sábado, 1 de fevereiro de 2014

Estação de tratamento de água: o caso do Instituto Federal Campus-RP e curiosidades sobre SANEAMENTO BÁSICO

Laura Júlia da Costa Mendonça


Disciplina: Saneamento Ambiental e Rural
Prof: Mauricio Novaes


·        Introdução
As estações de tratamento de água ou também abreviado como ETA é um local em que realiza a purificação da água captada de alguma fonte para torná-la própria para o consumo e assim utilizá-la para abastecer uma determinada população. A captação da água bruta é feita rios ou represas que possam suprir a demanda por água da população e das indústrias abastecidas levando em conta o ritmo de crescimento. Antes que vá para o sistema de distribuição de água através de adutoras, passa por um processo de tratamento com várias etapas.
O processo de tratamento utiliza processos físicos e químicos para que a água adquira as propriedades desejadas que a tornem própria para o consumo. As estações utilizam grades para reter impurezas maiores como restos de vegetais, e em seguida a água segue para uma etapa de floculação quando através de agentes químicos, como o sulfato de alumínio, as partículas de sujeira se aglomeram para em seguida decantarem no fundo de um tanque.
Em seguida a água passa por uma etapa de filtração, passando através de filtros compostos por carvão, areia e cascalho. Por final, recebe aditivos químicos como a cal que corrige a acidez da água, o cloro que age como desinfetante e o flúor que é adicionado para reduzir o problema com cáries na população.
Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico realizada pelo IBGE em 2008 a água tratada não chega a 21,4% das residências no país. Em São Paulo está localizada uma das maiores estações de tratamento do mundo, a de Guaraú, parte do Sistema Cantareira. Desde 1975 há obrigatoriedade da fluoretação da água tratada no país.

·        Desenvolvimento
No último dia 16 realizamos uma aula prática na estação de tratamento de água da nossa instituição de ensino. O tratamento é basicamente manual, a principio há uma sala onde os produtos que serão utilizados no tratamento são misturados, são eles, hipoclorito de sódio 12%, que sofre uma diluição até alcançar de 9 a 10%, são utilizadas três caixas d’água nesse processo a cada 250L de água são utilizados 6 de cloro (figura 1). Em seguida é colocado o sulfato de alumínio, utilizado para coagular a sujeira e em seguida sua decantação são diluídos 12 kg para cada 300 L, de água são utilizadas duas caixas d’água neste processo (figura 2), por último é colocada cal com a finalidade de ajustar o pH da água, é feita uma mistura de 20kg para 500L de água, sendo está de 30 em 30 dias aproximadamente (figura 3).
Já na área externa ficam localizados cinco caixas de concreto, tendo a primeira função de misturador (todos os produtos (exceto a Cal) diluídos na primeira etapa serão incorporados a água que chega da estação de pré-tratamento), a segunda, terceira e quarta contém britas que são usadas para diminuir a velocidade da água, fazendo com que o produto possa agir, e a ultima serve apenas para armazenar a água que seguirá para a terceira etapa do tratamento (figura 4).
Já com o processo de coagulação e decantação iniciados, a água é levada para um outro reservatório, este local é composto de quatro floculadores, um imenso decantador e quatro filtros (figura 5), após ser filtrada a água é levada para um reservatório onde é adicionado a Cal (figura 6).
São tratados cerca de 250 a 280 mil litros de água/dia, sendo o consumo da instituição cerca de 150 a 180 mil litros de água/dia. O restante é praticamente desperdiçado por não haver outro reservatório.
Desde a nascente até a estação de tratamento a água é trazida toda por gravidade, nenhuma bomba é usada neste processo, somente na limpeza.
Assim como a chegada da água a distribuição também é feita toda por gravidade. A limpeza da estação é realizada com a seguinte frequência: caixas de concreto para mistura e ação do produto são lavadas todos os dias, filtros, todos os dias, floculadores, 15 em 15 dias e o decantador de 6 em 6 meses.
Para saber se os níveis de produtos que estão sendo utilizados, estão dentro da norma permitida são realizados análises na água, de 2 em 2 meses por uma empresa de Ubá, que coleta a água e em seguida encaminha para uma empresa de Belo Horizonte, e na escola na frequência de 15 em 15 dias. Para o cloro é permitida uma quantidade de 0,5 a 2 ppm, é preciso ficar de olho também nos níveis de sulfato, pois altas concentrações dele pode causar um efeito reverso, ao invés de limpar a água ele irá sujá-la (figuras 7 a, b).
·        
Conclusão
Mesmo diante das dificuldades que o responsável técnico Carlos Alberto Pereira (Cabé) enfrenta, nos é oferecido uma água de qualidade dentro de todas as normas e padrões exigidos. Muitas coisas ainda têm para se aperfeiçoar como a transferência do pré-tratamento para dentro do setor de tratamento de águas e também a construção de outro reservatório para a água já tratada. No mais devemos sim dar mais atenção as nossas nascentes e rios pois são delas quem vem nossa fonte de vida.

