quarta-feira, 13 de maio de 2009

ADUBAÇÃO ORGÂNICA: UMA ALTERNATIVA ECONÔMICA E AGROECOLÓGICA


* Por Maurício Novaes Souza1 e Silvane de Almeida Campos2

A idéia de objetivar o desenvolvimento sustentável revela, inicialmente, a crescente insatisfação com a situação criada e imposta pelos modelos vigentes de desenvolvimento e de produção das atividades humanas. Resulta de emergentes pressões sociais pelo estabelecimento de uma maior eqüidade social. Na elaboração da Agenda 21 Brasileira, foi considerada fundamental que se promova à substituição progressiva dos sistemas simplificados, como aqueles praticados pela agricultura convencional, por sistemas diversificados que integrem os sistemas produtivos aos ecossistemas naturais.

Contudo, percebe-se que as propriedades rurais, a indústria, o comércio e as diversas comunidades, não estão aproveitando efetivamente os seus recursos, que incluem seu potencial de transformação dos produtos agropecuários, da matéria-prima florestal e agroflorestal, e da administração de seus resíduos gerados durante os processos produtivos, urbanos e rurais, em produtos de maior valor agregado. Dessa forma, a tão discutida retomada do crescimento, intensamente discutida nos dias atuais, não é suficiente para a solução dos diversos problemas e não é a melhor alternativa para se chegar ao desenvolvimento sustentável. É necessário que haja, paralelamente à transformação da estrutura produtiva que garanta a recuperação do dinamismo econômico, políticas que promovam uma maior eqüidade social e estimulem o uso racional dos recursos naturais.

Considerando a atual crise econômica e ambiental que o mundo vem enfrentando, inclusive aqui no município de Rio Pomba, há necessidade urgente de buscarmos tecnologias mais limpas, menos agressivas, visando o uso de recursos naturais de forma racional a fim de garantirmos sustentabilidade às presentes e futuras gerações. É neste cenário mundial que a Agroecologia tem dado importante contribuição, pois nos remetem a estilos de agricultura menos agressivos ao meio ambiente; que promove a inclusão social de forma justa e igualitária; proporciona condições econômicas viáveis aos agricultores; respeito à cultura de seus antepassados, ao conhecimento local; ecologicamente proporciona melhor equilíbrio entre nutrientes – solo – água - planta; estabelece uma relação de harmonia entre homem e natureza; defende uma agricultura que não destrói o meio ambiente e não é excludente. Esta ciência apresenta a idéia e a expectativa de uma nova agricultura capaz de fazer bem ao homem e ao meio ambiente. Uma de suas alternativas é a técnica da agricultura orgânica.

De fato, esse tipo de agricultura utiliza como estratégia o uso de antigas práticas agrícolas, porém adaptando-as às mais modernas tecnologias de produção agropecuária com o objetivo de aumentar a produtividade e causar o mínimo de interferência nos ecossistemas, objetivando ser uma das alternativas para viabilizar a agricultura familiar. Trata-se de uma técnica ecológica, pouco onerosa, capaz de produzir alimentos saudáveis tais como os convencionais, garantindo excelente qualidade de vida aos seus consumidores, além destes contribuírem fortemente para a preservação e conservação ambiental.

Apesar da maioria da população reconhecer os benefícios que os produtos orgânicos trazem ao homem, poucas pessoas conseguem ter acessá-los, sendo consumidos somente por aquelas de maior poder aquisitivo. É neste contexto que a adubação orgânica obtém técnicas que possibilita aumentos de produtividades em larga escala competitivas com a agricultura convencional. Um dos métodos para a obtenção de adubos orgânicos é por intermédio da compostagem.

Tal processo de transformação de resíduos orgânicos em fertilizantes orgânicos humificados, pode utilizar como matéria-prima frutas, legumes, verduras, borra de café, casca de arroz e de árvores, serragem, lodo de esgoto, esterco bovino, lixo domiciliar cru, cama animal, palhada, resíduos industriais e outros. Geralmente, utiliza-se o material que se encontra disponível na propriedade ou região a fim de reduzir os custos de produção. Existem critérios essenciais que devem ser observados durante o processo de compostagem em leiras, tais como: tempo de compostagem, aeração, irrigação, temperatura, aquecimento, umidade e revolvimento. Este processo se dá devido à ação benéfica dos microrganismos (bactérias, fungos, etc.) presentes no solo e na matéria-prima.

Na compostagem, a relação C/N ideal é em torno de 30/1 e indica quando a matéria orgânica se encontra crua, bioestabilizada (semicurada) e humificada (curada). São inúmeros os benefícios que os compostos orgânicos podem proporcionar ao solo: melhorias nas suas propriedades físicas, químicas e biológicas; liberação gradual de nutrientes; elevação no teor de matéria orgânica; melhoria na infiltração da água; aumento na capacidade de troca de cátions e o efeito tampão. A agricultura orgânica pode contribuir decisivamente para o desafio dos tempos atuais, relacionados à sustentabilidade dos recursos naturais restantes, garantindo sobrevivência sócio-econômica e ambiental às gerações presentes e vindouras.


* 1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do IFET/Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É Conselheiro do COPAM e consultor do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

2. Técnica em Meio Ambiente e graduanda do Curso de Bacharel em Agroecologia do IFET/RIO POMBA. E-mail: silvaneacampos@yahoo.com.br.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A economia global e os custos ambientais



* Por Maurício Novaes Souza

Desde o segundo semestre do ano anterior, em todo o mundo, a preocupação está voltada para a crise financeira americana. Verificam-se reflexos em todos os países do Planeta. Contudo, a questão ambiental, que deveria ser a prioridade posto ser a fonte de todos os recursos utilizados nos processos produtivos, vem sendo deixada sempre em segundo plano. Na prática, o velho discurso da necessidade de crescimento econômico para a geração de emprego e renda acaba prevalecendo. Ou seja, continua vigorando a visão imediatista, de curtíssimo prazo. De fato, a economia global está perdendo mais dinheiro com o desaparecimento das florestas do que com a atual crise financeira global, segundo conclusões de um estudo financiado pela União Européia.

