A nova classe média: exigente e distante dos velhos mecanismos de poder e de controle social


* Maurício Novaes Souza


Neste contexto tão confuso dos tempos atuais, não temos respostas para muitas de nossas perguntas. Desde que escrevi a minha dissertação de mestrado, entre 2002 e 2004, “Degradação ambiental e recuperação ambiental e desenvolvimento sustentável”, fiquei muito mais atento e questionador quanto ao comportamento do Homo sapiens -por que, com tanto conhecimento, o homem pode causar tanta degradação? Para responder a esses questionamentos, conhecer os tempos remotos de nossa espécie e como ela deixou de ser um animal qualquer com impacto insignificante no planeta para se tornar dona do mundo, capaz de destruí-lo com o apertar de alguns acionadores, sempre foi algo que me interessou saber, e foi por isso que fiquei muito feliz ao conhecer e ler recentemente o livro Sapiens: uma breve história da humanidade.
De forma bastante agradável, o livro mistura e articula conhecimentos de história, biologia, linguística, geografia, antropologia, sociologia, capitalismo, imperialismo, entre outros! É um livro diferente porque conta a história de um personagem que muda continuamente. Porém, este protagonista tão especial, não é uma pessoa, e sim toda uma espécie: Homo Sapiens! Seu autor é Yuval Noah Harari, doutor em História pela Universidade de Oxford, especializado em história mundial e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. A tese central do livro: o homem conseguiu sua supremacia incontestável sobre qualquer outra espécie nesse planeta devido à sua capacidade de criar e compartilhar mitos: ou seja, sua capacidade de criar ficção! Comenta sobre as revoluções recentes: do mais e da mobilidade, que criaram e fortaleceram uma nova classe média - cada vez mais exigente e distante dos velhos mecanismos de poder e de controle social; que acabou por produzir uma terceira revolução: da mentalidade, que associada aos mecanismos que a tecnologia oferece hoje, estão mudando o mundo, reconfigurando o poder e mudando a vida.
            Sapiens traça a trajetória da espécie pela sucessão de três revoluções: a cognitiva (quando nos tornamos astutos – há aproximadamente 70.000 anos); a agrícola (quando moldamos a natureza a nosso favor e começa a unificação da humanidade); e a científica/industrial (quando ganhamos um poder perigoso e nos tornamos deuses). Por toda a parte, e cada vez mais, as máquinas criadas pelo homem fazem o nosso trabalho. Nesse período tão recente, a família e a comunidade se enfraqueceram e são substituídas pelo poder do Estado e do mercado. Há extinção em massa de plantas e animais. Os humanos transcendem os limites do planeta Terra, as armas nucleares se tornam uma ameaça efetiva à sobrevivência da humanidade e dezenas de ecossistemas são degradados. Os organismos são moldados não mais pela chamada seleção natural, mas pela interferência do homem. Porém, nem toda essa evolução se transforma em nosso benefício. No quesito "multiplicação", a nossa espécie se saiu melhor que as demais. Mas será que esta multidão de pessoas vive melhor hoje que há 30.000 anos?
Harari destaca a capacidade de comunicação, que permitiu ao homem inventar mitos comuns ou ficções. Os três mais importantes são o dinheiro, a religião e o império: permitiram a união das pessoas pelos tempos e lugares. Muito interessante e altamente polêmico o autor dar a mesma origem para a religião, o dinheiro e para os governos. Para agravar a atual situação, a globalização e a modernidade trouxeram o colapso da família – “a revolução social mais momentosa que já se abateu sobre a humanidade” – e tem acabado também com o consolo da religião. Se as pessoas nos tempos medievais “acreditavam na promessa de eterna felicidade na vida após a morte” o livro sugere que, “eles podem, muito bem, terem vivido as suas vidas como muito mais significado e valor do que as pessoas seculares modernas, que em longo prazo não podem esperar nada, além do mais completo e sem sentido esquecimento”.
O fato é que mudamos tanto, em tão pouco tempo, que o Homo sapiens deixará efetivamente de existir. Os nossos descendentes podem se tornar irreconhecíveis para nós. O único procedimento que pode parar esta mudança, na opinião de Harari, minha também, é a possibilidade de uma catástrofe ambiental, que também pode acabar com nossa espécie: a humanidade verá mais um evento épico, quando nós seremos banidos nos próximos séculos. Seja porque ganhamos poderes de deuses e nos tornaremos irreconhecíveis para nós mesmos, ou porque iremos nos destruir por um desarranjo provocado no meio ambiente. Muito antes da Revolução Industrial, o Homo sapiens já era recordista, entre todos os organismos, em levar espécies de plantas e animais mais importantes à extinção. Segundo Harari, temos a honra duvidosa de ser a espécie mais mortífera nos anais da biologia.

O livro quebra os paradigmas mais arraigados na nossa sociedade: mostra da forma mais lógica possível como chegamos às nossas características atuais - políticos e lideranças empresariais e sociais deveriam lê-lo! Indiscutivelmente, esse livro me trouxe mais conhecimento, esclarecimento e reflexão, somando de forma significativa aos conhecimentos adquiridos na oportunidade de elaboração da minha dissertação, há 15 anos. Mesmo que eu não concorde com todas as opiniões do autor que estão implícitas na obra, eu admiro a lógica e a sua maneira agradável de escrever. Ao final, meio profético e assustador, aponta algumas mudanças necessárias para a manutenção de nossa espécie, coroando um livro que consegue, de forma geral, nos fazer entender, e ser, um Homo sapiens, no mínimo, mais reflexivo e melhor. Este é, decididamente, um livro que faz bem à cabeça do Sapiens.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Economia e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa. Foi professor do IF Sudeste de Minas campus Rio Pomba. Atualmente, IFES campus de Alegre. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Resenha: Sapiens - uma breve história da humanidade