·        Anexos

Fotos:

Figura 1: Local onde é diluído o hipoclorito de sódio 12% (até chegar à concentração de 9 a 10%, em média são colocados 250L de água, para 6 de cloro).


Figura 1a: Galões com Hipoclorito de sódio 12%.


Figura 2: Caixas de diluição de Sulfato de Alumínio, onde são utilizados 12kg do produto para cada 300L de água.

Figura 2 a: Local de armazenagem do Sulfato de Alumínio e da Cal.


Figura 3: Caixa de diluição da Cal, 20 Kg do produto, para 500L de água a cada 30 dias.


Figura 4: Caixas de concreto, onde a água recebe os produtos diluídos, e onde começaram a agir.

Figura 5: Terceira etapa de tratamento, composta de quatro floculadores (canto direito da imagem), no centro um imenso decantador e do lado esquerdo da imagem quatro filtros.


Figura 6: No fundo da imagem a caixa onde é armazenada a água já tratada e onde será adicionado a Cal.

Figura 7a: Analise realizada em Ubá.

Figura 7b: Analise realizada no Instituto Federal.
·        
Dados importantes e curiosidades

Números mais importantes:

·         Atendimento em água potável: quando consideradas as áreas urbanas e rurais do País, a distribuição de água atinge 81,1% da população.
·         O atendimento em coleta de esgotos: chega a 46,2% da população brasileira.
·         Do esgoto gerado, apenas 37,9% recebe algum tipo de tratamento. A região com maior índice de esgoto tratado é a Centro-Oeste, com 43,1%.
·         Crescimento das ligações:  entre 2009 e 2010, houve um crescimento de 2,2 milhões de ramais de água e de 2,4 milhões de ramais de esgotos no País.
·         Consumo de água por habitante no Brasil: apresentou crescimento de 7,1% em 2010 com relação a 2009: o consumo diário por habitante alcançou os 159 litros. A região com menor consumo é a Nordeste, com 117 litros por habitante por dia; já a região com maior consumo é a região Sudeste, com 186 litros por habitante por dia.
·         Perda de água: a média de perdas de água (faturamento) diminuiu 1,2 pontos percentuais em 2010 em relação a 2009, atingindo 35,9%.
·         Receitas totais geradas pelos serviços de água e esgotos:  alcançaram os R$ 70,5 bilhões em 2010.
·         Investimentos: em 2010 os investimentos do Governo em água e esgotos atingiram R$ 8,9 bilhões.
·         Postos de trabalho: em 2010 o setor de saneamento criou 64 mil novos postos de trabalho, atingindo um total de 671 mil empregos diretos e indiretos criados pelo setor.
Fonte: SNIS 2010 (Ministério das Cidades) 
·         Cada R$ 1 investido em saneamento gera economia de R$ 4 na área de saúde
Fonte: Organização Mundial da Saúde, 2004.
·         O Brasil é o 9º colocado no ranking mundial “da vergonha” com 13 milhões de habitantes sem acesso a banheiro.
Fonte: Estudo Progress on Sanitation and Drinking Water – OMS/UNICEF, 2010.
·         Nas 100 maiores cidades do Brasil, municípios tratados no Ranking do Saneamento – base SNIS 2010, vivem 77 milhões de habitantes, ou seja, 40% da população brasileira.
·         Dos 77 milhões, em 2010 pouco mais de 90% da população tinha acesso a água potável, então quase 7 milhões de habitantes ainda não tinham acesso. 31 milhões não tinham acesso à coleta de esgotos em 2010.
·         Do volume de esgoto gerado nessas 100 cidades somente 36,28% é tratado, ou seja, são quase 8 bilhões de litros de esgoto lançados todos os dias nas águas brasileiras sem nenhum Tratamento.
·         20 das 100 cidades analisadas ofereciam água tratada a 100% de sua população
·         34 das 100 cidades possuíam índice de coleta de esgoto superior a 80% da população e apenas 5 delas atendiam a 100%: Belo Horizonte, Santos, Jundiaí, Piracicaba e Franca
·         Só 6 municípios possuíam índice de tratamento de esgoto superior a 80%. Sorocaba, Niterói, São José do Rio Preto, Jundiaí, Curitiba e Maringá.
·         Os 100 municípios investiram em melhorias no saneamento em média 28% da receita com esses serviços. Apenas 8 municípios investiram acima de 80% na ampliação e melhorias do sistema de água e esgotos - Ribeirão das Neves (MG), Recife (PE), Teresina (PI), Praia Grande (SP) e Vitória (ES).
·         A média de perdas de água para os 100 municípios foi de 40,46%, pior portanto que a média nacional que foi de 36% em 2010.
Fonte: Ranking Trata Brasil com avaliação dos serviços de saneamento nas 100 maiores cidades do País, base SNIS 2010.  