Segundo dados dessa pesquisa, intitulada “A Economia dos Ecossistemas e Biodiversidade”, calcula-se que os desperdícios anuais com o desmatamento variam de US$ 2 trilhões a US$ 5 trilhões. O número inclui o valor de vários serviços oferecidos pelas florestas, como água limpa e a absorção do dióxido de carbono. O estudo foi discutido durante várias sessões do Congresso Mundial de Conservação, realizado em Barcelona. De acordo com o coordenador do relatório, Pava Sukhdev, o custo resultante da degradação da natureza ultrapassa o dos mercados financeiros globais.

Ainda cabe uma consideração sobre os custos ambientais: além de ser maior, ele é contínuo. De acordo com diversas fontes econômicas, enquanto as bolsas americanas perderam entre US$ 1 trilhão a US$ 1,5 trilhão, vários estudos apontam que as perdas com a destruição das florestas equivalem a 7% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Há de se considerar que a humanidade herdou um acúmulo de 3,8 bilhões de anos de capital natural: mantendo-se os padrões atuais de uso e degradação, muito pouco há de restar até o fim do século XXI. Nas últimas três décadas consumiu-se um terço dos recursos da Terra, ou seja, de sua riqueza natural.

Dessa forma, é preciso saber que à medida que as florestas e outros ecossistemas são destruídos, a natureza cessa de fornecer serviços que normalmente oferece de graça. Como conseqüência, o homem tem de passar a produzir tais serviços - seja pela construção de reservatórios ou de estruturas para seqüestrar dióxido de carbono, ou áreas para o plantio que antes estavam disponíveis naturalmente. Os serviços de armazenamento de água e da regulação do ciclo de carbono, entre outros, cria condição para um meio ambiente saudável, oferecendo não só água e ar limpos, chuvas, produtividade oceânica, solo fértil e elasticidade das bacias fluviais, como também certas funções menos valorizadas, mas imprescindíveis para a manutenção da sustentabilidade, tais como: a) o processamento de resíduos (naturais e industriais); b) a proteção contra os extremos do clima; e c) a regeneração atmosférica.

Por estas questões, o homem em suas atividades produtivas deve sempre considerar que os ecossistemas são sistemas abertos e integrados por todos os organismos vivos, inclusive ele próprio, e os elementos não viventes de um setor ambiental definido no tempo e no espaço, cujas propriedades globais de funcionamento (fluxo de energia e ciclagem da matéria) e auto-regulação (controle) derivam das relações entre todos os seus componentes, tanto pertencentes aos sistemas naturais, quanto aos criados ou modificados pelo Homem.

Apesar de não haver mais dúvidas com relação a essas questões, o homem continua interagindo com o ambiente à sua volta, modificando-o e transformando-o de acordo com suas necessidades: na indústria, no comércio e nas propriedades rurais. Os resultados dessas ações são facilmente perceptíveis ao longo de toda a biosfera. Esta interferência ocorre nos diversos níveis, agindo diferentemente sobre os componentes ambientais: ar, solo, água e seres vivos. Os reflexos, geralmente desastrosos, podem ser observados, por exemplo, nas atividades agropecuárias e florestais, causando profundas alterações na paisagem, em nível mundial. Nos sistemas urbanos também são encontradas marcas profundas da intervenção humana.

Para agravar ainda mais a situação, sabe-se que os gastos com a degradação do ambienterecaem principalmente sobre os mais pobres, que tiram boa parte de seu sustento diretamente dos ecossistemas naturais, como as florestas, principalmente nas áreas tropicais. Caso os políticos durante as suas legislaturas tivessem visão de médio e longo prazo, com propostas efetivas de cunho social e ambiental, deveriam considerar estudos como esse vislumbrando uma nova forma de criar políticas que financiem a proteção da natureza, em vez de permitir que o declínio de ecossistemas e espécies continue.
Publicado originalmente em abril, 2004: Jornal INFORMACIRP.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela UFV. É professor do IFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É consultor do IBAMA e Conselheiro do COPAM da Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Escassez e qualidade da água: reflexões sobre saúde e políticas públicas


* Por Maurício Novaes Souza

No dia 22 de março foi comemorado o dia mundial da água. Como se pergunta a todo ano, existe motivo para comemoração? Também, no mês de março, aconteceu em Istambul, na Turquia, o V Fórum Mundial da Água, com a pretensão de apresentar respostas para escassez do recurso provocada pelo crescimento da população, o desperdício, o consumo extravagante e o aumento da necessidade de energia. Tal encontro acontece a cada três anos e nesta ocasião reuniu um número de participantes jamais vistos - 28.000 pessoas de mais de 180 países.

O Fórum analisou os problemas da escassez de água, o risco de conflito por enfrentamentos entre países por rios e lagos e a melhor maneira de proporcionar água limpa a milhões de pessoas. Segundo o presidente do Conselho Mundial da Água, o francês Loïc Fauchon, o comportamento humano com relação ao uso deste recurso é cada vez mais irrefletido e inconsequente, e aumentar indefinidamente a oferta de água, além de colocar em perigo o meio natural. é muito mais caro hoje em um contexto de evolução do clima e crise financeira.

Na verdade, o modelo de produção e consumo são os responsáveis pelas agressões cometidas sobre os ecossistemas aquáticos, responsáveis pela evolução do clima, que vem se somar às mudanças globais, responsáveis das tensões que reduzem a disponibilidade das massas de água doce, indispensáveis para a sobrevivência da humanidade. A previsão é de que a população mundial, atualmente superior a 6,7 bilhões de pessoas, possa chegar a nove bilhões até meados deste século, o que aumentará consideravelmente a demanda de recursos hídricos, a 64 bilhões de metros cúbicos por ano, segundo dados da ONU.

