Gerenciamento da sustentabilidade do projeto como processo auxilia de planejamento e execução

* Por Anna Sophia Barbosa Baracho



A busca de um produto que seja desenvolvido de forma sustentável nas esferas econômica, social e ambiental já faz parte do escopo de muitas empresas que produzem estratégias capazes de viabilizar as suas responsabilidades socioambientais, através de projetos específicos para a área ambiental, principalmente para aquelas potencialmente poluidoras. Mas apesar disso, ainda é comum profissionais perderem o controle do prazo e do custo – chegando a afetar a qualidade do(s) produto(s) – devido à má utilização ou falta de metodologias aplicadas no gerenciamento de seus processos.



A elaboração de projetos ambientais ainda é feita sem a devida sistematização das informações necessárias à implantação do projeto e resultados esperados: passagem pelas fases dos processos, das ferramentas e técnicas mais apropriadas para o planejamento e execução.
O devido acompanhamento dos projetos ambientais que garanta o princípio de sustentabilidade nos negócios deve ser focado no padrão PMI desde o início da sua concepção, pois, permite detectar possíveis falhas, além de ir de encontro com as atuais exigências de gerenciamento e transformações do mercado.



Palavras chaves: Gerenciamento da Sustentabilidade, Metodologia e Sistematização PMBoK, Responsabilidade Social Corporativa.



INTRODUÇÃO: OPORTUNIDADES PARA A SUSTENTABILIDADE



Organizações de todo o mundo estão cada vez mais procurando meios de melhorar seu desempenho global considerando aspectos da qualidade, meio ambiente e saúde, como parte integrante de sua gestão integrada. A incorporação da sustentabilidade nos negócios demanda, atualmente, por instrumentos objetivos que permitam às organizações trilharem, de forma prática, os caminhos necessários às mudanças nos modelos mentais e de gestão. Tendo como ponto de partida da análise os projetos como agentes potenciais de mudança, objetiva-se uma avaliação desta prática de gestão e como ela pode ser revisada, incorporando premissas e diretrizes do desenvolvimento sustentável.



A Responsabilidade Social Corporativa (RSC) como forma de orientar as empresas rumo a um modelo de desenvolvimento sustentável tem sido o grande desafio de gestão já vivenciado pelas empresas no mundo todo. Ao serem colocados nas mesmas posições os aspectos econômicos, sociais e ambientais, busca-se um equilíbrio de variáveis que usualmente fogem ao modelo praticado pelas organizações: a perspectiva sistêmica, a noção do longo prazo, dentre outros.



Diversas são as estratégias de se repensar os negócios a partir das premissas do desenvolvimento sustentável, entretanto, poucas delas têm focado um aspecto importante no dia-a-dia das organizações: os projetos.Se projetos promovem mudanças, então pode-se dizer que estas levam as empresas a novos rumos em seus negócios. Mas quais rumos são esses? E quanto esses projetos trouxeram as diretrizes para a sustentabilidade? Adotando-se que os modelos de gestão estão usualmente baseados em melhores práticas a serem incorporadas em suas realidades, deve-se perguntar quais são estas melhores práticas associadas aos projetos e o quanto elas estão levando em consideração as diretrizes para o desenvolvimento sustentável.



O objetivo aqui consiste em colocar de forma mais enfática os aspectos positivos, ou seja, o quanto o produto ou serviço potencializa as questões sociais e ambientais. Todo esse processo de questionamento demanda de um roteiro que facilite sua compreensão e entre todos os roteiros desenvolvidos destaca-se o sugerido pelo Project Management Institute (PMI)© (http://www.pmi.org/). O roteiro vem somar às demais técnicas já propostas e utilizadas no campo da gestão, agregando quando o tema são os investimentos ligados aos projetos empresariais e sustentabilidade.



Modernizar, competir, rentabilizar, aprimorar, são palavras cotidianas no mundo dos negócios. E este é o primeiro ponto: com que freqüência, a cada projeto novo iniciado nas organizações, é questionado o quanto ele contribui para o caminho a um modelo de desenvolvimento sustentável e simultaneamente corporativamente responsável?



Pode-se pensar em projetos dos mais variados tipos dentro das organizações: aprimorar modelos de gestão, implantar novos sistemas de informação, entrar em novos mercados, lançar novos produtos, ou seja, existem projetos de todos os tipos, portes e impactos. Entretanto, há uma natureza de projetos que está no caminho crítico de qualquer negócio: são os projetos relacionados aos produtos ou serviços. Estes projetos são particularmente importantes, pois justificam a organização perante seu mercado, oferecem a ela as condições de permanecer existindo, de gerar seus resultados econômicos, de se mostrarem para seus clientes da forma verdadeira. E, são estes mesmos projetos os principais responsáveis pelos impactos, positivos ou negativos, no negócio em termos econômicos, ambientais e sociais.