·         Em 2009 a participação dos domicílios atendidos pelo serviço de rede coletora ou por fossa séptica à rede coletora foi de 59,1%;
·         As regiões Norte e Nordeste tiveram as menores parcelas de domicílios atendidos por este serviço, com 13,5% e 33,8%, respectivamente, do total de domicílios da região, equivalentes a, respectivamente, 555 mil e 5,2 milhões de domicílios;
Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – Síntese dos Indicadores de 2009 – IBGE, 2010 

·         Investe-se muito pouco em saneamento, o que torna a universalização muito distante. Deveriam ser investidos 0,63% do PIB, mas efetivamente são investidos apenas 0,22%.
·         Menos de 30% das obras do PAC Saneamento foram concluídas até 2010 (Ministério das Cidades).
·         Estudo do Trata Brasil “De Olho no PAC”, que acompanha a execução de 114 grandes de saneamento em municípios acima de 500 mil habitantes, mostra que apenas 7% de obras foram concluidas até Dezembro de 2011. 60% destas obras estão paralisadas, atrasadas ou ainda não iniciadas.
Fonte: Pesquisa 'De Olho no PAC' - Instituto Trata Brasil 

Impactos à sociedade:

·         Por ano, 217 mil trabalhadores precisam se afastar de suas atividades devido a problemas gastrointestinais ligados a falta de saneamento. A cada afastamento perdem-se 17 horas de trabalho.
·         A probabilidade de uma pessoa com acesso a rede de esgoto faltar as suas atividades normais por diarréia é 19,2% menor que uma pessoa que não tem acesso à rede.
·         Considerando o valor médio da hora de trabalho no País de R$ 5,70 e apenas os afastamentos provocados apenas pela falta de saneamento básico, os custos chegam a R$ 238 milhões por ano em horas-pagas e não trabalhadas.
·         De acordo com o DATASUS, em 2009, dos 462 mil pacientes internados por infecções gastrointestinais, 2.101 faleceram no hospital.
·         Cada internação custa, em média R$ 350,00. Com o acesso universal ao saneamento, haveria uma redução de 25% no número de internações e de 65% na mortalidade, ou seja, 1.277 vidas seriam salvas.
Fonte: Pesquisa Benefícios Econômicos da Expansão do Saneamento Brasileiro – Instituto Trata Brasil/FGV, 2010. 
·         A diferença de aproveitamento escolar entre crianças que têm e não têm acesso ao saneamento básico é de 18%;
·         11% das faltas do trabalhador estão relacionadas a problemas causados por esse mesmo problema;
·         Apesar do relevante aumento de arrecadação e renda resultantes de maior fluxo de pessoas em 20 destinos turísticos indicados pela Embratur, essas localidades acusam ainda um subinvestimento das necessidades básicas;
·         Cada 1 milhão investido em obas de esgoto sanitário gera 30 empregos diretos e 20 indiretos, além dos permanentes quando o sistema entra em operação. Com o investimento de R$ 11 bilhões por ano reivindicado pelo setor de saneamento, calcula-se que sejam gerados 550 mil novos empregos no mesmo período;
·         Se os investimentos em saneamento continuarem no mesmo ritmo, apenas em 2122 todos os brasileiros teriam acesso a esse serviço básico.
·         As 81 maiores cidades do país, com mais de 300 mil habitantes, despejam, diariamente, 5,9 bilhões de litros de esgoto sem tratamento algum, contaminando solos, rios, mananciais e praias do país, com impactos diretos a saúde da população.
Fonte: Pesquisa Saneamento, Educação, Trabalho e Turismo – Instituto Trata Brasil/FGV, 2008.