Segundo a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE), o número de pessoas com graves problemas para conseguir água chegará a 3,9 bilhões em 2030, ou seja, metade da população do mundo. As contas da OCDE não incluem o impacto da mudança climática, que pode já estar afetando as coordenadas da água, mudando o lugar e o momento das chuvas e nevascas. Considere-se ainda que quase 2,5 bilhões de pessoas não têm acesso ao saneamento básico, o que contraria as Metas de Desenvolvimento do Milênio da ONU. Sabe-se que as causas da crise são a irrigação excessiva, as falhas no fornecimento urbano, a contaminação dos rios e a extração desenfreada de qualquer fonte.

Também, no dia 07 de abril, foi comemorado o Dia Mundial da Saúde. Tal data foi criada em 1948, pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em função da preocupação de seus integrantes em manter o bom estado de saúde das pessoas do mundo, bem como alertar sobre os principais problemas que podem atingir a população. Segundo a OMS, ter saúde é garantir a condição de bem-estar das pessoas, envolvendo os aspectos físicos, mentais e sociais das mesmas, em harmonia.

Sabe-se que a alimentação e saneamento são formas de prevenir doenças. Portanto, é necessário que informações acerca da higiene, doenças, lixões, aterros sanitários, dentre outras, cheguem à população, pois dessa forma o governo faz um trabalho preventivo, melhorando a saúde da população e diminuindo gastos com a saúde pública. Sendo de responsabilidade dos governantes, a saúde pública deve ser levada a sério tanto pelos municípios, estados e governo federal - devem cuidar de aspectos ligados às suas responsabilidades, capacidades e verbas.

O saneamento básico é um desses aspectos para se manter a saúde de uma população, pois garante que a água tratada chegue até nossas casas e que as redes de esgotos estejam devidamente encanadas, diminuindo os riscos de contaminação por bactérias. Campanhas de vacinação também é uma forma preventiva de cuidar da saúde, pois por intermédio delas é possível evitar doenças e epidemias. Participar de pequenas associações também é uma forma de buscar informações sobre a manutenção da saúde, pois estas estão diretamente ligadas a governantes, que devem assumir tais responsabilidades; promover discussões e reflexões visando maior amplitude do tema, buscando soluções para manter o saneamento ambiental, garantindo o desenvolvimento social e econômico de um país.

Outra forma de garantir a saúde de um povo é dando-lhes condições dignas de trabalho, a fim de proporcionar ganhos o suficiente para manter uma alimentação de qualidade - por intermédio de uma boa alimentação as pessoas adquirem uma forma saudável de manter a saúde própria, evitando despesas com planos de saúde e remédios. Contudo, ainda estamos longe de atingir essa situação. Apenas a partir da adoção de políticas públicas locais, regionais e nacionais, com a participação efetiva de toda a sociedade, será possível atingir o “Desenvolvimento Sustentável”, permitindo que no futuro se possa de fato comemorar o dia da água – em quantidade e qualidade para todos.
Publicado originalmente em maio de 2009: Jornal INFORMACIRP.


* 1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do IFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É Conselheiro do COPAM e consultor do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

A economia, o ambiente e os limites do crescimento



* Por Maurício Novaes Souza

Em todo o mundo, desde o segundo semestre do ano anterior, a preocupação está voltada para a crise financeira americana, que trouxe reflexos na economia de todos os países do Planeta. Contudo, a questão ambiental, que deveria ser a prioridade posto ser a fonte de todos os recursos utilizados nos processos produtivos, vem sendo relegada ao segundo plano. Na prática, o antigo discurso da necessidade de crescimento econômico para a geração de emprego e renda acaba prevalecendo. Ou seja, continua vigorando a visão imediatista, de curtíssimo prazo, cujos resultados finais são conhecidos e previsíveis. De fato, a economia global está perdendo mais dinheiro com a destruição dos recursos naturais do que com a atual crise financeira global, segundo conclusões de um estudo financiado pela União Européia.

Segundo dados dessa pesquisa, intitulada “A Economia dos Ecossistemas e Biodiversidade”, calcula-se que os desperdícios anuais, apenas com o desmatamento, variam de US$ 2 trilhões a US$ 5 trilhões. O número inclui o valor de vários serviços oferecidos pelas florestas, como água limpa e a absorção do dióxido de carbono. O estudo foi discutido durante várias sessões do Congresso Mundial de Conservação, realizado em Barcelona. De acordo com o coordenador do relatório, Pava Sukhdev, o custo resultante da degradação da natureza ultrapassa o dos mercados financeiros globais. Cabe ainda uma consideração sobre os custos ambientais: pelo fato de serem contínuos, seus reflexos no longo prazo serão ainda maiores e de difícil quantificação.

Na verdade, os economistas desconhecem ou simplesmente desconsideram os serviços ambientais prestados pela natureza. Tais serviços ou funções, como o armazenamento de água e a regulação do ciclo de carbono, entre outros, cria condição para um meio ambiente saudável, oferecendo não só água e ar limpos, chuvas, produtividade oceânica, solo fértil e elasticidade das bacias fluviais, como também certas funções menos valorizadas, mas imprescindíveis para a manutenção da sustentabilidade, tais como: a) o processamento de resíduos (naturais e industriais); b) a proteção contra os extremos do clima; e c) a regeneração atmosférica. Por estas questões, o homem em suas atividades produtivas deve sempre considerar que os ecossistemas são sistemas abertos e integrados por todos os organismos vivos, inclusive ele próprio, e os elementos não viventes de um setor ambiental definido no tempo e no espaço, cujas propriedades globais de funcionamento (fluxo de energia e ciclagem da matéria) e auto-regulação (controle) derivam das relações entre todos os seus componentes, tanto pertencentes aos sistemas naturais, quanto aos criados ou modificados pelo Homem.

