segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

TÉCNICO EM MEIO AMBIENTE E GESTÃO DO AGRONEGÓCIO DO CEFET-RP VISITAM O PARQUE ESTADUAL DO IBITIPOCA




* Por Maurício Novaes Souza


Nos dias 14 a 17 de outubro um grupo de alunos dos cursos Técnico em Meio Ambiente e Gestão do Agronegócio, sob a coordenação do Professor Maurício Novaes, do CEFET-RP, estiveram em viagem técnica no Parque Estadual do Ibitipoca.









O parque foi criado com o objetivo de garantir a preservação de ecossistemas, possibilitar a realização de estudos e pesquisas científicas e oferecer condições para o turismo e a conscientização ambiental.
O Parque do Ibitipoca possui uma beleza exótica e um alto índice de biodiversidade em seus 1488 hectares. Possui ecossistemas diversos, como os campos rupestres, o cerrado e a Mata Atlântica - uma verdadeira preciosidade incrustada num dos pontos mais altos da Serra da Mantiqueira. O parque foi criado em 04/07/1973 e administrado pelo Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais (IEF).
É o habitat natural de espécies em extinção: Bugios e Barbados, Onça Parda, Lobos-Guará, Candeias (árvore tradicional do Parque), Bromélias e Orquídeas. Os riachos, as cachoeiras e lagos são as maiores atrações do Parque do Ibitipoca.De formação geológica, predominantemente quartzítica, o relevo acidentado, enfatiza a formação de "gargantas", cavernas, despenhadeiros, pequenos cânions, entre outros acidentes geográficos. No verão, época de chuvas, as quedas d'água fazem um espetáculo à parte.
A Cachoeira Janela do Céu - o ponto mais distante da portaria e moldurado por uma vegetação exuberante, é considerado por muitos o local mais belo do parque!As rochas predominantes no Parque Estadual do Ibitipoca são materiais muito antigos, arenosos e de cor clara a acinzentada, com mais de um bilhão de anos de idade - são chamadas quartzitos, pertencentes à família das rochas metamórficas. Essas rochas se destacam na paisagem pelas suas elevadas altitudes, podendo chegar a quase 1800 metros.
A característica dessa rocha tem muito a ver com a sua história. Nela participam os minerais resistentes que as formam (quartzo), assim como os processos geológicos pelos quais elas passaram ao longo do tempo, originando paredões rochosos e os elevados topos que caracterizam e embelezam as paisagens do parque. Entretanto, esses materiais são extremamente frágeis, posto que estão fracamente cimentados entre si, favorecendo assim, a sua desagregação do mineral quartzo, pelos agentes ambientais, como a chuva e as variações de temperatura. Daí a importância de cuidados especiais para a sua conservação, função muito bem desempenhada por Técnicos Ambientais.

Ø Educação AmbientalUm dos principais objetivos de viagens técnicas com esse perfil é o de se estimular no estudante o compromisso com a prática da educação ambiental. Nos dias atuais esta se constitui em uma forma abrangente de educação, que se propõe a atingir todos os cidadãos por meio de um processo pedagógico participativo permanente, proporcionando ao educando uma consciência crítica sobre a problemática ambiental.
Há de se considerar a possibilidade da criação de Unidades de Conservação como essa nas cidades de origem dos estudantes, o que contribuiria para a preservação de importantes remanescentes florestais dispersos e cada vez mais escassos em todo o Estado de Minas Gerais. Também poderiam estimular e oferecer condições à implantação do Ecoturismo Sustentável em seus municípios, que estimula a geração de emprego e renda, essenciais para o beneficio de todos e possibilitando a realização de estudos, pesquisas científicas e a conscientização ambiental.
Nessas visitas técnicas o contato com profissionais que atuam nessa atividade (engenheiro florestal, biólogo, veterinário, guias florestais e de ecoturismo, entre outros) e a população local da área de estudo é de extrema importância para a elaboração de quaisquer projetos. As viagens permitem a esses futuros profissionais o conhecimento in loco de um grande número de ecossistemas (8) e suas peculiaridades.
Essa diversidade é muito importante para que os alunos possam avaliar os projetos apresentados nas disciplinas já cursadas e nas próximas a serem ministradas, a partir de uma real visão sócio-econômica-cultural-ambiental.Neste contexto, consciente de sua responsabilidade social, o CEFET-RP adotou e assumiu publicamente o compromisso com a educação formal e informal de seus alunos, adotando medidas de disseminação da problemática ambiental e da importância da conservação dos recursos naturais.
As viagens técnicas são constantemente estimuladas com o apoio incondicional de toda a diretoria dessa Instituição, que não mede esforços na busca de recursos financeiros e no apoio logístico para o acontecimento de tais eventos e demais atividades correlatas.
Enfim, a localização do Parque, o contato direto com a natureza e o aprendizado sobre como elaborar um plano de manejo, permitiu aos estudantes vivenciarem por três dias parte da dinâmica única dessa região. Ficaram evidenciadas as necessidades e as obrigações para a manutenção e preservação da vida local, para garantir a sua manutenção para as futuras gerações – princípio básico que norteia as propostas para se atingir o Desenvolvimento Sustentável.
* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e da SEMAD - Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Uso abusivo e danos ambientais das sacolas plásticas

* Por Maurício Novaes Souza

A preocupação com as questões ambientais vem aumentando consideravelmente nas duas últimas décadas. Em todo o mundo, governos, cidadãos e empresas têm-se empenhado em reduzir os impactos das atividades humanas sobre a natureza. No Brasil, começou a ganhar vulto a discussão sobre os impactos do uso excessivo das sacolas e sacos plásticos.
Segundo especialistas, o uso dessas embalagens tem provocado danos ambientais expressivos. Em todo o mundo, desde que foram inseridas no mercado na década de 1980, as sacolas plásticas acumulam-se no planeta, sem terem muita utilidade de reciclagem, pois o plástico deste material é muito barato. O Brasil produz em média cerca de 210 mil toneladas de saquinhos plásticos. O número representa cerca de 10% do lixo do país, sendo que os aterros ou lixões estão no total limite.
Soma-se a esse problema, o hábito do povo brasileiro, que na labuta de economizar, reutiliza as sacolas plásticas como forma de abrigar os lixos domésticos. Contudo, há de se considerar, que o ciclo de vida do plástico é estimado em 200 a 450 anos em média. Estima-se que cerca de 300 milhões de sacolas plásticas saem todos os dias do comércio e passam por nossas casas tendo como triste fim a poluição do meio ambiente.
Segundo pesquisas efetuadas pelo IDEC e entrevistas de dirigentes de supermercados, as mesmas demonstram que cabe ao consumidor efetuar a escolha se acha mais viável sacolas de papel, de pano, caixas, entre outras opções viáveis. O ponto fundamental, é que além de campanha educativa sobre as conseqüências dos referidos danos ambientais, é necessário haver uma mudança comportamental, sendo necessário uma colaboração mútua entre empresas, governos e consumidores.
Em Belo Horizonte, uma das primeiras capitais a legislar sobre o tema, foi publicada uma Lei que dispõe sobre a substituição do uso de saco plástico de lixo e sacola plástica por saco de lixo ecológico e sacola ecológica. Já existem também iniciativas isoladas de alguns estabelecimentos comerciais que se dispuseram a utilizar sacolas ecológicas.
Há de se ter cuidado com falsas promessas, como as sacolas plásticas oxibiodegradáveis, cuja tecnologia que permite que o plástico modificado se degrade mais rapidamente que o comum, em contrapartida contamina o meio ambiente de forma agressiva, em razão de que as partículas produzidas no processo de decomposição, quando atacadas pela ação de microorganismos, irão liberar, além de gases do efeito estufa, metais pesados e outros compostos inexistentes no plástico comum; e pigmentos de tintas.
No Rio Grande do Sul, a prefeitura de Lajeado lançou, com apoio do comércio, campanha para substituir o plástico por sacolas de pano. Em São Francisco, nos Estados Unidos, foi proibida a utilização desses sacos em supermercados e farmácias. Na Europa, vários países já evitam a entrega gratuita de sacos pelos supermercados à clientela. Segundo estimativas, o consumo anual de plásticos no Brasil está em 19 quilos por habitante (100 nos Estados Unidos, 70 na Europa).
Os comerciantes devem buscar alternativas para que se reduza o incrível total de sacos plásticos descartados no mundo - 1 milhão por minuto, ou quase 1,5 bilhão por dia, mais de 500 bilhões por ano - são um dos fortes componentes do entupimento da drenagem urbana e dos rios e córregos. A iniciativa deve partir do setor empresarial, como Rogério Muniz, empresário do ramo hortifrutigranjeiro em São Paulo. Preocupado com o interesse de algumas pessoas em levar grande número de “sacolinhas plásticas” em suas compras, ele decidiu distribuir sacolas de tecido aos clientes.
Segundo esse empresário, procurando uma solução, descobriu uma organização não-governamental (ONG) de costureiras de baixa renda. Fizeram uma parceria e já houve uma redução de 3% no uso de sacos plásticos. “É claro que, inicialmente, a sacola de pano é mais cara, mas estou satisfeito com a receptividade”. A economista Fátima Cima, cliente do mercado de Rogério, disse que é “uma satisfação” freqüentar um estabelecimento comercial preocupado em proteger a natureza. É fundamental que se façam campanhas da iniciativa privada e governamental para conscientizar as pessoas, e que os comerciantes tomem atitudes nessa direção – poderá funcionar como marketing verde e terem suas vendas e lucros ampliados.
Publicado originalmente em: INFORMACIRP, RIO POMBA, MG, novembro de 2008.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e consultor do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Desperdício de papel e medidas para o uso racional



* Por Maurício Novaes Souza

Entre as questões ambientais, um dos maiores problemas verificados na atualidade é a geração de um grande volume de resíduos. Isto se deve ao incentivo desenfreado do consumo de produtos típicos da vida moderna, que acabam poluindo o solo e os rios como conseqüência de sua disposição final inadequada. Tal crescimento é verificado em todos os setores, sendo que o descarte de papel é o que vem apresentando maiores índices de crescimento.
Tem-se verificado que o desperdício de papel nos escritórios pode ser facilmente observado nas salas onde ficam as impressoras e o “xérox”. Muitas vezes se vêem cópias minimamente defeituosas ou folhas apenas com o nome do usuário da rede que mandou imprimir seus relatórios ou trabalhos. No Brasil, e em todo o mundo, a quantidade de folhas jogadas diariamente no lixo é assustadora. Maior ainda é a surpresa ao sabermos que praticamente nada é reciclado.
Para se produzir uma tonelada de papel virgem é utilizada 15 árvores e consumidos 100.000 litros de água. Sendo o papel um recurso reutilizável pela reciclagem, a coleta seletiva proporciona uma diminuição significativa desse resíduo, contribuindo assim para a preservação de recursos naturais e economia de fontes não-renováveis. Sabe-se hoje que produzir papel a partir de papel “velho” consome cerca de 50% menos energia: utiliza-se 50 vezes menos água, além de reduzir a poluição do ar em 95%. Considere-se ainda o destino final dos resíduos no Brasil: 76% céu aberto; 13% aterro controlado; 10% aterro sanitário; 09% usina de compostagem; 01% usina de incineração.
Portanto, é preciso batalhar para conscientizar seus colegas e chefes que é necessário e urgente fazer uso racional de papel em sua empresa. Não é porque a reciclagem está em alta que vamos esquecer que antes do "R" da reciclagem vem os "Rs" da redução e da reutilização dos materiais. Em muitos casos, a coleta seletiva de papéis pode ser realizada com a implementação de práticas de educação ambiental e com a promoção da conscientização e mudança de hábitos nas comunidades ou na equipe de funcionários de uma empresa, desenvolvendo atitudes de não desperdício e uso racional de papéis.
O problema é tão grave que a Câmara de Belo Horizonte adotou um novo procedimento na elaboração de projetos e nos pareceres em tramitação que são disponibilizados pela internet. Isso porque após as emendas alguns projetos podem usar mais de 50 páginas. A nova tecnologia permite uma economia de R$ 150 mil por ano, gastos anteriormente com papel e cópias xérox necessárias ao acompanhamento da tramitação dos projetos pelos parlamentares. Ganha o cidadão, que terá acesso gratuito às informações; e o meio ambiente, que tem seus recursos poupados.
O mesmo foi realizado em uma das unidades da Universidade de São Paulo, em um programa implementado por uma equipe formada por docentes, funcionários e alunos que organizam e executam as atividades. São realizadas palestras de orientação sobre as atividades do programa nos diferentes setores e parte do papel é usada para confeccionar blocos de rascunho que são distribuídos à comunidade. O recurso financeiro obtido com a venda é revertido para a manutenção e continuidade do projeto. Em pouco tempo do programa foi para a reciclagem 3.496 Kg de papéis.
No entanto, essa atitude deve ser pessoal. Não podemos ficar passivos frente a uma atitude sem propósito como o desperdício. Pergunta-se então: como evitar essa prática? a) analise os motivos do desperdício e combata-os - a economia que poderá ser feita é um ótimo argumento; b) convide os profissionais a conhecerem a "salinha do Xérox" que é o principal local onde reside o problema; c) Reduza o uso de papel: revise texto no computador antes de imprimir e faça apenas o número necessário de cópias; d) Reutilize - use as duas faces da folha de papel para escrever, imprimir e fazer cópias; e) Reaproveite - envelopes, sacolas, papéis de embrulho e embalagens; f) compare o custo do papel reciclado com o virgem - existem papéis reciclados sem apelo de marketing; g) selecione - separar o material é fundamental, não misturando, por exemplo, copinhos sujos de café - é possível vendê-los em “Bolsas de Resíduos”; ou você pode entrar em contato com alguma entidade ou cooperativa de catadores para que eles recolham o material periodicamente; e h) não aceite folhetos na rua ou no carro se não forem de seu interesse.
Fica sempre aquela pergunta: o que eu tenho a ver com tudo isso? Empresas responsáveis entram em um seleto grupo de organizações com boa visibilidade junto a formadores de opinião. Tem benefícios como: fidelidade do cliente, vendas maiores, menores taxas de juros nos bancos, entre outros. Cada vez que contribuímos com novas propostas e atitudes, o mundo se modifica. Passe essa idéia adiante!
Publicação original em: INFORMACIRP, RIO POMBA, DEZEMBRO DE 2008.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e consultor do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Desafios atuais para a formação do profissional em meio ambiente