Ganhos ao cidadão e ao país:

·         Ao ter acesso à rede de esgoto, um trabalhador aumenta a sua produtividade em 13,3%, permitindo assim o crescimento de sua renda na mesma proporção.
·         Com a universalização do acesso a rede de esgoto, a estimativa é que a massa de salários, que hoje gira em torno de R$ 1,1 trilhão, se eleve em 3,8%, provocando um aumento na renda de R$ 41,5 bilhões por ano.
·         A universalização do acesso a rede de esgoto pode ainda proporcionar uma valorização média de até 18% no valor dos imóveis.
·         A valorização dos imóveis pode alcançar R$ 74 bilhões, valor 49% maior que o custo das obras de saneamento avaliado em R$ 49,8 bilhões (considerando apenas novas ligações).
·         Em longo prazo, o acesso à rede de esgoto implicaria um aumento na arrecadação do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) na mesma proporção do valor médio dos imóveis, um ganho estimado de R$ 385 milhões ao ano. Já no Imposto Sobre Transferência de Bens de Imóveis (ITBI) o crescimento esperado é superior a R$ 80 milhões por ano.
Fonte: Pesquisa Benefícios Econômicos da Expansão do Saneamento Brasileiro – Instituto Trata Brasil/FGV, 2010. 

O Brasileiro conhece o tema 'Saneamento Básico' e a responsabilidade do Poder Público quanto a estes serviços?

·         Com o objetivo de verificar o nível de conhecimento do brasileiro sobre os serviços de saneamento básico, mais especificamente sobre o acesso à água potável, coleta e tratamento dos esgotos, o Instituto Trata Brasil realizou junto com o IBOPE uma pesquisa de opinião. Realizada com 1008 pessoas em 26 grandes municípios - com população acima de 300 mil habitantes-, o estudo revelou que os brasileiros estão mais críticos e bem informados sobre o assunto. Vejam alguns resultados: 
·         81% dos entrevistados souberam relacionar saneamento com os 4 serviços da área (água, esgotos, resíduos sólidos e drenagem)
·         Quase metade dos entrevistados (47%) afirmaram haver esgoto ou córrego correndo a céu aberto próximo da residência.
·         31% citaram o saneamento (Esgoto + Limpeza Pública + Coleta de Lixo + Abastecimento de água) como a área mais problemática, ficando atrás somente de saúde (61%), segurança (46%) e drogas (40%).
·         Metade dos entrevistados disse que se pudesse não pagaria para ter seu domicílio ligado à rede coletora de esgotos. Outros resultados explicam: Com relação à qualidade dos servi serviços, 58% afirmaram que o valor pago pela água / esgoto é caro em relação à qualidade do serviço prestado.
·         Sobre as melhorias nos serviços de saneamento no bairro onde moram, 41% afirmaram que houve melhora, 44% que permaneceram iguais e 11% que pioraram.
·         75% das pessoas afirmaram que, apesar dos problemas, não cobram melhorias nos serviços. 59% dos cidadãos afirmaram que mesmo quando foram feitas reclamações à Prefeitura ou empresa de água e esgotos reivindicando melhorias, nenhuma medida foi tomada.
·         A maioria dos entrevistados (68%) sabe que o Prefeito é o principal responsável pelos serviços da área de saneamento básico. No que se refere à fiscalização, a maior parte dos entrevistados (55%) diz caber também à Prefeitura e 18% ao governo do Estado. A Agência Reguladora, órgão realmente responsável, foi citada por apenas 1% dos entrevistados. 13% das pessoas não sabem.
Fonte: A percepção do brasileiro quanto ao saneamento básico e a responsabilidade do poder público - Instituto Trata Brasil/Ibope, 2012.
Referência Bibliográfica:

Curva Ambiental de Kuznets: mais desenvolvimento é a solução?



