalmente das grandes empresas multinacionais - estas forçam a produção de conhecimento em benefício próprio, o que desfavorece a solução da problemática socioambiental e econômica do nosso meio de produção.

Para que possamos adequar à forma de produção agrícola à conservação dos ecossistemas naturais, é necessária a formação de profissionais ligados aos conhecimentos agroecológicos. Deverá haver a criação de uma cultura ecológica que penetre, motive e mobilize as instituições encarregadas da elaboração e da implementação das políticas públicas, inclusive as organizações de agricultores que sejam igualmente incorporadas pelas organizações da sociedade civil e por outros agentes socioeconômicos e políticos, direto ou indiretamente, relacionado com a agricultura/pecuária. Dessa forma, poderão atuar de forma a gerir ações não apenas na produção, mas de fato, como gestor ambiental.

Há de se considerar, então, os agroecólogos. Além de suas habilidades de produção de forma ecológica, são profissionais que também trabalham em projetos de conservação e recuperação dos ambientes agrícolas. São responsáveis por avaliar riscos ambientais elaborando estudos/planos que visem à redução dos impactos determinados por ações humanas ou mesmo naturais; e têm como principal campo de atuação a agricultura de base familiar.

De fato, tais profissionais desenvolvem tecnologias de produções agroecológicas com vistas no aumento da produtividade sem prejuízo ambiental; identificam e implantam sistemas de remediação e biorremediação para recuperação de áreas e ambientes degradados; elaboram e coordenam projetos voltados ao uso sustentável dos recursos naturais, à preservação da biodiversidade e do clima do Planeta. O Agroecólogo pode trabalhar em instituições de regulamentação e controle ambiental; em instituições ligadas a pesquisa e extensão agroecológica; em projetos e gerenciamento de bacias hidrográficas; no desenvolvimento de tecnologias para preservar ou recuperar o meio ambiente. Podem atuar em licenciamentos, estudos de impacto ambiental e coordenação de obras na esfera ambiental. De forma ampla, o Agroecólogo pode desempenhar as seguintes atividades profissionais:

• Supervisão, coordenação e orientação técnica;
• Estudo, planejamento, projeto e especificação;
• Estudo de viabilidade técnico-econômica;
• Assistência, assessoria e consultoria;
• Direção de obra e serviço técnico;
• Vistoria, perícia, avaliação, arbitramento, laudo e parecer técnico;
• Ensino, pesquisa, análise, experimentação, ensaio e divulgação técnica e extensão;
• Elaboração e orçamento de projetos;
• Padronização, mensuração e controle de qualidade;
• Execução e fiscalização de obras e serviços técnicos;
• Produção e condução de trabalho técnico especializado; e
• Condução de equipe de instalação, montagem, operação, reparo e manutenção.


Observa-se, assim, que os profissionais da área de produção agrícola/pecuária devem ser preparados para que tenham o seguinte perfil: profissionais qualificados, capazes de serem protagonistas de suas ações pessoais e acadêmicas; deverão ser também críticos, socialmente comprometidos com as Ciências Agrárias e Ambientais e também com os demais campos científicos afins, por intermédio das atividades de ensino, pesquisa e extensão, de modo a contribuir para a sustentabilidade de nossos ecossistemas e com o desenvolvimento educacional, econômico, social e cultural do Brasil, cumprindo seu papel na região em que está inserido.


No caso do curso de Bacharel em Agroecologia, o objetivo geral do curso é o de formar profissionais de elevado nível na área de produção agrícola/pecuária, com capacidade de criar, manter, estimular e apoiar iniciativas de desenvolvimento rural sustentável. Oferecem alternativas para os produtores rurais que pertencem ao modelo de produção familiar, bem como para todo o público alvo interessado, a fim de valorizar a agropecuária local, brasileira e seus agricultores/pecuaristas, ampliando as chances de competitividade, protegendo o meio ambiente e reduzindo as desigualdades sociais.


De forma ainda mais específica, os cursos que preparam o profissional em agroecologia para atuarem, também, como gestor ambiental, deverão:

• Proporcionar uma elevada formação no campo da Agroecologia, como ferramenta necessária ao raciocínio, formulação e resolução de problemas;
• Desenvolver capacidades intelectuais relativas às habilidades e competências imprescindíveis ao desempenho da profissão de Agroecólogo;
• Desenvolver a capacidade de estimular processos de inclusão social e de fortalecimento da cidadania, por meio de ações integradas, que tenham em conta as dimensões: ética, social, política, cultural, econômica e ambiental;
• Estimular o acadêmico para a elaboração e execução de projetos técnicos ou de pesquisa científica que visem proteger o meio ambiente e eliminar as desigualdades sociais;
• Desenvolver ações que levem à conservação e recuperação dos ecossistemas e ao manejo sustentável dos agroecossistemas, visando assegurar que os processos produtivos agrícolas/pecuários não causem danos ao meio ambiente e riscos à saúde humana e animal;
• Colocar o futuro profissional em contato com as diversas áreas de atuação da Agroecologia.


Atendendo a essas condições, após a conclusão do curso, espera-se que o profissional formado tenha desenvolvido elevado nível de cognição no que se refere às ciências agroecológicas e as demais ciências diretamente relacionadas com o tema em estudo. Espera-se um profissional de elevada capacitação: com uma formação que permita uma visão clara sobre as questões relacionadas à agricultura/pecuária e ao meio ambiente, e, sobretudo, sobre as questões de caráter humano envolvidas.


O agroecólogo tem como desafio elevar o nível de qualidade de vida dos agricultores/pecuaristas e da sociedade como um todo, estando em sintonia com conservação dos recursos naturais. O profissional procura integrar o conhecimento técnico, científico, social, antropológico e econômico na busca de propostas inovadoras para solucionar problemas ambientais que afetam a população. Preocupa-se com a preservação dos recursos naturais e as transformações positivas de ordem política, econômica e social.


Dessa forma, com esse perfil e com essas características, o agroecólogo, além de gerir ações no campo agronômico, atua no mercado de trabalho como gestor ambiental nos mais variados campos; ou seja, na produção, na recuperação de ambientes degradados ou na conservação de ecossistemas naturais. Esse deverá ser o perfil do profissional que trabalha com gestão ambiental e se preocupa com a produção agrícola/pecuária sustentável.


* 1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste de Minas campus Rio Pomba e Diretor-Geral do IF Sudeste de Minas campus São João del-Rei. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.


2. Tecnólogo em Agroecologia e graduando do Curso de Bacharel em Agroecologia do IF Sudeste de Minas campus RIO POMBA. E-mail: marciosoaresgraf@yahoo.com.br.

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