Por Maurício Novaes Souza*


Atualmente muito se fala em Desenvolvimento Sustentável. Contudo, para alcançá-lo, é necessário que sejam criadas tecnologias apropriadas e pessoal competente para gerenciá-las: as atividades comerciais e industriais mundiais e brasileiras estão conscientes da necessidade de adotarem práticas de gestão ambiental e pretendem ampliar seus investimentos destinados à proteção do meio ambiente.
Isto de deve principalmente às profundas transformações do modelo econômico decorrentes da reestruturação produtiva, da integração mundial dos mercados financeiros, da internacionalização das economias, da desregulamentação e abertura dos mercados, com a quebra de barreiras protecionistas, em suas causas e conseqüências político-sociais. Tais mudanças vêm atingindo, de forma acelerada e diferenciada, sobretudo na última década do século passado e nos primeiros sete anos desse século XXI, amplos setores da população trabalhadora e os donos de empresas/indústrias.
No caso brasileiro, com relação ao meio ambiente, muita degradação e impactos foram gerados. Na população, observa-se um processo de pauperização, inclusive entre os trabalhadores integrados ao mercado de trabalho, como resultado de uma trajetória marcada pela insegurança, instabilidade e precariedade nos vínculos laborais. Essa degradação das condições materiais de vida, das formas de reprodução, agravada pela ausência de mecanismos de proteção social e associada à desestruturação/reconstrução de identidades geradas em torno do trabalho, configura, em sua complexidade, uma nova questão social.
Atualmente, para se manter no mercado, as empresas precisam estar mais atentas à velocidade das mudanças e inovar continuamente. Contudo, a grande maioria das empresas de pequeno porte, particularmente no interior, vem enfrentando dificuldades na relação com os órgãos ambientais em face à necessidade de se cumprir exigência ambientais por vezes desconhecidas dos seus proprietários e funcionários, que na maioria das vezes questionam as suas aplicabilidade técnica e seus aspectos de sustentabilidade econômica.
Nessa busca, os gestores têm identificado o capital humano como um dos fatores que mais contribuem para que as empresas sustentem suas vantagens competitivas. É fato notório que, nos dias atuais, o bem mais precioso de uma corporação é o conhecimento, o grande diferencial competitivo do mundo do trabalho. Ou seja, a economia atual está baseada no capital intelectual, em que as pessoas é que fazem a diferença.
Todas essas considerações nos levam a refletir sobre as mudanças que têm ocorrido no ambiente das empresas e no foco de sua gestão refletindo na exigência das competências profissionais que elas necessitam e, também, nos centros de ensino técnico e tecnológico, como o CEFET, e nas faculdades e universidades que formam esses profissionais. As empresas estão avaliando se as pessoas têm prazer no exercício da função, se têm ambição para crescer e se têm generosidade para compartilhar conhecimento e gerar valor. Elas procuram pessoas que saibam trabalhar em equipe, que demonstram equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional. Pessoas que têm capacidade de quebrar paradigmas, de negociar, de se comunicar, de se modernizar e de aperfeiçoar continuamente o próprio aprendizado.
Os profissionais têm de tomar as rédeas de sua vida, de suas escolhas e de seu desempenho. Deverão investir em si próprios, adotando medidas, tais como: fazer curso de línguas e especializações; ler bons livros, jornais e revistas; freqüentar cinema e teatro; e praticar esportes. É necessário que determinem os objetivos que almejem alcançar, e criem um plano e condições para atingi-los e conquistá-los. É fundamental que se aprimore suas competências. Deve-se traçar um plano, não só para a sua carreira, mas principalmente, um plano para sua vida. Faz-se necessário que procure adquirir novas habilidades e novos conhecimentos, novos relacionamentos e novos hábitos.
Sejamos, então, criadores da nossa própria vida, posto que ela é fruto de tudo o que fazemos, com base nas nossas crenças atuais. Em Rio Pomba, MG, por exemplo, temos no CEFET/RP vários cursos superiores e técnicos que poderão contribuir definitivamente nesse sentido. No caso específico dos curso Técnico em Meio Ambiente, interagimos com os diversos fatores que interferem em nossa vida, analisamos suas inter-relações, buscamos conhecer a legislação atual, entre outros.
Na verdade, o profissional que o mercado atual requer, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, deverá saber e praticar a Gestão Ambiental, que têm como Princípios: a Qualidade; a Criatividade; a Humanidade; a Lucratividade (sim, também é permitido); a Continuidade; a Lealdade; e a Ética - para que efetivamente se atinja o Desenvolvimento Sustentável. Os Benefícios de sua aplicação são: a Sobrevivência Humana; o Consenso Público; a Oportunidade de Mercado; a Redução de Risco; a Redução de Custos; e a Integridade Pessoal.
Há de se considerar ainda, que para atender as propostas do Desenvolvimento Sustentável, os profissionais deverão apresentar como Características: incorporar tecnologias inovadoras e apropriadas; tomar decisões tendo como base uma visão holística e sistêmica; promover um contexto de maior responsabilidade social; e conhecer outras culturas.
Deverão possuir, ou estarem em busca, das seguintes Habilidades: Comunicação interpessoal, intercultural e expressão correta; Profissional atuante, responsável e plenamente qualificado; Utilização do raciocínio lógico, crítico e analítico operando com valores; Domínio da Tecnologia da Informação; Perceber a necessidade constante de aperfeiçoamento e atualização; Atuação em todas as áreas concernentes à profissão (visão sistêmica); Contribuir para as ações de equipes interdisciplinares e multidisciplinares; Lidar com modelos de gestão inovadores; Compreender a complexidade do mundo globalizado em que vivemos.
Para isso, faz-se necessário que adote as seguintes Atitudes e Procedimentos: Aprender a aprender; Ampla formação cultural - conhecer/saber; Ser criativo e inovador; Conciliar conhecimento teórico e prático; Ser líder e capaz de tomar decisões; Trabalhar em parceria/compartilhar; Estar tecnologicamente atualizado; Saber lidar com produtividade e competitividade; Ter visão estratégica; Possuir espírito empreendedor; Sensível às questões sociais e ambientais; e Flexível às mudanças.
Tal profissional proporcionará à sua empresa as seguintes Vantagens Competitivas: Redução de custos, em função da economia de recursos naturais e diminuição da geração de resíduos; Possibilidades de conquistar mercados restritos, como o da União Européia; Redução das indenizações por responsabilidade civil, e danos ao meio ambiente; e Atendimento às legislações inerentes ao meio ambiente.
Enfim, o profissional moderno, de qualquer que seja a sua área de trabalho, deve conhecer o que é e como aplicar a Gestão Ambiental. Deverá saber que esta visa ordenar as atividades humanas para que estas originem o menor impacto possível sobre o meio ambiente. Esta organização vai desde a escolha das melhores técnicas até o cumprimento da legislação e a alocação correta de recursos humanos e financeiros.

Publicado originalmente em: Informativo Ambiental. Jornal do curso Técnico em Meio Ambiente do CEFET-RP, Turma 2008, n. 1, p. 2, novembro de 2008.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e consultor do IBAMA. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Urbanização, Poluição Hídrica e Saneamento Ambiental: um caso de saúde pública


Por Maurício Novaes Souza*

O crescimento urbano e industrial nem sempre significa desenvolvimento humano: particularmente nos países em industrialização, vem acompanhado de desigualdade de acesso aos itens básicos necessários a uma sobrevivência digna, tais como o acesso à educação, à alimentação e à saúde. O acesso da população à saúde passa, incondicionalmente, pelo binômio abastecimento de água/saneamento básico.
Contudo, o que se tem verificado, é a ausência do planejamento territorial das áreas a serem ocupadas. Nos países em desenvolvimento, como o Brasil, a taxa de crescimento anual da população urbana chega aos 3,5%, vindo acompanhada de realidades preocupantes. Uma delas é a formação de cinturões de pobreza, como nos municípios de Angra dos Reis e Paraty, dada à carência de serviços de infra-estrutura e de moradia adequada a um nível mínimo de condições de vida.
Dessa forma, a falta do saneamento nas cidades, em níveis mínimos que assegurem o bem-estar das populações, tem gerado um quadro de degradação do meio ambiente urbano sem precedentes, sendo os recursos hídricos um dos primeiros elementos integrantes da base de recursos naturais a sofrer tais efeitos. Por esta razão, não há curso d’água ou lago que esteja próximo ou que passe por alguma cidade que não esteja poluído, sendo o grau de poluição diretamente proporcional à população e ao nível de atividade produtiva da cidade.
Entre os impactos ambientais da urbanização se destacam três que afetam diretamente a quantidade e a qualidade dos recursos hídricos: a) as derivações de água, quando ainda não deterioradas, e a devolução via o esgotamento sanitário sem tratamento do efluente final; b) as impermeabilizações da superfície natural; e c) os alargamentos e os desvios do leito do rio, alterando o regime hidrológico e desprotegendo as vegetações ciliares das margens contra o risco de inundações.
Tais impactos exercem uma demanda importante sobre três serviços básicos: a) o abastecimento de água; b) o esgotamento sanitário; e c) a drenagem urbana. Os objetivos a alcançar seria a eficiência nos três serviços, além do uso eficiente e racional da água e de evitar-se quaisquer formas de degradação dos mananciais. Isso porque é por intermédio de veiculação hídrica que se propagam doenças, tais como a gastrenterite, o cólera, a leishmaniose, a malária e a esquistossomose, as moléstias diarréicas, e ainda, sob certas circunstâncias, a hepatite e a salmonelose, responsáveis pela morbidade e mortalidade de um grande número de pessoas, principalmente crianças.
Com relação ao “lixo”, tecnicamente conhecido como “Resíduo Sólido Urbano” (RSU), o crescimento das áreas urbanas não levou em consideração a necessidade de adequação de locais específicos para o seu depósito e tratamento. O Brasil gera diariamente cerca de 110 mil toneladas de lixo, sendo que a maior parte é simplesmente lançada sem qualquer cuidado em depósitos existentes nas periferias das cidades. De acordo com o IBGE, 74% dos municípios brasileiros depositam lixo a céu aberto e apenas 57% separam os seus dejetos hospitalares.
Dessa forma, um aspecto relevante a ser considerado, é que a implantação de programas de reciclagem estimula o desenvolvimento de uma maior consciência ambiental e dos princípios de cidadania por parte da população. Além disso, a falta de novas áreas para a implantação de aterros sanitários ou aterros controlados é um fator que tem contribuído para a implementação de sistemas de reciclagem e compostagem. Estudos apontam que as técnicas utilizadas pela compostagem são capazes de reduzir à metade a massa de lixo processada e, num prazo de 60 a 90 dias, levar à obtenção de um composto orgânico para utilização na agricultura sem causar danos ao meio ambiente, além de aumentarem significativamente a absorção de água no solo, favorecendo procedimentos de recuperação de áreas degradadas.
Considerando a omissão ou as limitações financeiras dos municípios, há de se considerar a importância da participação da comunidade e de parcerias, como as desempenhadas pelo Instituto Ambiental Costa Verde (IACV), a ELETRONUCLEAR e o CEFET-RIOPOMBA. Coordenada pelo Sr. Stainer, vêm sendo desenvolvidos projetos de recuperação de nascentes em áreas de Mata Atlântica que abastece localidades do município de Paraty; e a Central de Compostagem, que beneficia e recicla o “lixo” produzido em áreas diversas da ELETRONUCLEAR, produzindo composto para ser utilizado nas diversas áreas degradadas que vêm sendo recuperadas. Trabalhos de Educação Ambiental também vêm sendo praticados em parceria com o CIEP – 495 Guignard, da comunidade do Perequê, coordenados pelo IACV.
Na verdade, rios, lagos e mares é o destino final dos esgotos. Com o crescimento da população e da atividade industrial, a qualidade das águas dos rios e lagos vem em muitos casos se deteriorando progressivamente. Investir no saneamento do município melhora a qualidade de vida da população, bem como a proteção ao meio ambiente urbano, além de gerar emprego e renda para a população beneficiada.
Combinado com políticas de saúde e habitação, o saneamento ambiental diminui a incidência de doenças e internações hospitalares, sendo este um dos fatores componentes do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de um país. Além disso, melhorando a qualidade ambiental, o município se torna atrativo para investimentos externos, podendo inclusive desenvolver sua vocação turística.
Publicado originalmente em: Jornal da cidade de Paraty, abril de 2008, RJ.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM-MG e membro benemérito do IACV. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Desenvolvimento Sustentável: aspectos sociais, ambientais e econômicos