De fato, o desconhecimento dos profissionais da área econômica sobre conceitos básicos de ecologia e de economia dos recursos naturais e renováveis, os impedem de perceber que existem limites ao crescimento. Sabe-se que qualquer atividade antrópica é capaz de gerar algum tipo de impacto. O homem, na ânsia de sucesso e maximização de suas atividades, força o ambiente a realizar um esforço amplificador a fim de produzir um determinado resultado desejado; contudo, os ecossistemas têm sua capacidade de suporte e de regeneração que dependerá da sua resistência e da sua resiliência. Ocorrido um estresse, caso seja ultrapassado o seu limite, podem-se criar efeitos secundários que acabam reduzindo o ritmo e as chances de sucesso que uma determinada atividade vinha alcançando. Como consequência, ocorre que depois de uma expansão inicial, o crescimento se torna uniforme e com o tempo pode ficar tão lento que a espiral de reforço pode se inverter. Percebe-se então, que o importante é não forçar o crescimento, mas sim conhecer o ambiente e conviver dentro da possibilidade e dos fatores que o limitam.

Contudo, não é assim que o modelo de desenvolvimento vem se comportando. É comum se observar que no início das atividades os eventos vão bem. Dessa forma, a tendência do modelo atual é repetir o que estamos fazendo até atingirmos um ponto onde os resultados positivos cessam. Nesse ponto, as tentativas de mudança se tornam inúteis. Nessas situações que limitam o crescimento, a alternativa correta está em se buscar uma situação que trouxesse novo equilíbrio e não estimular a situação que gerou a condição de estresse. Dessa forma, para modificar o comportamento do sistema, é necessário identificar e alterar o fator limitante. No entanto, essa é uma ação contínua, pois quando eliminamos uma fonte de limitação, o crescimento acaba encontrando outra (num fenômeno parecido com a transferência de “gargalos”).

Considere-se a situação dos ecossistemas aquáticos. Como em todo o ano, no dia 22 de março se comemorou o “Dia Mundial da Água”. Como se pergunta a todo ano, existe motivo real para comemoração? De fato, a qualidade das águas de praticamente todos os rios do Brasil, e de todo o mundo, piorou nos últimos anos. Esse fato, que é o resultado do modelo de desenvolvimento atual e que afeta drasticamente as populações, foi um dos temas discutidos no recente Fórum Social, em Belém. Nesse encontro se estabeleceram metas para a elaboração de um novo modelo de desenvolvimento e crescimento econômico. Também, no mês de março, aconteceu em Istambul, na Turquia, o V Fórum Mundial da Água, com a pretensão de apresentar respostas para escassez do recurso provocada pelo crescimento da população, o desperdício, o consumo excessivo e o aumento da necessidade de energia.

Tal encontro reuniu um número de participantes jamais vistos - 28.000 (vinte e oito mil) pessoas de mais de 180 (cento e oitenta) países. O Fórum analisou os problemas da escassez de água, o risco de conflito por enfrentamentos entre países por recursos hídricos e a melhor maneira de proporcionar água limpa à população mundial. Segundo Loïc Fauchon, presidente do Conselho Mundial da Água, o comportamento humano com relação ao uso deste recurso é cada vez mais irrefletido e inconsequente. Aumentar indefinidamente a demanda por água, nos diais atuais, além de colocar em perigo o meio natural, torna-se cada vez mais caro o seu tratamento e distribuição em um contexto de evolução do clima e crise financeira.

Tal análise se justifica pelo fato de que a economia e o meio ambiente estão passando por uma crise sem precedentes. Para agravar ainda mais a situação, a atual crise econômica mundial tem trazido como solução, por parte dos principais economistas e governantes mundiais, o estímulo ao consumo – situação ainda mais ameaçadora às atuais situações ambientais. Esse modelo visa, efetivamente, a geração de lucros imediatos, não considerando os limites do crescimento; portanto, socialmente e ambientalmente não é sustentável. Do ponto de vista social, é sabido que os 20% (vinte por cento) da população mais rica utilizam ¾ dos recursos naturais, trazendo o esgotamento e, ou, a degradação dos recursos naturais. Do ponto de vista ambiental, considerando a Pegada ecológica (índice que expressa a área produtiva necessária para sustentar o consumo de recursos e assimilação de resíduos de uma dada população) mostra que há 1,8 hectare de área disponível para cada habitante, dentro do padrão que se pode considerar sustentável. No entanto, o consumo global atual apresenta uma média de consumo relativo a 2,2 hectares por habitante. Ou seja, o ambiente está sendo usado além de sua capacidade de suporte e de reposição.

Analisando os EUA, verifica-se que o seu padrão de consumo é de 9,6 hectares por habitante, sendo que sua capacidade é de apenas 4,7 hectares por habitante. Pergunta-se, então, de onde eles retiram esses recursos para manter consumo tão elevado? A resposta está na exploração de outros países que tem uma capacidade produtiva de recursos naturais superior, como o Brasil. Se todos os habitantes tivessem o mesmo padrão de consumo dos EUA, seriam necessários 6 planetas iguais a Terra para atender à tal demanda... e continuam estimulando o consumo como forma de saírem da atual crise financeira. A continuar dessa forma, as gerações futuras não terão onde e nem como produzir para se sustentarem.

