“Agricultura Familiar: sustentabilidade no agronegócio"


*Maurício Novaes Souza ¹; Maria de Fátima Vieira Aguiar ²

No mundo do agronegócio, onde se utilizam e se produzem várias commodities, é preciso atenção para as relações custos-benefícios dos diversos fatores de produção de um determinado empreendimento. O Brasil é por excelência um grande mercado agroexportador, com enorme potencial para futuros investimentos, pois as condições naturais lhes são favoráveis. Contudo, considerando o momento atual, com as alterações climáticas, a degradação do solo, a poluição hídrica, o acelerado crescimento demográfico e a urbanização, faz-se necessário um planejamento estratégico onde se inclua a agricultura familiar, de fato, no agronegócio brasileiro.

O Brasil exporta para China em torno de 18 milhões de toneladas de soja por ano (saltaram de US$ 1,3 bilhão em 2003 para US$ 5,3 bilhões em 2008) – o grande problema é que em seu processo produtivo se utilizam 43 km3 de água. A Europa importa 50 milhões de toneladas de elementos de ração animal: 39 milhões de toneladas de soja, dos quais 20 milhões são provenientes do Brasil. Em 2003 exportou 1,3 milhões de toneladas de carne – são mais 19,5 km3 de água exportada e não contabilizada.

Segundo o professor Christofidis, doutor em Gestão Ambiental pela Universidade Federal de Brasília, este é um passivo ambiental pesado para o país. Até 2059 a população mundial deverá atingir nove bilhões de pessoas. Segundo a UNICAMP, para se produzir soja e arroz, a demanda por água é bastante elevada. Considerando o agravamento da crise econômica e ecológica dos dias atuais, devem-se avaliar novas alternativas para a produção e destino dos alimentos.

Segundo a folha online de 15/05/09, os produtos alimentícios básicos mais exportados no país são a carne de frango, café em grão, carne bovina, soja e milho. Conforme o economista Chau Kuo Hue, este aumento se deve aos preços internacionais favoráveis e à capacidade do Brasil produzir. Para a economista Leila Harfuch, este fato é positivo: “Mas é claro que se houvesse um esforço maior para exportar produtos de maior valor agregado seria melhor”. Fernando Ribeiro, economista-chefe da Funcex, afirma que exportar produtos básicos prejudica o país, pois a economia fica dependente de poucos produtos, o que leva a perda de divisas.

Entretanto, Paulo Skaf representante da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), visando a indústria, diz que a valorização do real é o maior empecilho às exportações de bens industrializados e que se não fosse o câmbio estaríamos comercializando mais em todo mundo, gerando divisas, e mais empregos aqui no Brasil. O segundo setor pode até gerar divisas, aumentar a empregabilidade, mas o setor agrícola continua sendo a grande preocupação de muitos especialista que colocam o aspecto sócio-ambiental na meta de crescimento com sustentabilidade.

Em “Navios que se Cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano”, Luc Vankrunkelsven relata a sua grande preocupação com a fome no mundo. Sugere que o futuro do sistema produtivo reside no Brasil e na Agricultura Familiar. Mas porque o Brasil? Pela abundância de terras, seus recursos hídricos, a localização geográfica, tudo isso a uma política de exportação para geração de divisas. Cita, como forte preocupação, a monocultura que se inicia a partir da “Revolução Verde” – com destaque para a soja.

Empresas como a Cargill e a Bunge controlam a produção e o comércio de grãos no Brasil. Os herbicidas da Monsanto, apesar da rígida legislação e multas, são persistentes o seu uso e a contaminação do solo e dos ecossistemas aquáticos. Estes fatos, aliados aos baixos preços e a mão-de-obra barata em regiões produtoras do centro-oeste e sul do país, que o Brasil tem conseguido a auto-suficiência em alimentos voltados à exportação e à geração de energia. Como consequência, a degradação ambiental, a desapropriação da agricultura familiar e o êxodo rural, com o recrudescimento das lutas em prol da reforma agrária.

Segundo Vankrunkelsven (2006), o Brasil possui um capital natural e espaço físico favorável para produção de energia. Comenta que desde a década de 1970 o Brasil é líder no Programa de Álcool Combustível. Em sua opinião, considerando todo o sistema produtivo e suas externalidades negativas, tal sistema não pode ser considerado como gerador de “energia limpa”. Sugere que a alternativa dos transportes urbanos movidos a hidrogênio, experiência alternativa realizada na cidade de São Paulo, e projetos que envolvem a utilização de biogás, estes sim podem ser considerados sustentáveis. VANKRUNKELSVEN, em visita ao Brasil no mês de abril deste ano, teve a oportunidade de conhecer o projeto Bunge - Tocantins: 75.000 hectares de cana para etanol/álcool. Em sua opinião, é um deserto verde com um consumo elevadíssimo de água.

Há de se considerar que o Brasil possui milhares de quilômetros de litoral favoráveis à energia eólica e solar. Contudo, os investimentos ainda são modestos. Revela que acredita no potencial brasileiro, tanto em recursos naturais energéticos quanto na mão-de-obra disponibilizada pela agricultura familiar.