Por Maurício Novaes Souza*

Durante a ECO 92, realizada no Rio de Janeiro em 1992, ocorreram discussões sobre as atividades e mecanismos econômicos capazes de produzirem impactos ambientais e destruírem os recursos naturais. O documento denominado Agenda 21 é resultante dessas discussões, contendo inúmeras recomendações: inclusive aquelas que enfatizam a importância dos governos e organismos financeiros internacionais priorizarem políticas econômicas para estimular a sustentabilidade por meio da taxação do uso indiscriminado dos recursos naturais, da poluição e despejo de resíduos, da eliminação de subsídios que favoreçam a degradação ambiental e da contabilização de custos ambientais e de saúde.
Contudo, percebe-se que as propriedades rurais, os centros urbanos - indústria, comércio e a comunidade, não estão aproveitando efetivamente seus recursos, tais como seu potencial de transformação dos produtos agropecuários, da matéria-prima florestal e agroflorestal, e da administração de seus resíduos gerados durante os processos produtivos, urbanos e rurais, em produtos de maior valor agregado.
Como aconteceu na década de 1970, o então Ministro da Fazenda Delfim Neto dizia que era preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo. Nesse período os trabalhadores brasileiros foram convocados a um esforço coletivo, que deu origem ao crescimento econômico e tecnológico que fez do Brasil a oitava maior economia do mundo. O país cresceu e acumulou riquezas, contudo, em ritmo ainda mais acelerado, multiplicaram-se as desigualdades sociais e o empobrecimento dos trabalhadores, particularmente da classe média, que ainda se encontram à espera de sua fatia do bolo. Nesse período, os problemas ambientais se agigantaram.
Essa promessa, que chegou a ser esquecida pela maior parte dos trabalhadores brasileiros da época e é desconhecida dos mais jovens, até mesmo dos estudantes universitários e do ensino tecnológico, foi retomada em janeiro desse ano pelo presidente Lula por meio Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Atitude traduzida na oferta de R$ 503 bilhões a serem investidos ao longo dos próximos quatro anos para vencer desigualdades ao gerar ambientes favoráveis ao surgimento e desenvolvimento de negócios que irão gerar emprego e renda ao recolocar o país no caminho do crescimento.
O fato é que chegamos em 2008, e muito pouco tem sido verificado de efetivo relacionado à educação, à extensão, às questões ambientais, entre outros, quando se deseja a sustentabilidade em sua forma plena. A educação ainda não vem recebendo os estímulos que se fazem necessários. Nos interiores do Brasil os organismos de extensão rural ainda são por demais precários e ineficientes, principalmente devido à deficiência de pessoal.
O que se tem verificado é a expansão de áreas desmatadas em todo o nosso País, o aumento de áreas de pastagens degradadas, o crescimento de áreas contaminadas por agroquímicos, a ausência de saneamento básico, entre outros. Na verdade, são os seguintes principais procedimentos necessários para atingir o desenvolvimento sustentável:
· Formação de recursos humanos, com a universalização do acesso à educação básica e à conscientização da população com respeito aos problemas ambientais;
· Políticas públicas que tenham como prioridade a área social;
· Estimular cursos de formação e reciclagem às comunidades, com foco nas questões ambientais em práticas que estimulem o desenvolvimento sócio-econômico;
· Promover treinamentos intensivos em gestão de recursos e impactos ambientais.
Há de se considerar que a finalidade do desenvolvimento sustentável deverá ter como prioridade as questões sociais que se baseiem em princípios éticos e solidários. Somente quando esses conceitos estiverem em plena sincronia com os condicionantes ecológicos e com as garantias de viabilidade econômica, será possível construir um projeto voltado às presentes e às futuras gerações, tendo por base os aspectos sociais, ambientais e econômicos, todos fundamentais quando o objetivo é o desenvolvimento sustentável.
Publicação original em: Jornal cidade de Paraty, abril de 2008.


* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

A crise energética e a radiação solar


* Por Maurício Novaes Souza

O mundo vive nova crise energética e um agravamento dos problemas ambientais. O petróleo e o carvão atingiram a maior cotação de toda a história da humanidade. Dessa forma, a exploração intensiva das reservas não renováveis de combustíveis fósseis e os prejuízos ambientais trazidos pelo uso desses recursos energéticos pressupõem um cenário preocupante para esse século. Nesse contexto, assume crucial importância a busca de fontes de energia alternativas, em especial renováveis e não-poluentes, como a solar e a eólica – ainda mais quando se sabe que o Sol é a principal fonte de energia para a superfície da Terra.
O interesse pela utilização da radiação solar como fonte de energia alternativa cresceu muito nas duas últimas décadas, por razões econômicas, principalmente após a crise do petróleo de 1973, quando os estudos nessa área receberam grande impulso nos Estados Unidos e na Europa. Hoje, esse interesse está adquirindo maior dimensão, abrangendo não só o aproveitamento dessa radiação como fonte de energia limpa e renovável, mas também o conhecimento do clima e de suas mudanças.
Muitos países, inclusive o Brasil, já buscam nas energias solar e eólica opções para o problema energético, cuja demanda mundial depende quase totalmente (cerca de 80%) dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão mineral e gás natural), ou seja, recursos esgotáveis. Além disso, o uso de tais combustíveis está associado a riscos ambientais ainda não completamente avaliados.
Dessa forma, o aproveitamento da energia solar é um projeto viável, tanto em termos técnicos quanto econômicos. O elevado custo, principal obstáculo para sua utilização em escala comercial, já está sendo vencido. Especialistas nessa tecnologia prevêem uma queda de até seis vezes no preço do quilowatt (kW) obtido a partir de energia solar até o ano 2015. Contudo, embora seja inesgotável e não ofereça riscos ambientais, essa energia ainda é aproveitada de modo muito incipiente no país para secagem de alimentos, na indústria do sal e no aquecimento de água.
Do total de energia elétrica gerada no Brasil, 95% são de origem hidráulica, mas o potencial desse tipo de fonte, de acordo com a Eletrobrás, poderá se esgotar no ano 2015, se mantido um ritmo regular de crescimento econômico. Por suas características tropicais, o Brasil tem, em quase todo o território e durante o ano inteiro, grande potencial de oferta de energia solar - no entanto, muito pouco é feito para aproveitar essa energia.

Ø Radiação solar e mudanças climáticas
Um programa realista de substituição de combustíveis fósseis por energia solar poderia, de imediato, reduzir em 800 a 900 milhões de toneladas anuais a emissão de dióxido de carbono (CO2) – principal gás de efeito estufa - para a atmosfera. Essa quantidade representa de 15% a 17% do total de CO2 emitido atualmente.
A radiação solar é a principal força motriz do clima na Terra. A atmosfera pode ser vista como uma máquina térmica em que a fonte de calor está nos trópicos e o sorvedouro nos pólos. Como toda máquina, a atmosfera deve trabalhar a uma temperatura estável. Isso de fato acontece: a temperatura média global situa-se em torno de 15°C, felizmente para a maioria dos seres vivos.
Os dados disponíveis de radiação solar são muito limitados para o Brasil. A maioria refere-se a médias climatológicas, onde é fornecido o número de horas de brilhância do Sol, ou insolação, e não a energia incidente. No que concerne a medidas diretas da radiação, a situação é lamentável. Até alguns anos atrás, a maior rede solarimétrica nacional era mantida pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), vinculado ao Ministério da Agricultura, com 24 piranômetros, aparelhos que medem diretamente a energia radiante por m2 de superfície horizontal. Hoje, em função da ausência de investimento no setor, essa rede está fragmentada e atua de forma insuficiente.

Ø Enfrentar os desafios
As expectativas energéticas para o próximo século apontam na direção das fontes renováveis, como as energias do Sol e dos ventos. Estamos hoje saldando uma dívida com a natureza pelo emprego indiscriminado dos combustíveis fósseis. Vivemos o drama dos pólos industriais, com sua necessidade crescente de energia, e dos grandes centros urbanos, envoltos pela degradante poluição atmosférica, que reduz a já baixa qualidade de vida.
Constatamos, preocupados, que algumas alterações de grande escala observadas na atmosfera já não são apenas especulações ou previsões científicas, mas fatos reais, como a diminuição da camada de ozônio na estratosfera e o efeito estufa. A contrapartida é uma maior parcela de responsabilidade quanto à preservação do meio ambiente. Isso significa acompanhar os sinais de vida no planeta, o que inclui o monitoramento da radiação solar - principal fonte de energia para o sistema climático e para a própria vida - e a procura de formas alternativas de energia, capazes de melhor harmonizar o homem com seu meio ambiente.
A International Solar Energy Society (ISES), sediada em Freiburg (Alemanha), promove há alguns anos o programa The comeback of solar energy ('O retorno da energia solar'). A iniciativa baseia-se em um cenário que considera os progressos tecnológicos obtidos na última década e também as expectativas positivas de desenvolvimento do setor. No momento em que as sociedades desenvolvidas pressionam crescentemente seus governos a despoluir o meio ambiente, essa 'volta' da energia solar foi bem recebida, resultando em vertiginoso aumento de investimentos em pesquisa e desenvolvimento na área, principalmente na Alemanha, Japão e Austrália.
No Brasil, um marco importante e oportuno para uma discussão séria sobre o tema, em nível de política nacional, foi a criação do Comitê Permanente das Energias Solar, Eólica e Biomassa, vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia. Tal debate poderá levar à formulação de uma política oficial de longo prazo para o setor. Outras iniciativas mostram que o país está caminhando na direção certa para enfrentar os desafios desse novo século.
No que diz respeito à radiação solar, sem dúvida resta muito a ser feito no país, desde o desenvolvimento de equipamentos com matéria-prima e soluções tecnológicas nacionais até o estudo de novas aplicações para a eletricidade e o calor gerados a partir da luz do Sol. Qualquer estudo de viabilização de fontes de energia alternativas e 'ecologicamente corretas' serão bem-vindas e esse pode ser o ponto de partida para o futuro.
Publicado originalmente em: Informativo do Instituto Ambiental Sol do Campo, Ubá, MG. Agosto de 2008.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e da SEMAD - Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