José Eustáquio Diniz Alves*

Simon Kuznets (1901-1985) foi um economista nascido na Ucrânia, ganhador do Prêmio Nobel de 1971, que fez importantes contribuições aos estudos macroeconômicos. Originalmente, a “Curva de Kuznets” foi uma representação gráfica elaborada para expressar a hipótese de que o aumento da desigualdade de renda é uma tendência natural dos primeiros ciclos do desenvolvimento, mas que se reverte com o passar do tempo, pois as próprias forças de mercado se encarregariam de reduzir as desigualdades a partir do momento em que uma nação alcança certo limiar de renda per capita.

A Curva Ambiental de Kuznets (CAK) tem a mesma forma do “U invertido”, mas é aplicada para a área ambiental. A CAK tem sido usada pelas pessoas que defendem o desenvolvimento econômico como uma prioridade em relação ao meio ambiente. A ideia básica é que o desenvolvimento só causa grandes problemas ambientais em suas etapas iniciais (no take off rostowniano). Porém, a partir de certo ponto, o aumento da renda per capita e da educação levaria à uma menor degradação ambiental. Portanto, segundo o otimismo kuznetiano, altas doses de desenvolvimento seriam úteis não só para reduzir as desigualdades sociais, mas também para salvar a natureza.

O “U invertido” seria o melhor dos mundos se fosse verdade, pois investimentos em tecnologia e educação resolveriam os problemas simultâneos da pobreza e do meio ambiente. Mas a CAK é uma metodologia que ainda não foi comprovada, embora caia como uma luva ideológica perfeita, tanto para as diversas correntes nacionalistas (à direita e à esquerda), quanto para os economicistas, os positivitas, os socialistas stalinistas, os fundamentalistas de mercado, os neoliberais e os chamados céticos do clima.

Os dados dos Estados Unidos da América (EUA), em relação à desigualdade de renda, são ilustrativos. O índice de Gini diminuiu ligeiramente entre os anos 1920 e 1970, podendo sugerir alguma praticidade da “Curva de kuznets”. Porém, depois das políticas implantadas por Ronald Reagan e George Bush (pai e filho) a concentração de renda voltou a aumentar, apontando para um formato não de “U invertido”, mas sim um formato “N”, ou seja, um aumento inicial, depois uma queda, seguida de uma nova subida. Um estudo de 2011, feito pelo Congressional Budget Office (CBO) mostrou que os ganhos nominais da parcela dos 1% mais ricos da população norteamericana cresceu 275% entre 1979 e 2007, contra 40% de aumento nominal dos 60% da base da pirâmide de renda.

Portanto, a “Curva de Kuznets” não se aplica para o caso dos EUA – país super desenvolvido e lider da economia mundial. Por outro lado, países como Taiwan, Coréia do Sul e Singapura apresentaram rápido desenvolvimento econômico sem passar pela fase de grande concentração de renda. Desta forma, a CAK não acontece necessariamente nem na sua fase ascendente e nem na descendente. O professor José Gabriel Palma (2011), da Universidade de Cambridge, publicou artigo recente mostrando que não há prova alguma da veracidade da “Curva de Kuznets” em relação à desigualdade de renda, nos diversos países do mundo.

Quanto à curva ambiental a questão é ainda mais complexa e a metodologia mais frágil. Na adaptação para o meio ambiente, a Curva Ambiental de Kuznets (CAK) representa a relação entre o aumento da renda per capita (e da educação) e a redução da degradação ambiental. Mas, Simon Kuznets não chegou a ver o uso e o abuso de sua curva. O início do uso da CAK é atribuído a um paper de 1991 de autoria dos economistas americanos Gene Grossman e Alan Krueger. Eles utilizaram medidas de poluição em cidades de 42 países e examinaram, por meio de técnicas econométricas, a relação entre qualidade do ar e crescimento econômico. Encontraram a forma do “U invertido” nos casos do dióxido de enxofre (SO2) e fumaça.