Estas foram as questões que estimularam no mês de fevereiro passado representantes de 160 países se encontrarem em Belém do Pará, para avaliarem os grandes problemas ambientais e sociais durante o Fórum Social Mundial. Foram discutidos temas associados à crise financeira, ao aquecimento global, às doenças associadas à ausência de saneamento ambiental, entre outras. Esses encontros representam o início da mobilização da população mundial, embora saibamos que ainda há muito que se fazer. O Tratado de Quito é um exemplo da inconsequente irresponsabilidade dos países que têm elevada produção e liberação de gases poluentes e de efeito estufa, que não o ratificam e não o adotam.

Na verdade, o modelo de produção e consumo são os responsáveis pelas agressões cometidas sobre os diversos ecossistemas, responsáveis pela evolução do clima, que vem se somar às mudanças globais, responsáveis das tensões que reduzem a disponibilidade da água doce, indispensáveis para a sobrevivência da humanidade. A previsão é de que a população mundial, atualmente superior a 6,7 bilhões de habitantes, possa chegar a nove bilhões até meados deste século, o que aumentará consideravelmente a demanda de recursos hídricos, a 64 bilhões de metros cúbicos por ano, segundo dados da ONU.

Segundo a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE), o número de pessoas com graves problemas para conseguir água chegará a 3,9 bilhões em 2030, ou seja, metade da população mundial. Os cálculos da OCDE não incluem o impacto da mudança climática, que pode já estar afetando as coordenadas da água, mudando a quantidade e a distribuição das chuvas e nevascas. Considere-se ainda que quase 2,5 bilhões de pessoas não têm acesso ao saneamento básico, o que contraria as Metas de Desenvolvimento do Milênio da ONU. Sabe-se que as principais causas da crise relacionada à água são a irrigação sem planos de manejo, as falhas na distribuição urbana e a contaminação dos rios pelas atividades urbano-industriais e agropecuárias.

Essa semana, no dia 07 de abril, será comemorado o Dia Mundial da Saúde. Tal data foi criada em 1948 pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em função da preocupação de seus integrantes em manter o bom estado de saúde das pessoas do mundo, bem como alertar sobre os principais problemas que podem atingir a população. Segundo a OMS, ter saúde é garantir a condição de bem-estar das pessoas, envolvendo os aspectos físicos, mentais e sociais em harmonia. Sabe-se que a alimentação e saneamento são formas de prevenir doenças. Contudo, nos dias atuais, percebe-se que o crescimento urbano e industrial nem sempre significa desenvolvimento humano: particularmente nos países em industrialização, vem acompanhado de desigualdade de acesso aos itens básicos necessários a uma sobrevivência digna, tais como à educação, à alimentação e à saúde. A falta do saneamento nas cidades, em níveis mínimos que assegurem o bem-estar das populações, tem gerado um quadro de degradação do meio ambiente urbano sem precedentes, sendo os recursos hídricos um dos primeiros elementos integrantes da base de recursos naturais a sofrer tais efeitos. Infelizmente, o que se observa nas periferias das grandes cidades é uma total desinformação sobre higiene, aumento das doenças veiculadas pela água, lixões a céu aberto, entre outros. Os governos ainda não vêm realizando um trabalho preventivo, o que melhoraria a saúde da população e diminuiriam os gastos com a saúde pública.
Como consequência desse modelo econômico, o mundo está enfrentando intensas transformações globais, sem precedentes, incluindo aumento da população, migração, urbanização, mudanças climáticas, desertificação, seca, alteração do uso e degradação do solo, crises econômicas e alimentares. Caso continuemos a agir dessa forma, não respeitando os limites do crescimento, pouco restará para as gerações futuras. Como bem lembra Leonardo Boff, caso não se cuide do planeta a partir de uma visão sistêmica e holística, poderá submetê-lo à destruição de suas partes e inviabilizar a própria vida. Há inúmeras evidências que existem limites para o crescimento econômico, considerando que os recursos naturais são escassos.

Apesar das inúmeras iniciativas governamentais e organizacionais, os efeitos efetivos ainda são discretos. Deve-se refletir sobre a necessidade urgente de abandono às concepções anacrônicas ligadas à produção e ao consumo, adotando a sustentabilidade sócio-ambiental nas ações públicas e privadas, em todos os níveis, do local ao global. É preciso que sejam conhecidos e respeitados os limites do crescimento. Essas deverão ser as propostas de um novo modelo guiado pelos princípios do “Desenvolvimento Sustentável”. Contudo, o seu sucesso dependerá da participação e esforço de cada um dos habitantes de nosso planeta, posto que o somatório das atitudes individuais trará soluções sustentáveis para os problemas relativos às questões sociais e ambientais.


Publicado originalmente em 7-4-2009: www.ambientebrasil.com.br

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do IFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM - Zona da Mata, MG, do IBAMA e Diretor pro tempore do IFET - ARAÇUAÍ. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

sábado, 4 de abril de 2009

A degradação ambiental e os limites do crescimento


Por Maurício Novaes Souza1 e Jozilene das Mercês Mota Ferreira2

No dia 22 de março se comemorou o “Dia Mundial da Água”. Como se pergunta a todo ano, existe motivo real para comemoração? Ou teríamos pretextos suficientes para promover um dia de luto? Na verdade, o modelo de desenvolvimento atual e como ele afeta as populações foi um dos temas discutidos no recente Fórum Social, em Belém. Nesse encontro se estabeleceram metas para a elaboração de um novo modelo de desenvolvimento e crescimento econômico. Contudo, o seu sucesso dependerá da participação e esforço de cada um dos habitantes de nosso planeta, posto que as atitudes individuais que trarão soluções sustentáveis para os problemas relativos às questões sociais e ambientais.

Tal análise se justifica pelo fato de que o meio ambiente está passando por uma crise sem precedentes. Em grande parte, o principal responsável é o modelo de desenvolvimento adotado pela maioria dos países, que tem os EUA como seu maior representante. Para agravar ainda mais a situação, a atual crise econômica mundial tem trazido como solução o estímulo ao consumo – situação ainda mais ameaçadora às atuais situações ambientais. Esse modelo visa, efetivamente, a geração de lucros imediatos. Socialmente e ambientalmente não é sustentável.