A crise da água: fatos e atitudes necessárias ao Desenvolvimento Sustentável



Por Maurício Novaes Souza*

A humanidade vem enfrentando problemas de degradação ambiental que remontam no tempo. Entretanto, tem-se verificado a partir da década de 1960, em função dos modos de produção, de crescimento e de desenvolvimento praticados, que os recursos naturais, como a água, vem se tornando um fator cada vez mais crítico para o desenvolvimento econômico e social de longo prazo, bem como para a sustentabilidade ambiental.
Há décadas recentemente passadas, o meio ambiente era capaz de desempenhar sua função autodepuradora com eficiência. Nos dias atuais, encontra-se excessivamente sobrecarregado pelas atividades humanas. Percebe-se, assim, que o mundo poderá experimentar uma escassez de recursos hídricos sem precedentes em um futuro próximo, a menos que os padrões de desenvolvimento comecem a ser alterados e o ser humano modifique o seu comportamento no que se refere ao uso e ao consumo desse recurso natural.
Sabe-se que as visões sobre a água são multifacetadas, estando diretamente relacionadas ao crescimento da população humana e ao grau de urbanização. Em face à complexidade dos usos múltiplos desse recurso pelo homem, são estes que mais sofrem com a poluição ambiental. No Brasil, as causas das altas taxas de desmatamento, fator que influenciará diretamente sobre os ecossistemas aquáticos, incluem forças e processos externos, tais como a expansão das plantações comerciais, fazendas-agropecuárias, madeireiras, entre outros. Além disso, a exploração de essências florestais de alto valor comercial para atender aos mercados externos é fator agravante dos desmatamentos no Brasil e em várias partes do planeta.
No município de Ubá a situação não foi diferente. Nessa microrregião se destaca o grande número de fábricas de móveis com predominância de madeira. A constante necessidade de extração da vegetação para a obtenção de sua principal matéria-prima são as florestas de matas nativas, muitas vezes de áreas de preservação permanente, tanto desse município, como de outras regiões de nosso país. Há de se considerar que as indústrias moveleiras necessitam de madeira, mas também de água em todas as fases da produção. Sabe-se que o desmatamento proporciona a redução da vazão das nascentes, ou mesmo sua supressão, afetando o volume dos córregos e dos rios locais, com reflexo em toda a bacia hidrográfica na qual o ribeirão Ubá está inserido. Considere-se, ainda, que os resíduos, em sua maioria, são destinados ao lixão e ao ribeirão Ubá.
Na área rural, a atividade agropecuária mal conduzida tem levado às situações desastrosas de erosão do solo. A sua camada superficial, que é a mais fértil, é arrastada pelas chuvas, deixando para trás ravinas e voçorocas nos sítios e nas fazendas, empobrecendo o solo e assoreando mananciais, além de levar para as águas dos rios e represas resíduos de agroquímicos. O mau uso do solo agrícola inclui situações como o plantio "morro abaixo", em vez do plantio em curvas de nível; a aração ou gradagem excessiva ou em condições inadequadas de umidade e tipo de solo; a alta taxa de lotação nas pastagens e falta de manutenção/renovação das mesmas; plantio em áreas declivosas sem aptidão agrícola para culturas anuais.
Esta remoção de terra fértil representa milhões de reais que o país perde anualmente, exigindo aplicações cada vez maiores de fertilizantes nas áreas erodidas para que se possa manter a produtividade agropecuária e florestal. O assoreamento dos rios aumenta a ocorrência de picos de cheias, provocando fortes enchentes nas áreas urbanas, como aconteceu recentemente na cidade de Ubá. Dessa forma, a crise de abastecimento de água pode ser considerada um fator crítico na atualidade. Inclusive, começa a atingir algumas das mais ricas nações do mundo.
Em recente relatório da Organização não-governamental WWF Internacional - denominado “Países Ricos, Pobre Água” - é uma das primeiras visões panorâmicas das questões de água doce no mundo desenvolvido. O relatório mostra que a combinação de mudanças climáticas, secas e perda de áreas úmidas – que acumulam grande volume de água (tais áreas do ribeirão Ubá vinham sendo utilizadas para a disposição de resíduos da construção civil) –, ao lado de infra-estruturas inadequadas para a água e a má gestão dos recursos hídricos, estão “globalizando” a crise. Esta situação tende a se agravar, na medida em que o aquecimento global reduz as chuvas e aumenta a evaporação, alterando os padrões do ciclo hidrológico.
Esse fato pode ser explicado pelos modelos de desenvolvimento agropecuário e urbano-industrial implementado nas últimas décadas. A provável origem desses problemas se deve ao imediatismo nas fases de elaboração e implantação dos empreendimentos e atividades, com displicência, ou mesmo ausência, de planejamento ambiental, não considerando as questões relativas à predição. A Avaliação de Impactos Ambientais e o Licenciamento Ambiental, exigências legais que constam na Constituição Brasileira, têm sido relegadas ao segundo plano, por muitas indústrias/empresas; urbanas/rurais. É sabido que o conhecimento de tais impactos é fundamental para que se evite a sua repetição futura, bem como para a recuperação de áreas degradadas pelo uso inadequado. Essa questão assume uma enorme importância do ponto de vista ecológico, econômico e social.
A adoção dos Sistemas de Gestão Ambiental, que é um conjunto de medidas que visam à redução e o controle dos impactos provocados por atividades e intervenções humanas sobre o meio-ambiente, ainda são adotadas por poucas empresas/indústrias. O Desenvolvimento Sustentável sugere que se considerem os aspectos ambientais, econômicos e sociais na implantação de um determinado projeto. Na elaboração da Agenda 21 Brasileira, foi considerada fundamental que se promovam alterações nos modos de produção, necessitando, para isso, de uma definição nas políticas públicas que considerem o planejamento de médio e longo prazo.
A Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu 2008 como "O Ano do Planeta", o que representa, mundialmente, um marco histórico importantíssimo para um direcionamento enérgico das ações humanas em favor da preservação ambiental, da conservação dos recursos naturais e da qualidade de vida. Por este motivo, os países, as grandes organizações, as instituições financeiras mundiais, os pesquisadores, os técnicos, os produtores, enfim, todos aqueles envolvidos com os sistemas produtivos defrontam-se nos dias atuais com dois dos mais importantes desafios para a humanidade: a) usar de maneira eficiente os recursos na produção de alimentos - existe uma crescente consciência que o aumento da produção de alimentos deve estar associado a uma preocupação constante com o uso racional dos recursos tais como solo, água, energia e agroquímicos; e b) atender a tal demanda de forma sustentável, ou seja, aumentar a produtividade, preocupando-se com a conservação dos recursos naturais.
Porém, considerando os atuais modelos de produção e desenvolvimento que priorizam a maximização econômica em detrimento à conservação ambiental, a solução definitiva dessas questões parece estar distante de ser encontrada. Contudo, há de se considerar a existência de grupos de pessoas determinadas, como meus alunos do Curso Técnico em Meio Ambiente do Sagrado Coração de Maria, que criaram o Instituto Ambiental Sol do Campo. O papel dessa ONG é viabilizar e tornar factíveis soluções para este quadro, prioritariamente no município de Ubá. Suas preocupações e pesquisas visualizam não apenas o aumento da produtividade ou a eficiência econômica, mas dão ênfase total a sustentabilidade em sua condição plena.
O Instituto Ambiental Sol do Campo, do qual eu me considero membro benemérito, não se contrapõe ao progresso, muito ao contrário, defende a urbanização e a industrialização como garantia de modernidade, de geração de emprego e renda, desde que conservem os recursos naturais. Os educadores, os empresários, os políticos e toda a comunidade devem priorizar princípios éticos exigidos pelos princípios do Desenvolvimento Sustentável. A idéia de progresso não pode ser distorcida por um discurso desenvolvimentista que não contemple a sustentabilidade no longo prazo.
Considerando o recurso água, devem-se direcionar o estudo de políticas públicas no sentido de buscar soluções que incluem: a) recuperação de áreas degradadas; b) saneamento ambiental; e c) redução dos agentes contaminantes provenientes da disposição incorreta de resíduos e efluentes urbano-industriais e agropecuários. Impõe-se a necessidade de esforço conjunto para: a) aumentar a capacidade de predição e prognóstico; e b) praticar o planejamento e gerenciamento na área de recursos hídricos. Tais cuidados e atitudes são fundamentais para o desenvolvimento econômico e social de longo prazo, bem como para a sustentabilidade ambiental.
Publicado Originalmente em: Informativo do Instituto Ambiental Sol do Campo, Ubá, MG. Agosto, 2008.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

AGRONEGÓCIO: exportação e transposição de água virtual



*Maurício Novaes Souza
**Maria de Fátima Vieira Aguiar

A população deve refletir quando a mídia divulga que a “escassez de água potável” se deve ao fato da necessidade do aumento da produção de alimentos para abastecer o crescente mercado mundial ou que a população menos favorecida é a responsável pelo desperdício e degradação do recurso hídrico. É certo que o Brasil é detentor de grandes bacias hidrográficas, mas como suas águas vêm sendo utilizadas?
A inconsciência social é externalizada pelos cidadãos à medida que, privados de seus direitos, apesar de constar na Constituição de 1988, em seu artigo quinto, são excluídos de benefícios que deveriam ser partilhados. Este fato se deve em conseqüência de uma política oligárquica, onde lhes são apresentadas meias-verdades. Sendo assim, homem não se reconhece mais parte da natureza, nem como produtor, mas como uma máquina. Torna-se difícil identificar a origem da degradação, à medida que o homem sobre pressão, persuasão e violência das mais variadas formas, não se identifica como parte da natureza.
A água é um recurso renovável graças ao ciclo hidrológico, ou seja, a lâmina hídrica evapora com o calor do sol, condensa, e ao entrar em contato com as massas de ar quente e com as massas de ar frio, sofrem um choque térmico e precipita em forma de chuva, granizo ou neve. A água é insubstituível, e sua eficiência pode ser melhorada para suprir as necessidades essenciais de todos os seres, animais e vegetais. Ela representa a vida, portanto, podemos nos considerar parte do ciclo hidrológico a partir do nosso sistema de transpiração corpóreo. Segundo GONÇALVES (2004), o ser humano é constituído de 70% de água, que permite o equilíbrio corpóreo.
No Brasil, apesar de encontrar uma porcentagem de água favorável em relação ao restante do mundo (12%, segundo ALMEIDA & ROGOLIN, 2002), a distribuição do recurso hídrico em nosso território não é regular. Segundo MARENGO (Ação Ambiental, 2001), existem regiões, como o nordeste semi-árido brasileiro, onde a precipitação acumulada não ultrapassa a 500 mm/ano, levando a inviabilidade da produção de forma constante. Na costa leste, é superior a 1.500 mm/ano. Na região sudeste e centro-oeste, devido sua localização, apresenta precipitação média em torno de 1.500 e 2.000 mm/ano.
No norte de Minas Gerais a escassez de chuva ocorre durante os meses de junho, julho e agosto. A precipitação em grande parte do Brasil central é de apenas 30 mm no trimestre mais seco. No litoral norte do Estado de São Paulo a precipitação é da ordem de 3.500 a 4.000 mm/ano. Nas regiões onde o recurso hídrico se faz presente de forma abundante, ou mesmo daquelas onde se utiliza a técnica de irrigação, permite uma produção de monocultura voltada para exportação. O Brasil atualmente vem produzindo em grande escala.
O agronegócio estimula a produção de alimentos, mas defronta com a questão ambiental ao transformar a água, um recurso vital, em mercadoria “virtual”. A água é um recurso insubstituível em todos os processos produtivos. Mas manter o volume e a potabilidade das águas superficiais é necessário, para atender a população, principalmente a de baixo poder aquisitivo. As águas superficiais atendem com mais eficiência a maior parte da população; portanto, conservar e distribuir os recursos hídricos de forma consciente e responsável deve ser uma prioridade. A população, de algumas regiões menos favorecida economicamente, deve receber em casa água saudável e gratuita. Faz-se necessário evitar utilizar as águas subterrâneas, que já estão sendo contaminadas por produtos utilizados nos processos produtivos, principalmente onde a economia da região está voltada ao agronegócio exportador.
O Brasil hoje é um dos maiores produtores de grãos, carnes, produtos agroflorestais e alguns produtos industrializados. Esses produtos necessitam no seu processo produtivo de uma grande quantidade água, por isto a chamada “água virtual”, que embora não apareça no seu produto final, demandou um elevado volume de água. Vários processos produtivos, tais como: produção de móveis, refrigerantes e químicos, utiliza-se para manter o ciclo de vida dos maquinários, a água de melhor qualidade, enquanto é oferecido à população, o recurso hídrico de pouca qualidade. Utilizar de técnicas mais adequadas, com intuito de reduzir a utilização da água no processo produtivo, principalmente para a produção de alimentos, é uma meta importante a ser alcançada. As políticas públicas deverão priorizar o sócio-ambiental de forma intensiva e continuada em todos os setores governamentais.
De acordo com René Dumont, agrônomo e sociólogo francês (LUCCI, 2003), “enquanto os países desenvolvidos aumentaram sua produção, reduzindo as superfícies cultivadas, os países pobres aumentaram ainda mais suas superfícies de cultivo que seus rendimentos”. Ocupa-se um espaço que poderia ser destinado a preservação de florestas ampliando o sistema natural de evapotranspiração – processo de evaporação e transpiração do vegetal para formar nuvens e umidade no ar, e conseqüentemente manter o ciclo hidrológico. Aliado a demanda da água para produção, vem se observando a redução de precipitação, tendo como conseqüência o nível dos lençóis freáticos e aqüíferos rebaixados.
No Brasil, o avanço do agronegócio, em chapadas extensas e planas do Planalto Central, onde a vegetação de cerrado predomina e a precipitação é rara, se não fosse à utilização de técnicas desenvolvidas para captação de água em grandes profundidades, inviabilizaria a agricultura nessa região. Esta região, cujas bacias hidrográficas possuem caudal significativo, a utilização destas águas pela prática da irrigação, e principalmente com o uso de pivôs centrais que consomem elevado volume de água, rebaixa o lençol freático, fazendo secar os rios, lagos e pântanos. GONÇALVES (2004, in GEO 3, 2002), afirma que “20% dos solos irrigados no mundo estão hoje salinizados, assim, impraticáveis para a agricultura”. Em Madras, na Índia, a captação de águas subterrâneas levou um rebaixamento de tal ordem do lençol freático que as águas salgadas avançaram pelo subsolo cerca de dez quilômetros continente adentro, trazendo sérios problemas de abastecimento.
Segundo a ONU, países considerados emergentes como o Brasil, utilizam da agricultura como geradora de divisas, estimulando o desenvolvimento tecnológico. Segundo GONÇALVES (2004), os maiores contaminadores dos rios são as indústrias de alta tecnologia e a agricultura industrial; os sistemas de agricultura irrigada consomem entre 65% e 70% da água, principalmente para produzir alimentos destinados à exportação. Para atender a esta produção, “nos últimos cinqüenta anos, enquanto a produção aumentou três vezes, o uso de fertilizantes foi multiplicado por catorze vezes...” De 20 a 25% da água disponível são dedicados à produção de chips de silício de alta tecnologia, e somente 10% da água são dirigidos para o uso doméstico.
Na verdade, a escassez da água pode ser explicada pela necessidade de se obter alimentos durante o processo produtivo na agricultura e na indústria para atender a economia mundial e; não, exclusivamente, devido ao crescimento populacional, como sugeriu a teoria malthusiana. Portanto, há de se considerar, que a água circula não só nos rios, lagos, mares e ar, mas também em forma de mercadorias, entendendo, desta forma, que o desequilíbrio hidrológico é impulsionado pela lógica da economia de mercado.
Dessa forma, a escassez de água vem se agravando para manter o mercado agroexportador que comercializa a água de forma “virtual”, além de contaminar nossas bacias com agrotóxicos utilizados para o aumento da produção. Apesar de a agroindústria gerar divisas e superávit na balança comercial brasileira, desencadeou uma série de impactos ambientais negativos, tais como: a escassez de recursos hídricos em regiões de baixa pluviosidade; salinização do solo em regiões de vegetação de cerrado; desmatamento de áreas protegidas; empobrecimento do solo; contaminação dos solos e água por agrotóxico; assoreamento dos rios; alteração da temperatura local e criando microclimas capazes de interferirem no clima mundial e desencadear processos de desertificação.
A água é a principal riqueza, insubstituível em qualquer processo produtivo. O Brasil possui uma legislação moderna e rígida com relação aos recursos naturais, principalmente o hídrico. Entretanto, quando se analisa a relação custo benefício do agronegócio, verifica-se que esta não está agregando o valor real ao produto final, posto não considerar a utilização da água em suas etapas de produção. Uma nova postura deve ser adotada em relação à utilização dos recursos naturais, principalmente para a produção e comercialização de alimentos voltados à exportação, para que os países subdesenvolvidos possam continuar a exportar de forma sustentável.
Publicado originalemente em: Informativo do Instituto Ambiental Sol do Campo, agosto de 2008.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Ciências Florestais/Recuperação de Áreas Degradadas e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela UFV. É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É consultor do IBAMA e conselheiro do COPAM da Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