Há que se ressaltar que o tema de projetos alinhado com a questão do desenvolvimento sustentável pode ser considerado como um “tipo de inovação”. Entretanto, sua implementação no modelo de gestão atual pode ser considerada como uma ação de certa complexidade, ao mesmo tempo em que aponta questões de ordem prática ligadas ao tema da sustentabilidade no cotidiano das empresas e pode apresentar impactos relevantes estruturais ou na decisão final por determinados investimentos.



DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: CAMINHO SEM VOLTA



Diversos são os sinais e constatações da insustentabilidade do modelo econômico atual. Como implementar mudanças que alinhem as três esferas (econômico, social e ambiental) no contexto da gestão empresarial? Muitos têm sido os esforços para o “repensar” do modelo dos negócios, principalmente no que se refere ao posicionamento estratégico das organizações e do modelo de gestão. Porém, tem-se notado que as criações de novos paradigmas no campo da sustentabilidade encontram maiores dificuldades do que o esperado em processos usuais de mudanças no mundo corporativo. Tem-se conseguido demonstrar em que aspectos a gestão dos negócios deve mudar, contudo, não se consegue ter o mesmo sucesso na explicitação de formas que levem à criação de um novo paradigma que sustente o modelo proposto.



Em grande parte, as organizações explicitam sua intenção de agir pautadas pelas três dimensões (econômico, social e ambiental), porém as atitudes, em sua maioria, são direcionadas pelo paradigma da dimensão econômica. Todo esse processo de mudança encontra questionamentos ao longo do percurso de transformação de uma organização rumo à sustentabilidade: o que faz determinadas lideranças empresariais considerarem a sustentabilidade nos negócios como evidente, ao mesmo tempo que para outras é difícil a forma de geri-los.



Porém, muitas organizações que já adotaram a sustentabilidade como diretriz estratégica apresentam melhores resultados econômicos. Este é o contexto no qual se insere o tema de projetos. Sabe-se que um projeto é uma mudança, entretanto, é preciso sempre entender as motivações e as reais possibilidades de rumar na direção desejada.



ESTRATÉGIAS, PROJETOS E SUSTENTABILIDADE



A proposta apresentada para o encaminhamento dos projetos no contexto da sustentabilidade parte da seguinte visão geral:











No centro da figura encontra-se a estrutura clássica de gestão empresarial,onde, no topo da pirâmide, constam os princípios do negócio. No lado direito, as dimensões da Responsabilidade Social Corporativa adotadas por algumas empresas e, no lado esquerdo, as dimensões da Sustentabilidade. A tríade econômico, social e ambiental está representada no modelo, tendo na base a necessidade de Integração, Alinhamento e Coerência.


Um projeto que esteja neste contexto, durante sua concepção necessita responder a algumas questões ligadas aos aspectos econômicos do negócio, como por exemplo, se alterará ou não a proposta de valor da empresa frente aos seus mercados, se alterará ou não a estrutura organizacional da empresa, etc.


Agrega-se aos projetos um conjunto de novas questões que, somadas às questões usuais aplicadas a estes, despertam a possibilidade de colocar o tema em pauta, principalmente aos stakeholders do projeto. Em todo o processo de aprovação de investimentos em projetos podem ser inseridas estas questões como parte dos critérios de aprovação dos mesmos. O objetivo é que, todo projeto de investimento acima de um determinado valor, seja aprovado pelas instâncias com poderes para tal, aplicando como questionamento as propostas contidas no roteiro do projeto.




Figura 2: Novas questões a serem inseridas nos projetos quando da montagem de seu escopo, referindo-seao potencial de inserção dos temas de gestão como parte integrante do planejamento e execução.


AVALIAÇÃO DOS PROJETOS COM O ENFOQUE DA SUSTENTABILIDADE


Que novos processos devem ser pensados para a gestão da sustentabilidade? Quais são as técnicas, as ferramentas e as informações que devem ser adicionados àqueles já previstos pelas áreas de conhecimento? Ou seja, como garantir que os padrões de gerenciamento de projetos reflitam preocupações relacionadas à sustentabilidade?