Segundo esse mesmo autor, o processo produtivo brasileiro deveria ser canalizado para associações e cooperativas que favorecessem as propriedades de agricultura familiar: garantiria a manutenção da biodiversidade e a redução do êxodo rural. Infelizmente, produzir no modelo atual significa gerar divisas, abastecer os automóveis, e não os 44 milhões de famintos existentes no Brasil. A produção de 65% de soja, e 90% do farelo da mesma, é destinada à ração animal.

A soja transgênica é cara devido à dependência da compra de sementes e dos insumos químicos. Com a crise norte-americana, vê-se ainda a possibilidade de quem cultiva soja transgênica ter que desembolsar U$ 0,60/saca de 60 kg a título de royalties para a Monsanto? Nesse cenário, como ficam os modelos de produção agroecológicos? Seria a saída para a Agricultura Familiar? Continuará sendo a chance de sobrevivência da agricultura familiar social e ecologicamente comprometida com as pequenas propriedades? Ou a soja orgânica será recuperada pela agricultura em grande escala?

O Brasil, com todos os contratempos na questão ambiental, continua visando oportunidades na geração de divisas por intermédio do agronegócio. A China é um dos maiores consumidores de farinha de peixe à base de soja, produzida no Brasil destinada à pecuária - chegam a consumir 34 kg/ano/animal. Por outro lado, para o Brasil produzir uma tonelada de adubo, faz-se necessário uma tonelada de petróleo. A soja então pode ser considerada energia verde? A produção voltada para a exportação, nesse modelo, é uma alternativa viável? Para Luc Vankrunkelsven, destinar parte da soja para o consumo humano pode combater a fome no mundo. Ele acredita na soja produzida pela agricultura familiar, para alimento e geração de renda, cultivada de forma orgânica, consorciada, para biodiesel como energia, para o transporte de cooperativas, e como forma alternativa de energia limpa para o governo, esta sim, seria a melhor alternativa.

Na elaboração da Agenda 21 Brasileira, foi considerada fundamental que se promova a substituição progressiva dos sistemas agropecuários e florestais simplificados, como as monoculturas, por sistemas diversificados, como aqueles encontrados nas pequenas propriedades da agricultura familiar, que integrem a produção animal e vegetal. Por esse motivo, faz-se necessário as seguintes mudanças nos modelos vigentes de produção: a) real preocupação com o meio ambiente, dentro das propostas do desenvolvimento sustentável; b) elaboração de tecnologias apropriadas que poupem e conservem os recursos naturais; c) maior rigor na concessão do licenciamento ambiental, condicionando-o à adoção de sistemas de gestão ambiental; d) efetividade no monitoramento e na fiscalização pelos órgãos responsáveis; e e) políticas públicas voltadas para o fortalecimento da agricultura familiar.

Devem-se considerar a importância não apenas dos aspectos econômicos, mas dos ecológicos, sociais e culturais. Isso porque benefícios imediatos, como aqueles que o modelo do agronegócio exportador busca, geralmente, não são consistentes com o bem-estar de longo prazo, ou mesmo, com a própria sobrevivência humana. Dessa forma, alguns objetivos sociais, tais como os ganhos de bem-estar, cujas políticas de suporte exigem pré-condições ecológicas não consistentes para a manutenção da qualidade de vida, devem ser questionados para que não haja prejuízo para as gerações futuras.

Para Sachs, o desenvolvimento rural significa muito mais do que a simples produção agrícola e o agronegócio. Os empregos rurais não agrícolas permanentes e sazonais e as perspectivas de pluriatividade por parte dos membros das famílias de agricultores devem ser cuidadosamente avaliados na perspectiva de uma «urbanização» progressiva das condições de vida no campo. Tudo indica que, com o tempo, as ocupações não-agrícolas ocuparão uma parcela maior da mão-de-obra rural do que as atividades propriamente agrícolas.

Porém, a dinamização do emprego no campo e nas pequenas cidades não se dará com o atual modelo exportador. Irá depender, em última instância, da capacidade de dar um salto qualitativo na direção de um novo ciclo de desenvolvimento rural e de liderança mundial na invenção de uma civilização moderna dos trópicos, socialmente includente e ambientalmente sustentável, baseada na produção e processamento das biomassas terrestres, florestais e aquáticas. O Brasil, com destaque para os agricultores do modelo de produção familiar, particularmente aquelas que vêm adotando práticas agroecológicas, tem condições excepcionais para tanto. Dessa forma, poderá haver uma melhor distribuição dos benefícios do desenvolvimento, reduzindo os casos de pobreza extrema e de iniqüidade sócio-econômica, característicos da sociedade brasileira.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do IFET/Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É Conselheiro do COPAM e consultor do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

**Licenciada em Geografia, Especialista em Educação-concentração em Geografia e Gestão Ambiental. Técnica em Meio Ambiente/ Professora de Ensino Básico do Estado de Minas Gerais. Orientadora do curso de especialização de Geografia (EVATA). Vice - presidente do Instituto Ambiental Sol do Campo. E-mail: fatima@soldocampo.com

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