**Licenciada em Geografia, Especialista em Educação-concentração em Geografia e Gestão Ambiental. Técnica em Meio Ambiente/ Professora de Ensino Fundamental e Médio do Estado de Minas Gerais. Professora de Educação Ambiental e Geografia Econômica. Vice - presidente do Instituto Ambiental Sol do Campo. E-mail: fatima@soldocampo.com.

POLUIÇÃO URBANA: contribuição da educação ambiental



* Por Maurício Novaes Souza

Dia 14 de agosto foi escolhido o "Dia de Combate à Poluição". Sem dúvida, atualmente, há motivos suficientes para se ter uma data para esse fim. O aumento populacional, a crescente atividade industrial, a falta de saneamento, as queimadas e o aumento do número de veículos automotores nas regiões urbanas têm contribuído para o aumento da poluição. Conseqüentemente, a degradação da natureza, especialmente nas últimas décadas, tem sido enorme e começa a causar dificuldades no cotidiano do próprio homem.
O Brasil tem grande participação na degradação de seus recursos naturais e de seu meio ambiente: os ecossistemas aquáticos estão contaminados por agroquímicos; a população rural e urbana consome alimentos cada vez mais contaminados; o ar das grandes cidades é poluído e se desperdiça energia pelo uso de tecnologias inapropriadas; as florestas vêm sendo devastadas sem controle em nome de um projeto de desenvolvimento questionável, que afeta diretamente a sobrevivência de grande número de pessoas, animais e vegetais.
Nos dias atuais, percebe-se que o crescimento urbano e industrial, tão propalado, nem sempre significa desenvolvimento humano: particularmente nos países em industrialização, vem acompanhado de desigualdade de acesso aos itens básicos necessários a uma sobrevivência digna, tais como à educação, à alimentação e à saúde.
A possibilidade de ocorrer aumento de temperatura, falta de água potável em futuro próximo, problemas de saúde relacionados ao ar poluído nos centros urbanos, nos colocam em situações de riscos ambientais. Os principais tipos de poluição urbana são:

POLUIÇÃO SONORA
Com o crescimento desordenado das cidades, acostumaram-se com um dos maiores problemas da vida moderna: a poluição sonora. A maioria das pessoas desconhece seus riscos e poucos sabem que podem ficar surdos a partir do momento em que ouvirem algum som acima de 115 decibéis durante sete minutos seguidos. A poluição sonora é considerada uma das formas mais graves de agressão ao homem e ao meio ambiente.

POLUIÇÃO VISUAL
Entende-se como poluição visual a proliferação de “outdoors”, cartazes, formas diversas de propaganda e outros fatores que causem prejuízos estéticos à paisagem urbana local. Algumas razões para se controlar a publicidade de rua seriam o fato dos anúncios serem inconvenientes e, portanto contrários ao bem-estar das populações; invadirem os espaços públicos; banalizarem o ambiente, degradando o gosto popular, além de distraírem os condutores nas vias. Juntamente com a poluição sonora, a poluição visual causa graves males à saúde, agredindo a sensibilidade humana, influenciando a mente, afetando mais psicologicamente do que fisicamente.

POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA
Caracteriza-se pela presença de gases tóxicos e partículas sólidas no ar. As principais causas desse fenômeno são as eliminações de resíduos por indústrias e a queima de carvão e petróleo em usinas, automóveis e sistemas de aquecimento doméstico. Pode causar impactos ambientais, afetando a qualidade de vida dos homens, animais e vegetais.

POLUIÇÃO DA ÁGUA
Na verdade, rios, lagos e mares é o destino final dos esgotos. Com o crescimento da população e da atividade industrial, a qualidade dos ecossistemas aquáticos vem se deteriorando progressivamente. Entre os impactos ambientais da urbanização se destacam quatro que afetam diretamente a quantidade e a qualidade dos recursos hídricos: a) as derivações de água e a devolução via o esgotamento sanitário sem tratamento do efluente final; b) as impermeabilizações da superfície natural; c) a disposição inadequada do “lixo”; e d) os alargamentos e os desvios do leito dos rios, alterando o regime hidrológico e desprotegendo as vegetações ciliares das margens contra o risco de inundações.
Diante dessa realidade, é preciso maior fiscalização e rigidez nas aplicações das leis para minimizar ou até mesmo acabar com os excessos e abusos por parte daqueles que insiste em desrespeitar o meio ambiente. Também é preciso maior conscientização da população por intermédio de campanhas de Educação Ambiental e a inclusão desta como disciplina específica no ensino brasileiro, desde as primeiras séries.
O objetivo maior da Educação Ambiental é de expandir o entendimento das relações entre o ser humano e o meio em que vive e depende. Tal compreensão o levará a um conceito que desenvolva uma população consciente e comprometida quanto às problemáticas ambientais e mesmo sociais, buscando soluções que garantam a qualidade de vida das populações.
Há de se considerar, que para atingir o Desenvolvimento Sustentável, precisa-se compreender que a humanidade não é o centro da vida no planeta. É necessário incorporar ao planejamento urbano a visão ambiental, atentando-se para as inovações tecnológicas. Deve-se contar com a implantação de um programa ambiental dentro de toda a estrutura, incluindo o relacionamento com os órgãos ambientais responsáveis pelas respectivas áreas, com o Ministério Público e o envolvimento dos Comitês de Bacias. O processo deve ser contínuo e integrado entre três setores básicos: planejamento, gestão e organização.

Publicado originalmente em: Instituto Ambiental Sol do Campo, Ubá - MG. Setembro de 2008.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e da SEMAD - Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

POLUIÇÃO URBANA


* Por Maurício Novaes Souza

Dia 14 de agosto foi escolhido o "Dia de Combate à Poluição". Sem dúvida, atualmente, há motivos suficientes para se ter uma data para esse fim. O aumento populacional, a crescente atividade industrial, a falta de saneamento, as queimadas e o aumento do número de veículos automotores nas regiões urbanas têm contribuído para o aumento da poluição. Conseqüentemente, a degradação da natureza, especialmente nas últimas décadas, tem sido enorme e começa a causar dificuldades no cotidiano do próprio homem.
O Brasil tem grande participação na degradação de seus recursos naturais e de seu meio ambiente: os ecossistemas aquáticos estão contaminados por agroquímicos; a população rural e urbana consome alimentos cada vez mais contaminados; o ar das grandes cidades é poluído e se desperdiça energia pelo uso de tecnologias inapropriadas; as florestas vêm sendo devastadas sem controle em nome de um projeto de desenvolvimento questionável, que afeta diretamente a sobrevivência de grande número de pessoas, animais e vegetais.
Nos dias atuais, percebe-se que o crescimento urbano e industrial, tão propalado, nem sempre significa desenvolvimento humano: particularmente nos países em industrialização, vem acompanhado de desigualdade de acesso aos itens básicos necessários a uma sobrevivência digna, tais como à educação, à alimentação e à saúde.
A possibilidade de ocorrer aumento de temperatura, falta de água potável em futuro próximo, problemas de saúde relacionados ao ar poluído nos centros urbanos, nos colocam em situações de riscos ambientais. Os principais tipos de poluição urbana são:

POLUIÇÃO SONORA
Com o crescimento desordenado das cidades, acostumaram-se com um dos maiores problemas da vida moderna: a poluição sonora. A maioria das pessoas desconhece seus riscos e poucos sabem que podem ficar surdos a partir do momento em que ouvirem algum som acima de 115 decibéis durante sete minutos seguidos. A poluição sonora é considerada uma das formas mais graves de agressão ao homem e ao meio ambiente.

POLUIÇÃO VISUAL
Entende-se como poluição visual a proliferação de “outdoors”, cartazes, formas diversas de propaganda e outros fatores que causem prejuízos estéticos à paisagem urbana local. Algumas razões para se controlar a publicidade de rua seriam o fato dos anúncios serem inconvenientes e, portanto contrários ao bem-estar das populações; invadirem os espaços públicos; banalizarem o ambiente, degradando o gosto popular, além de distraírem os condutores nas vias. Juntamente com a poluição sonora, a poluição visual causa graves males à saúde, agredindo a sensibilidade humana, influenciando a mente, afetando mais psicologicamente do que fisicamente.

POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA
Caracteriza-se pela presença de gases tóxicos e partículas sólidas no ar. As principais causas desse fenômeno são as eliminações de resíduos por indústrias e a queima de carvão e petróleo em usinas, automóveis e sistemas de aquecimento doméstico. Pode causar impactos ambientais, afetando a qualidade de vida dos homens, animais e vegetais.

POLUIÇÃO DA ÁGUA
Na verdade, rios, lagos e mares é o destino final dos esgotos. Com o crescimento da população e da atividade industrial, a qualidade dos ecossistemas aquáticos vem se deteriorando progressivamente. Entre os impactos ambientais da urbanização se destacam quatro que afetam diretamente a quantidade e a qualidade dos recursos hídricos: a) as derivações de água e a devolução via o esgotamento sanitário sem tratamento do efluente final; b) as impermeabilizações da superfície natural; c) a disposição inadequada do “lixo”; e d) os alargamentos e os desvios do leito dos rios, alterando o regime hidrológico e desprotegendo as vegetações ciliares das margens contra o risco de inundações.
Diante dessa realidade, é preciso maior fiscalização e rigidez nas aplicações das leis para minimizar ou até mesmo acabar com os excessos e abusos por parte daqueles que insiste em desrespeitar o meio ambiente. Também é preciso maior conscientização da população por intermédio de campanhas de Educação Ambiental e a inclusão desta como disciplina específica no ensino brasileiro, desde as primeiras séries.
Para atingir o Desenvolvimento Sustentável, precisa-se compreender que a humanidade não é o centro da vida no planeta. É necessário incorporar ao planejamento urbano a visão ambiental, atentando-se para as inovações tecnológicas. Deve-se contar com a implantação de um programa ambiental dentro de toda a estrutura, incluindo o relacionamento com os órgãos ambientais responsáveis pelas respectivas áreas, com o Ministério Público e o envolvimento dos Comitês de Bacias. O processo deve ser contínuo e integrado entre três setores básicos: planejamento, gestão e organização.