Visando facilitar a aplicação dos conceitos apresentados no campo da sustentabilidade, foram desenvolvidas duas planilhas com base no modelo proposto pelo PMBoK®. Para a elaboração do check-list foram mapeados os resultados que derivam das fases de planejamento e execução do ciclo de gerenciamento dos projetos, inserindo questões que contemplam a temática da Responsabilidade Social Corporativa (RSC) e do desenvolvimento sustentável tomando como referência os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (http://www.pnud.org.br/milenio/index.php).

PROCESSOS DE PLANEJAMENTO DO PROJETO

Aprovado o Termo de Abertura, dá-se início ao planejamento do projeto. Esta etapa do ciclo demanda um maior detalhamento e confere materialização às questões da sustentabilidade tratadas na etapa de Iniciação do Projeto.

PROCESSOS DE EXECUÇÃO DO PROJETO

Findo o planejamento do projeto e aprovado seu detalhamento junto à alta administração, inicia-se a etapa de execução.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Estabelecidos os parâmetros utilizados para a avaliação e condução de projetos, os aspectos apresentados influenciam os resultados de cada uma das diferentes etapas que derivam de cada uma das fases do ciclo de processos de gerenciamento dos projetos.

Como em todo processo de inovação, a construção de um novo modelo de gerenciamento de projetos, que leve em conta o desenvolvimento sustentável, a incorporação de novas sugestões e observações, dentro do conjunto de aspectos específicos das diretrizes estratégicas da empresa, terão como resultados destes aprimoramentos: a contribuição positiva para imagem da empresa, considerando a exposição na mídia, pública e a percepção dos clientes; a observação de critérios, protocolos e declarações ambientais e de gestão de expressão internacional, passíveis de certificação ou não; a redução dos impactos ambientais nos processos; a melhoria da qualidade de trabalho para funcionários, com fornecedores e clientes; a aplicação de conceitos de consumo consciente, cidadania corporativa, ética, qualidade de vida e desenvolvimento local.

Dentro do universo das empresas, grande parte delas deve entender que os temas tratados sobre a sustentabilidade são relevantes, e virá para a pauta estratégica do negócio por necessidade e pressão interna e/ou externa. Afinal é esperado das organizações que incorporem em sua visão a perspectiva da sustentabilidade como eixo central de sua estratégia de sobrevivência e crescimento; que incorporem em suas atitudes e práticas de gestão novas perspectivas de análise e tomada de decisão, que considerem e integrem equilibradamente os aspectos econômicos, sociais e ambientais; que baseados nessas mudanças, possam apresentar resultados significativos em termos de impactos produzidos no contexto socioambiental em que atuam, minimizando impactos negativos e potencializando impactos positivos, de forma contínua e progressiva; que sejam agentes multiplicadores desta perspectiva de desenvolvimento em toda sua cadeia, influenciando e fortalecendo suas relações com os stakeholders.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Fernando. O bom negócio da sustentabilidade. 1ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. 191 p.CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DO INSTITUTO ETHOS 2006. Gestão de projetos para sustentabilidade. Disponívelem:<http://www.ethos1.org.br/>. Acesso em 12/12/2008.
LEAL, Guilherme. Crise financeira pode abrir espaço para que o modelo de desenvolvimento seja repensado de forma mais sustentável. Disponível em:<http://www.funbio.org.br/publique/web/cgi/cgilua.exe/sys/start.htminfoid=6234&sid=17>. Acesso em 09/01/2009.
NBR ISO 14001. Sistemas de gestão ambiental: especificação e diretrizes para uso. Rio de Janeiro: ABNT, 1996. 14p.OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO DO MILÊNIO. Disponível em: <http://www.pnud.org.br/milenio/index.php> Acesso em 10/12/2008.
PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. Um guia do conjunto de conhecimentos em gerenciamento de projetos: guia PMBOK. 3ª ed. Newton Square: PMI, c2004. 388 p.

SOUZA, Maurício Novaes. Degradação e recuperação ambiental e desenvolvimento sustentável. Dissertação de Mestrado. Viçosa: UFV, 2004.

VARGAS, Ricardo Viana. Manual prático do plano de projeto: utilizando o PMBOK Guide. 3ª ed. Rio de Janeiro: Brasport, 2007. 226 p.

* Arquiteta e Urbanista (PUCMINAS); Especialista em Meio Ambiente e Arquitetura Bioclimática (Universidad Politécnica de Madrid); Especialista em Engenharia Ambiental Integrada (IETEC); Pós-graduanda em MBA Administração de Projetos pelo IETEC.

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