Socialmente - 20% da população utilizam ¾ dos recursos naturais, sendo que os 80% mais pobres utilizam apenas ¼ desses recursos. Tal comportamento tem gerado a degradação dos recursos naturais... a continuar dessa forma, as gerações futuras não terão onde e nem como produzir para se sustentarem. Ambientalmente, considerando a Pegada ecológica (índice que expressa a área produtiva necessária para sustentar o consumo de recursos e assimilação de resíduos de uma dada população) mostra que há 1,8 hectare de área disponível para cada habitante, dentro do padrão que se pode considerar sustentável. No entanto, o consumo global atual apresenta uma média de consumo relativo a 2,2 hectares por habitante. Ou seja, o ambiente está sendo usado além de sua capacidade de suporte e de reposição.

Analisando os EUA, verifica-se que o seu padrão de consumo é de 9,6 hectares por habitante, sendo que sua capacidade é de apenas 4,7 hectares por habitante. Pergunta-se, então, de onde eles retiram esses recursos para manter consumo tão elevado? A resposta está na exploração de outros países que tem uma capacidade maior, como o Brasil. Se todos os habitantes tivessem o mesmo padrão de consumo dos EUA, seriam necessários 6 planetas iguais a Terra para atender à tal demanda.

Estas foram as questões que estimularam no mês de fevereiro desse ano representantes de 160 países se encontrarem em Belém do Pará, para avaliarem os grandes problemas ambientais e sociais durante o Fórum Social Mundial. Foram discutidos temas associados à crise financeira, ao aquecimento global, às doenças associadas à ausência de saneamento ambiental, entre outras. Esses encontros representam o início da mobilização da população mundial, embora saibamos que ainda há muito que se fazer. O Tratado de Quito é um exemplo da inconsequente irresponsabilidade dos países que têm elevada liberação de gases poluentes e de efeito estufa, que não o assinam e não o adotam.

Nos dias atuais, percebe-se que o crescimento urbano e industrial nem sempre significa desenvolvimento humano: particularmente nos países em industrialização, vem acompanhado de desigualdade de acesso aos itens básicos necessários a uma sobrevivência digna, tais como à educação, à alimentação e à saúde. A falta do saneamento nas cidades, em níveis mínimos que assegurem o bem-estar das populações, tem gerado um quadro de degradação do meio ambiente urbano sem precedentes, sendo os recursos hídricos um dos primeiros elementos integrantes da base de recursos naturais a sofrer tais efeitos. Por esta razão, não há curso d’água que esteja próximo ou que passe por alguma cidade que não esteja poluído, sendo o grau de poluição diretamente proporcional à população e ao nível de atividade produtiva da cidade.

Respondendo à pergunta inicial: teve-se o que comemorar neste dia 22 de março de 2009? Pensamos que ainda não existe motivo para pleno luto, mas é muito cedo para comemorações, apesar das inúmeras iniciativas governamentais e organizacionais. Deve-se refletir sobre a necessidade urgente de abandono às concepções anacrônicas ligadas à produção e ao consumo, adotando a sustentabilidade sócio-ambiental nas ações públicas e privadas, em todos os níveis, do local ao global.

Como sempre lembra Leonardo Boff, caso não se cuide do planeta como um todo, poderá submetê-lo à destruição de suas partes e inviabilizar a própria vida. Há inúmeras evidências que existem limites para o crescimento econômico. É preciso reverter a atual situação rapidamente, necessitando, portanto, da contribuição de todos. Essas deverão ser as propostas de um novo modelo guiado pelos princípios do “Desenvolvimento Sustentável”.


1. Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do IFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM - Zona da Mata, MG e do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.
2. Estudante do Curso de Técnico em Meio Ambiente do IFET/RIO POMBA.

A crise da água no século XXI: enchentes, seca e poluição



Por Maurício Novaes Souza*

No dia 22 comemora-se o dia mundial da água. Como se pergunta a todo ano, existe motivo para comemoração? Ou teríamos pretextos suficientes para promover um dia de luto? Para responder a essa pergunta se tome como exemplo a bacia do rio São Francisco, onde praticamente todas as cidades em sua extensão não possuem saneamento básico: o esgoto doméstico e industrial in natura é lançado diretamente no rio, além dos dejetos industriais e agroindustriais. Assim, o estado de degradação em que os rios brasileiros se encontram representa a real situação de como se vêm efetivamente administrando os recursos naturais.

Como consequência, a cada ano se têm verificado variações significativas na quantidade e na qualidade da água nos rios das principais bacias hidrográficas brasileiras. Como conseqüência, em vários Estados e regiões do Brasil aconteceram ao final de 2008 e nesse início de 2009 os maiores desastres ambientais que atingiram a sociedade brasileira. As notícias sobre os episódios relatam um nível de precipitação pluviométrica acima da média histórica, os deslizamentos de encostas, o extravasamento dos rios do seu leito natural, a destruição de estradas, o soterramento e a inundação de cidades e fazendas, perdas humanas e materiais com prejuízos de centenas de milhões de reais.

Após tais incidentes, tentam procurar quem são os culpados: obra da natureza ou ações humanas inadequadas? Na verdade, o desmatamento da Mata Atlântica e a sua ocupação de forma irregular contribuíram para a tragédia geológica que se abateu sobre diversas regiões. Na maioria das cidades brasileiras as áreas de matas vêm sendo substituídas por áreas urbanizadas que impermeabilizam o solo e impedem a infiltração de água; e por pastagens, que em sua maioria se encontram degradadas, ambos contribuindo para a aceleração dos processos erosivos e deslizamentos de terra.