Publicado originalmente em: Informativo do Instituto Ambiental Sol do Campo, Ubá, MG. Setembro de 2008.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas e Gestão Ambiental e Doutorando em Engenharia de Água e Solo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É conselheiro do COPAM e da SEMAD - Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Setor Florestal e Atividades Silviculturais


* Por Maurício Novaes Souza

O Brasil tem a maior floresta tropical do mundo, possui a maior diversidade vegetal do planeta e a abundância de terras cria condições ideais para plantações silvícolas. Entretanto, apesar dessa situação, não tem madeira suficiente para atender à sua demanda, correndo o risco de sofrer um “apagão florestal”, que poderá impor ao país a necessidade de importação madeira. Nesse contexto, impõe-se a ampliação da área de plantio e, ou, o aumento de produtividade das florestas plantadas, cabendo considerar, contudo, que há uma percepção difusa por parte da sociedade no sentido de que as áreas disponíveis para o plantio devem ser priorizadas para a agricultura, visando à produção de alimentos.
Na verdade, o rápido crescimento da população mundial levou à necessidade de grandes incrementos da produção agropecuária, além de outras atividades, os quais vêm sendo obtidos por meio da aplicação intensiva de novas tecnologias e pela conquista de novas fronteiras. Contudo, tem-se observado efeitos negativos, principalmente com a degradação de diversos ecossistemas. As causas das altas taxas de desmatamento no Brasil incluem forças e processos externos, tais como a expansão das plantações comerciais, fazendas-pecuárias, madeireiras, siderurgia e mineração.
Recentemente, os mais diversos mecanismos legais (modernização e adaptação da legislação) ou gerenciais (certificação florestal e gestão pública de florestas) estão revolucionando esse setor na tentativa de gerir o capital natural visando garantir a qualidade de vida das atuais e futuras gerações. Tratando-se de silvicultura, há de se considerar que ela está inserida no setor florestal, que é extremamente complexo, posto abranger: a) florestas; b) bens e serviços florestais; c) as indústrias de base florestal; d) as unidades de conservação de uso direto; e e) as áreas privadas de produção.
Assim como nos demais setores, de acordo com a Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas - ABRAF (2007), a expressão atual que se utiliza é "Manejo Florestal Sustentável", com toda a sua abrangência, complexidade e incertezas. Esse deve ser o foco principal de qualquer discussão ou diagnóstico sobre o tema que envolve o conhecimento, o planejamento, o uso e a conservação dos recursos florestais. Ou seja, há, de um lado, a idéia da produção de bens e serviços de forma perpétua, numa determinada área, com benefícios sociais e econômicos; de outro, o compromisso de uma relação harmoniosa com o meio ambiente, em termos de seus reflexos sobre o solo, a água, a flora e a fauna, principalmente.
O Brasil possui atualmente 5.743.936 de hectares reflorestados com plantações homogêneas, predominando espécies de Eucalyptus (52%) e Pinus (30%). A conversão do uso do solo destinado a outros fins para florestas plantadas, vem se apresentando como uma atrativa alternativa econômica em algumas regiões do país. Em Minas Gerais, áreas tradicionais de pastagens, sobretudo aquelas degradadas, estão sendo utilizadas para os plantios florestais e, em casos localizados, áreas tradicionais de café estão sendo substituídas pelo eucalipto.
Além do eucalipto e do pinus, podem ainda ser destacadas como espécies de importância econômica plantadas até o ano de 2006: acácia (Acacia spp.); seringueira (Hevea brasiliensis); teca (Tectona grandis); araucária (Araucaria angustifolia); populus (Populus spp.); e paricá (Schizolobium amazonicum Huber ex Ducke).
Os principais fatores ambientais que podem ser afetados pela exploração florestal, são: a) Aspectos hidrológicos; b) Exportação de nutrientes pela remoção de madeira; c) Solo; d) Matéria orgânica; e) Qualidade da água; f) Fauna; g) Flora; h) Recreação ou lazer; e i) Recursos paisagísticos. A reversão de processos que geram degradação, independentemente do grau, passa necessariamente pela adoção de um conjunto de técnicas que conferem inicialmente estabilidade ao habitat (solo), e proporcionam as pré-condições para a implantação das técnicas de revegetação.
Os efeitos dos povoamentos de eucalipto sobre o solo e a água têm gerado controvérsias e muitas críticas. Entretanto, de modo geral, o efeito desses plantios não difere significativamente daquele de outras espécies florestais ou de plantações agrícolas. É natural que haja uma mudança no regime hidrológico de uma determinada área quando há substituição de um tipo de vegetação por outro. Mas, ao se tentar atribuir à espécie plantada as mudanças no regime de água do solo nessas regiões, deve-se considerar também o histórico de utilização dos solos e a forma com que esses plantios foram estabelecidos.
Contudo, é sabido que as florestas nativas, quando exploradas sob um manejo racional, apresentam externalidades e geram impactos negativos inferiores com relação às florestas plantadas, o que lhes garante uma situação de sustentabilidade. Porém, em face ao aumento constante da demanda por produtos florestais, procedimentos racionais podem ser tomados para a diminuição de seus impactos ambientais. A gestão ambiental deve gerar mecanismos de regulação política capazes de induzir mudanças de percepção, atitudes e comportamento, condizentes com o entendimento das causas humanas da crise ambiental e com a experimentação de estilos de vida alternativos.
Fica evidente que para impedir e reverter processos de destruição que conduzem à degradação ambiental implica a necessidade de descobrir soluções econômicas e práticas agropecuárias e florestais que garantam aos produtores rurais, particularmente aqueles do modelo familiar, técnicas inovadoras que melhorem suas condição de vida, preservando os remanescentes de florestas nativas e recuperando aqueles degradados que os circundam. Há de se considerar que os plantios florestais podem significar uma adicional e importante fonte de renda ao pequeno produtor rural.
Publicado originalmente em: Informativo do Istituto Ambiental Sol do Campo. Ubá, MG - Outubro de 2008.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Ciências Florestais/Recuperação de Áreas Degradadas e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela UFV. É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É consultor do IBAMA e conselheiro do COPAM da Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

Exportação: processo de transposição da água virtual como meio de geração de divisas.


*Maurício Novaes Souza

**Maria de Fátima Vieira Aguiar

RESUMO
A falta de informação sobre o processo de produção que envolve a água virtual é o fundamento primordial onde se questiona o apelo à exportação, na qual o objetivo é a geração de divisas. O custo-benefício será refletido dentro da pesquisa, alertando ao leitor sobre o que realmente significa a escassez do recurso água. O processo no qual ocorre o ciclo hidrológico para manutenção da água deverá ser observado dentro de um contexto que envolverá a conscientização para a necessidade do reflorestamento, da conservação das nascentes e do conhecimento do processo de evapotranspiração das florestas. Constatamos que a sociedade de um modo geral, está sendo induzida a considerar-se responsável pela escassez da água, pelo mau uso e descarte de forma incorreta, o que não procede. O homem não se reconhece mais parte da natureza, nem como produtor e sim como uma máquina. Adota-se uma política ideológica onde a intenção é camuflar a verdadeira finalidade do mundo capitalista. Há falta de políticas públicas voltadas para o saneamento básico, e a distribuição dos recursos hídricos; e o manejo com técnicas adequadas oferecidas pelos órgãos competentes para o setor agrosilvopastoril em pequenas propriedades de forma sustentável. Também se irá refletir como o agronegócio está interferindo sobre os recursos hídricos; e de que forma o sistema econômico incentiva cada vez mais a exportação de alimentos dos países emergentes para os desenvolvidos, questionando suas deficiências em relação à água. Nota-se que a teoria malthusiana revela que o aumento da população influencia no processo de produção de alimentos, porém os dados estatísticos não confirmam a teoria. Verificar-se-á o caminho percorrido pelos recursos hídricos de forma visual ou virtual, e sua distribuição pelo território brasileiro e no mundo. Pretende-se levar à reflexão que as águas superficiais atendem com mais eficiência a maior parte da população, e que conservar e distribuir os recursos hídricos de forma consciente e responsável é uma prioridade. A população deveria receber em casa água saudável e gratuita. Faz-se necessário evitar utilizar as águas subterrâneas, que já estão sendo contaminadas por produtos utilizados nos processos produtivos.

Palavras chave: Água Virtual, agroindústria, agronegócio, escassez, ciclo hidrológico.


1. Introdução

A divulgação na mídia que a escassez de água potável se deve ao fato do aumento da produção de alimentos para abastecer a população mundial, não se justifica. Nem que a população menos favorecida é a responsável pela degradação do recurso hídrico. A inconsciência social é externalizada pelos cidadãos à medida que privados de seus direitos, apesar de constar na Constituição de 1988, em seu artigo quinto, são excluídos dos direitos materiais que deveriam ser partilhados. Este fato se deve em conseqüência de uma política oligárquica, onde lhes é apresentado meias-verdades. A canadense Maude Barlow, declarou que a cobrança da água não resolve o problema, mas a sua fiscalização quanto a contaminação, o que leva a sua escassez. Sua privatização seria contra os direitos naturais do “homem”.
A teoria malthusiana também não pode explicar este fato, à medida que a população aumentou três vezes, enquanto a produção de alimentos aumentou quatorze vezes. Pesquisas apontam que entre 1900 e 1997, o consumo de água cresceu 10 vezes. Em 1940 o consumo médio por pessoa, de 400 m3/ano passou em 1990 para 800 m3/ano, incluindo o setor produtivo. Estima-se que 12 mil km3 de água estejam poluídos em todo mundo e que esse número até 2050 chegará a 18mil km3. Se gasta para tratamento do recurso hídrico, e se perde em tratamento, tubulações. Pesquisadores da coordenação de pós-graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de janeiro revelam que no Brasil são perdidas 47%, ou seja, 6 bilhões de m3 de água tratada por ano. A Europa tem uma perda de 10% do recurso hídrico e em Cingapura 6% da água tratada.
Para tentar uma solução foi aprovada a Lei 9433, que instituiu a Política Nacional dos Recursos Hídricos que defini a água como “um recurso natural limitado, dotado de valor econômico...”. Portanto passível de cobrança, e que possibilita taxar de forma diferenciada a “água virtual”. Neste contexto vale lembrar que o ciclo hidrológico mantém o fluxo constante do recurso hídrico no planeta, mas para essa constância necessita-se de alguns cuidados, como a proteção do solo e preservação de áreas de nascentes e investimentos em saneamento básico.
Duas grandes tendências se discutem no mundo. Entre as esferas oficiais, atribuem-se o problema a má utilização e seu gerenciamento econômico. A outra, defendida por ONGs e acadêmicos, é a destruição da biodiversidade. Concluindo que as causas se complementam, portanto, o fato é que as políticas governamentais estão voltadas para o econômico, ficando claro que a responsabilidade maior serem das decisões governamentais.
O sistema econômico capitalista tem transformado os recursos naturais em mercadoria e países do mundo subdesenvolvido e em desenvolvimento atendem a essa lógica de mercado. A deficiência dos países desenvolvidos, principalmente do setor primário, a agricultura e a mineração, que demandam de uma enorme quantidade de recursos hídricos, dependem de países como o Brasil, que possui 12%, de toda água doce do planeta, e se utiliza do mercado exportador como gerador de divisas, estimulando o desenvolvimento tecnológico.
O agronegócio estimula a produção de alimentos, mas defronta com a questão ambiental ao transformar a água, um recurso vital, em mercadoria “virtual”. A água é um recurso insubstituível em todos os processos produtivos. Manter o volume e a potabilidade das águas superficiais é necessário para atender as populações de baixo poder aquisitivo e ao mesmo tempo proteger os aqüíferos que poderão ser contaminados, principalmente onde a economia da região está voltada ao agronegócio exportador.
Conforme VANKRUNKELSVEN (2006), a “Revolução Verde” levou os países desenvolvidos e algumas regiões de países em desenvolvimento a conseguirem produzir de 10 a 50 toneladas de grãos por trabalhador, dependendo da tração animal. Os que possuem apenas ferramentas primárias como é o caso da maioria, sem técnicas atualizadas como: seleção de semente, adubos químicos, etc.., produzem no máximo uma tonelada de grãos por trabalhador. Este mecanismo empobrece e leva a desnutrição os milhares de pequenos agricultores de lugares como o Sudão, Andes ou do Himalaia que dispõem de ferramentas primitivas. Eles produzem uma tonelada de grãos por ano, e descontando as sementes, o valor de US$ 20 ou US$ 30, por 100 quilos de grãos, isto a 50 anos atrás. Dados de 2001 revelam que esses valores chegaram a US$ 10 por 100 quilos de grãos nos países subdesenvolvidos.
Portanto utilizar de técnicas mais adequadas com intuito de reduzir a utilização da água no processo produtivo principalmente para a produção de alimentos é uma meta importante a ser alcançada. As políticas públicas deverão priorizar o sócio-ambiental de forma intensiva e continuada em todos os setores governamentais. Principalmente aquela produção voltada para a exportação. A nova postura em relação ao consumo de alimentos também deverá ser revista. Investir em uma educação que nos levem a novos hábitos alimentares, cujos processos requerem menos demanda de água e que nos trazem mais saúde. Isto demanda tempo, portanto a mudança de comportamento deve ser colocada em prática, com o auxilio de campanhas publicitárias, principalmente nos veículos de comunicações governamentais.

