A insistência no desenvolvimento insustentável ... existe alternativa?

* Por Mauricio Novaes Souza e Vilmar Berna

O Brasil, e o mundo, caminham para o crescimento deseconômico. É realmente uma alienação sem limites o que parte da humanidade vem fazendo com o meio ambiente ... Interferirá em sua própria sobrevivência. Alguns chamam tal condição de progresso, eu os qualifico de falso progresso ou simplesmente desenvolvimento insustentável. Muitos, menos informados ou com visão de curto prazo, teimam em chamar de crescimento econômico ou desenvolvimento sustentável. Para quem desconhece a expressão “crescimento deseconômico”, segue a definição do economista Herman Daly:

Crescimento deseconômico ocorre quando aumentos na produção se dão à custa do uso de recursos e sacrifícios do bem-estar que valem mais do que os bens produzidos. Isso decorre de um equilíbrio indesejável de grandezas denominadas utilidade e desutilidade. Utilidade é o nível de satisfação das necessidades e demandas da população; ou seja, o seu nível de seu bem-estar. Desutilidade se refere aos sacrifícios impostos pelo aumento de produção e consumo. Pode incluir o uso de força de trabalho, perda de lazer, esgotamento de recursos, exposição à poluição e concentração populacional.

Nos dias atuais, da forma como o capitalismo tem se mostrado, mesmo com todos os movimentos que estimulam a busca de um modelo responsável de produção e consumo, parece impossível construir um desenvolvimento sustentável sem uma educação para esse fim. De acordo com Claudemiro Godoy do Nascimento, Filósofo e Teólogo, Mestre em Educação pela Unicamp e Professor da Universidade Estadual de Goiás, esse desenvolvimento sustentável requer quatro condições básicas para se efetivar no cotidiano das pessoas: 1) que seja economicamente factível; 2) que seja economicamente apropriado; 3) que seja socialmente justo; 4) e que seja culturalmente equitativo, respeitoso e sem discriminação de gênero.

O desenvolvimento sustentável, mais do que um conceito científico, é uma idéia mobilizadora que surgiu pela primeira vez em 1987 (Relatório Brundtland) e que ganhou adeptos nesse início do Século XXI. As pessoas e a sociedade civil, em parceria com o Estado, precisam dar sua parcela de contribuição para criar cidades e campos saudáveis, sustentáveis, com qualidade de vida. Nesta perspectiva, conclui-se que não pode haver desenvolvimento sustentável sem uma sociedade sustentável, cujas características são (Nascimento, 2009):

· Promoção da vida para desenvolver o sentido da existência: Deve-se partir de uma visão sistêmica e holística que vê a terra como único organismo vivo, de onde tiramos nosso sustento;

· Equilíbrio dinâmico para desenvolver a sensibilidade social: Entender a necessidade do desenvolvimento, mas com a conservação e a preservação dos ecossistemas;

· Congruência harmônica que desenvolve a ternura e o estranhamento: Significa sentirem-se como mais um ser - embora privilegiado - do planeta, convivendo com outros seres animados e inanimados;

· Ética integral: Deve ser entendida como conjunto de valores - consciência ecológica - que dá sentido ao equilíbrio dinâmico e a congruência harmônica e capacidade de auto-realização;

· Racionalidade intuitiva: A racionalidade técnica que fundamenta o desenvolvimento desequilibrado da economia clássica precisa ser substituída pela racionalidade emancipadora, intuitiva, que conhece os limites da lógica e não ignora a afetividade, a vida, a subjetividade, dando fim às desigualdades sociais;

· Consciência planetária que desenvolve a solidariedade planetária: Reconhecermos que somos parte da Terra e que podemos viver com ela em harmonia.

De fato, nosso futuro comum depende de nossa capacidade de entender hoje a situação dramática na qual se encontra o “Planeta Terra” devido a deteriorização do meio ambiente... Isto requer a formação de uma nova consciência planetária. Contudo, o problema está na nossa condição cultural.... parar ou mudar o foco parece algo impensável... está marcado em nós, sujeitos em uma sociedade capitalista, que temos sempre que "crescer", a sociedade precisa "crescer", a economia precisa "crescer", "desenvolver" ...ilimitadamente. Sempre há "algo a mais" a ser descoberto, criado, realizado, apreendido e transformado – infelizmente em mercadorias e commodities. Porém, tudo isso tem um "custo" - desde a produção de alimentos, nada é "criação espontânea" - todos sabemos, a fonte de tudo, são os recursos naturais.

Infelizmente, diante da ganância e do egoísmo; da indiferença; da transferência, que nos faz achar que o mundo melhor que queremos e merecemos deve começar no outro; da reclamação sem ação, que passa a falsa idéia de se estar fazendo alguma coisa simplesmente pelo ato de se queixar; do medo, que nos faz recusar o novo mesmo quando o velho já demonstra não servir mais; da falta de competência e criatividade para percorrer novos caminhos; da falta de sonhos, que nos permite imaginar que as coisas podem mudar! Se o mundo fosse feito apenas de pessoas assim, então não haveria lugar para as soluções, por que essas pessoas são o problema ou fazem parte dele!

Felizmente, existem pessoas que não desistiram de sonhar e, por causa disso, são criativas, empreendedoras, persistentes diante das dificuldades! São pessoas que não se movem apenas por dinheiro ou diante da expectativa de ganhar alguma vantagem pessoal e por isso são solidárias e conseguem olhar a floresta além das árvores! Graças a elas, que fazem parte da solução, ainda podemos ter esperança!

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba. www.mauriciosnovaes.blogspot.com.


Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista, fundou a REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental (www.rebia.org.br ) e edita deste janeiro de 1996 a Revista do Meio Ambiente e o Portal do Meio Ambiente (www.portaldomeioambiente.org.br ).

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