Os estudos econométricos sobre a CAK, de maneira geral, apontam que o pico da degradação ambiental tende a ocorrer quando a renda per capita fica entre US$ 5 mil e US$ 8 mil. Após este nível o crescimento econômico, em vez de causar degradação, seria a solução para o meio ambiente. Artigo dos pesquisadores Nemat Shafik e Sushenjit Bandyopadhyay foi utilizado para fundamentar o World Development Report, do Banco Mundial, em 1992. Das dez medidas de qualidade ambiental usadas, quatro demonstraram comportamento na forma de U invertido – falta de água, falta de saneamento urbano, partículas suspensas e SO2. Em plena época neoliberal, estes tipos de estudos reforçaram a ideologia da desregulamentação, sugerindo que o mercado faria os ajustes necessários para a inclusão social e a sustentabilidade ambiental, na medida em que houvesse crescimento da renda per capita e da educação.

Segundo Pardini (2008): “Além de ignorar o sistema, seja ele uma economia local, seja o comércio global, a ideia por trás da CAK descola-se da realidade por não assumir que existe feedback entre a degradação ambiental e a economia. A relação é vista como tendo apenas uma mão – mais crescimento leva a menos poluição – e não o seu contrário – mais poluição leva a menos crescimento. Ignora a possibilidade de os efeitos da degradação ambiental serem irreversíveis e, portanto, afetarem a possibilidade de geração de renda”.

De fato a degradação ambiental só tem se agravado no mundo nas últimas décadas, como mostram os dados do aquecimento global, da poluição dos rios, lagos e oceanos, a extinção de 30 mil espécies por ano, as áreas de florestas estão diminuindo para atender a demanda de madeira e a demanda de espaço para a agricultura e a pecuária. Especies invasoras substituem a vegetação original. O mal uso do solo provoca erosão, salinização e desertificação, etc.

Neste quadro geral de degradação ambiental, quer ressuscitar a CAK é fechar os olhos para a realidade crua e nua. O pesquisador David Stern, do Rensselaer Polytechnic Institute, em Nova York, revendo os estudos sobre a Curva Ambiental de Kuznets, chegou à conclusão que quando se leva em consideração os diagnósticos estatísticos, os testes de especificação e se usa técnicas apropriadas, percebe-se que a CAK não existe (2004): “Parece que a maioria dos indicadores de degradação ambiental aumenta monotonicamente com a renda”.

Segundo o relatório Planeta Vivo, da WWF, a pegada ecológica da humanidade passou de 7,2 bilhões de hectares globais (gha) em 1961 para 17,3 bilhões de gha em 2008, representando um consumo dos recursos naturais 50% acima da capacidade de regeneração do Planeta. A biocapacidade da Terra diminuiu de 3,2 hectares globais (gha) per capita, em 1961, para 1,8 gha per capita, em 2008.

Ou seja, tem havido diminuição da capacidade de produção biológica do globo, enquanto aumenta o consumo de bens duráveis e de alimentos provocado pelo crescimento populacional e econômico.
Portanto, os últimos 200 anos da história do desenvolvimento econômico – desde a Revolução Industrial e o início do uso generalizado dos combustíveis fósseis – têm sido acompanhados pela degradação ambiental e, em geral, são exatamente os países mais ricos e mais educados que provocam o maior impacto negativo global.

REFERÊNCIAS:

PALMA, J. G. Homogeneous middles vs. heterogeneous tails, and the end of the ‘Inverted-U’: the share of the rich is what it’s all about, Cambridge University, 2011
http://www.econ.cam.ac.uk/dae/repec/cam/pdf/cwpe1111.pdf

PARDINI, Flávia. Por trás de uma curva. Página 22. São Paulo, 18/10/2008
http://pagina22.com.br/index.php/2008/10/por-tras-de-uma-curva

STERN, David. The Rise and Fall of the Environmental Kuznets Curve. World Development Vol. 32, No. 8, pp. 1419–1439, 2004.
http://home.cerge-ei.cz/richmanova/UPCES/Stern%20-%20The%20Rise%20and%20Fall%20of%20the%20Environmental%20Kuznets%20Curve.pdf


* José Eustáquio Diniz Alves, colunista do Portal EcoDebate, é doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

(EcoDebate)