2. O que os olhos não vêm...

O Brasil é o detentor da maior quantidade de água doce do mundo, e mesmo assim estão incutindo na mente da população, divulgando constantemente na mídia, sobre a escassez deste recurso dentro do território brasileiro. A água é insubstituível, sua eficiência pode ser melhorada, devido sua importância para sobrevivência dos seres. Ela representa a vida, portanto podemos nos considerar parte do ciclo hidrológico a partir do nosso sistema de transpiração corpóreo. Tendo o ser humano 70% de água no corpo, este ciclo é constante, favorecendo uma função de equilíbrio do corpo, segundo (GONÇALVES, 2004).
É difícil identificar a origem da degradação, a medida que o homem sobre pressão, persuasão e violência das mais variadas formas, não se identifica como parte da natureza. A água é um recurso renovável graças ao ciclo hidrológico, ou seja, a lâmina hídrica evapora com o calor do sol, condensa e ao se chocar as massas de ar quente e com as massas de ar frio, sofrem um choque térmico e precipita em forma de chuva, granizo e neve. Apesar de encontrar uma porcentagem de água favorável para o Brasil em relação ao resto do mundo, 12% (ALMEIDA & ROGOLIN, 2002), de menos de 1% de toda água do planeta, a distribuição do recurso hídrico em nosso território não é regular.
Segundo CASTRO (2008), o maior rio do mundo, tanto em extensão territorial como em volume de água, é o Rio Amazonas - 6.992 quilômetros de extensão e 140 Km de largura. Segundo levantamento da ANA a Bacia Hidrográfica Amazônica, possui ao equivalente de 44% do território nacional, região norte do país, mas com uma densidade demográfica bastante reduzida. Somente 4,5% da população brasileira. Em outras regiões hídricas como a do Atlântico Nordeste Oriental concentram 12,7 da população em uma área de 3,4% do com a disponibilidade de apenas 0,5% de recursos hídricos.
De acordo com MARENGO (2001), existem regiões como o nordeste semi-árido, no Brasil; onde a precipitação acumulada não ultrapassa a 500 mm/ano, levando a inviabilidade da produção de forma constante. Na costa leste, até a estação chuvosa a acumulação anual é superior a 1.500 mm/ano. A parte norte da região recebe entre 1000 e 1.200 mm/ano. Na região sudeste e centro-oeste devido sua localização, apresentam precipitação média em torno de 1.500 e 2.000 mm/ano. No norte de Minas Gerais a escassez de chuva ocorre durante os meses de Junho, julho e agosto. A precipitação em grande parte do Brasil central é de apenas 30 mm no trimestre mais seco. No litoral norte do Estado de São Paulo a precipitação é da ordem de 3.500 a 4.000 mm/ano. Nas regiões onde o recurso hídrico se faz presente de forma abundante, ou mesmo daquelas onde se utiliza a técnica de irrigação, permite uma produção de monocultura voltada para exportação. O Brasil atualmente vem produzindo em grande escala.
A escassez tão disseminada deste recurso é questionada em nossa mente, devido ao fato do Brasil ser um grande exportador de recursos naturais. O Brasil hoje é um dos maiores produtores de grãos, carnes, agroflorestais e alguns produtos industrializados como móveis. Estes produtos necessitam no seu processo produtivo de uma grande quantidade água, por isto a chamada “água virtual”, que embora não apareça no seu produto final demandou um alto gasto do recuso hídrico. E apesar do Brasil conseguir um superávit na balança comercial, isto não resolve, por exemplo: o problema do polígono da seca no Brasil.
Vários processos produtivos como: produção de: móveis, refrigerantes, químicos, são utilizados, para manter o ciclo de vida dos maquinários, a água de melhor qualidade, enquanto é oferecida a população, água de pouca qualidade. Além deste fato, dificulta-se em determinadas regiões, o acesso da água aos menos favorecidos de nossa população. Portanto reconhece-se que a água está inserida em todos os produtos produzidos seja no processo de produção ou mesmo no produto final, como: o café e soja em grãos, na carne bovina, ou na avicultura.

3. A eficiência da embalagem

A água está sendo exportada do mundo subdesenvolvido para o desenvolvido, ficando este, somente por conta de agregar valor ao produto, colocando-o em uma embalagem, rótulo, e aparatos atrativos. Segundo KLLEIN (2004), é menos trabalhoso e exige menos gastos com: número de empresas, funcionários, impostos, treinamento técnico, especialistas e no próprio processo de produção. Os países com deficiência de recursos hídricos preferem adotar uma política de importação destes produtos que para serem produzidos demandam de uma enorme quantidade de água.
No artigo publicado em: O Estado de SP, 19/5/2006 por Washington Novaes, é citado um levantamento feito por Fred Pearce fundamentado em relatórios da ONU – Organização das Nações Unidas (2002) “...que um quilo de café precisa em toda etapa de produção, deste a matéria prima até o produto final, 20 mil litros de água; da mesma forma calcula-se para um hambúrguer, 11 mil litros de água; uma camiseta de algodão, 7 mil litros de água; um quilo de açúcar, 3 mil litros de água; um litro de leite, 2 mil; um quilo de trigo, mil litros.
Mais recentemente, em artigo publicado em 02 de julho de 2008, no http://www.consciencia.net/ecologia/vegetarianismo.htm, divulgou-se que pesquisadores da UNICAMP, de acordo com informações do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, sobre as exportações e volume de água virtual contida em cada produto, segundo estimativas da Organização das nações Unidas para a agricultura. E que a pesquisa tem como objetivo auxiliar o sistema produtivo em suas metas de diminuir a demanda de água em suas produções.
O Brasil em 2005, segundo pesquisas da ONU, encontrava-se em sétimo lugar do mundo na produção de soja 58%, carne bovina e açúcar, voltada para exportação. Também que a China importa do Brasil 16,1 bilhões de m3 de água em soja, carne bovina e açúcar. Este valor é comparado a quatro vezes o que se gasta diariamente com o saneamento básico da Metrópole do Estado de São Paulo. E esta demanda vem crescendo de 30 bilhões em 1997 para 73,8 bilhões de m3 de água em 2004. Segundo a agência Nacional das águas, 11% destinam-se a produção carne animal, mais do que se destina a população. Serão 193 milhões de cabeças contra 186 milhões de habitantes.
A utilização de áreas irrigadas no Brasil também cresce. Este procedimento técnico está sendo utilizado em torno de 70% de área produtiva. O acréscimo do consumo no país foi de 2,3 milhões de hectares para 3,1 milhões de hectares. Produzir um quilo de soja demanda uma quantidade muito inferior de água, dois mil litros, para quarenta e três mil litros de água na produção de um quilo de carne bovina, em todo seu processo produtivo. Uma pessoa que se alimenta com 250 gramas de arroz e a mesma quantidade de carne bovina, gasta em média 11 mil litros de água. Se a carne fosse de frango, gastaria mil litros de água.
Segundo Christofidis apud CASTRO (2008), até 2015 teremos que reduzir a área de pastagem, mas vem aumentando o número de habitantes na região Amazônica, onde as terras tem preços mais acessíveis e há abundância de recursos hídricos. É importante se pensar desde já na política de cobrança de forma diferenciada para as várias regiões brasileiras segundo suas características e disponibilidades dos recursos naturais, voltados para o agronegócio, principalmente o hídrico, seja águas subterrâneas ou superficiais.
Segundo o MDIC, o Brasil exportou 86,8 bilhões de m3 de água virtual em soja, carne e açúcar em 2005 que se fossem contabilizados, como está sendo no Vale do Paraíba, valorizando em R$ 0,02 por m3, cobrado no Paraíba do Sul, teriam sido arrecadados R$ 1,7 bilhões que poderiam ser destinados a recuperação das bacias do país. A cobrança da água deverá ser criteriosa, pois há dúvidas quanto ela ser um instrumento de gestão. O representante da Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária, Jairo dos Santos de Souza, quer discutir mais o assunto. Ele teme os riscos do agronegócio brasileiro no mercado mundial.
Pesquisas da ONU - Organização das Nações Unidas apontam para a estabilização do crescimento demográfico nos próximos 50 anos, em torno de nove bilhões de pessoas. Que em 2025 haverá mais de três bilhões de pessoas vivendo em regiões de escassez de recurso hídrico. E coloca sendo a América latina detentora de 25% de água superficial.
Conforme VANKRUNKELSVEN (2006), a agricultura da Holanda é cinco vezes mais intensiva do que a da França que possui uma área 15 vezes maior do que a Holanda, mas esta necessita de 5 a 12 vezes de sua área agrícola no exterior para importar ração animal. A Holanda possui uma elevada produção de leite, 10 mil litros por ano de cada vaca, alimentadas por doses concentradas de ração, e a base de soja. O milho nacional e a soja do exterior são indispensáveis a pecuária leiteira moderna. Mas esta receita norte-americana poderá ser substituída por gramíneas-trevo, pois a demanda dos recursos hídricos para este setor produtivo necessitada de mudanças. Os Chineses cultivam algas para suas carpas, mas também criam, pescam e consomem muito peixe, e, portanto um grande consumidor de soja para alimentar aves, suínos, patos e peixes.
E ainda, de acordo com René Dumont, agrônomo e sociólogo francês, in LUCCI, (2003); “enquanto os países desenvolvidos aumentaram sua produção, reduzindo as superfícies cultivadas, os países pobres aumentaram ainda mais suas superfícies de cultivo que seus rendimentos”. Ocupa-se um espaço que poderia ser destinado a preservação de florestas ampliando o sistema natural de evapotranspiração – processo de evaporação e transpiração do vegetal para formar nuvens e umidade no ar, e conseqüentemente manter o ciclo hidrológico Aliado a demanda da água para produção, vem se observando a diminuição de precipitação, portanto o nível dos lençóis freáticos e aqüíferos.

Os cerca de 8 milhões de quilômetros quadrados relativamente contínuos de floresta ombrófila, em grande parte fechada, no Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador,Guianas, Peru, Suriname e Venezuela, com suas 460 toneladas de biomassa por hectare em média, é, em 70%, água e, assim, se constitui num verdadeiro “oceano verde” de cuja evapotranspiração depende o clima, a vida e os povos de extensas áreas da América Central e do Sul, do Caribe e da América do Norte e do mundo inteiro (GONÇALVES, 2004).

No Brasil, o avanço do agronegócio, em chapadas extensas e planas do Planalto Central, onde a vegetação de cerrado predomina e a precipitação é rara, se não fosse a utilização de técnicas desenvolvidas para captação de água em grandes profundidades, inviabilizaria a agricultura na região. Esta região é rica em bacias hidrográficas, mas a utilização desta água pela técnica de pivôs centrais para aspergir água na monocultura, rebaixa o lençol freático, fazendo secar os rios, lagos e pântanos.
GONÇALVES (2004) afirma que: “20% dos solos irrigados no mundo estão hoje salinizados e, assim impraticáveis para a agricultura. Em Madras, na Índia, a captação de águas subterrâneas levou um rebaixamento de tal ordem do lençol freático que as águas salgadas avançaram pelo subsolo cerca de dez quilômetros continente adentro, trazendo sérios problemas de abastecimento. Segundo a ONU, países considerados emergentes como o Brasil, utilizam da agricultura como geradora de divisas, estimulando o desenvolvimento tecnológico. Segundo GONÇALVES (2004), quando se observa a questão da água sobre a ótica da agroindústria, defronta-se na questão ambiental. Será que compensa utilizar a “água virtual” para gerar riqueza, quando o recurso encontra-se escasso em nossa região, como dizem muitos especialistas?
Dados da UNESCO publicados por Paul van Hofwegen em dezembro de 2003, relatam que o mundo movimenta anualmente em torno de 1000 a 1.340 km³ distribuídas da seguinte forma: 67% comercializando produtos agrícolas; 23% na pecuária e 10% relacionados a produção industrial. O Brasil vem exportando cerca de 6 bilhões de litros de água mineral por ano, sexto lugar. Segundo o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), são autorizadas 600 fontes das quais 300 estão em funcionamento e existem mais de 3.500 pedidos de novas lavras. Este fato vem atraindo o mercado internacional. Empresas como a Nestlê e Coco-cola, com faturamento anual acima de US$ 4 bilhões, cada.
Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Confederação Suíça de Igrejas Evangélicas (SEK) e a Comissão Nacional Justiça e Paz da Suíça a divulgar, em 2005, a Declaração Ecumênica sobre a Água como Direito Humano e Bem Público enfatizando a água como "bem fundamental para a vida, que não pode nem deve ser privatizado".
4. A teoria de Malthus não explica a escassez da água

A precipitação e percolação das águas através do solo é que abastece e mantém o fluxo de uma nascente. A manutenção dos cursos d’água tanto superficial como subterrânea, necessita da proteção das nascentes de uma determinada bacia hidrográfica. As nascentes são pontos de fluxos de água que surgem na superfície do terreno formando filetes de água. Conforme VALENTE, (2007), o primeiro a sofrer as conseqüências com a diminuição do armazenamento de água nos lençóis freáticos, são os proprietários de áreas de maior altitude, onde se localizam as nascentes de cabeceira.