Considerando a região do Bioma Mata Atlântica - uma área de aproximadamente 1,29 milhão de quilômetros quadrados em 17 estados brasileiros, atualmente, apenas 6,90% desse total permanece relativamente protegidos. O seu desmatamento está diretamente ligado à expansão das cidades brasileiras, onde a sua ocupação tem sido sempre realizada de forma desordenada. Tais fatos ocorrem sempre com a histórica, acomodada, omissa e conivência dos agentes sociais públicos e privados, que a poderiam evitar e, ou, minimizar tais episódios. Na verdade, o poder público só começa a se preocupar quando a situação se torna crítica, e infelizmente nesses momentos não existem mais alternativas viáveis, em face ao crescimento populacional e expansão urbana: restam promessas e planos emergenciais.

A questão do planejamento urbano é crítica, principalmente quando se consideram o caos social vislumbrados nas cidades de médio e grande porte. Onde se enquadram os movimentos ambientais nesse cenário? E o Ministério Público e do Meio Ambiente? Sabe-se que muitos outros trágicos eventos surgirão e comoverão a população: serão necessárias novas ocorrências para que as autoridades tomem as medidas imprescindíveis? Toda a questão está na prevenção e na “Gestão”. Mesmo considerando a influência do componente natural que ocorre nessa época do ano, suas conseqüências mais graves poderiam ser evitadas com as modernas técnicas de previsão meteorológica e de planejamento urbano.

Contudo, sabe-se que a degradação da natureza atua em sinergia negativa com o desmatamento e a poluição do ar, dos rios e dos oceanos, afetando o ciclo da água e do carbono. Assim, as mudanças das classes de uso do solo e as mudanças climáticas aumentam tais impactos. No tocante à retirada predatória das matas ciliares do rio, influi diretamente nas cheias ocasionais. Sem a vegetação, com o solo descoberto, a água chega velozmente à calha do rio, acumulando-se e aumentando o pico de cheia, e a conseqüente redução na recarga dos aqüíferos, reduzindo significativamente a sua vazão mínima e tornando ainda mais crítico o período das secas.

Há de se considerar outro sério problema: na década de 80 do século XX, a expansão da agricultura brasileira trouxe para o cerrado brasileiro, como no Oeste da Bahia – região de veredas e berço de inúmeros afluentes do rio São Francisco – centenas de agricultores a desbravar uma nova fronteira agrícola. Passados quase 30 anos, a região se consolidou como a maior produtora de grãos do Nordeste e uma das mais importantes do país. Agora, nessa região, os agricultores brasileiros têm a companhia de investidores de todas as partes do mundo. O presidente da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (AIBA) - Humberto Santa Cruz, admite que a presença de produtores de fora do país cresceu muito rapidamente nos últimos dez anos... justifica que em uma economia globalizada não há porque se criar empecilhos à entrada de estrangeiros. Contudo, cabe uma pergunta: será que esses estrangeiros terão a preocupação ambiental que se fazem necessárias para a conservação dos recursos hídricos dessa região? Em Minas Gerais, ainda composta basicamente por produtores brasileiros, tal preocupação, de fato, não existe.

Estes fatos, associados ao acelerado processo de degradação ambiental que comprometem a qualidade e quantidade dos recursos hídricos, são fatores determinantes para a concretização de ações relacionadas à revitalização, recuperação e conservação hidroambiental das principais bacias hidrográficas brasileiras. Considerem-se, ainda, as regiões que sofrem constantemente com severas secas, onde o grande desafio do governo será conciliar o atendimento às necessidades imediatas aos projetos de revitalização dos rios. Contudo, sabe-se que o problema da seca não se resolve com grandes reservatórios, posto que existem milhares de povoados isolados e dispersos.

Na verdade, o meio ambiente que sempre desempenhou sua função depuradora com eficiência, encontra-se hoje excessivamente sobrecarregado pelas atividades antrópicas: sofre o risco de exaustão dos seus recursos. Considerando os modelos de produção e desenvolvimento que priorizam a maximização econômica em detrimento à conservação ambiental, a busca de melhores soluções que as atuais parecem estar distantes de ser encontrada. Em tempos de crise econômica, é bom lembrar que a indústria e o comércio são, também, direta e indiretamente afetados. A lição que se devem extrair destes fenômenos é que eles não são apenas naturais. O ser humano deve olhar para si mesmo e questionar as práticas baseadas nas ações irracionais de destruição das encostas e agressão aos ecossistemas aquáticos, com a construção de rodovias, avenidas marginais, prédios de apartamentos, condomínios de luxo ou populares e “shoppings” comerciais. Estas ações causam desastres irreparáveis.

Desta forma, relacionado aos ecossistemas aquáticos, particularmente a partir da década de 1960, a água vem se tornando um fator cada vez mais crítico para o desenvolvimento econômico e social de longo prazo, bem como para a sustentabilidade ambiental. Os indicadores demonstram que o Brasil é a maior potência hídrica do mundo; entretanto, a escassez de água nos anos recentes, associada aos lamentáveis episódios de contaminação de rios, lagos e acumulações subterrâneas, além dos conflitos entre usuários competidores, conduziu à formulação, em bases inteiramente novas, da política para o setor de recursos hídricos.

Nos dias atuais, percebe-se que o crescimento urbano e industrial, tão propalado, nem sempre significa desenvolvimento humano: particularmente nos países em industrialização, vem acompanhado de desigualdade de acesso aos itens básicos necessários a uma sobrevivência digna, tais como à educação, à alimentação e à saúde. O acesso da população à saúde passa, incondicionalmente, pelo binômio abastecimento de água/saneamento básico. Dessa forma, a falta do saneamento nas cidades, em níveis mínimos que assegurem o bem-estar das populações, tem gerado um quadro de degradação do meio ambiente urbano sem precedentes, sendo os recursos hídricos um dos primeiros elementos integrantes da base de recursos naturais a sofrer tais efeitos. Por esta razão, não há curso d’água ou lago que esteja próximo ou que passe por alguma cidade que não esteja poluído, sendo o grau de poluição diretamente proporcional à população e ao nível de atividade produtiva da cidade.