Jardins Filtrantes

Disciplina: Saneamento Ambiental e Rural
Prof.: Maurício Novaes
Nome: Débora Nery Pessamiglio
Agroecologia – 7 0 Período



Mini-Projeto Jardins Filtrantes

Situação
A produção de esgoto produzido pela sociedade, tanto em ambiente urbano quanto em área rural gera a chamada água negra, a qual é altamente contaminante do solo e lençol freático. Geralmente esse esgoto é lançado diretamente no curso d’água ou “despejado” em canaletas e fossas negras, sem nenhum tipo de tratamento e consequentemente ocasionando grande quantidade de resíduo poluente no ambiente. Diante disso, foi desenvolvido o jardim filtrante, que inclui a fossa séptica biodigestora e o clorador Embrapa, tecnologia essa que surgiu para auxiliar o saneamento básico da área rural.

Objetivo Geral
Transformar o esgoto doméstico da área rural em adubo orgânico: promover o saneamento básico e proteger o meio ambiente.

Objetivos Específicos
- Destinar adequadamente o esgoto humano;
- Tratar da água cinza residual, provenientes de pias, tanques, chuveiros e o efluente tratado da fossa;
- Produzir adubo orgânico com o esgoto doméstico;
- Conceder à população rural condições de saneamento básico melhorando sua qualidade de vida;
- Promover a descontaminação das águas e solos já que o esgoto não mais será lançado sobre tais áreas;
- Proteger o ambiente; e
- Reduzir gastos das famílias com insumos.

Justificativa
Pelo fato da fossa séptica tratar somente do esgoto humano, toda a água eliminada de instalações como chuveiros, pias e tanques, a chamada água cinza, não possui um destino adequado, pois a mesma carrega consigo sabões, detergentes e ainda restos de comida e gordura. Para solucionar tal questão, o jardim filtrante surgiu para destinar de forma adequada esses resíduos.

Material e Métodos
Para a fossa séptica biodigestora serão construídos buracos no chão onde serão colocados caixas de fibra de vidro de maneira que fiquem praticamente enterradas no chão. Acoplados a tais caixas estarão canos que servirão de tubulação por onde passará o esgoto doméstico desviado do vaso sanitário. O adubo orgânico gerado pela fossa séptica biodigestora deve ser aplicado somente no solo, em pomares e outras plantas onde o biofertilizante não entre em contato direto com alimentos que sejam ingeridos crus.
Já o clorador Embrapa é um complemento do sistema de saneamento básico na área rural. Para construí-lo serão utilizadas peças e conexões encontradas em casas de material de construção, e será instalado entre a captação de água e o reservatório. Para clorar a água é preciso colocar uma colher rasa de café, de hipoclorito de cálcio, no receptor de cloro. Depois de 30 minutos, a água já está clorada, livre de germes e pronta para beber.
A etapa do jardim filtrante será feita seguindo primeiramente a ordem da escolha para o local de instalação. Em seguida, será aberta uma cova com dez metros quadrados com seu fundo devendo ser impermeabilizado com uma geomembrana de polietileno de alta densidade ou equivalente, preferencialmente protegida por mantas de bidim.
O esgoto passará primeiramente por uma caixa de retenção de sólidos e uma caixa de gordura antes de entrar no jardim filtrante e a saída do líquido tratado ocorre por uma tubulação em forma de cachimbo, a qual também regula o nível da água no jardim. A entrada e a saída serão instaladas em pontos opostos da caixa.
O local do jardim filtrante será preenchido com brita e areia grossa. Após essa etapa, será feita uma pequena curva de nível em torno do jardim, sob a geomembrana e o bidim, objetivando evitar a entrada de enxurrada no sistema. O penúltimo passo é colocar a água. O jardim filtrante deve ficar saturado com água, porém evitando a formação de lâmina d´água.
O último passo é a inserção de plantas macrófitas aquáticas, pois são elas que irão retirar nutrientes da água para depurá-la e proporcionar um ambiente visualmente agradável.
Para embelezar o sistema, podem ser colocadas flores que suportem o meio saturado, justificando seu nome: “Jardim Filtrante”.

Resultados Efetivos
Trabalhos já realizados com a implantação de jardins filtrantes em propriedades rurais mostraram os excelentes resultados obtidos, pois o esgoto doméstico recebe um destino adequado de maneira a tratá-lo e ainda possibilitando a utilização do adubo gerado após o tratamento do resíduo, além da despoluição do ambiente.