Bacias hidrográficas são áreas da superfície terrestre que contribuem para a formação de córregos, riachos, ribeirões e rios. São delimitadas pelos chamados divisores de água e podem ser representadas tanto por pequenas áreas, bacias hidrográficas de um pequeno córrego em uma propriedade agrícola, por exemplo, quanto por grandes áreas, bacias de grandes rios. (DIAS, 2001, p.8)

Segundo BARROS (2007), países como o Brasil lutam contra a poluição das águas. Contudo podemos afirmar que as maiores bacias hidrográficas do mundo, recebem rejeitos químicos e industriais. A mineração é constante, e garimpos derramam mercúrio no maior rio do mundo o Amazonas, em seus afluentes e subafluentes. E os maiores contaminadores dos rios são as indústrias de alta tecnologia e a agricultura industrial. Os sistemas de agricultura irrigada consomem entre 65 e 70% da água, principalmente para produzir alimentos para a exportação. E para atender a esta produção, “nos últimos cinqüenta anos, enquanto a produção aumentou três vezes, o uso de fertilizantes foi multiplicado por catorze vezes ...”. Segundo GONÇALVES (2004), de 20 a 25% da água disponível são dedicados a produção de “chips” de silício de alta tecnologia. Somente 10% da água são dirigidos para o uso doméstico.
De acordo com GONÇALVES (2004), a escassez da água pode ser explicada pela necessidade de se obter alimentos durante o processo produtivo na agricultura da indústria para atender a economia mundial e não, devido ao crescimento populacional como sugere a teoria malthusiana. Segundo ALMEIDA & RIGOLIN, (2002), para Thomas Malthus, a população mundial cresceria em um ritmo rápido, comparado por ele a uma progressão geométrica (1, 2, 4, 8, 16, 32...), e que a produção de alimentos cresceria em um ritmo mais lento, comparado com a progressão aritmética (1, 2, 3, 4, 5... ). Este raciocínio leva a concluir que no futuro a produção de alimentos não atenderia ao número de habitantes.
Estudos divulgados pela ONU apontam que na metade do século XXI a água no Oriente Médio seria suficiente apenas para atender o consumo doméstico. As demais atividades econômicas, como a agricultura e a indústria, dependeriam do reaproveitamento da água de esgoto ou da importação de água de outras regiões do mundo (LUCCI et al., 2003).

Em regiões da África do Norte e no Oriente Médio são as que registram o maior crescimento de importação de alimentos, devido a escassez de água. Na faixa de Gaza, Oriente Médio, cerca de um milhão de palestinos utilizam água dos raros poços potáveis ou rios poluídos por esgoto, além de se encontrarem em constante conflito para obter o recurso hídrico.

5. O caminho das águas

A água circula não só nos rios, lagos e mares, ar, mas em forma de mercadorias tocáveis, entendendo desta forma, o desequilíbrio hidrológico é impulsionado pela lógica da economia de mercado. Uma vez que, para se produzir um quilo de frango consome-se dois mil litros de água. O caminho percorrido para produção de um frango, desde sua criação, abate e transporte, o que fazemos até por avião quando é para exportação ultramarina, estamos exportando energia e água. Algumas regiões que produzem tal produto como é o caso em Santa Catarina, que já apresenta um estresse hídrico, deve-se ter em conta esta problemática. Se multiplicar os milhões de toneladas, os vários grãos produzidos no país, para se calcular a quantidade de água que se exporta, ter-se-á o resultado de quanto, em forma água virtual, está sendo transferida, em forma de alimentos, para outros países. Outro exemplo é a separação do minério de cobre numa jazida.
Constatado por GONÇALVES (2004), que 95% da matéria revolvida é abandonada como rejeito. Este processo de separar minérios raros exige água em enormes proporções, levando-nos a concluir que a nanotecnologia com sua desmaterialização e transmaterialização para ser aplicada exige que o recurso hídrico esteja em toda parte, revolucionando as relações sociais e de poder. O mesmo raciocínio tem-se para os produtos industrializados que estão transferindo para os países ricos desde os anos 70, (energia, minerais, solos, sol e água), em forma de matéria bruta, deixando nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento os rejeitos. Organismos multilaterais vem contribuindo para o processo, podendo ser citado: o FMI – Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, e a OMC – Organização Mundial do Comércio, que através de suas políticas ambíguas, incentivam o agronegócio.

6. Uma nova opção?

Com a escassez da água superficial, cada vez mais surge a necessidade de se saquear os aqüíferos, modificando a estrutura ecológica, causando impacto negativo nos ecossistemas. O aquecimento global, com o aumento da temperatura, está alterando o sistema hídrico que passa a precipitar uma maior quantidade de água potável nos oceanos. As lâminas superficiais estão ao alcance de todos os seres vivos, mas captação de águas subterrâneas, suprem somente aqueles cujo poder econômico lhes provêm, atendendo desta forma as produções de grande escala. A expansão da economia mercantilista, também vem utilizando até áreas impróprias como os manguezais que são considerados berçários naturais de vidas marinhas, áreas riquíssimas de vista das cadeias alimentares, e em áreas de florestas tropicais como a Amazônia.
Segundo PRADO JUNIOR (2000), após o ano de 1940, o aumento das exportações determinaram um reagrupamento da propriedade de tal forma ocasionando a concentração das terras voltadas para lavoura de cana-de-açúcar e pecuária. Portanto a escassez de água vem se agravando com o aumento de produção de alimentos, necessitando cada vez mais dos recursos hídricos para manter o mercado agroexportador que comercializa de forma “virtual”, além de contaminar nossas bacias, com os agrotóxicos utilizados para o aumento da produção.
Conforme VANKRUNKELSVEN (2006), no Brasil a Revolução Verde se traduziu desde 1964 em Revolução da Soja. Todos os subsídios foram destinados a esta produção, até o ano de 1979, e as grandes empresas ficaram a mercê de um sistema heterônomo, ou seja, não só de subsídios, mas também dos insumos. Existe o problema ambiental, onde há utilização de produtos químicos para a produção, e o social, que revela a partir de 1979, que os pequenos produtores foram levados ao êxodo rural. Pessoas venderam suas terras e partiram para as grandes capitais formando as favelas. Em meados da década de 90, os que permaneceram no campo investindo na agricultura familiar, receberam efetivamente em 2003, de 5,7 milhões destinados, somente R$ 4,5 bilhões de incentivos do governo, enquanto para os fazendeiros destinava-se R$ 20 bilhões. Em 2004-2005, enquanto eram previstos R$7 bilhões para agricultura familiar, destinava-se R$ 39,4 bilhões para a agricultura de exportação.
A agricultura familiar é responsável por 40% de toda a produção agrícola do Brasil e por 70% dos alimentos básicos de toda a população brasileira. Portanto dos 180 milhões de brasileiros passam fome. Adotar a dieta vegetariana seria uma opção visto que se consome 4000 litros de água virtual adotando a dieta onívora e para a vegetariana em torno de 1.500 litros de água. Segundo pesquisadores da UNICAMP, consumir produtos como: milho e batata, que necessita de menos água trás sustentabilidade ao setor alimentício. E ainda, uma área destinada a produção d 80 toneladas de batatas, 60, de cenouras, 100 de tomates, consegue produzir apenas ½ tonelada de carne bovina. Um acre para 4 mil m2. Segundo pesquisas da FAO, a previsão para a produção de carne é de dobraras 229 milhões de toneladas de 1999/2001 para 465 toneladas de carne e o leite de 580 milhões de toneladas para 1043 em 2050, caso não se adote outros costumes alimentares.

7. Abordagem Metodológica

O estudo sobre o tema “Água Virtual”, teve como base metodológica uma análise bibliografia em literaturas de autores renomados, já explorados, e outras consultas, que nos deram embasamento como: jornais, revistas, vídeos, programas televisivos sobre a questão ambiental, observação de plantações, internet. Foram realizadas pesquisas em obras clássicas citadas na referência bibliográfica, e técnica de observação. O processo de seleção de novas obras foi direcionado à leitura onde identificamos vários pensamentos e propostas mitigadoras das ações.
Durante todo segundo semestre de 2007 e o primeiro semestre de 2008, foi feito um estudo sobre as bibliografias abordadas, destacando as idéias centrais dos textos para uma análise mais aprofundada das características da “água virtual”. Utilizando-se do método descritivo, estabelecendo-se as relações entre fenômenos variáveis, e as características dos mesmos que, após as observações, identificamos os fatores que vieram contribuir para que os fatos ocorressem.
Pode-se relatar de forma ampla o pensamento e definição de conceitos sobre os quais o recurso natural água, é utilizado no processo produtivo, e que apesar de ser contabilizado no produto final, sua presença não está transparente para o consumidor. O modelo conceitual operativo explicativo foi o mais utilizado na pesquisa, pois trabalha a partir de bibliografias que são fontes já elaboradas: livros, artigos científicos, publicações periódicas, que tem como vantagem cobrir uma vasta área de conhecimentos que nunca alcançaria em outras técnicas.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

As políticas públicas têm influenciado no processo produtivo para a exportação, conduzindo a uma prática somente visando à lucratividade, sem a preocupação com o sócio-ambiental. Após a década de 1970 este mecanismo se tornou cada vez mais agressor no que diz respeito ao meio ambiente. A população de menor poder econômico, está sendo responsabilizada pela escassez e poluição dos recursos hídricos, mas a falta de políticas públicas na maioria das cidades brasileiras é que vem acarretando a gravidade do setor hídrico. Apesar da agroindústria, gerar divisas com transferência de tecnologia, favorecendo um superávit na balança comercial brasileira, desencadeou uma série de impactos negativos levando a um estresse no meio ambiente como: a - escassez de recursos hídricos em regiões de baixa pluviosidade; b - salinização do solo em regiões de vegetação de cerrado; c - desmatamento de áreas protegidas; d - empobrecimento do solo; e - contaminação dos solos e água por agrotóxico; f - assoreamento dos rios; g - alteração da temperatura criando micro clima local com interferência global; h – desertificação; i- empobrecimento da população; j- diminuição da qualidade de vida.
A água é a principal riqueza, insubstituível em qualquer processo produtivo, e o Brasil se coloca de forma favorável em relação aos recursos naturais, principalmente o hídrico. O custo benefício do agronegócio, não está agregando o valor real ao produto final, levando em consideração a utilização da água durante as etapas de produção. Os países desenvolvidos que possuem déficit de recursos hídricos importam principalmente, produtos do primeiro setor dos países subdesenvolvidos. Para que isto ocorra de uma forma sustentável, é preciso utilizar técnicas apropriadas evitando o estresse nos ecossistemas. Além de agregar mais valor ao produto exportado, parte deste recurso deveria ser investida no sócio-ambiental. Também de adotar novos costumes alimentares, mais saudáveis, que contribuirão para melhorar a saúde e a qualidade de vida.
Práticas mais adequadas no sistema produtivo podem ser utilizadas, mesmo para a agroindústria como: a - substituição dos pivôs centrais no processo de irrigação por gotejamento; b - Manejo consorciado com florestas e culturas diferenciadas mesmo sendo para exportação; c - utilização de áreas que se encontram sem vegetação arbórea; d - recuperação e proteção de nascentes de cabeceira; e - o reaproveitamento após tratamento do recurso hídrico no segundo setor; e- educação ambiental para o setor agropecuário; f- investimentos em projetos para áreas que utilizam processo de irrigação; g- adoção de cultivo que necessitam menos recursos hídricos; h- cobrança de taxa referente a utilização da água para o setor do agronegócio; i- investimentos no segmento socioambiental através do processo de compensação de passivos ambientais.
Uma nova postura deve ser adotada em relação à utilização dos recursos naturais, principalmente para a produção e comercialização de alimentos voltados a exportação. Para que os países subdesenvolvidos possam continuar a exportar de forma sustentável, deve-se observar a questão sócio-ambiental com muito critério e responsabilidade. Visando a sustentabilidade ambiental, investimentos no setor da agricultura familiar deverão ser priorizados e a cobrança da água deve ser debatida para levar a um resultado satisfatório em relação a manutenção da qualidade de vida e a preservação das espécies.

9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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VALENTE, O. F. Propriedades rurais e produção de água. Disponível em: http:/www.campovivo.com.br. Acesso em: 12 nov. 2007.

VANKRUNKELSVEN, L. Navios que se cruzam na calada da noite: soja sobre o oceano.
* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Ciências Florestais/Recuperação de Áreas Degradadas e Doutor em Engenharia de Água e Solo pela UFV. É professor do CEFET - Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. É consultor do IBAMA e conselheiro do COPAM da Zona da Mata, MG. E-mail: mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

**Licenciada em Geografia, Especialista em Educação-concentração em Geografia e Gestão Ambiental. Técnica em Meio Ambiente/ Professora de Ensino Básico do Estado de Minas Gerais. Professora de Educação Ambiental e Geografia Econômica. Vice - presidente do Instituto Ambiental Sol do Campo. E-mail: fatima@soldocampo.com.