Respondendo à pergunta inicial: tem-se o que comemorar neste dia 22 de março de 2009 - Dia Mundial da Água? Penso que ainda não temos motivo para pleno luto, mas é muito cedo para comemorações, apesar das inúmeras iniciativas governamentais e organizacionais. Deve-se refletir sobre a necessidade urgente de abandono às concepções anacrônicas ligadas à produção e ao consumo, adotando a sustentabilidade sócio-ambiental nas ações públicas e privadas, em todos os níveis, do local ao global. Essas são as propostas do modelo guiado pelos princípios do “Desenvolvimento Sustentável”.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do IFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM - Zona da Mata, MG e do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Escassez e qualidade da água: reflexões sobre saúde e políticas públicas


* Por Maurício Novaes Souza

No dia 22 de março foi comemorado o dia mundial da água. Como se pergunta a todo ano, existe motivo para comemoração? Também, no mês de março, aconteceu em Istambul, na Turquia, o V Fórum Mundial da Água, com a pretensão de apresentar respostas para escassez do recurso provocada pelo crescimento da população, o desperdício, o consumo extravagante e o aumento da necessidade de energia. Tal encontro acontece a cada três anos e nesta ocasião reuniu um número de participantes jamais vistos - 28.000 pessoas de mais de 180 países.
O Fórum analisou os problemas da escassez de água, o risco de conflito por enfrentamentos entre países por rios e lagos e a melhor maneira de proporcionar água limpa a milhões de pessoas. Segundo o presidente do Conselho Mundial da Água, o francês Loïc Fauchon, o comportamento humano com relação ao uso deste recurso é cada vez mais irrefletido e inconsequente, e aumentar indefinidamente a oferta de água, além de colocar em perigo o meio natural. é muito mais caro hoje em um contexto de evolução do clima e crise financeira.
Na verdade, o modelo de produção e consumo são os responsáveis pelas agressões cometidas sobre os ecossistemas aquáticos, responsáveis pela evolução do clima, que vem se somar às mudanças globais, responsáveis das tensões que reduzem a disponibilidade das massas de água doce, indispensáveis para a sobrevivência da humanidade. A previsão é de que a população mundial, atualmente superior a 6,7 bilhões de pessoas, possa chegar a nove bilhões até meados deste século, o que aumentará consideravelmente a demanda de recursos hídricos, a 64 bilhões de metros cúbicos por ano, segundo dados da ONU.
Segundo a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE), o número de pessoas com graves problemas para conseguir água chegará a 3,9 bilhões em 2030, ou seja, metade da população do mundo. As contas da OCDE não incluem o impacto da mudança climática, que pode já estar afetando as coordenadas da água, mudando o lugar e o momento das chuvas e nevascas. Considere-se ainda que quase 2,5 bilhões de pessoas não têm acesso ao saneamento básico, o que contraria as Metas de Desenvolvimento do Milênio da ONU. Sabe-se que as causas da crise são a irrigação excessiva, as falhas no fornecimento urbano, a contaminação dos rios e a extração desenfreada de qualquer fonte.
Também, no dia 07 de abril, foi comemorado o Dia Mundial da Saúde. Tal data foi criada em 1948, pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em função da preocupação de seus integrantes em manter o bom estado de saúde das pessoas do mundo, bem como alertar sobre os principais problemas que podem atingir a população. Segundo a OMS, ter saúde é garantir a condição de bem-estar das pessoas, envolvendo os aspectos físicos, mentais e sociais das mesmas, em harmonia.
Sabe-se que a alimentação e saneamento são formas de prevenir doenças. Portanto, é necessário que informações acerca da higiene, doenças, lixões, aterros sanitários, dentre outras, cheguem à população, pois dessa forma o governo faz um trabalho preventivo, melhorando a saúde da população e diminuindo gastos com a saúde pública. Sendo de responsabilidade dos governantes, a saúde pública deve ser levada a sério tanto pelos municípios, estados e governo federal - devem cuidar de aspectos ligados às suas responsabilidades, capacidades e verbas.
O saneamento básico é um desses aspectos para se manter a saúde de uma população, pois garante que a água tratada chegue até nossas casas e que as redes de esgotos estejam devidamente encanadas, diminuindo os riscos de contaminação por bactérias. Campanhas de vacinação também é uma forma preventiva de cuidar da saúde, pois por intermédio delas é possível evitar doenças e epidemias. Participar de pequenas associações também é uma forma de buscar informações sobre a manutenção da saúde, pois estas estão diretamente ligadas a governantes, que devem assumir tais responsabilidades; promover discussões e reflexões visando maior amplitude do tema, buscando soluções para manter o saneamento ambiental, garantindo o desenvolvimento social e econômico de um país.
Outra forma de garantir a saúde de um povo é dando-lhes condições dignas de trabalho, a fim de proporcionar ganhos o suficiente para manter uma alimentação de qualidade - por intermédio de uma boa alimentação as pessoas adquirem uma forma saudável de manter a saúde própria, evitando despesas com planos de saúde e remédios. Contudo, ainda estamos longe de atingir essa situação. Apenas a partir da adoção de políticas públicas locais, regionais e nacionais, com a participação efetiva de toda a sociedade, será possível atingir o “Desenvolvimento Sustentável”, permitindo que no futuro se possa de fato comemorar o dia da água – em quantidade e qualidade para todos.
Publicado originalmente no INFORMACIRP - ABRIL DE 2009, RIO POMBA, MG.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do IFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É Conselheiro do COPAM e consultor do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

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