Considerações Finais

A utilização de jardins filtrantes em propriedades rurais é uma excelente alternativa para tratar do esgoto doméstico, gerar adubo, evitar a contaminação do solo e água, conceder à população saneamento básico, além de ainda promover um ambiente bonito e agradável pela presença das flores no sistema.

A revolução da agricultura familiar



José Graziano da Silva*

 

De geração em geração, os agricultores familiares transmitem conhecimentos e habilidades, preservando e melhorando muitas das práticas e tecnologias que podem apoiar a sustentabilidade Agrícola


Hoje estamos em uma encruzilhada: aproximadamente 842 milhões de pessoas sofrem de fome crônica porque não conseguem comer adequadamente, apesar de não haver escassez de alimentos no mundo. 

A busca atual é por sistemas agrícolas verdadeiramente sustentáveis, que possam satisfazer as necessidades de alimentos no planeta. E nada se aproxima mais do atual paradigma do que a produção sustentável de alimentos que a Agricultura familiar. 

As Nações Unidas estabeleceram 2014 como Ano Internacional da Agricultura familiar. É uma oportunidade perfeita para destacar o papel dos agricultores familiares na erradicação da fome e na conservação dos recursos naturais, elementos centrais do futuro sustentável que queremos. 

O apoio à Agricultura familiar não faz oposição à Agricultura especializada de grande escala, que também tem um papel importante para garantir a produção mundial de alimentos e enfrenta seus próprios desafios, incluindo a adoção de enfoques sustentáveis. 

Temos muito que aprender sobre as práticas sustentáveis dos agricultores familiares, já que a maior parte da experiência mundial em sistemas de Agricultura sustentável foi adquirida pela Agricultura familiar. 

De geração em geração, os agricultores familiares transmitem conhecimentos e habilidades, preservando e melhorando muitas das práticas e tecnologias que podem apoiar a sustentabilidade Agrícola. 

Com o uso de técnicas inovadoras, como a construção de terraços e a adoção de práticas de Lavoura zero, os agricultores familiares conseguiram manter a produção em terras muitas vezes marginais. 

A conservação e o uso sustentável dos recursos naturais têm suas raízes na lógica produtiva da Agricultura familiar e essa é a diferença da Agricultura especializada de grande escala. A natureza altamente diversificada das atividades agrícolas coloca a Agricultura familiar em função central de promoção da sustentabilidade ambiental e na proteção da biodiversidade, e contribui para uma dieta mais saudável e mais equilibrada. 
Os agricultores familiares também têm um papel fundamental nos circuitos locais de produção, comercialização e consumo, que são importantes não só na luta contra a fome, mas também na criação de emprego, geração de renda e no fomento e na diversificação das economias locais. 

Estima-se que existam 500 milhões de tipos de Agricultura familiar no mundo, que representam, em média, mais de 80% das explorações agrícolas. Tanto nos países desenvolvidos, como nos em desenvolvimento, são os principais produtores de alimentos de consumo local e os "administradores" principais da segurança alimentar.

No passado, com bastante frequência, os agricultores familiares eram considerados um problema que tinha que ser solucionado e objeto de políticas sociais com potencial limitado. Essa é a mentalidade que temos que mudar. Os agricultores familiares não são parte do problema. Ao contrário, fazem parte da solução para a segurança alimentar e o desenvolvimento sustentável. 

O que os agricultores familiares precisam é similar em todo o mundo:

ü  Assistência técnica e políticas baseadas em seus conhecimentos que reforcem o aumento da sustentabilidade da produtividade;
ü  Tecnologias apropriadas; insumos de qualidade que respondam a suas necessidades e respeitem sua cultura e tradições;
ü  Especial atenção às mulheres e aos jovens agricultores;
ü  Fortalecimento das organizações e cooperativas de produtores;
ü  Melhor acesso à terra, à água, ao crédito e aos mercados; e
ü  Esforços para melhorar a participação na cadeia de valores. 

O Ano Internacional da Agricultura familiar 2014 nos brindará com a oportunidade única de revitalizar esse setor crítico, para o bem da alimentação de toda a humanidade.

* Agrônomo, é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).